DE OSTRAS e VINHO carta de ánton passaredo

Caro Vidal,

Cartas são em geral continuadas, por isto escrevo esta terceira carta, ainda que nenhuma resposta tenha recebido do amigo para as duas anteriores. Interessante registrar, recebemos cartas na maioria das vezes de amor ou de parentes distantes, quase nunca de amigos, jamais da amante, quando ela existe.

A carta caiu mesmo em desuso, virou forma decrépita, carregada do estigma de “coisa velha”, “ultrapassada”. Pérfido engano. A causa pode ser atribuída ao agito dos tempos modernos, à rapidez da linguagem onde “não” é “naum”… mas espera, se a linguagem atual é reducionista, por que os jovens substituíram o “não” por uma expressão maior? Vá entender os jovens. Acho ser a razão deles tanto para ser diferente, como para ter língua própria, distante de nós, os antigos, ainda presos a cânones e regras. Pois que seja: ABAIXO ÀS REGRAS!!! Abaixo às normas. Como se fosse fácil para nós, lançarmos o brado e laços fora para tal libertação. Bobagem grossa, senilidade querendo ser rebelde ainda, 40 anos depois de 1968.

A Internet mudou tudo e a todos. Pena que ainda não tenha mudado os políticos, dissimulados como sempre, eternamente oportunistas, que fazem carreirismo, pulando de representatividade para representatividade, desde a liderança estudantil, para o cargo de vereador, numa seqüência até chegar a senador. Mas deixemos os políticos e seus eleitores cativos de lado. Definitivamente sou partidário do voto nulo, até o dia em que houver clima para um levante no rumo da construção de um socialismo, dentro de um governo plural, com representantes populares detentores de único mandato para toda uma vida.

Arghhhhh!!! Meu caro Vidal, cretinice aguda deste seu parceiro de vinhos e ostras. Esqueçamos os políticos por ora, uma vez que logo logo eles irão invadir nossas mídias e nos perturbar por meses seguidos, não nos permitindo olvidá-los.

Escuto Tom Jobim semi-inédito no som do meu Windows Media Player, de agora em diante WMP. Trata-se de uma sinfonia feita para Brasília. Nela existe uma parte que mostra a saga da construção da cidade, desde os primeiros momentos quando o homem descobre a natureza do cerrado e toda a sua variegada compleição. Depois vem outra parte apresentando a chegada dos primeiros candangos. Em seguida, a fase da construção. Para finalizar, a apoteose do realizado. Bonito e pouco divulgado. Desde já está prometida uma cópia do CD. Tom é impressionante mesmo, faz lembrar outros grandes maestros que fizeram a mixagem do clássico com o popular, como Bernstein e George Gershwin. Não saberia dizer dos outros, mas o que Tom Jobim é para nós mostra como é fantástica esta aproximação do clássico ao gosto do popular.

Queria ainda falar de ontem, quando estivemos juntos na última barraca da Feira do Litoral, ali na esquina da Praça do Homem Nu com a antiga zona do Baixo Meretrício de Curitiba, a Rua Riachuelo. Cheguei ali num táxi. Antes tinha ido ao mercado, dele até em casa, depois em direção ao nosso encontro. Neste trajeto um tanto longo pude saber que o taxista era de Caruaru, em Pernambuco, terra que briga com Campina Grande para ser reconhecida como a capital brasileira do forró. Pois o pernambucano, ao estilo dos curitibanos, em certo momento “lascou” a pergunta tão comum entre os nativos daqui.

__ “O Senhor não é daqui, não é mesmo?

Antes de responder, perguntei qual o porquê da pergunta. E ele:

__ É porque nunca vi alguém de Curitiba ir a um encontro levando uma garrafa de vinho aberta e duas taças. Isto não é coisa da gente daqui, só pode ser mesmo de pessoa de fora. O povo aqui é muito fechado e recatado, os gestos deles são mais discretos.

Pois foi assim, com a garrafa de vinho e duas taças na mão que cheguei até você, meu Caro Vidal. Devo dizer, um dia depois do nosso encontro, que não sou muito afeto às ostras, nem por carinho pessoal, nem fazem elas parte dos meus mais recônditos desejos gastronômicos. Mas vou ao próximo encontro pretendendo superar a dificuldade. Acredito que, depois de cinco ou seis sábados, serei capaz de sentir algum prazer na degustação dessa iguaria, ainda que seja difícil incluí-las na minha afetividade pessoal. Isto porque não saberia assobiar como o vento praiano, marulhar como as ondas, agitar-me como as marés. Mas a conversa superou minhas expectativas. Nossos entendimentos sobre este “site” fabuloso dos palavreiros vão além dos prazeres das ostras. Estamos cada vez mais afinados e encantados com as possibilidades das novas e velhas linguagens, elas com suas vísceras expostas na página do nosso “blog”. Estou mais do que entusiasmado, estou me sentindo parceiro e autor da idéia.

Aproximando-me do fim desta carta, queria tecer algumas palavras sobre o poema do Fernando Pessoa “Todas as cartas de amor são ridículas”. Maravilha. Espanta-me sua capacidade de garimpagem, Vidal. Incrível como você consegue arrancar dos alfarrábios mais escondidos essas pérolas que não encontramos em nossas ostras degustáveis nas feiras das ex-ruas das putas curitibanas. Pessoa nos surpreende por seu jogo de caminho à frente e para trás. Ora afirmando, ora negando. Ah, quanto mar e navegos precisos e até imprecisos são eternos neste poeta para o qual somos todos órfãos na linguagem e na paisagem. Navegar é preciso, escrever cartas também é preciso, desde Caminha até Vidal.

E sigamos navegando o barco, degustando ostras, ali na Praça do Homem Nu, que também é da Mulher Nua, mas que o povo somente lembra do primeiro, pelo gigantismo do seu membro mais dileto.

Meu Caro Vidal, até sábado que vem, quando nova garrafa de vinho, ostras e conversas beberemos com as taças que lá deixamos para uma nova jornada.

Ánton Passaredo

Curitiba, 15/Junho/2008.

CHINA. foto sem crédito. ilustração do site.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: