Arquivos Diários: 14 junho, 2008

Rumorejando (Possibilidade de novo imposto, lamentando). – por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I

Rico materializa lindos sonhos; pobre, acumula pesadelos medonhos.

Constatação II (De demonstrações de “afeto”, ouvidas de um cara, dizendo pra uma viúva, inspiradas no tratamento entre os meninos em Capitães de Areia do mestre Jorge Amado).

“Se você tem conversado com o teu marido, durante as sessões espíritas que você costuma freqüentar, diga pra ele que ele é um grande filho daquilo por ter nos abandonado tão cedo. Não se esqueça de dar o meu recado, viu!”

Constatação III (Passível de mal-entendido e/ou má interpretação).

“Vá até lá, ali no pote que partiu”.

Constatação IV

Não se pode confundir engraçado com engraxado, até porque ninguém achou engraçado deputado ser engraxado com o mensalão. Exceto, naturalmente o próprio deputado. A recíproca pode ser verdadeira como no caso do cara querer dar uma de mecânico e se meter a arrumar o carro e ficar com o rosto sujo de graxa e a mulher achar graça. E, ele, ficar sem graça, com cara de cachorro que lambeu graxa.

Constatação V

Deu na mídia: “Eddie Murphy é o pai da filha de Spice Girl”. Taí uma notícia de transcendental importância para o futuro da Humanidade…

Constatação VI

Tem deputado e senador que consegue explicar o inexplicável e, pior, consegue convencer alguns inocentes anjos não incrédulos.

Constatação VII (Teoria da Relatividade para principiantes).

É muito melhor o atacante do nosso time fazer um golaço do que o goleiro do nosso time engolir um frangaço. Elementar minha gente!

Constatação VIII

Não se deve confundir caricatura com cara-dura, muito embora os cartunistas sempre estejam fazendo caricatura de tanto cara-dura que viceja por este nosso sofrido país. A recíproca pode até ser verdadeira, mas Rumorejando admite que jamais conheceu cara-dura se dedicando a fazer caricatura. Podem até falsificar nota de R$50,00 reais, como, por exemplo, mostrado no filme O homem que copiava, mas caricatura…

Constatação IX

O presidente* pegou o palimpsesto** do seu antecessor e escreveu uma nova lei que beneficiava a si próprio e aos seus amigos e parentes.

*Não ficou muito claro se foi o presidente da República, ou do Senado, ou da Câmara dos Deputados, ou ainda de um time de futebol. Tampouco em que país tal ocorreu. Se alguém souber, por favor, cartas à coluna. Obrigado.

** Palimpsesto = “papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro”.

Constatação X

O Oswaldo,

Depois de outras e umas,

Chegou ao doce lar,

Pisando leve,

Quais penas e plumas

Se apoiando no espaldar

Das cadeiras

E nos caixilhos das janelas.

De cara, virou

Uma delas.

“Você é um marido

Ribaldo”*,

Vituperou

A coitada da mulher,

Acordando com o barulho,

Ferida no seu orgulho.

“Faz-se mister

Que você saia já daqui”,

Ela gritou

Desarticulada.

“Vá dormir ali

No banco da praça

Seu desalmado,

Você me dá engulho,

Você só me trouxe desgraça.

Coitado!

Coitada!

Coitado?

*Ribaldo = “que ou aquele que usa de fraude; velhaco, patife”. (Houaiss).

Constatação XI (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

Destempero

Prum ditador

Não é exagero?

Constatação XII (De fatos do cotidiano).

Na sala de espera,

Do dentista,

Ou do médico cirurgião,

Portanto de um especialista

Onde fica sentada a enfermeira,

O garoto, mostra sua educação

Pondo os pés na cadeira.

Merece levar um cascudo,

Mas os pais não chamam sua atenção.

“Nosso filho, por ser nosso, pode tudo”.

Sem dúvida, quando crescer será um testudo,

Mais que um pentelho, um pentelhudo,

Ou como diriam nossos hermanos: “un bundudo”.

