Arquivos Diários: 12 junho, 2008

BRIGITTE BARDOT multada por tribunal francês por incitação ao ódio

Um tribunal francês multou a atriz Brigitte Bardot em US$ 24 mil (R$ 38,9 mil) por incitação ao ódio contra a comunidade muçulmana da França.

A pena se refere a uma carta que Bardot escreveu em 2006 ao então ministro do Interior francês Nicolas Sarkozy, e posteriormente publicou em seu website.

Na carta, a atriz, que se tornou ativista pelos direitos dos animais, criticava os muçulmanos por “atordoarem” os bichos antes de sacrificá-los para as festividades do Eid ul-Adha.

“Estamos cansados de ser manipulados por toda esta população que nos destrói e destrói nosso país ao impor seus costumes”, disse a atriz na carta.

Direito de protestar

Bardot, que está com 73 anos e sofre de artrite, não esteve no tribunal para ouvir a sentença. Ela escreveu ao juiz dizendo que tinha “o direto de protestar pelo bem-estar dos animais”.

“Eu não vou me calar enquanto não conseguir banir o atordoamento dos animais”, disse a atriz em uma carta enviada ao tribunal.

Esta é quinta vez que a Brigitte Bardot, símbolo sexual nos anos 60, é punida por suas declarações contra a comunidade muçulmana na França.

Em 2004, Bardot foi multada em 5 mil euros por incitações racistas em seu livro Un Cri Dans le Silence (“Um Grito no Silêncio”, em tradução literal).

A França abriga a maior população muçulmana da Europa, com 5 milhões de habitantes.

 

BBC

COMO APRENDER A LER SONETOS por vicente martins

A leitura é uma habilidade complexa: o leitor tem diante de si um texto a ser decifrado, através da decodificação, através da soletração e da fluência verbal,  e em seguida, terá que atribuir sentido ao que é decantado ou lido. Esse conceito vale tanto para o texto em prosa como em verso. Mas como ler um poema ou um soneto clássico? No presente, artigo trataremos de mostrar as principais características da leitura literária e quais as estratégias para o aprendizado da leitura em versos.

Partirei, então e desde logo, do conceito de poesia. No campo da Literatura, poesia é a composição em versos (livres e/ou providos de rima) cujo conteúdo apresenta uma visão emocional e/ou conceitual na abordagem de idéias, estados de alma, sentimentos, impressões subjetivas, quase sempre expressos por associações imagéticas  

Por poesia também podemos entender também a  arte de excitar a alma com uma visão do mundo, por meio das melhores palavras em sua melhor ordem. Daí, entendê-la também todo texto com alto grau de poder criativo e inspiração e que desperta, no leitor ou ouvinte, o sentimento do belo.

A etimologia da palavra poesia é muito sugestiva para se compreender o seu verdadeiro sentido aos olhos do leitor de versos. A palavra poesia vem do latim  poésis,is ‘poesia, obra poética, obra em verso’,  derivado, por sua vez, do  grego  poíésis,eós ‘criação; fabricação, confecção; obra poética, poema, poesia’. A palavra chegou à língua portuguesa, por intermédio da palavra em  italiano  poesia entendida como “arte e técnica de exprimir em verso uma determinada visão de mundo”

Leiamos, então, um bela poesia de Vinicius de Moraes, :

Enjambement

Soneto de fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento


Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto


Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

 

Trata-se um soneto. Esta palavra aparece na Língua Portuguesa lá pela segunda metade do século XVI. Refere-se a uma  pequena composição poética composta de 14 versos, com número variável de sílabas, sendo o mais freqüente o decassílabo, e cujo último verso (dito chave de ouro) concentra em si a idéia principal do poema ou deve encerrá-lo de maneira a encantar ou surpreender o leitor. No caso do soneto de Vinicus, a chave de ouro é a definição de amor “ uma paixão imortal, posto que é chama, mas infinto enquanto dura”.

A palavra soneto entra no léxico português através do italiano  sonetto, no século XIII, entendida como “composição lírica formada de quatorze hendecassílabos, rimados variadamente, cujos oito primeiros formam duas quadras, e os outros formam dois tercetos’” No caso acima, trata-se de um soneto clássico ou italiano, porque é um soneto formado por dois quartetos e dois tercetos.

Para a leitura deste soneto de Vinicius de Moraes é necessário o leitor levar em conta o ritmo. Um dos traços do soneto é a musicalidade e o ritmo pertence ao mundo da música. A própria palavra ritmo, de origem latina  rhythmus,i  quer dizer “ movimento regular, cadência, ritmo”. Assim, deverá o leitor tomar por ritmo a cadência, o que acaba por caracterizar o soneto como um poema com padrão rítmico especial..  

         Vale lembrar aqui que todo soneto é um poema, mas nem todo poema é um soneto. Por poema, devemos entender, no campo da Literatura, obra de poesia em verso ou  uma composição poética em que há enredo e ação. A  epopéia é um exemplo de um poema. Há situações que o poema , no entanto, tem forma romanesca ou em prosa. É o que denominamos poema em prosa, em que a obra não é verso, mas é análoga a um poema pela inspiração, pelos temas e pelo estilo,  mas, diferente do poema, com estrutura menos formal.

