Arquivos Diários: 22 junho, 2008

DE OSTRAS e VINHO carta de ánton passaredo

Caro Vidal,

Cartas são em geral continuadas, por isto escrevo esta terceira carta, ainda que nenhuma resposta tenha recebido do amigo para as duas anteriores. Interessante registrar, recebemos cartas na maioria das vezes de amor ou de parentes distantes, quase nunca de amigos, jamais da amante, quando ela existe.

A carta caiu mesmo em desuso, virou forma decrépita, carregada do estigma de “coisa velha”, “ultrapassada”. Pérfido engano. A causa pode ser atribuída ao agito dos tempos modernos, à rapidez da linguagem onde “não” é “naum”… mas espera, se a linguagem atual é reducionista, por que os jovens substituíram o “não” por uma expressão maior? Vá entender os jovens. Acho ser a razão deles tanto para ser diferente, como para ter língua própria, distante de nós, os antigos, ainda presos a cânones e regras. Pois que seja: ABAIXO ÀS REGRAS!!! Abaixo às normas. Como se fosse fácil para nós, lançarmos o brado e laços fora para tal libertação. Bobagem grossa, senilidade querendo ser rebelde ainda, 40 anos depois de 1968.

A Internet mudou tudo e a todos. Pena que ainda não tenha mudado os políticos, dissimulados como sempre, eternamente oportunistas, que fazem carreirismo, pulando de representatividade para representatividade, desde a liderança estudantil, para o cargo de vereador, numa seqüência até chegar a senador. Mas deixemos os políticos e seus eleitores cativos de lado. Definitivamente sou partidário do voto nulo, até o dia em que houver clima para um levante no rumo da construção de um socialismo, dentro de um governo plural, com representantes populares detentores de único mandato para toda uma vida.

Arghhhhh!!! Meu caro Vidal, cretinice aguda deste seu parceiro de vinhos e ostras. Esqueçamos os políticos por ora, uma vez que logo logo eles irão invadir nossas mídias e nos perturbar por meses seguidos, não nos permitindo olvidá-los.

Escuto Tom Jobim semi-inédito no som do meu Windows Media Player, de agora em diante WMP. Trata-se de uma sinfonia feita para Brasília. Nela existe uma parte que mostra a saga da construção da cidade, desde os primeiros momentos quando o homem descobre a natureza do cerrado e toda a sua variegada compleição. Depois vem outra parte apresentando a chegada dos primeiros candangos. Em seguida, a fase da construção. Para finalizar, a apoteose do realizado. Bonito e pouco divulgado. Desde já está prometida uma cópia do CD. Tom é impressionante mesmo, faz lembrar outros grandes maestros que fizeram a mixagem do clássico com o popular, como Bernstein e George Gershwin. Não saberia dizer dos outros, mas o que Tom Jobim é para nós mostra como é fantástica esta aproximação do clássico ao gosto do popular.

Queria ainda falar de ontem, quando estivemos juntos na última barraca da Feira do Litoral, ali na esquina da Praça do Homem Nu com a antiga zona do Baixo Meretrício de Curitiba, a Rua Riachuelo. Cheguei ali num táxi. Antes tinha ido ao mercado, dele até em casa, depois em direção ao nosso encontro. Neste trajeto um tanto longo pude saber que o taxista era de Caruaru, em Pernambuco, terra que briga com Campina Grande para ser reconhecida como a capital brasileira do forró. Pois o pernambucano, ao estilo dos curitibanos, em certo momento “lascou” a pergunta tão comum entre os nativos daqui.

__ “O Senhor não é daqui, não é mesmo?

Antes de responder, perguntei qual o porquê da pergunta. E ele:

__ É porque nunca vi alguém de Curitiba ir a um encontro levando uma garrafa de vinho aberta e duas taças. Isto não é coisa da gente daqui, só pode ser mesmo de pessoa de fora. O povo aqui é muito fechado e recatado, os gestos deles são mais discretos.