Constatação XIII (Rico é sincero; pobre é inventador).

“Sou um sujeito atrabiliário*

Quando não faturo horrores”,

Disse o sincero miliardário**

Sem resquícios de falsos pudores.

*Atrabiliário = “que ou aquele que vive tomado pela cólera; irascível” (Houaiss).

**Miliardário = “que ou aquele que possui bilhões, que é riquíssimo” (Houaiss).

Constatação XIV

Quando o obcecado convencido leu na mídia que “Estudo sugere que mulheres são mais espertas na paquera, já que os homens têm mais dificuldade em identificar sinais não-verbais na hora da sedução”, deu um sorriso de mofa, de escárnio, de superioridade e proclamou: “Comigo não acontece isso. Todas elas, sem exceção, sempre querem me seduzir. E, claro, conseguem”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

                               área de fumantes. foto sem crédito. ilustração do site.

DEBAIXO DO TAPETE IMORTAL… – por ademário da silva

As relações humanas retidas na transitoriedade, grafadas pela história, é só um pedaço rasgado da fotografia da vida. É como se num dado momento, alheio a nossa vontade, algo se nos tira de cena e a foto fica sem sentido. Olhar uma foto batida numa reunião de família e descobrir em sua imagem, fisionomias de pessoas desencarnadas, deve ser uma coisa muito triste e pesada para aqueles que teimam que a vida é só isso que se vê…

Sabe, eles têm saudade, de quem e como e que não sabem explicar, mas, acreditam piamente na eternidade. Afinal de contas uma verdade apregoada por esses milênios de que nos damos conta, ao menos historicamente, por que não acreditar. Ainda que seja um trauma imposto e mal explicado por quem de direito; um condicionamento religioso existencial, do tipo é melhor acreditar pra não ficar fora da maioria ou da moda.

As filosofias e as psicologias insistem em que o homem já foi o centro da vida, e que, a religião por ganância, por ambição ao poder e as finanças se auto elegeu a dona do mundo, representante das vozes divinas e são tantas, junto aos destinos humanos; e foram se lambuzando pelo tempo a frente de corrupções e conluios, de obscuridades e desmandos a tal ponto que hoje o ser humano, dito pensante, quase nem pensa, segue “feito penitente, carregando pedras (dores e sofrimentos) pelo continente, erguendo estranhas catedrais” O Chico Buarque meteu o dedo na ferida, mas, ninguém comenta, afinal de contas o povo é desletrado e cobrado na hora de eleger políticos, esquisito isso…

Por razões como essas e tantas outras, a criatura humana segue pro desconhecido, sem saber de onde veio e à que veio como se viajasse num carrego alegórico (já vi essa descrição hein…) pra algum lugar no meio do nada, afinal até hoje só cobram pedágio pra ir aos céus e aos infernos, mas o roteiro, ou melhor, o itinerário ainda é milenarmente desconhecido. Só divulgam os pacotes e as saunas conforme a opção “escolhida” pelo cliente desavisado das funerárias de plantão. Até por que a pia batismal só funciona quando aqui se chega e na hora da saída é só dor e lágrima de despedida…

Mas, todos nós sabemos de antemão, ou será na contramão, que a vida é eterna. De algum modo isso é um consolo.

E nós desencarnamos, morremos, falecemos ou fomos para os céus, e que todas as ladainhas digam amém…

Mas a dor da separação parece ter prazo de validade, provoca espasmos, desequilíbrios, delírios, arroubos, espetáculos tais que parece infernais, por aqui, não pode ser, afinal quem morre parece carregar uma culpa por não ter conseguido sobreviver ao câncer ou ao acidente, que dirá então da velhice, hoje extremamente desvalorizada, até aviltada, desmerecida estação reflexa… E perplexa ou será aturdida a população segue sua vida, isso é no planeta inteiro, mesmo com essa fantasia de 1º, 2º e 3º mundos. A religião A ou B e talvez, quem sabe a C e provavelmente mais uma boa quantidade fonemas representativos de adorações irrelevantes, dizimáticas, não conseguem sequer esclarecer por que é sempre assim…