Para o leitor, é importante que entenda que cada linha do poema é chamada verso. Assim, por verso, deve ser entendida a subdivisão de um poema, geralmente,  coincidindo com uma linha do mesmo, que obedece a padrões de métrica (pés) e de rima (variáveis no tempo e no espaço), ou prescinde deles (versos brancos e livres), caracterizando-se por possuir certa linha melódica ou efeitos sonoros, além de apresentar unidade de sentido

Esta noção de verso é fundamental para a leitura do soneto em voz alta. A essência da leitura do soneto  é que o leitor leia os versos com movimento compassado ou cadenciado como se fosse um passo de dança ou uma dança. Este “passo de dança” é garantido, durante a leitura, pelo enjambement, uma palavra de origem francesa.

Por enjambement, entendemos a partição de uma frase no final de um verso ou uma estrofe, sem respeitar as fronteiras dos sintagmas, colocando um termo do sintagma no verso anterior e o restante no verso seguinte. É o enjambement  que cria um efeito de coesão entre os versos, pois aquele onde começa o enjambement não pode ser lido com a habitual pausa descendente no final, e sim com entonação ascendente, que indica continuação da frase, e com uma pausa mais curta ou sem pausa.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

SÚPLICA poema de noémia de souza/moçambique


Tirem-nos tudo, 
Mas deixem-nos a música!Tirem-nos a terra em que nascemos,
Onde crescemos
E onde descobrimos pela primeira vez 
que o mundo é assim:
um tabuleiro de xadrez…

tirem-nos a luz do sol que os aquece,
a lua lírica do shingombela
nas noites mulatas 
da selva moçambicana
(essa lua que nos semeou no coração
a poesia que encontramos na vida)
tirem-nos a palhota – humilde cubata
onde vivemos e amamos,
tirem-nos a machamba que nos dá o pão,
tirem-nos o calor do lume
(que nos é quase tudo)
– mas não nos tirem a música!

Podem desterrar-nos,
Levar-nos
Para longes terras,
Vender-nos como mercadoria,
Acorrentar-nos
À terra, do sol à lua e da lua ao sol,
– mas seremos sempre livres
se nos deixarem a música!

Que onde estiver nossa canção,
Mesmo escravos, senhores seremos;
E mesmo mortos viveremos.
E no nosso lamento escravo
Estará a terra onde nascemos,
A luz do nosso sol,
A lua dos shingombelas,
O calor do lume,
A palhota onde vivemos,
A machamba que os dá o pão!

E tudo será novamente nosso,
Ainda que de cadeia nos pés
E azorrague no dorso…
E o nosso queixume
Será uma libertação
Derramada em nosso canto!

– por isso pedimos,
de joelhos pedimos:
tirem-nos tudo…
mas não nos tirem a vida,
não nos levem a musica!

L. Marques, 4/1/1949

Inédito

 

 

A FormaÇÃo HistÓrica da LÍngua Portuguesa – PerÍodo Galego-PortuguÊs – por francisco da silveira bueno

 

Angola
Brasil

Cabo Verde
Dadra / Damão / Diu / Goa / Nagar Haveli (Índia)
Guiné-Bissau
Macau (China)
Moçambique
Portugal
São Tomé e Príncipe
Timor Leste

 

A língua portuguesa é, com mais de 250 milhões de falantes nativos, a sexta língua materna mais falada no mundo e a terceira língua mais falada no mundo ocidental, sendo a língua oficial de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

É falada na antiga Índia Portuguesa: Goa, Damão, Diu e Dadra e Nagar Haveli; assim como em Macau na China

Também é oficial na Galiza, noroeste da Espanha, com a denominação histórica de galego-português e, agora, de galego. Neste caso, entretanto, o assunto é polêmico: os galegos nåo admitem a redução de sua língua ao português. E ao espanhol, língua da qual retiram suas regras ortográficas.

A língua portuguesa é também falada em comunidades de Paris (França), em cidades como Toronto, Hamilton, Montreal e Galineau (Canadá), em comunidades de Boston, New Jersey e Miami nos EUA, e em cidades como Nagoya e Hamamatsu no Japão.

 

A FormaÇÃo HistÓrica da LÍngua Portuguesa – PerÍodo Galego-PortuguÊs

O Condado Portucalense, embora tivesse o seu monarca próprio, Henrique de Borbota, continuava a fazer parte da Galiza. Em dois anos apenas, de 1095 a 1097, dilatara o Conde seus domínios para o sul, dando mostras de tornar-se independentes da suserania do primo Raimundo, fato que se consumou com a derrota deste, nas proximidades de Lisboa, infilgida pelo general almorávide Seyr. O Condado de Portucale passou então a fazer parte do reino de Leão. Falecido Dom Henrique, em Astorga, no ano 1114, governou o Condado a sua viúva Dona Teresa, com solércia política e firmeza guerreira, aumentando ainda mais os limites do futuro reino de Portugal. Passada a minoridade de Afonso Henriques, depois de várias dificuldades, viu-se este praticamente elevado à posição de monarca, embora combatido pelos partidários de Dona Teresa que tinham outros objetivos políticos. Vencidos estes na batalha do Campo de S. Mamede, em 1128, a unidade do Condado pareceu consolidar-se mormemente depois do exílio e morte de Dona Teresa, em 1130. Depois da batalha de Ouriques, 25 de julho de 1139, em que Afonso Henriques venceu maometanos e cristãos aliados contra ele, passou a usar o título de Rei de Portugal. Tal título, porém, somente em 1179 foi solenemente reconhecido pelo Papa Alexandre III. Estava definitivamente fundado o novo Estado e tomava fisionomia internacional o novo povo: Portugal, os portugueses.
 
