UM EMAIL e UMA REVELAÇÃO – por ricardo boessio dos santos

“Meu nome é Fulano (vou preservar o nome do ‘artista’) e vou estar fazendo Engenharia da Computação neste ano então dicidi perguntá como é. Lhi que é um curso legau i da p/ ganhar uma grana. Cerá que preciza ler muito livros? Agente vamos mexer c/ games?”

Esse foi o e-mail que recebi de um futuro universitário.

Antes de qualquer coisa vamos a alguns esclarecimentos: não sou revisor de texto, não sou Pasquale Cipro Neto, nem tenho a pretensão de ser e, principalmente, sei que meu português não é dos melhores. Cometo erros crassos a torto e a direito. Alguns erros por descuido ao revisar um texto ou por simplesmente esquecimento de fazer a revisão, outros tantos por pura ignorância mesmo.

Em suma, não sou perito na nossa língua, porém não posso deixar passar um e-mail desta magnitude vindo de um futuro universitário.

Eu gostaria muito de entender porque se “está fazendo” um uso do gerúndio desta forma hoje em dia. Claro que é um reflexo da tentativa de se falar (ou escrever) “bonito” que acaba por levar a este tipo de equivoco que está cada vez mais recorrente.

O difícil para eu entender é que esta prática de “gerundiar” foi tão difundida, considerando que temos (todos os seres humanos) o costume de abreviar palavras, diminuí-las para facilitar nossa comunicação no dia-a-dia. E isso não é coisa nova, de gerações atuais.

Veja um simples exemplo que é a palavra “Circo”, que veio de “Circlo”, que por sua vez derivou de “Círculo”. Fomos abreviando até chegar em “Circo”. Outro exemplo é “você”, que derivou de “vossa mercê”. O curioso, pelo menos para mim, é este caso do gerúndio. Simplesmente porque ocorre o inverso, acabamos por aumentar a frase para tentar torná-la “erudita”, “culta” ou mais bela.

“… vou esta fazendo”? “Farei” não seria mais simples, mais fácil, além de ser correto? Você elimina o uso indiscriminado de três verbos por um único verbo. Fora o fato de o universitário ter engolido um erre em “esta”.

Pularei o “dicidi perguntá”. Não “mereci comentá”. Tão pouco comentarei a falta que faz um simples virgula em uma frase.

O segundo parágrafo, confesso, foi uma incógnita por um bom tempo para mim. Ficava me indagando sobre o que ele queria dizer. Comecei a duvidar da minha capacidade de abstração e adivinhação até que a luz se fez e consegui decifrar a afirmação. O universitário, futuro do país, disse que leu em algum lugar que o curso é legal. Ele precisava “lher um polco” mais para “estar se fazendo” entender.

Ignorarei a ortografia (cerá, preciza e muito livros é de doer) da pergunta seguinte. Assim como ignorarei o “agente vamos” que veio a seguir.

… Ok! Não resisto a pelo menos um comentário: vocês não acham fácil perceber a preocupação do rapaz com a possibilidade de ter que ler livros (que coisa mais horrível!)?

Em um primeiro momento eu ri da mensagem, mas logo em seguida o riso deu lugar à preocupação. É preocupante ler algo dessa natureza partindo de um universitário.

Vou repetir, ou melhor, esclarecer bem que não sou um erudito na língua portuguesa (que, aliás, acho que deveria ser chamada de língua brasileira, dadas as diferenças que já existem, mas não é uma discussão que caiba neste momento), não acho que todos devam escrever sob a mais rígida regra, nem que devam escrever palavras “difíceis”, porém um universitário não pode escrever desta forma.

Tem uma coisa que eu aprendi e me ajudou muito a entender algumas coisas. É ser curioso como uma criança. Se você diz algo a uma criança, fatalmente ela devolverá com uma pergunta: por quê?

A criança é um ser em formação que tem curiosidade sobre tudo (reparem que um bebê normalmente arregala os olhos e olha bastante para tudo a sua volta) e não aceita qualquer coisa que tentam empurrar-lhe goela a baixo. Ela quer saber o porquê disso.

É o que eu chamo de “brincadeira do por quê” e me ajuda a não aceitar uma observação somente ou uma resposta simples.

Como diria um conhecido: sim, e daí?

E daí que a observação que fiz sobre o e-mail muitos já devem ter feito, outros tantos já devem ter recebido um e-mail semelhante e alguns partiam de universitários. É neste momento que entra a “brincadeira”. Por que isto tem sido tão comum? Por que alguém que escreve “preciza” conseguiu passar incólume pelos ensinos básico e médio?

Uma resposta: o que importa no ensino público, hoje em dia, são os números, as estatísticas para os políticos usarem ao seu favor nas eleições.

Paga-se uma miséria ao profissional mais importante de qualquer país, o professor, e contrata-se profissionais desqualificados para ensinar os estudantes. Os melhores professores acabam em escolas particulares e acabam restando alguns profissionais completamente despreparados no ensino público. Sim, é lógico que existem exceções, mas elas são, como já disse, exceções.

Para completar enchem-se as salas de crianças para que virem números para uso político e acaba por não haver professor, qualificado ou não, que dê conta de ensinar qualquer coisa em um ambiente destes.

É só isso (como se fosse pouco)?

Não.

Ao mesmo tempo criam-se pessoas que não conseguem se expressar, que têm verdadeiras ojerizas aos livros (tudo o que o ser humano não consegue entender, ele abomina), que aprendem mal e porcamente a montar palavras (“b com a = ba”, “b com e = be”…), mas não conseguem montar frases inteligíveis. Podem ser simples, mas que sejam pelo menos inteligíveis.

Por quê?

Desta forma não vão ler, nem falar, ou seja, não conseguirão se expressar. Cala-se o povo dentro da sua própria ignorância estabelecida.

Por quê?

Para continuar a achar que política não é interessante, que é coisa chata. Como se tudo o que acontece a sua volta não envolvesse política.

Por quê?

Enquanto o povo (quando falo “povo” estou me referindo à maioria, não a todos) se distancia da política por achá-la chata e desinteressante, os políticos corruptos e manipuladores (claro, não são todos) podem fazer o que bem entenderem. Estou falando de políticos de todos os âmbitos, federal, estadual ou municipal.

Por quê?

“Cerá” que eu “precizo” responder esta?

“A mídia deveria denunciar isto e cobrar dos governos melhoras”, poderia bradar o incauto. E a mídia não denuncia.

Por quê?

Para poder continuar a empurrar jornais, revistas e programas de televisão de qualidade duvidosa.

Por quê?

Como diria o imperador (sempre confundo se quem criou a política foi Otávio Augusto ou Tibério, porém foi um imperador romano): Panis et circenses. E para o povo: Pão e Circo. Vamos distraí-los para continuarem a não perceber o que acontece a sua volta.

Agora eu é que pergunto: até quando?

Como diz a letra da música do Gabriel, o Pensador, até quando você vai levando porrada? Até quando vai ficar aí sem fazer nada? Até quando você vai ser saco de dar pancada?

PS1: até hoje quando recebia os e-mails do tipo “Pérolas do ENEM” (o Exame Nacional do Ensino Médio), em alguns eu até acreditava, mas tinha outros que eu cheguei a duvidar que fosse verdade. Imaginava que não poderia haver uma situação tão esdrúxula quanto aquelas descritas nos e-mails. Agora eu acredito em todos!

PS2: um exemplo de como eu não escrevo bem vocês podem encontrar no uso incorreto que faço do “porque”. Nunca sei quando se deve usar por que, porque, porquê ou por quê.

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