VERDE-ROSA e AJUSTE DE CONTAS – mini contos de raimundo rolim

Verde-rosa

 

 

O dia amanhecera verde. Nuvens verdes, sol verde, montanha verde. Bichos e flores e rios. Tudo verde. A bem de se restabelecer a verdade, o verde era degrade, porém verde! Pássaros, frutos, crianças; verdes! O cheiro do ar era cheiro de cheiro-verde e a chuva que por incrível que pareça caíra farta no meio da tarde, era verde água verde. O ar cheirava a clorofila verdadeiramente verde. A borboleta de asas verdes pousou na flor de pólen verde e alçou vôo num vento verde. Uma vaca igualmente verde comia alfafa verde, que fora colhida ainda há pouco. O capataz verde carregava um balde verde e fumava um cigarro de palha verde, cuja fumaça verde se misturava às outras cores verdes, que condiziam plenamente com seus dentes e sorriso verdes. O bezerro mamava na teta verde da vaca-mãe, cujo leite verde alimentava o filhote. E o seu cocozinho de bezerro verde era igual a tudo que verde era. O telhado verde da casa grande e verde era de um verde musgo, em cujo cume os ninhos verdes das pombas esverdeadas estavam repletos de ovinhos verdinhos, à espera que alguns biquinhos também verdes, começassem de dentro pra fora a conhecer a vida que ali rolava verde. O carro verde do fazendeiro deu a partida e expeliu monóxido de verde carbono e o motor roncou um ronco verde de muitos cavalos de força de um verde forte e robusto. O homem deu uma marcha à ré esverdeada, e os pneus verdes deslizaram pelo barro de igual teor e cor, arrancando do chão a poeira verdíssima que cobriu a estrada verde que se confundia com o mato verde rente a cerca de madeira nova, de onde floresciam brotos tenros e verdinhos, cujas cabras verdes roíam num vai e vem silencioso de bocas verdes. O dia seguinte amanheceu absolutamente róseo. E alguém fazia um samba!

 

Ajuste de contas

 

O bandoleiro: Apeou-se. Ajeitou o chapéu. Consultou no coldre o colt quarenta e cinco. Cuspiu nas mãos. Esfregou-as pelo rosto para aguçar os sentidos, pois o barulho iria começar. O xerife: Sentado à soleira do seu escritório-prisão, com a lâmina do canivete, limpava as unhas da lama e pólvora frescas que se acumularam nas ranhuras, enquanto sua espora fazia um barulho danado no assoalho semi-estragado de madeira cheia de frestas pelas quais se podiam ver restos de antigos resíduos e cartuchos vazios de balas já utilizadas em muitos confrontos com assaltantes de banco e ladrões de cavalo que por lá eram tidos como parte da rotina. O ajudante do xerife: Uma estrela rude e frouxamente pregada ao colete, fumava um eterno e torto charuto que vivia apagado, enquanto revirava os olhos num silêncio reprovador; pois a mosca que o atormentava há dias era daquelas que quando achava um sossegadão não o largava enquanto não desvendasse toda a paciência que a suposta vítima teria. Do seu canto e à espreita, o bandoleiro consultava cada movimento que antecederia o grande confronto. Seria a sua experiência posta em prática de muitos e muitos anos de duelos espetaculares e ousadas fugas das prisões por roubo de gado (quando por mais de vinte vezes escapara de ser enforcado na árvore mais próxima). Com muito cuidado verificou quantas balas tinha ainda no cinturão. Olhou sem fazer alarde o tambor do velho Drug (como ele chamava a sua máquina mortífera de cuspir fogo) e contou quantos tiros poderia dar antes que o pegassem se é que o pegariam desta vez. Aquele xerife lhe devia o andar coxo e a cicatriz indelével na perna que nunca mais ficara boa depois do assalto desafortunado quando o trem não parou e ainda arrastou vários de seus amigos desta para a outra. Isto se deu do outro lado da fronteira. Sabia das qualidades do homem da lei. O quanto o mesmo era sagaz. Que sua fama ia muito além do território do penúltimo Moicano. Lembrou-se com certa raiva pelos muitos colegas de trabalho que perdera nos últimos dez anos de esforço e dureza. O rosto de cada um, seus nomes, suas gargalhadas gostosas, de quando se saíam bem das refregas que eles próprios armavam e buscavam com extrema freqüência. Como o Jeff, o rapazola que vivia a perseguir mocinhas desamparadas, além das órfãs e viúvas. Mas no fundo, um bom rapaz. Até tímido lhe parecia e de como o encontrara junto à cerca que cortava o riacho do rancho dos Greg. Milhares de formigas dentro de sua boca grande e descarnada. Fez uma cara brava por Tilt, seu outro amigo de pistolagens e que caíra varado de balas, – todas pelas costas -, quando fugiam de uma emboscada onde dois ou três escaparam com vida, dos doze que se propuseram a ir a semelhante empreitada. Enquanto rodava o tambor do velho Drug, lembrou-se de mais um dos amigos de infortúnio, o Frank. Este lhe confiara uma carta mal escrita, com três ou quatro linhas, para que fosse entregue àquela moça ruiva que trabalhava num saloon, pois a mesma lhe prometera que se ele saísse daquela vida alucinada lhe daria três filhotes: um menino e duas meninas; que alegraria o resto de seus dias e que morariam numa cabana nas montanhas que ele, Frank, prometeu de pés juntos, construir com as suas próprias mãos. A este último detalhe, seu sangue, que nunca repousava lá muito tranqüilo, ferveu pelo instante em que a memória guiou-lhe até outro rosto, o do Bastard, a quem devotava grande amizade, por já tê-lo tirado de grandes enrascadas, como no desastrado assalto à diligência, (que ao invés de dinheiro, levava pequeno e eficiente contingente de soldados que enfrentariam os Apaches em memorável e histórica refrega) e não fosse por este amigo, (que este mesmo xerife – agora sob sua mira – arrastara sem piedade pela cidade, amarrado na cela do próprio cavalo que em pleno galope, acertara-lhe coice certeiro na cabeça, causando-lhe morte humilhante…) Bem, então eram horas de acertar todas as velhas contas. Pensou finalmente em Derby, o homem mais rápido que já vira em toda a sua vida… e que também combalira furado qual peneira frente ao mesmo homem com o qual iria se confrontar agora. Encerrou todas essas memórias com decidido passo a frente, colt apontado, olhos fixos, pensamento e ações concentrados e… tombou morto, mortinho da silva o bandoleiro! É que o xerife já o percebera desde a última curva da estrada, quando um fio de poeira se levantou, pois só ele, o bandoleiro coxo, levantava aquele tipo de poeira em fios espirais em seu cavalo muito rápido e preparado, que também tinha um jogo diferente nas articulações e patas. Não seria ele, o xerife, que lhe daria a mínima chance, óbvio, já que também conhecia bem cavalo e bandoleiro. Era o jeito deles lá. O homem da lei levantou-se e fez o centésimo segundo risco na parede do seu escritório. Voltou a sentar-se calmo, a limpar as unhas da lama e pólvora frescas que se acumulavam cada vez mais nas ranhuras, enquanto com um rápido e silencioso olhar, ordenava ao seu ajudante, que se livrasse daquela mosca e daquele corpo estendido no chão do olho da rua.

 

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