Se assim se constituía o novo reino, a nova nacionalidade, continuava, porém, a unidade lingüística a ser a mesma com Galiza. É o grande traço de união entre as duas partes. O Minho, separando os territórios, começa a separar também a primeira unidade, criando o binômio galego-português que será, até o século XV, uma das expressões mais apreciadas do lirismo medieval. Entramos no período histórico da língua, no período por excelência arcaico. A produção lírica é a mais numerosa e a mais perfeita, moldada aos gêneros, temas e formas, que vêm da Provença. Aquelas incipientes imitações de quando romeiros provençais exibiam, em Compostela, os primores da sua arte poética, começam a aparecer com fisionomia própria desde o reinado de Sancho I, o segundo rei português.
 
Carolina Michelis de Vasconcelos faz iniciar as atividades trovadorescas no reinado de Sancho I: “Os cimélios da lírica, hoje subsistentes, são de perto de 1200: datei a mais arcaica de 1189; outra de 1199; mais outra de 1211. Foi,  portanto, no último quartel do século XII que a arte trovadoresca começou a dar os primeiros frutos de sementes lançadas em 1158, ou mesmo de 1135 em diante. Isto é, quando em Portugal reinava Sancho I; em Castela, Afonso VIII; em Leão, Fernando II” (Cancioneiro d’Ajuda -II – 755).

Esta cantiga datada por D. Carolina, de 1189, pertence a Pay Soares, poeta régio da corte de Sancho I. Encontra-se no Cancioneiro d’Ajuda, vol. I, nº 37, 38 :

           
37
“Eu sôo tan muit’amador
do meu linhagen, que non sei
al do mundo querer melhor
d’ũa mia parenta que ei.
E quen as linhagem quer bem,
tenh’eu que faz dereit’e sem;
t eu sempr’ o amarei.

E sempre serviç’e amor
eu a meu linhagen farei,
entanto com’eu vivo for’;  
esta parenta servirei,
que quero melhor d’outra ren,
e muito serviç’ em mi tem,
se eu poder’e poderei.

Pero nunca vistes molher
nunca chus pouc’(o) algo fazer 
a seu linhagen, ca non quer
em meu preito mentes meter:
e poderia me prestar
par Deus, muit’, e non lhe custar
a ela ren de seu aver

E veede, se mi-á mester
d’atal parenta bem querer:
que m’ei a queixar, se quiser’
lhe pedir algo, u a veer’.
Pero se me quisesse dar
algo, faria-me preçar
atal parenta e valer.
    
38
No mundo non me seu parelha
mentre me for’ como me vay,ca já moiré por vos-e ay,
mia senhor branca e vermelha,
quererdes que vos retraya
 
quando vus eu vi em saya !
mao dia me levantei,
Que vus enton non vi fea !

 

 

 

E, mia senhor, dês aquel di’ay !
me foi a mi muyn mal,
e vos, filha de don Paay
Moniz, a ben vus semelha
d’aver eu por vos guarvaya
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de vos ouve nen ey
valia d’ũa correa..

Como limite extremo desta lírica trovadoresca assinala a mesma erudita senhora o ano de 1334 ou 1340, metade do século XIV: “Fixando mais acertadamente para os nossos fins, como limites extremos os anos em que suponho compostas as mais temporãs e as mais seródias das cantigas que realmente possuímos, a época trovadoresca não chega a abranger centúria e meia: de perto de 1200 (talvez mesmo 1189) e 1334 (ou 1340). Cinco a seis gerações. Em Portugal desde Sancho I até a adolescência de Pedro, o Justiceiro. Em Leão, e Castela, de Alfonso IX de Leão até a morte de Alfonso XI, ou igualmente até a adolescência de Pedro, o Cru ( Opus citatum – 5863).

 

MULHERZINHA por may waddington

Ser mulherzinha é assim… 

querer ser doce, se entregar com amor, sem ter medo de deixar sair o sentimento junto com o afago…

 mistura de gueixa com escravinha, ser mulherzinha é receber seu carinho como uma benção, um gesto sagrado que me acolhe como quem colhe a água da fonte mais limpa e clara…

 ser mulherzinha é se abrir inteira, virando flor e querendo você adaga…

 é querer te ver sorrindo, lambuzado de doce,  é fazer o prato tão saboroso que te faz suspirar de saudades da terra em que nasceste
ao mesmo tempo em que desejas viajar comigo para bem longe…

 é virar a filha a quem você ensina todas as belezas da natureza como se fosse o filho homem que você não teve…

 ser mulherzinha não é ser dona, mas é ser sua. Pode ser o seu segredo ou uma lembrança escura e íntima.

 Mas este negócio de ser mulherzinha, só dá pra agüentar um pouquinho. Depois de um tempo a gente quer passar um dia inteiro sozinha, sentindo o vento batendo na cidade, e esquece de lembrar de você.

