RETRATOS por zuleika dos reis

Para Maria Helena Mageste

 

 

 

Olhos negros, amendoados, olhar esvoaçando de um lado a outro no vagão do metrô, observando este e aquele passageiro nos assentos, cada qual a ver imagens invisíveis para todos os demais. Olhar de cinco, seis anos, em certo momento pousa no meu, que lhe abre um sorriso. Não se detém e busca, na extremidade oposta, a figura de outra menina, minúscula, que berra pela palmada da mãe, de quem acabou de puxar o cabelo.

Nariz levemente arrebitado no rosto infantil que se alarga, narinas farejando, talvez, algum castelo de chocolate oculto nas dobras do paletó do pai: – Você vai levar um tombo já já se não parar quieta. Sai de perto da porta. Narinas que, numa das perambulações, novamente se aproximam de mim, com este cheiro adulto impossível de disfarçar, e rápido se afastam, cãozinho cujo faro se enganou.

Ela ri de tudo e de nada, riso ainda cheirando a leite a iluminar-lhe o rosto, a saborear o gosto ainda cheirando a leite das coisas do mundo.

Posso apenas pressupor a delicada tessitura das orelhas. Gostaria de capturá-la de passagem, com a fala inicial de algum conto que a encantasse, mas onde as palavras antigas? “Mãiê, grita o velho papagaio, que jamais esquece o vocábulo da infância. Ninguém responde, o nome virou ruído.”

Cabelos de um castanho profundo espalhados como vento acolhem os passageiros que entram no vagão. “Os olhos iam se fechando enquanto o caçador salvava Chapeuzinho Vermelho e a vovó, e era eu que me aconchegava em teu colo, como se fosses tu a minha mãe.”

O corpo rechonchudo, ágil, rompe ininterrupto a imobilidade e o silêncio necessário aos adultos assentados. O universo se resume ao vagão, mas não há ninguém com quem brincar a não ser a menininha da palmada, que dormiu. “Tinhas seis anos na derradeira fantasia, de cigana, enquanto o retrato vai completar dez daqui a um mês, também em pleno carnaval.”

A criança se aquieta de repente, recolhe-se, fica acariciando a barba cerrada do pai que, enfim, segura sua borboleta nas mãos. “Quando abri a janela daquela manhã e toquei de leve suas asas azuis, molhadas de orvalho, elas não se mexeram. Não voaram. Nunca mais.”

Chego a minha estação. Ergo-me e olho, pela última vez, a menina do metrô. Daqui a uns cinqüenta anos, uma mulher jovem revê imagens antigas. De repente, a garotinha de olhos amendoados, negros, aponta: “– Esta é a vovó, querida, quando tinha a idade que você tem agora.”

escultura de olavo tenório.

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