Arquivos Diários: 9 junho, 2008

O VITRAL – por zuleika dos reis

“Depois da fissura permanecem as árvores, os rios, os animais, as nuvens brancas no azul sem rugas. Nada parece mais velho, justamente agora que o tempo existe. Também o mar se encapelava, havia relâmpagos azuis, as árvores se descarnavam, os animais fugiam dos grandes e vorazes quando o tempo, como os homens o aprenderam, ainda não existia. Nada parece mais velho”.

                   “Quando o paraíso deixou de existir, foi quase impossível notar seu eclipse porque o ser já estava semiconsciente de si desde os primórdios, ainda antes da grande ausência, já no pré-inaugurado mundo. No pensamento recém-vindo, entre as palavras-criança, grandes hiatos de silêncio onde a inocência ainda podia respirar, viver. Era tarde para o paraíso, cedo para a queda, quando o desejo do fruto surgiu e também a árvore do fruto. Mas, quando a  árvore do fruto e o fruto surgiram plenamente diante dos olhos, Adão e Eva já há muito haviam acordado para a insaciabilidade e a dor. O desejo de saber já era conhecimento, já era conhecimento e perda aquele primeiro olhar um para o outro antes, demasiado antes da presença da árvore do fruto, e do fruto. A fissura não foi o primeiro gesto gerador do tempo  nos homens. Quando da fissura, os muitos já se achavam espalhados por entre as diversas criaturas, e as diversas criaturas já eram servas. Quando da fissura, o corpo já há muito era um sobressalto, já haviam surgido as primeiras perguntas,  Narciso já perdera seu rosto nas águas, assim como os deuses primevos já haviam esquecido totalmente suas próprias origens e suas próprias hipóteses”.

                                                                                                     

 

                   As mãos tremem ligeiramente sobre o imemorial pergaminho ao mesmo tempo em que o vulto lá fora, iluminado pelo vitral, se dissolve na luz da manhã. Os olhos, no rosto talhado em pedra, musgo e neve, ainda presos ao texto, nada traem nem trairão do segredo, enquanto lá fora o apenas mundo permanece, em sua invisibilidade.

                    

BRINDE! poema de marilda confortin

Poesia é uma Flor Bela que Espanca,

golpeia, fere, maltrata.

Poesia quando ataca provoca cirrose,

divórcio, neurose, taquicardia, tuberculose…

Poesia mata!

Por isso, os grandes poetas estão mortos.

Por isso, os poetas vivos são assim tão… tortos.

Só loucos, vivem a poesia em sua essência.

Em sã consciência,

a hipocrisia desta vida é insalubre,

arde feito urtiga e é mais fria

do que a vodka que consumia Maiakowski.

Por isso eu ergo uma taça, e faço um brinde:

A todos os malditos poetas

seres visceradis pelo avesso,

não servis,

vis citados,

anônimos e abominados

que rabiscam e recitam seus manuscritos

pelos botecos,

sebos, 

saraus e feiras

livres prisioneiros da poesia.

 

Aos benditos que publicam e são lidos,

e aos ficam empoeirados,

empoleirados nas prateleiras,

criando teia,

esperando que um dia alguém os leia.

 

Aos que travestem a poesia com barro,

tinta,  efeitos virtuais,

acordes musicais

e cantam,  pela vida sem serem ouvidos.

 

Um brinde aos que partem cedo,

com medo de verem suas almas

sendo dissecadas por críticos estúpidos.

Poesia é de quem precisa dela, já dizia Neruda.

 

Se você não precisa,

não leia,

não ouça,

não toque!

Ela é como um feto:

precisa de calor e útero

e não de um fórcipe obstetra.

 

E mais um brinde

A todos aqueles que atuam à luz do dia,

nesse imenso palco,

de paletó, gravata, saia justa, salto alto,

e esperam impacientes a aposentadoria

para enfim, declarar seu amor pela poesia.

 

A todos aqueles que,

entraram na fila errada,

e estão neste mundo por engano

só para diversão dos deuses.

Não escrevem, não cantam,

não esculpem nem declamam.

Mas sentem, amam e acolhem

anonimamente a poesia em seus ventres.

Um brinde a todos os recipientes!

 

DITOS POPULARES pesquisa de edu hoffmann

Ditos

 

Tenho anotado alguns ditos, ou máximas, ou apenas sacadas engraçadas. Algumas regionais, outras, já disseminadas pelo território nacional, sem saber de onde surgiu.

Outras são apenas chistes, ou pequenos causos.

 O que anotei até o momento, estou repassando. Caso tenhas alguns que ache que valha a pena me enviar, agradeço.

 

 

Não confunda Pires de Oliveira com pratinho de azeitona.

 

Fulano é pior que macumba: macumba a gente ainda despacha.

 

Oquelatá, que lateje (Grupo fato)

 

Era uma bicha tão vaidosa, que passava rímel até no 3º olho.

 

Pensa que é bonito ser feio ?

 

Mais feio que encoxar a mãe no tanque.

 

Pega mais que bosta em tamanco.

 

Pega mais que praga de piolho em jardim de infância.

 

Se os olhos da Elizabeth Ardem, meu bem, o que a Helena Rubinstein com isso ?

(As frenéticas)

 

Não confunda um pouquinho de macarrão com um porrão de macaquinho.

 

O sonho de toda onça é ter um casaco de pele de puta.

