É “PRECISO” EXCLUIR O AMOR? por flávia albuquerque (psicanalista)

 

 

Com o título: NÃO precisa casar. SÓZINHO é melhor, o site da Revista Veja veicula esta semana uma entrevista com o Psiquiatra Flávio Gikovate. Num primeiro momento, encarei este título com uma certa desconfiança a respeito do conteúdo que seria encontrado ali partindo do princípio que a imprensa faz alarde do quê e da maneira que bem entende.

Um Gikovate posando com uma expressão de um ceticismo cruel ilustra a entrevista que ao ser lida confirma o chamariz. Bastante curioso e providencial uma matéria on-line sobre o amor (ou a ausência dele) vinculada à Edição da Revista que chega às bancas na véspera do Dia dos Namorados. Ao contrário do que se poderia supor pretender, não me parece que as palavras do Psiquiatra confortem os corações aflitos do solitários de plantão. Pelo contrário! Acaba por arrasar qualquer intenção (e intensão) de uma vida que se inclua o amor. 

Logo ao lado da foto, a citação: “Para os meus pacientes, eu sempre digo: se você tiver que escolher entre o amor e a individualidade, opte pelo segundo.” O choque não foi suficiente no título. Agora temos uma declaração bombástica de uma conduta terapêutica que serviria à ‘todos’ como se o sujeito pudesse ser visto, escutado e orientado de uma maneira padronizada. Não foi Freud, o pai da Psicanálise, que de uma forma pontual a todo momento em sua obra disse para tomarmos cada caso como único? E ele dizia do lugar de quem descobriu o Inconsciente, descoberta esta que tem valor de uma ferida narcísica por revelar que ‘o ser humano não é senhor de sua própria casa’. Há algo que nos escapa. Não há padrão! 

É claro que o casamento pode não ser uma boa escolha na vida. O que serve a uns, não necessariamente serve a outros. Uma coisa é achar que um caminho é bom, outra coisa é achar que este caminho é o único. Portanto essa constatação não pode nos fazer excluir toda e qualquer possibilidade de uma relação amorosa. É pelo e para o amor que se vive. Sem medo de ser piegas com essa frase, a questão é que: é em referência ao amor ofertado – ou não – por aqueles que cuidaram daquela criança que ela dará todos os passos na sua subjetividade. Sabemos por Lacan que toda demanda, em ultima instância, é demanda de amor. 

Falar por uma via estatística de que apenas 5% de sua clientela que é casada é feliz é colocar cálculo onde ele não cabe. E se coubesse, 5% já seria um dado enganoso, porque ouso dizer que nem 5% o são. Não há felicidade garantida numa relação amorosa, ela se trata de um encontro necessariamente faltoso! Momentos felizes certamente, mas… felicidade?!

Relatando ‘as diferenças’, entre dois que constituem um casal, como as vilãs de um relacionamento não me parece que Gikovate tenha feito uma grande descoberta. E ainda dizer que os solitários ‘levam uma vida serena e sem conflitos’ por ‘resolverem a questão sem ajuda’ mantendo-se ‘ocupados, cultivando bons amigos, lendo um bom livro, indo ao cinema’ me parece auto-ajuda demais! Os ‘acompanhados’ também estão bastante ocupados respondendo a uma exigência de ‘fazer tudo pra ontem’ da modernidade, em chopps com os amigos, lendo maravilhosos livros e freqüentando muito cinema por aí… além de ter um tom a mais na vida com alguém por quem e em quem pensar, se dedicar e compartilhar inclusive os efeitos de toda essa ‘ocupação’. 

Tomar a solidão como a melhor maneira de se viver é anular a própria condição humana que consiste em reconhecer e encarar que algo nos falta. E poder investir num outro como se apostasse que ele tem o que nos completa – não sem se dar conta, até dolorosamente, que isso não é realizável – é delicioso! Dá muito trabalho – é bem verdade! – causa sofrimento, mas é bem mais visceral do que se guardar num mundinho fechado para não ter que se esbarrar com o complicado que é conviver com um outro. 

O amor de filmes, romances e novelas não está com os dias contados, ele é impossível mesmo! Desde sempre e pra sempre. Mas é vital que o sujeito possa realizar algo possível no impossível que é o amor.

 

Portanto, não só hoje (pelo Dia dos Namorados), mas sempre que for viável se permitir, divirta-se em boa companhia!

 

  Flávia Albuquerque – Psicanalista – (21) 9792-8326

foto sem crédito. 

3 Respostas

  1. Fazendo uma leitura nos textos de Flávia Albuquerque e Flávio Gikovate e fazendo uma comparação, concluo o seguinte: Flávia Albuquerque ainda tem muito o que aprender!!!

  2. poder investir num outro como se apostasse que ele tem o que nos completa – não sem se dar conta, até dolorosamente, que isso não é realizável – é delicioso!

    Este é o tal do ME-ENGANA-QUE-EU-GOSTO!

  3. Quando eu me resolver o outro não terá mais problema. Enquanto eu não me resolver, escrevo a vida… Agradecido.

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