Pois foi assim, com a garrafa de vinho e duas taças na mão que cheguei até você, meu Caro Vidal. Devo dizer, um dia depois do nosso encontro, que não sou muito afeto às ostras, nem por carinho pessoal, nem fazem elas parte dos meus mais recônditos desejos gastronômicos. Mas vou ao próximo encontro pretendendo superar a dificuldade. Acredito que, depois de cinco ou seis sábados, serei capaz de sentir algum prazer na degustação dessa iguaria, ainda que seja difícil incluí-las na minha afetividade pessoal. Isto porque não saberia assobiar como o vento praiano, marulhar como as ondas, agitar-me como as marés. Mas a conversa superou minhas expectativas. Nossos entendimentos sobre este “site” fabuloso dos palavreiros vão além dos prazeres das ostras. Estamos cada vez mais afinados e encantados com as possibilidades das novas e velhas linguagens, elas com suas vísceras expostas na página do nosso “blog”. Estou mais do que entusiasmado, estou me sentindo parceiro e autor da idéia.

Aproximando-me do fim desta carta, queria tecer algumas palavras sobre o poema do Fernando Pessoa “Todas as cartas de amor são ridículas”. Maravilha. Espanta-me sua capacidade de garimpagem, Vidal. Incrível como você consegue arrancar dos alfarrábios mais escondidos essas pérolas que não encontramos em nossas ostras degustáveis nas feiras das ex-ruas das putas curitibanas. Pessoa nos surpreende por seu jogo de caminho à frente e para trás. Ora afirmando, ora negando. Ah, quanto mar e navegos precisos e até imprecisos são eternos neste poeta para o qual somos todos órfãos na linguagem e na paisagem. Navegar é preciso, escrever cartas também é preciso, desde Caminha até Vidal.

E sigamos navegando o barco, degustando ostras, ali na Praça do Homem Nu, que também é da Mulher Nua, mas que o povo somente lembra do primeiro, pelo gigantismo do seu membro mais dileto.

Meu Caro Vidal, até sábado que vem, quando nova garrafa de vinho, ostras e conversas beberemos com as taças que lá deixamos para uma nova jornada.

Ánton Passaredo

Curitiba, 15/Junho/2008.

CHINA. foto sem crédito. ilustração do site.

A MEDIOCRACIA BRASILEIRA por rodrigo constantino

“A virtude é uma tensão real em direção ao que se concebe como perfeição ideal.”
José Ingenieros

O ditado popular diz que cada povo tem o governo que merece. Por trás desta crença, está o fato de que os governados são sempre maioria, e os governantes são minoria. Logo, algum tipo de aprovação das massas se faz necessário, já que dificilmente a coerção sozinha seria suficiente para manter um povo inteiro servil. Em outras palavras, a cultura predominante num determinado povo é fundamental para o tipo de governo que ele terá. As instituições são cruciais, mas os pilares que sustentam um governo estarão sempre na mentalidade dominante dos governados. Os políticos acabam sendo um reflexo do povo. Quando este abraça os valores errados, não adianta sonhar com um messias salvador. Os valores é que devem mudar.

Dito isso, podemos entender melhor o lamentável contexto atual do Brasil, onde a insatisfação com a classe política é total por parte dos que ainda alimentam um ideal moral. De fato, o cerne da questão está enraizado em locais mais profundos. Trata-se de um problema estrutural, de um apodrecimento dos próprios valores da sociedade. Não adianta apenas criticar este ou aquele governo, ainda que seja um dever moral de todos os que buscam melhorias apontar qualquer empecilho para a meta. Há, é verdade, um real agravamento do quadro durante a gestão do presidente Lula, pois ocorreu uma total banalização da imoralidade, com os enormes e infindáveis desvios de conduta sendo justificados com base na desculpa esfarrapada de que sempre foi assim. Estamos completamente inseridos numa mediocracia, onde pululam os medíocres e faltam idealistas com a convicção moral de se revoltar contra o “consenso”.

É praticamente impossível ler O Homem Medíocre, de José Ingenieros, e não pensar na situação caótica do nosso país. No livro, o autor descreve as características presentes numa mediocracia, contrapondo isso à visão de um ideal de perfeição por parte de alguns poucos indivíduos de destaque. Ingenieros sustenta que é fundamental manter acesa esta chama de um ideal, uma meta visionária que não sucumbe às contingências da vida prática imediata. Esses visionários buscam alguma perfeição moral, emancipando-se do rebanho. São espíritos livres, adversários da mediocridade, são entusiastas contra a apatia. Sem ideais o progresso seria impossível. O culto ao “homem prático”, com foco apenas no presente imediato, representa a renúncia à evolução.

