Arquivos Diários: 19 junho, 2008

A INSTRUÇÃO dos AMANTES e FAZES-ME FALTA de INÊS PEDROSA/PORTUGAL – por helena sut

“Não se consegue amar completamente senão na memória.”
Fazes-me Falta, Inês Pedrosa.

A Instrução dos Amantes, lançado em 1992 em Portugal, é uma obra literária sobre descobertas. O período dos primeiros amores, das decepções, das idealizações. A protagonista Claudia é uma jovem bonita e desejada e namora o líder do grupo de adolescentes, uma relação instituída nas gravidades do poder e que determina os papéis sociais assumidos pelos personagens.

Contudo, Claudia encontra os olhos dourados de Diniz e se apaixona perdidamente no enterro de Mariana, jovem que caiu ou se jogou da varanda. A proximidade das emoções descobertas no auge da vida e na pungência da morte não é uma mera coincidência. Claudia busca o homem de sua vida, Diniz a quer apenas como mais uma amante. Uma relação que irá marcar profundamente todo o grupo e será a primeira e inesquecível cicatriz da mulher.

“Talvez seja ele, ainda, o segredo do riso dela. Não há memória mais terrível do que a da pele; a cabeça pensa que esquece, o coração sente que passou, e a pele arde, invulnerável ao tempo.”

Fazes-me falta, lançado em 2002, é uma narrativa densa em duas perspectivas distintas do mesmo momento. A morte precoce da protagonista descortina a intensa relação entre um homem e uma mulher. No limiar entre a amizade e a paixão, os dois não suportam a separação definitiva e, em paralelos, costuram seus encontros e desencontros, afinidades e divergências, silêncios e desabafos.

Uma história absoluta. Uma jovem professora idealista que se envolve na política em busca da realização do mundo mais justo; um homem maduro que vê o mundo a partir de suas vivências no salazarismo, em Portugal pós-revolução e nas guerras no continente africano. A mulher, marcada por um amor não cicatrizado e por diversas relações interrompidas, morre de repente e condena o homem que passou por alguns casamentos e manteve a sensação de incompletude projetada na ausência de filhos a uma estranha viuvez.

“Demasiado tarde. São estas as palavras mais tristes de qualquer língua.”

Dois seres dissecam os sentimentos humanos entre a vida e a morte. Iluminam as carências que geram a profusão dos sonhos, focalizam as presenças que salientam as conseqüências da morte real e da sobrevida desprovida de desejo.

“Arrumei os amores, é a primeira regra da vida – saber arquivá-los, entendê-los, contá-los, esquecê-los. Mas ninguém nos diz como se sobrevive ao murchar de um sentimento que não murcha. A amizade só se perde por traição – como a pátria. Num campo de batalha, num terreno de operações. Não há explicações para o desaparecimento do desejo, última e única lição do mais extraordinário amor. Mas quando o amor nasce protegido da erosão do corpo, apenas perfume, contorno, coreografado em redor dos arco-íris dessa animada esperança a que chamamos alma – porque se esfuma? Como é que, de um dia para o outro, a tua voz deixou de me procurar, e eu deixei que a minha vida dispensasse o espelho da tua?”

A Instrução dos Amantes e Fazes-me falta são obras da escritora portuguesa Inês Pedrosa, publicadas no intervalo de uma década. Dois grandes romances que mostram o amadurecimento dos personagens em trajetórias humanas intensas e envolvem os leitores nas vivências universais do amor, da amizade, do desamor, do ser no mundo, do mundo em si, do ser…

 

tela de mazé mendes.

CERTEZA poema de marcos fontinelli (black)

quando das trevas
que cobrem esta nação
brotarem as flores
resultantes de metamorfoses
de pranto e sangue
de solidão e desespero
os trovões hão de ecoar
os raios hão de reluzir
e as flores hão de crescer
como mutantes e transformadoras
fazendo com que tudo se torne
um imenso jardim