E o tempo escoa na ampulheta e a dor vai sendo lenta e gradualmente arquivada, até que a história daquele ou daquela que se foi, vai se esfumaçando nos horizontes da memória cansada da lida da vida e sua dores, então aceita essa separação mais por imposição inalienável da natureza do que por consciência…

E ainda, desde muito tempo atrás, tudo é tão misterioso, sobrenatural, frutos híbridos da alucinação, que nenhuma alquimia ou vara de condão, ou será de duende, que não se “consegue explicação”. Mas, é batismo pra chegar e extrema-unção pra voltar. O que será que e a quem se encomenda, se a vida é uma só, mas, diante do mistério é melhor ficar sério e cumprir o mandamento, ou melhor o sacramento, afinal, todos temos igual chance.

O Cristianismo aviltado pela política imediatista e pelos oportunismos clericais, não se fez de rogado, muito menos melindroso, ou achacado em seus dons naturais, e até na verdade nem ficou chocado. O Cristianismo reencarnou como Espiritismo. O Cristo Redivivo nos postulados imortais.

Como numa transgenia em que se eliminam os focos bactericidas, a condição viral vai sendo combatida pela interferência dos espíritos superiores e principalmente do Espírito da Verdade, traduzido então como o Consolador Prometido, então crendices e lendas, mitos e ritos, aos gritos saem do cenário de luz engendrado pelos maiores pensadores já sediados em mundos melhores e que vão sendo, seus pensamentos e informações e esclarecimentos, codificados pelo mestre em pedagogia, realmente o bom senso reencarnado o Sr. Hipolitte Léon Denizard Rivail, que utilizou antigo nome de batismo druida como pseudônimo e lançou aos olhos da ciência, da literatura, da filosofia, da religião e principalmente dos detratores de plantão, um novo e mais abrangente conceito de religião acrescido de uma filosofia irretocável, e, aspecto importantíssimo, desenvolve os princípios da ciência do espírito, exarados de um modo insofismável em o Livro de A Gênese. E todo essa avalanche de informações e esclarecimentos codificados em o Pentateuco Espírita, ou seja os cinco livros da Obra Básica, somando ainda os livros: O que é o Espiritismo, Iniciação Espírita, O Espiritismo em Sua Expressão mais Simples e mais um conjunto de 12 livros que constituem O Jornal de Estudos Psicológicos ou simplesmente as Revistas Espíritas.

Esse esforço, esse trabalho para dar a criatura humana em qualquer latitude ou longitude terrena, a oportunidade igual de descobrir causas e efeitos, origem e finalidades da vida, sob a lente da lucidez e do bom senso, desassistida dos rituais e crendices. Como ensinou Jesus “em Espírito e Verdade”…

Aqui o grande segredo do aprendizado. “Cada consciência evolui por si”. Ensinou Kardec. Ah! Ele disse também que aprender Doutrina Espírita exige-nos um esforço de no mínimo com tempo e dedicação, dez anos humanos da nossa vida.

Mas a imortalidade enquanto Lei Divina e Natural, não esconde seus objetivos. E se quisermos encontramos com eles diuturnamente. Basta colocarmos a serviço do aprendizado existencial enquanto espírito imorredouro, a observação atenta e a intuição, a luz do aprendizado espírita e poderemos inclusive conduzirmos melhor a nossa vida. É claro que isso requer bom senso e lógica, pra não nos deixarmos impressionar por ideoplastias psicológicas que formatamos em nossa mente, buscando atender ou solucionar coisas e fatos que escapam ao nosso entendimento, de uma maneira meio que fantasiosa.

Na verdade as desigualdades, os desencontros, as afinidades ou a ausência delas, os aleijões, a saúde completa e toda gama de mutilações que temos isto em a natureza humana, não decorrem de punições de um ‘deus’ vingativo, mas, são mecanismos de ajustes para a manutenção da harmonia da vida e as leis que a regem.