 

Mulheres são como moeda: ou são caras, ou são coroas.

 

Nem toda feiticeira é corcunda, nem toda brasileira é só bunda .  (Rita Lee)

 

O homem depende da mulher pra tudo, até pra ser corno.

 

O chifre não existe. É uma coisa que botaram na sua cabeça.

 

Às vezes, por uma lingüiça, a mulher tem que ficar com o porco inteiro.

 

Não confunda a obra- prima do mestre Picasso com a pica de aço do mestre de obras

 

Tem sempre um ordinário atrás de uma Cardinale.

 

Para as mulheres:    Príncipe Encantado que nada, o bom é o Lobo Mau: Ele te ouve, te cheira, te vê, e ainda te come !

 

O chifre é do boi. O homem usa de inxerido.

 

Cientistas descobriram que as mulheres gordinhas, têm mais prazer na cama que as magrinhas. É que as gordinhas tem o ponto GG.

 

Deus inventou o namoro. O diabo o casamento.

 

Faz 20 anos que amo a mesma mulher. Se minha esposa descobrir, ela   me mata.!

 

Anúncio de Funerária:         Se sua sogra é uma jóia, nós temos a caixinha !

 

Quem acha tudo gozado é faxineira de motel.

 

A pretinha mais feliz do mundo é a jabuticaba, que nasce agarrada no pau e morre sendo chupada.

 

Mais curto que coice de porco.

 

Estou mais quebrado que arroz de terceira.

 

Mais atrasado que risada de surdo.

 

Homem é igual a caixa de isopor, é só encher de cerveja que você leva pra qualquer lugar.

 

Passado de mulher é igual a cozinha de restaurante: melhor não conhecer senão você não come.

 

Chifre é igual à consórcio: quando você menos espera é contemplado.

 

Boi lerdo bebe água suja.

 

Eu bebo pra ficar ruim mesmo, porque se fosse pra ficar bom eu tomava remédio.

 

Fulano é mais chato que samba-enrêdo.

 

Eu bebo pouco, mas o pouco que bebo me transforma em outra pessoa, e essa outra pessoa sim, bebe pra cacête !

 

Lenha verde é igual à viúva nova; enquanto está chorando numa ponta, está queimando na outra

 

Malandro é o pato, que já nasce com os dedos colados só pra não usar aliança.

 

Fumo maconha mas não trago. Quem traz é um amigo meu.

 

Preguiçoso é o dono da sauna, que vive do suor dos outros.

 

Na cama sou um animal: um bicho preguiça.

 

Faço sexo quase todo dia: quase segunda, quase terça, quase quarta…

O Brasil é um país geométrico: têm problemas angulares, discutidos em mesas redondas por um monte de bestas quadradas.

 

As três melhores coisas da vida: mulher, dinheiro e o bicho de pé.

 

As três maiores mentiras da humanidade: dinheiro não traz felicidade, o trabalho enobrece e “só vou botar a cabecinha, viu bem”.                     

O GUARDANAPO – prosa poética de deborah o’lins de barros

Em uma época bem antes de existir

a palavra reciclagem,

alguém guardou um guardanapo

manchado

dentro dum livro de poesia.

Muito tempo passou,

e o guardanapo foi encontrado

dentro do livro, agora raro,

achado num sebo.

 

O guardanapo, feliz,

foi logo se apresentando,

usando palavras que aprendeu no livro:

“Gentil senhor, finalmente me descobriste!

Pois estava eu cá, perdido

dentro deste belíssimo exemplar

de poesia romântica.

Se me abrires, verás nódoas de sangue.

Pertenceram a um poeta brilhante

que me guardou aqui dentro.”

 

E continuou:

“Vejo que algum tempo se passou,

pois a minha volta encontro

objetos e utensílios nunca vistos antes.

Sou de uma época

onde as pessoas tossiam sangue

em meus semelhantes.

E o poeta moribundo que deixou sua marca em mim,

provavelmente faleceu daquele mal do século.

Sou mais raro que este livro!”

 

O homem achou que estava enlouquecendo,

mas continuou folheando o livro

e acabou por comprá-lo.

Chegando em casa

olhou o exemplar novamente

e ficou analisando os detalhes

daquele guardanapo de pano.

“Olá, amigo! Se abrires no próximo capítulo

lerás um dos poemas

de que meu antigo possuidor mais admirava…”

 

O homem achou o guardanapo velho

bastante interessante,

porém, sua arrogância

o tornou muito irritante.

E já de saco cheio

da história do poeta tuberculoso, pensou:

“Sou um homem moderno!

Não ouço vozes!

Não vou dar ouvidos à história

ridícula e romântica de um guardanapo

com uma mancha de sangue.”

 

O homem, então, decidiu:

colocou o guardanapo num envelope

e endereçou ao CSI Miami.

 

PÓS-MODERNIDADE – poema de joão batista do lago

Sentado sobre a pirâmide do Universo

Desmonta-se o verbo da carne

Falece a palavra do verso (e)

Sobre o ser cresce

O que logo adiante falece

 

Nenhuma felicidade se oferece

Na imensa solidão do mercado

As gentes condenadas

São gentes marcadas

Na introspecção de nadas

 

Ah! A Poesia da felicidade

Fede na latrina da feliz cidade

Algoz de gentes marcadas:

O preço de cada indivíduo

Venera na gôndola a miséria