CIDADE em CRISE por walmor marcellino

Num certo sentido, as coisas estão sempre em crise, porque enfrentando contradições em seu desenvolvimento. Porém cidades como Brasília, Belo Horizonte e Curitiba foram sempre “belacaps”, louvadas e enaltecidas. Assim, o que diabos está acontecendo que pegou de surpresa o desatento?
De repente, a planura curitibana, com dois ou três morrinhos serrinhas que a presunção gramatical elevou a cerros, por causa das brenhas do Barão , chegou a termo de ocupação. Isto é, a cidade bucólica de nossos avoengos tinha trilhas que viraram ruas, caminhos que foram feitos avenidas, e circunspectos cidadãos que se tornaram grileiros e ladrões institucionalizados na prefeitura, na câmara, nos cartórios e no judiciário. Então, íamos como vamos indo assim ao Deus dará.
É uma tragicomédia: a Câmara Municipal tem 25 funcionários de ouro que ganham mais do que o prefeito; e os vereadores também, se quiserem, ganham vários guinéus a mais como “despachantes dos próprios interesses em conluio de malandros contra os cidadãos que pagam impostos e taxas”. Manobrando essa bela locomotiva desgovernada, o doutor-vereador Cláudio Derosso mostra para nós por que a democracia não pode funcionar com a ausência de uma imprensa democrática e popular; afinal essa que conhecemos está associada a toda essa bandalheira, tudo isso, com seus tipologistas entre os que ganham antes e depois do piquenique eleitoral.
Segurança, saúde, habitação, emprego, educação e lazer, é o de minimus que pedem o curitibano e o terráqueo aos céus, como recompensa por sua estada neste vale de lágrimas. Só que o canalha lhe reconhece a necessidade e o direito; o patife faz o discurso da necessidade e do merecimento, e o filho-da-puta afirma que é “seu irmão” e que está aí na mesma batalha.
E como todo mundo diz que ele precisa, que é seu direito e que somos uma fraternidade eleitoral, ele vota em quem arrota alho mais grosso. Nem sabe perguntar qual segurança comunitária, qual plano de saúde, qual preparação e estabilidade no emprego, qual tipo de educação e por que “lazer” (que é proposta de espaço público e programas de atendimento sociocultural) e não apenas “cultura” (que é, hoje, sinônimo apenas do reles mercado). E quem, como vai criar e/ou facilitar tudo isso?
Se ele não sabe e os candidatos elegíveis também não conseguem discernir o ponto de vista do poder, da burocracia, da quadrilha da habitação, da saúde, da educação, da segurança e da cultura numa perspectiva democrática, popular e nacional, como se enfrentará essa crise social, política, urbanística sem o “crivo de Eratóstenes”? Muitos me têm procurado, poucos serão os eleitos. De qualquer forma só conto como se faz se me pagarem o cafezinho.

GIZ RENDADO poema de bárbara lia

O que a onda diz
ao cão sentado
babando moluscos
e saudades?
Como rasgar a onda
sem cicatrizar em azul?
Beber a ardência seminal
de amantes afogados
como quem engole
segredos guardados
entre debruns
de ondas
em seu giz rendado.

TROVINHAS e TROVÕES na terceira idade – de josé zokner (juca)

Curtir a Terceira Idade
Exige sabedoria,
Doses de serenidade
E razoável alegria.

Dessa maneira é possível
Viver com intensidade
Cada momento passível
De rara felicidade.

Mas, nesta Terceira Idade
– E quase sempre há um mas –
Ocorre contrariedade
O que, realmente, não apraz.

Exemplos dá pra citar.
São muitos em profusão.
Pretendo, aqui, relatar
Os que me trazem aflição.

Quando tentei me empregar,
Ouvi desculpa qualquer.
Aquela vaga a ocupar
Não se fazia mister.

Obter emprego, hoje em dia ?
Está escasso pra caramba.
Menos pra quem negocia
No mercado da muamba.

Será a globalização
A mais culpada de tudo,
Que deixa o pobre “povão”
Sofrendo dum mal agudo ?

Retorno a minha desdita,
Vou a história prosseguir,
Não deixando gente aflita
Eu parando de seguir.

Esqueço sempre onde deixei
O meu carro estacionado.
O meu cérebro embotei ?
Me pergunto apavorado.

No banco, a morosa fila
Do meu i, ene, esse, esse
Resulta numa quizila,
Fruto dum enorme estresse.

Lá procuro, com ansiedade,
Como alcançar o banheiro
Naquela eventualidade
Dum imprevisto traiçoeiro.

Meus óculos eu procuro.
Nenhum canto já não resta!
Estou ficando casmurro:
Não é que estavam na testa ?