O que denominamos aqui de personalidades “fortes”, “bem dotados”, “deslembrados”, “gênios”, “idiotas” e outros gêneros que parecem por em cheque a Bondade Divina, são apenas os efeitos de causas estranhas a harmonia da vida, que nós burlamos.

Então irmãos, enquanto fugirmos de nós na caminhada que a evolução obriga, só causamos efeitos contrários aos “pretendidos”. Viver em paz e harmonia exige-nos a educação e o desenvolvimento da moral espiritual, que se baseia no amor e no respeito ao próximo. Por isso Jesus afirmou com conhecimento de causas e conseqüências para nós outros, o que seria o descumprimento das leis:

 

‘Amai a Deus acima de qualquer coisa e ao próximo como a si mesmo.” Eis toda a Lei e os Profetas. Nenhuma outra lei ou religião são capazes de superar em obrigações, objetivos e benefícios o alcance eterno desse ensinamento.

Hoje enquanto espíritas, já se faz tempo de entender que não mais adianta esconder sob o tapete da vida os nossos erros, por quanto esse tapete é imortal. E nós, aqui ou acolá somos o que pensamos, o que sentimos e principalmente o que aprendemos. Cada encarnação é oportunidade na medida em que é aproveitada. Aí se o ambiente familiar está carregado de problemas, de dores e sofrimentos, é tempo de se curvar as evidências e gostar um pouco mais dos desafetos, compreender um pouco mais que orgulho e fantasia são empecilhos desnecessários que só atrasam-nos os passos.

Se quisermos, por que não adianta apenas sonhar, uma vida em melhores condições na erraticidade, temos que levar em nosso modo de ser essas condições.

O episódio dos dois ladrões condenados a morte junto ao Cristo nos mostra espelho excessivamente transparente, não mais para meditar ou refletir, mas, para seguir as palavras de Jesus, enquanto alertas e não como promessa. Pois seria contraditório imaginar que Ele facilitaria o ingresso do irmão em questão simplesmente por que apresentou arrependimento de última hora. O lado direito que Jesus se refere é o lado de uma nova oportunidade, que combina em gênero, número e grau com o ensinamento anterior: “Aquele que não nascer de novo não verá o Reino dos Céus”.

Assim, higienizemos o ambiente espiritual de nossas vidas com a conduta renovada pela compreensão e a vivência do aprendizado dessa Doutrina de Luz que na Verdade é o Cristianismo Redivivo, que não há mais o que acrescentar é só aprender e vivenciá-lo, sem mais demoras ou desculpas…

                          de antonio real

CAMARÕES e SIRIS de NATAL poema de tonicato miranda

   

                                                   para meu pai Antonio, igual a mim

 

1.

Lá em baixo o Brasil

reticulado de fazendas e propriedades

nos ouvidos um tango faceiro.

Estou no ar junto a Deus e seus convidados

viajando nas nuvens estou dependente do piloto

sou natalense, curitibano, carioca, brasileiro.

 

2.

Passando sobre uma área instável

mandam apertar o cinto de segurança.

O tango aperta a lágrima que não salta

aprisiona-me docemente triste

logo me pondo solitário

qual roupa dependurada no armário

à espera da mão libertadora

para sair a um largo passeio

 

3.

Preso à janela do avião

fecho os olhos para abri-los

em outra janela.

Dedilhando velha emoção

surfando sobre as nuvens, vou

ao sabor de um bandoleão.

 

E você está aqui

perto da minha alma voadora

junto ao meu pé de pequi

e às araras da paisagem

somente minha

aquela que carrego na memória

livro sem letras, livro da minha

própria história.

 

4.

Pela minha janela passam

mulheres gentis, morenas e louras

algumas mulheres azuis,

cozinheiras e enigmáticas

mulheres cor-de-rosa e perfumadas

outras muito ensaboadas

algumas trabalhadoras, um tanto suadas

 

A todas mulheres eu canto

às gordas, às magras e às torneadas

assim quis Deus que elas fossem

variadas em seus caules e folhagens.

