Arquivos Diários: 23 junho, 2008

ZIMBROS poema de manoel de andrade

Canto os cantos e os recantos deste mar
praias, prainhas e costões
ilhas e promontórios
escarpas, alcantis, rochedos perfilados.
Canto o sul soberano destas águas
a paisagem imensa que o alto do penhasco descortina
o repouso do oceano e das águas interiores
a carícia da brisa, esse imaculado oxigênio
as distâncias estendendo a magnitude do horizonte
abrindo nos meus olhos todos os graus das longitudes
os balneários próximos e distantes
a miragem dos brancos casarios vistos nas lonjuras litorâneas
as antigas cidades pontilhadas ao longo do cenário imenso.

Tudo aqui tem seu fascínio…
as proas e os mastros ancorados
as velhas quilhas vencidas pelo tempo
a travessia lenta e solitária das embarcações.
Ao longe, quase inaudível, o ronco de motores…
é a incessante rotina dos barqueiros cruzando a baía de Zimbros.
Canto à beira destas águas de janeiro
misturado com essa boa gente dos verões
sob o sol ardente abençoando a vida.

Canto os pescadores que chegam ao longo das manhãs
os nativos negociando os seus pescados
canto a fauna exuberante destas águas
os seus frutos palpitantes
falo da pescada, do robalo e da garoupa
das pedras semeadas de moluscos
dos rosários flutuantes de ostras e mariscos cultivados
das tarrafas se abrindo na foz do ribeirão
falo das águas cristalinas onde o arpão desliza impiedoso.

Falo das ilhas na distância
territórios preservados da ambição
recanto indevassável das aves marinhas
canto os ninhos com suas criaturas
os filhotes ensaiando o primeiro vôo sobre o mar
canto a esse mágico ritual da vida.

Falo das praias desertas
dos seus íngremes caminhos
suas escavadas trilhas
do aroma da mata amanhecida
do grito da aracuã ecoando nas encostas
falo do estranho gemido dos bambuzais colhidos pelo vento
dos rastros deixados nas areias solitárias
da mística solenidade dos silêncios
de um intrigante mistério pairando na paisagem
do grato cansaço das longas caminhadas

Eis-me outra vez postado no topo rochoso da paisagem
e meu espírito mergulha na memória arquétipa das águas
e pergunto quando foi desenhado este cenário
e penso o mar com sua idade planetária
sua marítima “eternidade”
e a minha finitude estremece ante esse tempo inumerável
e penso nesse mar sem testemunhas
nos milênios e nas eras em que o tempo boiava indiferente sobre os oceanos
e penso ouvir contra os rochedos o idioma milenar das ondas
transformando-se desde sempre nessa brancura tão fugaz da espuma
e penso, ó mar, na tua infância cambriana
nesse território indecifrável de sílabas submersas
onde o verbo se fez sal, se fez escamas
e transitou desde o protozoário até o cetáceo
das conchas aos recifes coralíneos
e penso na caldeira primordial que forjou tua cálida temperatura
no teu materno regaço de algas, esponjas e medusas
nos teus primogênitos se espalhando pelos sete mares
teus partos, tuas dores agudas
nos vulcões acesos no teu ventre
nas tuas contrações submersas
tuas cordilheiras parindo teus filhos escarpados
tuas ninhadas de arquipélagos
essa nudez de granito que tu banhas e beijas sem cessar
e por isso eu canto o mistério deste tempo imperscrutável
teus vastos e velados segredos
escondidos por trás da tua presença intemporal
que me entrega agora tua beleza nestas águas de janeiro
e pergunto quem desenhou este cenário
a quem devo agradecer pelo encanto
pelo plácido remanso dessas águas
pelo itinerário das velas
por teus brancos cinturões de areia
pela amplidão das praias na vazante.
A quem, meu Deus, eu devo agradecer…?
que arquiteto sideral traçou as linhas caprichosas desta costa…?
agradecer pelo sabor dos teus frutos
pelas paisagens submersas
por essa multidão de vidas que preservas
a quem agradecer pela incorruptível salinidade
que tuas águas nos ofertam nessa taça imaculada
a quem, além de ti Baía de Zimbros,
a quem,
além da tua própria beleza…

Baia de Zimbros, janeiro de 2005

Do livro “CANTARES” editado por Escrituras

OS ESTATUTOS do HOMEM poema de thiago de mello

 

Os Estatutos do Homem
(Acto Institucional Permanente)

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida e, de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.

Thiago de Mello, Santiago do Chile, Abril de 1964

MARIA REGINA conto de maria belmoral

Quando se deu conta já passava das seis e a noite chegava com certa pressa.