O idealista é um rebelde em relação ao sentimento coletivista típico dos rebanhos. Ingenieros diz: “Todo individualismo, como atitude, é uma revolta contra os dogmas e os valores falsos respeitados nas mediocracias; revela energias anelosas de expandir-se, contidas por mil obstáculos opostos pelo espírito gregário”. O caráter digno afirma seu ideal frente à mesmice comum, levanta sua voz quando os povos se domesticam e se calam. Um povo que tenta eliminar estes indivíduos independentes é um povo dominado por medíocres. A originalidade é vista como um defeito imperdoável. “Todos os inimigos da diferenciação vêm a sê-lo do progresso”, afirma Ingenieros. Os igualitários coletivistas não suportam que alguém se sobressaia. O sucesso alheio passa a ser uma agressão ao rebanho. “O sentido comum é coletivo, eminentemente retrógrado e dogmatista; o bom sentido é individual, sempre inovador e libertário”, explica o autor. Os adeptos da rotina medíocre são intolerantes com a heterogeneidade, defendem-se de qualquer centelha original como se fossem crimes as diferenças.

De um lado, temos os poucos que pensam por conta própria, que usam o próprio juízo, que buscam sinceramente a verdade. Do outro, temos os seres passivos, que deixam a “sociedade” pensar por eles. São os medíocres, que não têm voz, mas eco, e vivem como sombras. De um lado, indivíduos com convicções que entram como parafusos, gradualmente, mas com firmeza. Do outro, adeptos fanáticos de crenças que entram como pregos, num golpe só. De um lado, os que vivem a própria vida. Do outro, aquele para quem viver é ser arrastado pelas idéias alheias. O que Ayn Rand chamou de “segunda mão”, figuras inexpressivas que vivem pelos outros, ao contrário de John Galt, adepto da seguinte máxima: “Juro – por minha vida e por meu amor a ela – que jamais viverei por outro homem, nem pedirei a outro homem que viva por mim”. São poucos os que carregam dentro de si integridade e personalidade para tanto. A maioria é composta por homens sem personalidade, moldados pelo meio, seguindo um curso determinado por outros, como bóias à deriva. Os medíocres inventaram “o inconcebível plural da honra e da dignidade, por definição singulares e inflexíveis”, como lembra Ingenieros.

O homem medíocre vive em função da opinião dos outros. Enquanto poucos desfrutam de uma mente inovadora, uma imaginação criadora, o medíocre “aspira a confundir-se naqueles que o rodeiam”. O homem que resolve pensar pela própria cabeça representa uma ameaça aos medíocres, um perigo que deve ser afastado. Os medíocres são animais domesticados, adaptados para viver em rebanho, sombras da sociedade. Unidos, são perigosos. A força da quantidade supre a debilidade individual. Quando esta força consegue ofuscar os idealistas, o resultado pode ser catastrófico. A mediocracia é inimiga do progresso. E quando os medíocres tomam conhecimento de seu poder, corremos o risco da vulgaridade.

“A vulgaridade é uma acentuação dos estigmas comuns a todo ser gregário; apenas floresce quando as sociedades se desequilibram em desfavor do idealismo”, diz Ingenieros. Para ele, a vulgaridade é “a renúncia ao pudor daquele que carece de nobreza”. Os seres vulgares se unem através de uma complacência servil ou uma bajulação proveitosa. São dissimulados, falsos, hipócritas e vaidosos. “A vaidade empurra o homem vulgar a perseguir um emprego respeitável na administração do Estado, indignamente, se é necessário”. O hipócrita declara as crenças mais proveitosas, ignorando qualquer aspecto moral. “O hipócrita transforma sua vida inteira em uma mentira metodicamente organizada”. Vive um culto às aparências, sem ligar para a verdade. Tudo que lhe importa é parecer virtuoso, sem nutrir qualquer admiração real pela virtude em si. São oportunistas, e entre os homens vulgares, existe cumplicidade do vício ou da intriga, mas nunca amizades verdadeiras.