A tudo se pode perdoar numa mulher

até mesmo o pouco caso com seu corpo

apenas não perdôo aquelas

que não carregam um sorriso nos lábios.

 

5.

Venho de Natal, terra duplamente santa.

Santa no nome e por ter gerado meu pai.

Menos de duas horas que a deixei

e a saudade já se instalou como teia grossa

não porque as mulheres da cidade sejam gentis

as praias faceiras e a areia nos domina.

A saudade se instalou, sim,

por ser o povo simpático e acolhedor

onde até os camarões e siris

antes de morrerem

costumam dar Bom Dia!

 

O BURGOMESTRE e TESOUROS AO MAR – dois mini contos de raimundo rolim

O Burgomestre

 

Sentado à mesa, o prefeito era um tipo de coronel forjado nas mais renhidas intransigências. O pároco local pouco ou quase nada conseguia com o mesmo, ainda que vez por outra o ameaçasse com o inferno, a caldeirinha, o purgatório e afins. Em suma: para o prefeito, o pároco correspondia à sua divina tortura aqui na terra. Amiúde, este invocava e demitia o demônio e com ele não tinha esse negócio de pedir licença. E pra não perder o costume, chapéu na mão, atiçava o coronel-prefeito para que doasse algum, pois o mesmo já havia passado por vários mandatos e gestões políticas mal explicadas e nada da igrejinha ficar pronta. O prefeito-coronel, olhos semicerrados, sonolento, mãos enfiadas por dentro das calças, barriga volumosíssima de cachaça e arrumadinhos e buchadas de bode, solicitara veemente à sua ajudante que trouxesse água gelada pra ele e o padre – (era o tempo de que precisava pra dar uma pensadinha) -. O calor era grande e o tempo abafado pra chover. A mocinha, hum, que o coronel empregava para pequenos servicinhos, hum, (de bundinha arrebitada e sainha curta), ficava naquelas andanças pra lá e pra cá pelos cômodos da casa do senhor coronel-prefeito e acabava por arrastar também os olhos do padre que se remexia na cadeira sentindo certo tipo de desconforto interior. Aquele ir e vir da serviçalzinha interrompia a todo o momento o lascado do coronel que esquecia daquele negócio que tava conversando com o diabo do padre e pra compensar, soltava esses grunhidinhos, esses ‘huns’! E a mocinha que era prima de um conhecido que devia favores ao prefeito-coronel – e esse cabra devedor de favores, tinha lá uma encrenca antiga de pistolagens -. Boato, muito boato, pois a coisa iria muito longe se começassem a investigar. Então, como paga, arrumou essa prima pra dar uma mãozinha nas coisinhas que o coronel precisasse. E pra mal dos pecados, nesse ir e vir, a dondoquinha do coronel deu uma escorregadela e quase caiu quando a saia justa e curta demais lhe subiu até as ancas e a calcinha de algodão alva e cavadinha que devia estar ali, encaixadinha, não apareceu. O padre ficou vermelho e o prefeito pigarreou grosso e curto que era pra mostrar autoridade também, ainda que excomungado fosse. Aproveitando-se da oportunidade, o padre esbravejou ameaçador que se não saísse a verba desta vez, relataria ao povo na missa do domingo, tim tim por tim tim, o que andava acontecendo na sala de sua excelência. O prefeito levantou-se de um salto, talão de cheques na mão. E tascou feio: – Não meu padim, meu padroeiro, diga nada não! Vou erguer esse diabo de capela já. E numa última tentativa de demover o padre das suas intenções, confidenciou-lhe que faria também uma capela na sede da prefeitura, e que ele, o padre, fosse lá confessá-lo, pois não poderia perder tempo indo à missa, já que tinha sempre muito trabalho a fazer, muito trabalho. Aquelas obras contra a seca eram intermináveis e tomava-lhe todo o tempo disponível e era por isso que precisava da ajudazinha daquela mocinha ali, nos servicinhos de uma aguinha aqui, outra coisinha ali e tal, e por fim deixou escapar sonoro “hum” absolutamente cheio de excitação ! O padre fechou os olhos, fez o sinal da cruz, espargiu uma água benta imaginária no recinto, disse algumas palavras em latim e mostrou ao coronel com o dedo indicador em riste, o exato lugar que correspondia geograficamente onde ficava a igrejinha. E saiu rezando uma Salve Rainha, Mãe de Misericórdia.  