Primeiro abotoou a blusa porque julgava ser a peça mais difícil de vestir. Depois as meias, a saia, os sapatos. Passou os dedos entre os cabelos e retocou o batom para não deixar tão nítida a impressão de que acabara de sair de uma tarde inteira dedicada aos desejos de um homem.

Respirou fundo, olhou para ele ainda deitado nu na cama, chamou o elevador e foi embora sem acordá-lo.

Os insistentes faróis vermelhos não colaboraram, entrou em casa aflita com noite feita e os filhos se queixando de fome.

Macarrão é o que há de mais rápido, porém o mais novo é alérgico, lamentou. Queria ser ágil, pensar rápido, mas o corpo ainda estava deliciosamente bambo. Enquanto cozinho o macarrão, frito o frango, vai dar tempo, calculou ao mesmo tempo em que se lembrou de que estava sem calcinha. Gostava de chegar assim aos encontros, mas sempre levava uma na bolsa para não entrar em casa desprevenida. Tal cuidado falhou naquela noite.

Mesa posta e o corpo ainda bambo, cheirando a sexo, viu o marido abrir a porta e beijar as crianças.

– Boa noite, meu anjo, como foi seu dia? – beijou-lhe os
lábios e jogou a pasta no sofá.
– Tranqüilo, o de sempre, você sabe…
– Você está bonita!
– Você acha?
– Acho sim, seu cabelo, talvez… Fez alguma coisa diferente?
– Aparei as pontas. – Mentiu desconcertada.
– Vou tomar uma chuveirada, vem comigo?
– As crianças estão famintas, vai você enquanto sirvo o jantar
a elas, depois poderemos comer sossegados.

O marido concordou e lhe beijou outra vez passando a mão pelo seu quadril indiscreto.

Com medo que ele notasse a ausência da calcinha ela puxou-lhe bruscamente a mão e emendou:
– Vai para o banho, querido, não demora que também eu
tenho fome.

Correu para a lavanderia e vestiu a calcinha que secava no
varal.

Os filhos comeram e foram dormir não sem antes reclamarem que a mãe faltara na reunião de pais naquela tarde.

Mais calma encheu um copo de vodka e gelo, sentou no sofá e observou o marido que voltava do banho vestindo bermuda. Já era tarde, iam jantar, mas o telefone estranhamente tocou.

foto sem crédito. ilustração do site.

BEHAVIORISMO, LINGÜÍSTICA E DISLEXIA por vicente martins

 

 

Os modelos behavioristas de intervenções em crianças disléxicas, disgráficas e disortográficas teriam uma base em teoria e método em duas abordagens: (1) psicológica, cuja intervenção psicopedagógica procura examinar do modo mais objetivo o comportamento humano e dos animais, com ênfase nos fatos objetivos (estímulos e reações), sem fazer recurso à introspecção e (2) lingüística, cuja intervenção psicopedagógica é apoiada na psicologia behaviorista e proposta inicialmente por L. Bloomfield (1887-1949) e depois por B.F. Skinner (1904-), que busca explicar os fenômenos de erros da comunicação lingüística e da significação na língua em termos de estímulos observáveis e respostas produzidas pelos falantes em situações específicas de uso da linguagem escrita.

 

Esta visão tem caráter empirista, isto é, os profissionais trabalham na perspectiva filosófica de aliar suas atividades, no programa de treinamento, à doutrina segundo a qual todo conhecimento provém unicamente da experiência, limitando-se ao que pode ser captado do mundo externo, pelos sentidos, ou do mundo subjetivo, pela introspecção, sendo geralmente descartadas as verdades reveladas e transcendentes do misticismo, ou apriorísticas e inatas do racionalismo. É, na verdade, o empirismo uma atitude de quem se atém a conhecimentos práticos. No campo da psicopedagogia, especialmente clínica, a abordagem empirista ocorre quando a intervenção se orienta pela experiência, com desprezo por qualquer metodologia científica.

 

Os modelos inatistas de intervenções em crianças disléxicas, disgráficas e disortográficas teriam uma base a concepção de inato e inatismo. Aqui, as atividades ou programas de treinamento reconheceriam que os disléxicos não são uma tabula rasa, isto é, teriam condições de dar respostas compensatórias, com seu esforço próprio, de suas dificuldades na linguagem escrita.

 

Os modelos inatistas de intervenção se afirmam na idéia de um caráter inato das idéias no homem, sustentando que independem daquilo que ele experimentou e percebeu após o seu nascimento . Os modelos de intervenção se apóiam na lingüística gerativa, hipótese segundo a qual a estrutura da linguagem estaria inscrita no código genético da natureza humana e seria ativada pelo meio após o nascimento do homem.