  A gente só se abre em flor-mulherzinha por breves momentos, do tipo daquele da primeira chuva no sertão que faz florescer as jitiranas pelo campo…

 Se nestes momentos você souber alimentar a mulherzinha, pode nascer uma aliada forte. Se a flor-mulherzinha murchar, é triste… ela resseca-se toda e vira semente, cai no chão até renascer um dia, mulherzinha novamente!

 

NORMA JEAN poema de kátia borges

Fosse menina,
desde sempre,
teria que arrumar os cabelos
louros, lisos, desli-z-antes.

Fosse menina,
desde sempre,
teria que fechar as pernas,
e usar calcinha.

Fosse menina,
lavaria o púbis, muito vermelho,
e não atiraria ao chão
restos de comida.

Fosse menina,
teria, desde sempre,
que usar um véu para cobrir o rosto.
Ou mais ainda

aprenderia todo dia
a ser menina um pouco.

BAR X ACADEMIA por berenice teodorovics

Por que será que é mais fácil freqüentar um bar do que uma academia? Para resolver esse grande dilema, foi necessário freqüentar os dois (bar e a academia) por uma semana. Vejam o resultado desta importante pesquisa:
 

 

Vantagem numérica: Existem mais bares do que academias. Logo, é mais fácil encontrar um bar no seu caminho. 1×0 pro bar.
 

 

Ambiente: No bar, todo mundo está alegre. É o lugar onde a dureza do dia-a-dia amolece no primeiro gole de cerveja. Na academia, todo mundo fica suando, carregando peso, bufando e  fazendo cara feia.  2×0. Amizade simples e sincera: – No bar, ninguém fica reparando se você está usando o tênis da moda. Os companheiros do bar só reparam se o seu copo está cheio ou vazio. 3×0.
 

 

Compaixão:Você já ganhou alguma saideira na academia? Alguém já te deu uma semana de ginástica de graça? – No bar, com certeza, você já ganhou uma cerveja ‘por conta’. 4×0.
 

Liberdade:Você pode falar palavrão na academia? 5×0.
 

 

 Libertinagem e democracia: – No bar, você pode dividir um banco com outra pessoa do sexo oposto, ou do mesmo sexo, problema é seu… – Na academia, dividir um aparelho dá até briga. 6×0.
 

 

Saúde: – Você já viu um ‘barista’ (freqüentador de bar) reclamando de dores musculares, joelho bichado, tendinite? 7×0.
 

 

Saudosismo: – Alguém já tocou a sua música romântica preferida na academia? É só ‘bate-estaca’, né? 8×0.
 

 

Emoção: – Onde você comemora a vitória do seu time? No bar ou na academia? 9×0.
 

 

Memória: – Você já aprontou algo na academia digno de contar para os seus netos? 10×0 pro BAR!!!
 

 

 Portanto, se você tem amigos na academia, repasse este e-mail para salvá-los do mau caminho!

 

PS: Você já fez amizade com alguém bebendo Gatorade??? ENTÃO, VAMOS PRO BAR!!!

Revista O CRUZEIRO de 8 de janeiro de 1955/ UM CAJUEIRO CRIOU UMA FLORESTA

 

Como a história da vassoura no aprendiz de feiticeiro, um cajueiro
desdobra-se formando uma verdadeira floresta
– Dois mil metros quadrados de área, quarenta e cinco mil frutos em cada safra –
Uma grande atração turística para o Nordeste…

Texto de ÍTALO VIOLA              

O Cajueiro de Pirangi já se consagrou como ponto obrigatório de visita dos que chegam à cidade de Natal. Pirangi é o nome de uma praia, na divisa dos municípios de Natal e Nísia Floresta, na qual o cidadão Sylvio Pedrosa possui um sítio, onde se encontra o cajueiro a que nos referimos e que os moradores do local denominam de O Polvo.

Êste cajueiro, segundo os mais velhos habitantes da região, tem aproximadamente uns quarenta anos de existência. Do seu tronco original (um tanto difícil de distinguir para quem o vê pela primeira vez) saíram dezenas de galhos que, por sua vez, transformaram-se em outros verdadeiros troncos, lançando centenas de galhos em tôdas as direções, numa progressão geométrica, numa sinfonia inacabada. Se emendássemos todos êstes galhos e troncos, cobriríamos, com a maior facilidade, a distância de um quilômetro. A área dêste cajueiro, verificada pelo seu proprietário, é de 2.000 m2. Quando chega a época de cajus, O Polvomostra a sua pujança e prodigalidade, oferecendo uma média de 500 cajus diários em uma safra de três meses, portanto 45.000 frutos.

Assis Chateaubriand, os Governadores Lucas Garcez, Juscelino Kubitschek, Amaral Peixoto, o escritor e sociólogo Gilberto Freyre, o ex-Embaixador da Espanha e inúmeras outras personalidades celebrizaram o cajueiro de Pirangi com suas visitas.

Num país que soubesse aproveitar as suas atrações naturais para fins turísticos, êste cajueiro estaria mundialmente conhecido, convergindo para êle uma legião de curiosos, tal a sua excentricidade, tal a sua beleza, tal o seu caráter de exemplar único em todo o mundo.