Quando estes dominam, temos uma mediocracia. “Nos povos domesticados chega um momento no qual a virtude parece um ultraje aos costumes”. Quem consegue ler isso e não refletir sobre a realidade brasileira? “Quando a dignidade parece absurda e é coberta de ridículo, a domesticação dos medíocres alcançou seus extremos”. No Brasil, não é visto como patética a defesa intransigente por ideais morais? O “jeitinho” não faz parte da cultura nacional? A corrupção política não passou a ser vista com naturalidade? Aquele que ousa desafiar a “opinião pública” não é execrado por todos? A população não parece acovardada, escrava da opinião alheia? O mérito individual não cedeu lugar ao conceito de “igualdade dos resultados”? As trocas de favores políticos não substituíram a responsabilidade individual de sustento próprio? “Esse afã de viver às expensas do Estado rebaixa a dignidade”. O parasitismo – viver à custa dos outros na marra – não passou a ser encarado como uma espécie de “direito civil”? O culto à inveja, tentando rebaixar aqueles que conquistam vôos mais elevados, não se transformou em bandeira política?

Na mediocracia, “todos se apinham em torno do manto oficial para alcançar alguma migalha da merenda”. E no Brasil das esmolas estatais, dos vastos subsídios para grandes empresas, das anistias milionárias para intelectuais, do financiamento estatal bilionário para ONGs, o clima predominante não é exatamente este? Não estão todos se vendendo em troca de “migalhas”? “As artes tornam-se indústrias patrocinadas pelo Estado”. E esse não é o país dos filmes bancados por verbas estatais, fazendo proselitismo para agradar a mão que os alimenta? “Tudo mente com a anuência de todos; cada homem põe preço à sua cumplicidade, um preço razoável que oscila entre um emprego e uma condecoração”. E não é este o país dos cabides de emprego nas estatais, dos milhares de cargos públicos apontados pelo governo para aparelhar a máquina com os aliados partidários? “O nível dos governantes baixa até o ponto zero; a mediocracia é uma confabulação dos zeros contra as unidades”. E não seria este o país que tem Lula como presidente, enaltecendo sua ignorância como se esta fosse motivo de orgulho? Não é este o país onde o presidente beija a mão de caudilhos e ri, enquanto avisa que se trata de uma aula sobre política?

“Os governantes não criam tal estado de coisas e de espírito: representam-nos”. Ingenieros concorda com a premissa do primeiro parágrafo: o problema está na cultura, na mentalidade, na covardia dos que fugiram da luta. “Quando as misérias morais assolam um país, culpa é de todos os que por falta de cultura e de ideal não souberam amá-lo como pátria: de todos os que viveram dela sem trabalhar por ela”. Não é esse o país onde as pessoas se consideram espertas por burlar as regras e passar os outros para trás? “A irresponsabilidade coletiva borra a cota individual do erro: ninguém enrubesce quando todas as faces podem reclamar sua parte na vergonha comum”. E o Brasil não é campeão na arte de apontar a sujeira dos outros como justificativa para a própria?

Podemos entender melhor agora porque o Brasil deve ser caracterizado como uma mediocracia. Aqui, os medíocres roubaram a cena, e foram eficazes em cortar as asas dos que pretendem um vôo solo. O coletivismo matou o individualismo meritocrático. Ingenieros condena abertamente o igualitarismo: “A natureza se opõe a toda nivelação, vendo na igualdade a morte; as sociedades humanas, para seu progresso moral e estrutural, necessitam do gênio mais do que do imbecil e do talento mais do que da mediocridade”. E continua: “Nossa espécie saiu das precedentes como resultado da seleção natural; apenas há evolução onde podem selecionar-se as variações dos indivíduos. Igualar todos os homens seria negar o progresso da espécie humana. Negar a civilização mesma”.

