O BURGOMESTRE e TESOUROS AO MAR – dois mini contos de raimundo rolim

O Burgomestre

 

Sentado à mesa, o prefeito era um tipo de coronel forjado nas mais renhidas intransigências. O pároco local pouco ou quase nada conseguia com o mesmo, ainda que vez por outra o ameaçasse com o inferno, a caldeirinha, o purgatório e afins. Em suma: para o prefeito, o pároco correspondia à sua divina tortura aqui na terra. Amiúde, este invocava e demitia o demônio e com ele não tinha esse negócio de pedir licença. E pra não perder o costume, chapéu na mão, atiçava o coronel-prefeito para que doasse algum, pois o mesmo já havia passado por vários mandatos e gestões políticas mal explicadas e nada da igrejinha ficar pronta. O prefeito-coronel, olhos semicerrados, sonolento, mãos enfiadas por dentro das calças, barriga volumosíssima de cachaça e arrumadinhos e buchadas de bode, solicitara veemente à sua ajudante que trouxesse água gelada pra ele e o padre – (era o tempo de que precisava pra dar uma pensadinha) -. O calor era grande e o tempo abafado pra chover. A mocinha, hum, que o coronel empregava para pequenos servicinhos, hum, (de bundinha arrebitada e sainha curta), ficava naquelas andanças pra lá e pra cá pelos cômodos da casa do senhor coronel-prefeito e acabava por arrastar também os olhos do padre que se remexia na cadeira sentindo certo tipo de desconforto interior. Aquele ir e vir da serviçalzinha interrompia a todo o momento o lascado do coronel que esquecia daquele negócio que tava conversando com o diabo do padre e pra compensar, soltava esses grunhidinhos, esses ‘huns’! E a mocinha que era prima de um conhecido que devia favores ao prefeito-coronel – e esse cabra devedor de favores, tinha lá uma encrenca antiga de pistolagens -. Boato, muito boato, pois a coisa iria muito longe se começassem a investigar. Então, como paga, arrumou essa prima pra dar uma mãozinha nas coisinhas que o coronel precisasse. E pra mal dos pecados, nesse ir e vir, a dondoquinha do coronel deu uma escorregadela e quase caiu quando a saia justa e curta demais lhe subiu até as ancas e a calcinha de algodão alva e cavadinha que devia estar ali, encaixadinha, não apareceu. O padre ficou vermelho e o prefeito pigarreou grosso e curto que era pra mostrar autoridade também, ainda que excomungado fosse. Aproveitando-se da oportunidade, o padre esbravejou ameaçador que se não saísse a verba desta vez, relataria ao povo na missa do domingo, tim tim por tim tim, o que andava acontecendo na sala de sua excelência. O prefeito levantou-se de um salto, talão de cheques na mão. E tascou feio: – Não meu padim, meu padroeiro, diga nada não! Vou erguer esse diabo de capela já. E numa última tentativa de demover o padre das suas intenções, confidenciou-lhe que faria também uma capela na sede da prefeitura, e que ele, o padre, fosse lá confessá-lo, pois não poderia perder tempo indo à missa, já que tinha sempre muito trabalho a fazer, muito trabalho. Aquelas obras contra a seca eram intermináveis e tomava-lhe todo o tempo disponível e era por isso que precisava da ajudazinha daquela mocinha ali, nos servicinhos de uma aguinha aqui, outra coisinha ali e tal, e por fim deixou escapar sonoro “hum” absolutamente cheio de excitação ! O padre fechou os olhos, fez o sinal da cruz, espargiu uma água benta imaginária no recinto, disse algumas palavras em latim e mostrou ao coronel com o dedo indicador em riste, o exato lugar que correspondia geograficamente onde ficava a igrejinha. E saiu rezando uma Salve Rainha, Mãe de Misericórdia.  

 

               

 

                Tesouros ao mar

 

Os piratas estavam prontos e ávidos para atacar e saquear. Canhões apontados de miras certeiras para a caravela que lhes aparecera na linha do horizonte, por detrás de ondas bravias e que achava-se carregada de ouro e comida e mulheres pegas à força, que seriam levadas como suvenir das terras novas à presença de El Rei. O capitão dos piratas, o Bucaneiro-Mór, cabelos revoltos, olhos vermelhos de rum, ousadia e água salgada, estava entregue à faina da ambição, e o mar não lhe dera tréguas por muitas noites e dias. A tormenta desdenhava o pequeno batel de bandeira negra encimada por uma caveira e o impelia irremediável de encontro ao mar alto e encapelado. Os piratas (que não se sabe o porquê, eram lusitanos), empunharam com a ferocidade dos bravos as suas espadas e o mar se agitou ainda mais, muito mais que na antevéspera, pois sabia muito bem, o mar, que iria conhecer a um dos saques mais bem feitos e espetaculares de que se teria notícias. A um sinal do capitão, o canhão deu o primeiro tiro de advertência para que a caravela que lhe vinha a estibordo com brancas velas enfunadas e cruzes e credos, lançasse âncoras e se rendesse incondicionalmente. Os bravos da outra caravela (que também eram lusitanos – senão provavelmente seria um Galeão) ungiam-se de mesmo e igual afã para a peleja, já que havia um grande prêmio instituído pela Coroa para quem levasse piratas vivos e mortos. Os de bandeira negra desconheciam o tal decreto, pois que há muito andavam a navegar, pois que navegar era mais preciso que estar ao mar e trataram logo de dar um segundo tiro, sem caprichar tanto na pontaria. Contou-se depois – não se tem certeza -, de que havia muito, muito, muito rum a bordo e acertaram adequadamente com esta feita o grande mastro da caravela que balançou feio e fez um pouco de água. Isto feito, obrigou aos da caravela de cruzes e credos, a responder imediatamente com igual e certeiro canhonaço. Bem no meio do batel, que jogou horrivelmente e fez despencar a bandeira encimada com a caveira negra, que até então, tremulara livre pelos muitos e corsários oceanos. Ambos somaram-se às águas e ao fundo ao mesmo tempo -, sem que daquela vez, Coroa ou bucaneiros obtivessem lucros. Debitou-se mais tarde a esta pequena tragédia, como perdas normais e adquiridas ao excesso de zelo na hora dos tirambaços, aos que se sujeitam aos pequenos deslizes, estando a tomar muito rum e a navegar. Pois!

 

 

de josé luis mendes

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