 

memória viva.

 

ENTREVISTA de IMANNUEL WALLERSTEIN da UNIVERSIDADE de YALE/USA sobre a crise econômico-política à jornalista elizabeth carvalho da globo news

       Em entrevista à jornalista Elizabeth Carvalho, da Globo News, Imannuel Wallerstein, um dos mais conceituados cientistas sociais contemporâneos e professor da Universidade de Yale, discutiu a crise econômico-política deste e dos últimos anos. Sua compreensão de que os Estados Unidos da América são um país em decadência, e temer os estertores desse líder global do imperialismo, causou apreensão a quantos se acostumaram a identificar “a civilização ocidental” com a ideologia nacionalista e imperialista daquele país, que dividiu o mundo em “o bem’: capitalista-liberal x ‘o mal’: sistema de governos pré-capitalistas e/ou pós capitalistas (socialistas)”.

       (Reportando-nos a Mao Tsé-tung, “o imperialismo é um tigre de dentes de papel” (perspectiva estratégica) mas taticamente é um tigre que acostumou a comer homens, embora venha perdendo seu habitat, a caminho do fim.)

       Nas formulações estratégico-políticas (desde sua “ciência das complexidades”) do professor Wallerstein estão em causa quatro questões da mais elevada importância: 1) Quais rumos políticos e conseqüências terão (nos próximos 10/15? anos) a agonia imperialista norte-americana e seus reflexos decadentes nos países como China e Japão e em blocos políticos como a União Européia, que se associaram em sua “globalização e pós-modernidade” política, econômica, militar e estratégica; a que se pretendeu caracterizar como “fim da História” ou “fim das ideologias”? 2) Como se colocarão perante essa transformação do capital e de seu poder as classes e forças sociais do trabalho e de sua organização? 3) Como decorrência do fim dessa hegemonia, o eixo determinante da organização mundial se deslocará para a ONU ou para um condomínio de blocos econômico-políticos diversos; os quais continuarão o atual processo econômico-político, para preservar sua exploração e domínio dos países atrasados? E 4) Que tipo de “sistema de mundo” poderá surgir na esteira do caos capitalista-imperialista, em que, possivelmente, o modo de produção e organização sociopolítica capitalista declinante deixará “um vazio”? 

       Repórter: A crise imobiliária que se alastrou dos Estados Unidos para todo o mundo tem sido revelada em seus sintomas, mas o risco de agravamento da doença permanece. Ao menos para esse ponto convergem as opiniões de teóricos das mais variadas tendências, debruçados sobre as causas e efeitos dos males econômicos do mercado nos dias atuais; porém alguns acreditam que não há mais remédio.

       O cientista político Imannuel Wallerstein, por exemplo, entende que o mundo está diante de um doente terminal. O velho professor da Universidade de Yale e autor de o “Sistema Mundial Moderno” – uma referência do mundo acadêmico em todos os países – acha que chegamos ao ponto de esgotamento da produção do capital e entramos numa era caótica, de incertezas, porque o sistema atual será forçosamente substituído por um outro, que não sabemos qual será; e, portanto, não sabemos se será pior ou melhor. Será, segundo ele, certamente anti-norte-americano.

       Este foi o tema da conferência “Um outro mundo” feita no Fórum Social Mundial em Porto Alegre, sobre o qual queremos conhecer melhor seu pensamento.

       Professor: Ajude-nos a entender melhor a recente crise financeira mundial sob a ótica de sua teoria sobre “O Sistema Mundial”, que prevê tempos assustadores nos próximos 50 anos.

       Como o sr. vê a crise nesse contexto do fim da acumulação de capital, do qual o sr. acredita que estejamos próximos?

       I. Wallerstein: Bem… podemos analisar o que ocorre nos mercados financeiros mundiais de vários modos, e diferentes. Primeiro, é bastante normal na história do capitalismo haver momentos em que as coisas vão mal e há recessão, depressão econômica ou diminuição dos lucros. Todo o processo do capitalismo, historicamente, tem sido cíclico. Há momentos de ascensão e momentos de queda. Isso é absolutamente normal.

       Por outro lado, temos atualmente uma situação específica, ligada ao declínio dos Estados Unidos da América. Uma das forças principais dos Estados Unidos é o fato de o dólar ainda ser a única moeda de reserva do mundo. Isso significa que o governo dos Estados Unidos é o único país que não precisa se preocupar com dívidas. Os Estados Unidos podem emitir dinheiro quando desejarem; não há o que fazer quanto a isso.

       Para além disso, a dívida dos Estados Unidos no momento é de um tipo bem característico. Ela está sendo financiada, basicamente, por alguns poucos países; principalmente pela China, Coréia até certo ponto, pela Índia e pela Noruega; países que compram títulos do tesouro dos Estados Unidos.

       O principal motivo é em parte por ser isso um bom investimento, já que as taxas de juro são boas. Mas é também porque esses países querem sustentar para os Estados Unidos o poder de importação. A China, em especial, quer sustentar o poder de compra dos Estados Unidos para que este país compre produtos chineses.