O antídoto contra este mal igualitário é a tolerância pelas diferenças, a admiração em vez da inveja pelo sucesso alheio. “Um regime em que o mérito individual fosse estimado por sobre todas as coisas, seria perfeito”. A sociedade inteira teria a ganhar com essa seleção natural. Este mecanismo se opõe à democracia quantitativa, “que busca a justiça na igualdade, afirmando o privilégio em favor do mérito”. Onde está a justiça quando dois lobos e uma ovelha votam o que ter para jantar? E também se opõe à aristocracia oligárquica, “que assenta o privilégio nos interesses criados”. Para Ingenieros, “a aristocracia do mérito é o regime ideal, frente às duas mediocracias que ensombram a história”. Os seres humanos não são iguais. Logo, a justiça não pode estar na igualdade dos homens, meta inclusive impossível, já que felizmente não somos cupins. A única igualdade válida – aquela sob as leis – levará inevitavelmente às desigualdades dos resultados. Somente sociedades que souberam respeitar isso prosperaram. Aquelas onde a inveja falou mais alto, onde o igualitarismo dos medíocres prevaleceu, foram apenas mediocracias decadentes.

O Brasil precisa escolher qual rumo pretende seguir. Para optar pelo progresso, será preciso abraçar os valores morais adequados, o ideal de perfeição, o respeito pelo mérito dos indivíduos que possuem luz própria e desafiam a mediocridade, alçando vôos mais elevados enquanto muitos rastejam. Ou isso, ou a tirania dos medíocres: a mediocracia, onde o lodo impede que qualquer um avance mais rápido, matando junto qualquer possibilidade de progresso.

tela de áttila wenserski.

Rumorejando (Com a primeira vitória do Paraná, depois de dois meses de competição, na Segundona, vibrando). – por josé zokner (juca)

Constatação I

É comum acontecer no futebol que um time ataca todo o tempo, mas não conseguir fazer o colimado e tão almejado gol. E, pior ainda, acaba levando um gol do adversário que foi atacado todo o tempo. Os locutores esportivos usam a expressão: “Quem não faz, leva”. Já com relação aos deputados e senadores a expressão absolutamente não é válida. Em certos países – na maioria deles – eles não fazem e levam. Uma nota elevada…

Constatação II (Isso, quando deixam o entrevistado falar).

Duas emissoras no nosso país se caracterizam por informações 24 horas por dia e também de entrevistas. São a CBN, da Rede Globo, e a Band News, do grupo da Rede Bandeirantes. Muitos dos seus entrevistadores misturam as estações, quer dizer o tratamento. O entrevistador se dirige ao entrevistado como o senhor ou a senhora. E lá pelas tantas: “Eu te pergunto”, ao invés de “Eu lhe pergunto”. Péssimos exemplos para os ouvintes e crime contra o pobre, sofrido e indefeso vernáculo.

Constatação III

Rico assoma; pobre, invade.

Constatação IV (Quadrinha endereçada a quem de direito).

Falam mal do meu Paraná

É tudo puro despeito

Melhor que ele não há.

Por favor, mais respeito!

Constatação V

Rico se apaixona; pobre, se acostuma.

Constatação VI

Não se pode confundir requintada com requentada, até porque uma comida requintada se for requentada deixa de ser requintada. A mesma coisa acontece na política: todo governante que realizou uma razoável administração e é reeleito é comparado com uma bebida requentada já que no segundo mandato deixa de fazer uma administração requintada, como alguns julgam e apregoam que ele fez no primeiro. Tanto que tornam a votar no infeliz, digo em quem nos deixa infeliz. A recíproca não é necessariamente verdadeira. Se num relacionamento o cidadão dá uma requentada na mulher, que andava meio fria, através de uma viagem para uma praia deserta, daquela que dá pra ficar pelado sem que ninguém veja, ou onde se pratica o naturismo, fatalmente deverá advir uma reciclagem no envolvimento, tornando a relação, se não requintada, ao menos factível, exeqüível, possível, praticável, realizável. Para quem não tá lá essas coisas nas finanças um motel daqueles que, quer se queira ou não, tudo induz a um final feliz poderá ajudar a se obter o desiderato almejado e a gente poderá cantar o epinício* do dever cumprido…

*Epinício = “hino triunfal; poema ou cântico feito para comemorar uma vitória ou qualquer obra em que se manifesta o regozijo por um acontecimento”. (Houaiss).

Constatação VII

Rico fica inadimplente; pobre vai pro Seproc.

Constatação VIII

Candidato rico pratica a “captação ilícita de sufrágio”, mais conhecido por compra de votos; candidato pobre tá ferrado.