 

Numa perspectiva psicolingüística, os modelos de intervenção fazem à teoria de que a criança nasce com uma predisposição biológica para aprender uma língua.Segundo a hipótese do inatismo, o rápido e complexo desenvolvimento da competência gramatical da criança só pode ser explicado pela hipótese de que ela nasceu com uma conhecimento inato de pelo menos alguns dos princípios estruturais universais da linguagem humana. O inatismo se baseia na doutrina que privilegia a razão como meio de conhecimento e explicação da realidade.

 

O racionalismo é o  conjunto de teorias filosóficas (eleatismo, platonismo, cartesianismo etc.) fundamentadas na suposição de que a investigação da verdade, conduzida pelo pensamento puro, ultrapassa em grande medida os dados imediatos oferecidos pelos sentidos e pela experiência.

 

 

 

Exemplo de modelos behavioristas bem sucedidos durante a intervenção dislexiológica podemos extrair entre as sugesões presentes no livro Dislexia: manual de leitura corretiva (Artes Médicas, 1989), de Mabel Condemarín e Marlys Blomquist.

 

Os profissionais devem ter, preferencialmente, um olha r racionalista sobre as atividades abaixo, apostando que os disléxicos têm competência para responderem, com seus esforços, às propostas de atividades do programa de treinamento.

 

Segundo Mabel Condemarín e Marlys Blomquist, os elementos fonéticos nos quais os disléxicos tendem a apresentar maior número de problemas referem-se à discriminação de vogais, de letras de grafia similar e de letras de sons próximos.

 

Com base nas autoras, vamos propor a seguir exercícios para discriminar vogais. A lista de palavras que expomos pode ser utilizada pelo reeducador para grafar as vogais orais iniciais e para ampliar os exemplos de outros exercícios.

 

Os timbres das vogais indicadas para leitura poderão ser abertos (´) ou fechados (^), conforme a variação regional. Uma observação importante é que elegemos palavras cognatas, isto é, palavras que vêm de uma mesma raiz que outra(s).

 

Uma vez que os disléxicos apresentam déficit de memória de trabalho as palavras cognatas favorecem a memorização dos itens lexicais. Também os itens lexicais são organizados na forma alfabética exatamente para facilitar a memorização dos mesmos, recursos disponível em programa de word (em tabela, classificar as palavras).

 

Batizamos aqui esta atividade de atividade de discriminação dos elementos fonéticos das palavras, uma vez que trabalhamos duas habilidades: a consciência fonológica e a memória de trabalho. Podendo, assim, ser aplicada tanto para exercício de leitura em voz (decodificação leitora) como treinamento ortográfico (codificação escritora)

 

Lista de palavras para serem lidas em voz e levaram os educandos a terem a percepção do sistema vocálico da língua portuguesa: anedota, eletricista, Imortalizar, Ouvidor, Último, Amoroso, Eletricidade, Imortalidade, Ouvido, Úmido, Amor, Eletivo, Imortal, Ouvinte, Universal, Ameixeira, Elenco, Imobilizar, Ouvir, Universalismo, Amável, Elementar, Imobiliária, Ovelha, Universalista, Ameixa, Elemento, Imobilismo, Overdose, Universalizar, Arrastão, Eletrocutar, Imigração, Ovo, Universidade,Anedotário, Elétrico, Imitação, Oxigenar, Universitário, Arrastar, Eletrocussão, Imigrante,Oxigênio, Universo, arrastamento, Eletrizante, Imitar, Oxítono, Urna

 


No campo da expressão oral, em geral, os disléxicos, disgráficos e disortográficos tendem a confundir auditivamente aqueles fonemas, representados em letras ou grupos de letras (dígrafos), que possuem um ponto de articulação comum. Três conceitos são fundamentais para esta tarefa:

(1) Letra, entendida como cada um dos sinais gráficos que representam, na transcrição de uma língua, um fonema ou grupo de fonemas;

 

(2) dígrafo, definido como grupo de duas letras us. para representar um único fonema; digrama, monotongo [No português são dígrafos: ch, lh, nh, rr, ss, sc,, xc;incluem-se tb. am, an, em, en, im, in, on, om, um, un (querepresentam vogais nasais), gu e qu antes de e de , e tb. ha, he, hi, ho, hu e, em palavras estrangeiras, th, ph, nn, dd, ck, oo etc.] e

(3) Grafema, definido como unidade de um sistema de escrita que, na escrita alfabética, corresponde às letras (e tb. a outros sinais distintivos, como o hífen, o til, sinais de pontuação, os números etc.), e, na escrita ideográfica, corresponde aos ideogramas.