       NÃO SABEMOS COMO SERÁ O NOVO SISTEMA

       Mas hoje já há um novo contexto para se analisar isso. Nós estamos vivendo, segundo minha visão, uma grande transição da atual economia capitalista mundial para um novo sistema, cujo nome ainda não sabemos e cuja realidade ainda não podemos prever. O elemento principal dessa transição é a volatilidade; é essa situação caótica. Os preços sobem e descem muito rapidamente. Tudo é muito abrupto e incerto. É extremamente difícil para qualquer pessoa prever a curto prazo o que vai acontecer.

       Repórter: Fiz essa pergunta porque alguns especialistas denominaram o 9 de agosto – quando os bancos centrais tiveram de intervir no mercado para restaurar, pelo menos, uma aparência de estabilidade, operação essa que se repetiu – eles o denominaram “dia da debtonation”, baseados na palavra “debt”, dívida em inglês.

       Esse dia significaria o fim da desregulamentação e da privatização das finanças que marcam a “era da globalização”? O sr. concorda?

       I. Wallerstein: Eu concordo que a chamada globalização e a abertura dos mercados financeiros estão sendo muito questionadas na atualidade.

       Um dos fatores discutidos ultimamente na imprensa é a atitude cada vez mais freqüente dos principais governos no mundo todo – na Europa Ocidental, no Japão e assim adiante – de declarar que as decisões acerca das ações executadas pelos EUA não deveriam ser tomadas pelos EUA sozinhos, pois elas têm muito impacto; elas têm muita força na economia mundial.

       Esses governos querem ter participação nelas. Isso é um conceito terrivelmente novo pois, na verdade, eles estão sugerindo que os EUA têm de ser controlados pelos outros países.

       Sabemos que o Fundo Monetário Internacional controla os governos por todo o mundo. O único governo com o qual o Fundo não mexe é com o dos EUA. Precisamos saber se vai haver intervenções governamentais por parte de outros governos em relação aos EUA.

       No geral, você está certa, sim. Já existe um movimento em direção a um maior controle governamental nos mercados financeiros. O Estado acabou resolvendo a crise.

       Repórter: Exato…

       O ESTADO CAPITALISTA É CAPITALISTA E NÃO REPUBLICANO

       I.Wallerstein: Obviamente você sabe, nunca passou de mito que os mercados financeiros eram totalmente independentes, em qualquer momento, do Estado.

       Na verdade, eles não querem ser livres.

       O capitalismo funciona sob a premissa de que a intervenção do governo é ruim, exceto quando é boa pra alguém (Obs. WM: o “alguém” são as corporações econômicas decisórias-nacionais e/ou os oligopólios econômico-políticos que orientam e dirigem o Estado).

       É ruim quando é boa para outra pessoa, mas é boa quando é boa pra mim.

       Sendo assim, o capitalismo tem uma linguagem hipócrita em relação ao mercado.

       Na verdade, o mercado é, em geral, ruim para o capitalismo (Obs. A concorrência “pura ou ingênua” entre capitalistas coloca a tecnologia e o consumo mais ou menos espontaneísta como reguladores de mercado; o que está fora de cogitações nesse estágio econômico mundial)

       Repórter: O sr. acredita que estamos entrando em uma depressão longa e sem fronteiras?

       I. Wallertstein: Acho que isso pode vir a acontecer, em primeiro lugar. Em segundo, o período dos últimos 20 ou 30 anos foi voltado para um comércio relativamente livre e um mercado relativamente livre.

       Agora, estamos no começo de uma era protecionista: O Japão, até mesmo a China vão ficar muito protecionistas. Vamos ver enormes barreiras protecionistas pelo mundo todo.

       Francamente, a palavra “globalização” vai desaparecer do vocabulário de jornalistas, acadêmicos e políticos dentro de cinco anos. Ficará a lembrança histórica de que, um dia, houve pessoas que falaram sobre algo chamado globalização.

       Repórter: Quando o sr. fala do fim do sistema, eu sei que o sr. não é profeta, mas qual é o sistema que vai substituir este? Um sistema parecido, com desigualdade, hierarquia e polarização; ou um novo universalismo, que não seja apenas na retórica, como o sr. denuncia em seu último livro?

       O DESEQUILÍBRIO SISTÊMICO

       I. Wallertstein: Veja, nesse sentido, estou mais para defensor das chamadas “ciências da complexidade”.

       O que essas ciências afirmam sobre sistemas de todo tipo, físicos, químicos, biológicos, sociais, ou seja, de todo tipo, é que, primeiro, eles nunca são permanentes e, segundo, eles sempre se afastam do equilíbrio. Quando eles se afastam o suficiente do equilíbrio, eles se bifurcam.

       Esse é um termo técnico que significa, simplesmente, que existem duas solluções possíveis para uma equação, em vez de uma única solução.

       Quando se bifurca, quando um sistema se bifurca, ele vai acabar optando por uma ou outra das duas soluções possíveis e vai se estabilizar novamente.

       Este período de transição no qual estamos é um período de bifurcação, que é caótico.

       Repórter: Então, ainda não estamos na estabilização?

       I. Wallertstein: Não. E, segundo as Ciências da Complexidade, não é possível. é intrinsecamente impossível prever qualquer das duas saídas, qual das duas alternativas será tomada.

       Não é questão apenas de falta de conhecimento. Não há como prover.

       Temos de passar pela experiência e descobrir, no fim, qual foi o caminho tomado.