Constatação IX

Deu na mídia após o feriadão de 15 de novembro de 2007: “Estradas paulistas têm menos mortes, diz PM. Durante os quatro dias de feriado prolongado, São Paulo registra 976 acidentes, com 36 mortos e 539 feridos”. Com esse número de mortes e feridos, lamentáveis, fica evidenciado, através da Teoria da Relatividade para principiantes que a irresponsabilidade dos motoristas, principal causa dos acidentes nas estradas, continua vigindo. Tava na hora de tirar a carteira de Habilitação de muita gente, proibindo que voltem a dirigir, como a nova Lei que acabou de ser implantada.

Constatação X (Dúvida não necessariamente crucial, via pseudo-haicai).

Foi a barata

Que disse pro barato:

“Aqui, você é persona non grata”?

Constatação XI

O lucro do banqueiro é diretamente proporcional à tarifa dos bancos e também diretamente proporcional às filas dos usuários porque eles não contratam funcionários. Portanto, inversamente proporcional ao número de atendentes e caixas. E viva “nóis”, quer dizer, eles, os banqueiros…

Constatação XII (De informações úteis).

Aviso aos tomadores de chimarrão: Na feira de produtos orgânicos, que se realiza também aos sábados, no Passeio Público, cá em Curitiba, é possível encontrar erva-mate cultivada em sistema agro florestal. Não vem com mistura, não tem pó que entope a bomba, enfim é farinha, digo, erva de outro saco. Respeitosamente recomendo. E, claro, outros produtos desse jaez também.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

lençol para tímidos. ilustração do site.

RETRATOS por zuleika dos reis

Para Maria Helena Mageste

 

 

 

Olhos negros, amendoados, olhar esvoaçando de um lado a outro no vagão do metrô, observando este e aquele passageiro nos assentos, cada qual a ver imagens invisíveis para todos os demais. Olhar de cinco, seis anos, em certo momento pousa no meu, que lhe abre um sorriso. Não se detém e busca, na extremidade oposta, a figura de outra menina, minúscula, que berra pela palmada da mãe, de quem acabou de puxar o cabelo.

Nariz levemente arrebitado no rosto infantil que se alarga, narinas farejando, talvez, algum castelo de chocolate oculto nas dobras do paletó do pai: – Você vai levar um tombo já já se não parar quieta. Sai de perto da porta. Narinas que, numa das perambulações, novamente se aproximam de mim, com este cheiro adulto impossível de disfarçar, e rápido se afastam, cãozinho cujo faro se enganou.

Ela ri de tudo e de nada, riso ainda cheirando a leite a iluminar-lhe o rosto, a saborear o gosto ainda cheirando a leite das coisas do mundo.

Posso apenas pressupor a delicada tessitura das orelhas. Gostaria de capturá-la de passagem, com a fala inicial de algum conto que a encantasse, mas onde as palavras antigas? “Mãiê, grita o velho papagaio, que jamais esquece o vocábulo da infância. Ninguém responde, o nome virou ruído.”

Cabelos de um castanho profundo espalhados como vento acolhem os passageiros que entram no vagão. “Os olhos iam se fechando enquanto o caçador salvava Chapeuzinho Vermelho e a vovó, e era eu que me aconchegava em teu colo, como se fosses tu a minha mãe.”

O corpo rechonchudo, ágil, rompe ininterrupto a imobilidade e o silêncio necessário aos adultos assentados. O universo se resume ao vagão, mas não há ninguém com quem brincar a não ser a menininha da palmada, que dormiu. “Tinhas seis anos na derradeira fantasia, de cigana, enquanto o retrato vai completar dez daqui a um mês, também em pleno carnaval.”

A criança se aquieta de repente, recolhe-se, fica acariciando a barba cerrada do pai que, enfim, segura sua borboleta nas mãos. “Quando abri a janela daquela manhã e toquei de leve suas asas azuis, molhadas de orvalho, elas não se mexeram. Não voaram. Nunca mais.”

Chego a minha estação. Ergo-me e olho, pela última vez, a menina do metrô. Daqui a uns cinqüenta anos, uma mulher jovem revê imagens antigas. De repente, a garotinha de olhos amendoados, negros, aponta: “– Esta é a vovó, querida, quando tinha a idade que você tem agora.”

escultura de olavo tenório.