 

               

 

                Tesouros ao mar

 

Os piratas estavam prontos e ávidos para atacar e saquear. Canhões apontados de miras certeiras para a caravela que lhes aparecera na linha do horizonte, por detrás de ondas bravias e que achava-se carregada de ouro e comida e mulheres pegas à força, que seriam levadas como suvenir das terras novas à presença de El Rei. O capitão dos piratas, o Bucaneiro-Mór, cabelos revoltos, olhos vermelhos de rum, ousadia e água salgada, estava entregue à faina da ambição, e o mar não lhe dera tréguas por muitas noites e dias. A tormenta desdenhava o pequeno batel de bandeira negra encimada por uma caveira e o impelia irremediável de encontro ao mar alto e encapelado. Os piratas (que não se sabe o porquê, eram lusitanos), empunharam com a ferocidade dos bravos as suas espadas e o mar se agitou ainda mais, muito mais que na antevéspera, pois sabia muito bem, o mar, que iria conhecer a um dos saques mais bem feitos e espetaculares de que se teria notícias. A um sinal do capitão, o canhão deu o primeiro tiro de advertência para que a caravela que lhe vinha a estibordo com brancas velas enfunadas e cruzes e credos, lançasse âncoras e se rendesse incondicionalmente. Os bravos da outra caravela (que também eram lusitanos – senão provavelmente seria um Galeão) ungiam-se de mesmo e igual afã para a peleja, já que havia um grande prêmio instituído pela Coroa para quem levasse piratas vivos e mortos. Os de bandeira negra desconheciam o tal decreto, pois que há muito andavam a navegar, pois que navegar era mais preciso que estar ao mar e trataram logo de dar um segundo tiro, sem caprichar tanto na pontaria. Contou-se depois – não se tem certeza -, de que havia muito, muito, muito rum a bordo e acertaram adequadamente com esta feita o grande mastro da caravela que balançou feio e fez um pouco de água. Isto feito, obrigou aos da caravela de cruzes e credos, a responder imediatamente com igual e certeiro canhonaço. Bem no meio do batel, que jogou horrivelmente e fez despencar a bandeira encimada com a caveira negra, que até então, tremulara livre pelos muitos e corsários oceanos. Ambos somaram-se às águas e ao fundo ao mesmo tempo -, sem que daquela vez, Coroa ou bucaneiros obtivessem lucros. Debitou-se mais tarde a esta pequena tragédia, como perdas normais e adquiridas ao excesso de zelo na hora dos tirambaços, aos que se sujeitam aos pequenos deslizes, estando a tomar muito rum e a navegar. Pois!

 

 

de josé luis mendes

BRASIL um poema em homenagem – de rosa cecília abril guzmán

Cómo no saberte, Brasil:
canela, galolopante,
alta en tus cortinas.

Sé, que eres potranca mágica,
de cadera bamboleante
y falda enorme.
Sé, de tus cejas morenas
y de tus sesgos albos.

Te conozco, por tus colores
de lentejuela y zamba,
tus sensuales luciérnagas
y tu danzante noche.

Sé, lo de: (exacta a hada),
tu enagua dulce
y tus simbreantes senos.

¡Cómo, no saberte, con tu vestido
de inquieto canario
y esbelta gacela!

Punto, y aparte.
No sé, de tus tardes.
¿Son tus tardes de acuerela y espuma?
¿Cierto, que tu crepúsculo es de beso?

Brasil: en tu coreografía de lirio y garza
tienes al mundo, y desnudo lo acunas,
tienes cuánta luna y un cántaro eterno.

Sé, de tu viento lila.
Sé, que tienes piel de lluvia.