       Em termos sociais, isso significa que o novo sistema será de um ou outro tipo. Terá uma estrutura diferente da do sistema capitalista, mas vai compartilhar as características básicas de hierarquia, exploração e polarização.

       A alternativa é um sistema relativamente democrático e igualitário.

       Não sei qual dos dois teremos.

       Repórter: O sr. tem algum palpite?

       I. Wallertstein: Não tenho, não. As chances são iguais.

       Entretanto a boa notícia é que você, eu e todos os outros podemos influenciar essa escolha. Toda pequena ação pode empurrar o sistema para uma ou outra direção.

       A questão não é preservar o capitalismo ou não, e sim se o que vai substituí-lo será um sistema melhor ou pior. Se quisermos um sistema melhor, vamos buscar isso.

       Essa é a motivação da minha atividade política e do que eu defendo para outras pessoas.

       Repórter: Estamos falando de um mundo pós-americano, como o sr. descreveu em sua palestra. O sr. descreveu a posição atual dos Estados Unidos como a de um tigre encurralado. O que o sr. quis dizer com isso?

       I. Wallertstein: A metáfora significa que o tigre, quando encurralado, quando não consegue sair de uma situação, tende a ficar feroz e atacar desesperadamente.

       A PERIGOSA AGONIA DOS EUA

       O verdadeiro perigo para o mundo e para os Estados Unidos é que as pessoas no poder, no governo dos Estados Unidos, ataquem furiosamente. Na verdade, a Guerra do Iraque foi um ataque desse tipo.

       Os EUA podem vir a atacar o Irã, o que seria uma loucura total do ponto de vista político e militar. Mas eles podem agir assim por estarem encurralados.

       Repórter: Mas o sr. afirmou que os EUA não têm interesse na invasão e que nem têm condições para isso.

       I. Wallertstein: Na situação atual dos EUA, o povo americano certamente não quer outra guerra. O exército e os fuzileiros navais também não, porque eles se sentem esgotados e em crise interior.

       Por outro lado, há elementos na Força Aérea que não se importam em mandar seus aviões ao céu para lançar bombas. Eles não podem ser atingidos. É para isso que existem.

       Há uma disputa interna aí. Há pessoas no governo que pensam que devem continuar com os esforços diplomáticos, pois agir de outro modo seria loucura e iria irritar o mundo inteiro.

       E há pessoas que dizem, como, por exemplo, um almirante americano durante a Guerra Hispano-Americana: “Danem-se os torpedos. Toda força à frente”. Ou seja, “Não se preocupem” Vamos com tudo.”

       Os EUA terão poder o bastante para fazer isso?

       Pode ser que sim. Não excluo essa opção.

       Seria irracional, insano e negativo para os EUA, para o Irã e para o mundo, mas eu não diria que isso não vai ocorrer.

       Repórter:O sociólogo e economista Giovanni Arrighi, seu colega, acredita que nós não estamos vendo apenas o fim da hegemonia americana, mas também o fim da era hegemônica. O sr. concorda com essa idéia?

       I. Wallertstein: Concordo, dependendo do que se quer dizer com isso.

       É claro, pois eu considero a hegemonia um fenômeno da economia capitalista mundial, do sistema do mundo moderno. Se esse sistema sobreviver por mais centenas de anos, haverá uma nova potência hegemônica. Tenho certeza disso.

       Mas como eu acredito que ele está em crise e vai ruir, que já está ruindo, acho que não haverá uma nova potência hegemônica.

       A ESQUERDA DE ESTRUTURA HORIZONTAL

       Repórter: Falando agora do segundo sistema possível, eu gostaria de revisar alguns de seus conceitos sobre os movimentos anti-sistêmicos, um termo que o sr. criou há bastante tempo.

       Em 2003, o sr. nos concedeu uma entrevista, na qual citou o Fórum Social Mundial como sendo a ascensão de uma nova esquerda, como uma estrutura horizontal, sem um movimento geral, sem hierarquia e assim por diante.

       Nós sabemos que, de fato, essa estrutura chegou a uma encruzilhada.

       Gostaria de saber como o sr. vê uma esquerda mundial em 2007 e nos próximos anos.

       I. Wallertstein: O Fórum Social Mundial ainda é, como se diria informalmente, “a única opção do cardápio”. Não há estrutura alternativa no momento.

       É verdade que o Fórum passa por uma crise de identidade. Dentro do Fórum Social Mundial sempre houve tensões em relação às prioridades.

       O brilho inicial desse novo elemento maravilhoso já está mais fraco. As pessoas estão se perguntando se aquilo é o que elas querem e se está funcionando bem.

       Eu não desconsideraria o Fórum Social Mundial ainda. O argumento que sustento desde 2002 é que existem formas de conciliar isso.

       Já existem estruturas em rede. Estruturas em rede das feministas, estruturas em rede dos trabalhadores rurais, estrutura em rede das organizações trabalhistas e outras estruturas em rede que têm crescido no ambiente do Fórum Social Mundial, que sempre será um espaço aberto, sem diretores, que nunca por si só toma ou emite decisões, nem faz tudo aquilo que, tradicionalmente, as organizações hierárquicas faziam, o que foi a causa da ruína delas.

       Repórter: Falando da América Latina, de uma época que pôs no poder tantos líderes de esquerda neste novo século. É fato que todos eles ainda parecem ter um apoio popular muito forte.

       Mas citando a definição do sr. sobre um certo estágio de alegria e felicidade, o povo não está mais “dançando nas ruas”.

       Eu gostaria de saber sua visão sobre esses governos latino-americanos, com tantas tendências diferentes e tantos problemas iguais.

       I. Wallertstein: Todos os governos da América Latina hoje, exceto o da Colômbia e, talvez, o do Peruo, podem ser considerados, pelo menos, de centro-esquerda, mas são muito diferentes.

       CHILE NUMA PONTA, VENEZUELA NA OUTRA 

       O do Chile não é igual ao da Venezuela. Entre eles, estão o do Brasil, o do Uruguai, o da Argentina, o da Bolívia e o do Equador.

       Alguns deles são mais centristas, outros são mais radicais. Alguns são mais ricos, outros são mais pobres.

       A riqueza possibilita liberdade de ação. A Venezuela tem muita liberdade de ação, na pessoa de Chávez, por causa do petróleo. O Brasil, relativamente, tem mais liberdade de ação do que a Argentina; com certeza, mais do que o Uruguai; e, certamente, mais do que a Bolívia. Apesar de a Bolívia também ter sua força.

       Há governos que têm uma característica indígena mais presente, como o da Bolívia, mas também o do Equador e mesmo o da Venezuela.

       Há disputas por liderança, porque o Brasil meio que se considera o líder natural.

       Chávez não se sente à vontade com isso, apesar de não ser contra o Lula. É muito interessante a relação entre Chávez e Lula. É uma relação cautelosa. De muitas formas, ambos sustentam essa relação. Mas eles têm diferenças no campo político.

       Os governos da América Latina têm muito mais espaço do que tinham mesmo há dez anos, devido à falta de capacidade dos EUA de investir energia emocional, política e financeira para controlar os governos latino-americanos, como fez no passado, pois estão ocupados com o Iraque. Eles têm outros problemas. Problemas mais sérios.

       É por isso que esses governos chegaram ao poder. Eles jamais chegariam ao poder há 10 ou 15 anos.

       Tenho uma opinião em relação aos governos. Para a esquerda, em geral, os governos são uma arena de defesa a curto prazo. A esquerda quer assegurar sua permanência no poder não porque vá mudar o mundo, mas para não deixar tudo piore. É uma ação de defesa.

       Se encararmos de modo realista, aceitando que isso não é uma revolução, que não pode ser, veremos que é a melhor opção.

       Repórter: Chávez acredita que está fazendo uma revolução à moda antiga.

       I. Wallertstein: Deixe que ele acredite.

       Há a questão dos movimentos sociais.

       A maior fraqueza de Chávez é que ele governa de cima para baixo e não de baixo para cima.

       No Brasil, na Argentina e, ainda mais evidentemente, na Bolívia, os governos chegaram ao poder devido à força de vários movimentos sociais.

       Eles podem não fazer o que os movimentos sociais querem, mas esses movimentos tinham força no Brasil, na Argentina e na Bolívia.

       Não há movimentos assim na Venezuela. Só existe Chávez. Se ele morrer amanhã, não sei o que vai ser da Venezuela.

       O HORIZONTE DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

       Movimentos sociais têm de se preocupar com o médio prazo. Mas precisam ser realistas.

       Lula venceu a eleição. Venceu com grande vantagem da segunda vez. Mas ele nunca teve maioria em nenhuma das duas casas do Legislativo. É verdade. Isso é limitante. Isso pode tê-lo impedido de fazer o que queria.

       Entretanto Morales tem a maioria no Parlamento. Ele tem que se preocupar com o fato de não a ter em certas regiões do país, que estão constantemente…

       Repórter: Regiões importantes.

       I. Wallertstein: Exatamente. E que ameaçam se separar e tal…

       As políticas internas de cada país precisam ser analisadas Nenhum modelo serve para todos.

       O que Lula pode fazer, o que Kirchner pode, o que Chávez pode e o que Morales pode são possibilidades diferentes.

       Para lidar seriamente com os outros, cada um deve levar em conta o que é possível fazer, e entender e avaliar a situação política sob essa ótica.

       Repórter: Isso me lembra um aforismo que o sr. fez em uma de suas declarações: “A coisa mais certa é o futuro, já que o passado está sempre mudando”.

       I. Wallertstein: Isso está totalmente correto.

       Sabe, o passado é a nossa imaginação presente daquilo que se passou. Nós definimos o passado em termos do que necessitamos no presente.

       Isso vale para a América Latina e para qualquer outro lugar.

       Repórter: Professor, obrigada pela entrevista. Foi um prazer estar com o sr.

       I. Wallertstein: O prazer foi meu.

(NB, WM: O Chile e o Paraguai, mais do que o Uruguai, não conseguiram ultrapassar senão formal e precariamente a vigilante conformação pára-fascista militar que os controla desde os últimos anos de “democracia”. As concessões mineiras ao imperialismo no Chile de Bachelet e os grupos burocrático-militares de poder no governo de Nicanor Ramos são evidências)

(Entrevista concedida a Globo News, em setembro de 2007.)