Troco nomes das pessoas,
Cometendo muitos lapsos.
Não se pode cantar loas
Com tais tipos de colapsos.

Quero mostrar competência
E chegar às conclusivas:
Sobrevém a desistência,
Depois de três tentativas.

Não posso fazer mais isso,
Não posso fazer aquilo.
No cômputo total disso,
Resta saudade daquilo…

Enfermidade tratada,
Por melhor que tenha sido,
Deixa a gente amedrontada
E o médico enriquecido.

Tomo chuveiro sentado,
Difícil ser de outro jeito.
Fica tudo bem lavado,
Incluso costas e peito.

À jovem, chamo guria;
Pra gata, digo brotinho;
Tia, só mesmo pra tia.
Pareço falar sozinho.

Visto só boné de orelha
Pra me proteger do frio
O pessoal me olha de esguelha
Meu gosto, meu alvedrio.

Barriguinha virou charme;
Cabelos brancos, também.
Contudo, soa o alarme:
“Ali vai Matusalém”.

Tomo dois medicamentos,
Sempre depois de comer
Para evitar sofrimentos
E, assim, me fortalecer.

Quase sempre me emociono,
Até por qualquer besteira,
Como se fosse patrono
De famosa carpideira.

Cochilo no noticiário
E desperto assaz ansioso.
É realmente necessário
Aquele caso escabroso ?

Me inteiro de religião,
De que eu nunca quis saber.
Pelo sim, ou pelo não
Preciso me precaver.

Abordo minha vizinha,
Que me dá a contestação,
Após minha ladainha:
“E os seus netos como vão ?”

Quero ter vitalidade:
Caminho desatinado.
Refreio a velocidade:
Fico, de cara, esfalfado.

Falo – só – gesticulando.
E se me chamam a atenção
Digo que estava treinando
A letra duma canção.

Em um astral elegíaco,
Procuro me interessar
Por qualquer afrodisíaco,
Que digo não precisar.

Na escola de natação
A professora é querida.
Mas na piscina um senão:
Parece só ter subida.

Ganhei uma boa dica
Para usar lente de aumento
Já que todo texto fica,
Numa leitura, um tormento.

Quando na provecta idade,
Centenas ficam azedos.
Pensar nessa atrocidade
Me leva a ter muitos medos.

Receio ser apodado
De longevo, de caquético,
“Por fora”, ultrapassado
E, até, de velho patético.

Perda de musculatura
Redunda numa constante
Que molda a minha figura
De modo deselegante.

Lembro uma verde azeitona
Com palitos espetados.
Me refiro à “barrigona”,
Pernas e pés afinados.

Rememoro com amigos,
Em sessão de nostalgia,
De um rol de causos antigos
Que o pessoal já conhecia.

Reitero que o carnaval,
Naqueles tempos bem idos,
Não era tão artificial,
Com bailes mais divertidos.

Defensor dos argumentos,
Com certo calor vetusto,
Na discussão, por momentos,
Sou acusado de injusto.

Depois das contrariedades,
Passamos a outra questão:
Os de elevadas idades
O que possuem de bom ?

Encantos, em quantidade,
É válido não esquecer,
Gente com maturidade
Tem um mundo a oferecer.

Um deles, a tolerância;
A paciência, também é;
Não apelar pra ignorância;
Não se meter em banzé.

Brincar com os netos levados
E clamar com convicção:
“São filhos açucarados
Nessa Idade da Razão”.

Desfrutar samba e chorinho,
Talento tupiniquim.
Num volume bem baixinho;
Jamais um “rock” chinfrim.

Não precisar de conselho,
Nem óculos pras leituras,
Nunca meter o bedelho,
A fim de não ter agruras.

Evitar os desperdícios,
Lembrança dos tempos duros.
Eram tantos os suplícios;
Eram tantos os apuros…

Aqui deixo minha homenagem
Ao idoso – tão benquisto –
Essa grande personagem
Me incluo, pois não resisto.

Também à minha companheira,
Que já passou dos cinqüenta,
Sensível mulher guerreira
Que nesses anos me agüenta.

Cá termino de trovar,
Feliz e bem-humorado.
Quero a todos desejar:
Saúde e Paz. Obrigado!
E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br