 

As letras com sons acusticamente próximos que são mais susceptíveis de ser confundisos são as seguintes: b-p; x-j; d-t; c-j; em menor grau confunde-se m-p-b. As listas de palavras figurativas que apresentamos a seguir podem ser empregadas para ilustrar exercícios.

 

Lista de signos alfabéticos: d,b, p,t, v,f,c, g,m

Lista de palavras: Dado, Bata, Pau, Taco, Vela, Farol,Cara, Gato, Mapa, Dedo,Bote, Puma,Táxi, Vaso, Foca, Casa, Gola, Macaco, Dois, Boca, Pipa, Touro, Vaca

Fila, Copa, Gota, Mesa, Disco, Baú, Peru, Tubo, Vale, Folha

Calha, Galo, Marco, Ducha, Bala, Parede, teto, Vila, Fogo

Carta, Gordo, Muleta,

 

As crianças com dislexia, disgrafia e disortografia, geralmente, apresentam dificuldades para o reconhecimento rápido da sílaba com ditongo. Por ditongo, o reeducador deve entender, foneticamente, emissão de dois fonemas vocálicos (vogal e semivogal ou vice-versa) numa mesma sílaba, caracterizada pela vogal, que nela representa o pico de sonoridade, enquanto a semivogal é enfraquecida. Além do ditongo intraverbal – no interior da palavra, como pai, muito -, ocorre em português tb. o ditongo interverbal, entre duas palavras, como p.ex.: Ana e Maria, que exerce papel importante na versificação portuguesa.

 

Dentro da tradição do ensino gramatical do português, existem dois tipos de ditongo: (1) ditongo crescente, o que tem a semivogal como primeiro som (p.ex., quadro) e (2) ditongo decrescente, aquele que tem a semivogal como segundo som (p.ex., mau).

 

A lista de palavras com ditongos que apresentamos abaixo pode ser utilizada em diferentes exercícios: leitura em voz alta e treinamento ortográfico.

 

Lista dos ditongos: ÃE,ÃO,ÕI,OU,EI,EA,IO,IA,ÕE

Lista de palavras a serem trabalhadas em voz alta: Mãe, Pão, Dói,Dou,Hem, Área, Lírio, Várias, Põe, Pães, Mãos, Herói, Louco,Vivem, Áurea, Curioso, Sábia, Limões, capitães, Falam, Constrói, Estoura, Têm, Orquídea, ópio, Constância, Ações.

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

sala de aula. foto sem crédito. ilustração do site.

O CHEQUE A DESCONTAR conto de lázaro parellada

Corria 1955… A terrível geada havia empobrecido todo o Norte do Paraná.

 

 

 

Cumprindo as determinações de meu pai, que havia viajado uns dias antes, fui buscar naquele sábado de manhã o cheque prometido. Era o correspondente à segunda das parcelas estabelecidas para o pagamento dos serviços topográficos que ele fora executar.

 

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Tratava-se, como de costume aliás, da demarcação de lotes para derrubada do “mato” dos terrenos compromissados pelos “jacus”. Pois que assim se apelidava aos colonos simples que os adquiriam. Estes eram em larga maioria interioranos paulistas e mineiros. Ou seja, os animados compradores daquelas paragens que lhes tinham sido mostradas pelos falazes “picaretas” que pululavam pelo centro de Londrina. Estes “lotes” se representavam em planta riscada sobre um papel insistentemente propalado como documento valioso, no qual esses típicos intermediários esfregavam hábeis seu dedo indicador com determinação, e repetidas vezes, apontando para um certo local ali desenhado. Tal “planta” costumava ser uma desgastada cópia heliográfica, em azul, do original de um loteamento de terras que ainda estavam sendo levantadas. E aonde algumas poucas linhas reproduziam com reduzida fidelidade os cursos d’água lá existentes, assim como a projetada disposição de suas divisas e das futuras estradas para seu acesso. Igualmente, sem maior apuro, dava-se sua situação, em um mapa quase sempre limitado ao norte do Paraná e sul de São Paulo, assim como assinalava-se um Norte. Era oportuno inserir-se uma condição ‘afirmativa’ de comunicação rodoviária através dos novos vilarejos que iam surgindo; com ênfase àqueles já incorporados ao folclore pioneiro como os mais recentes eldorados. Fazia também parte dessa rotina cartográfica o não representar-se o relevo local, fato até meio proposital em muitos casos. Qualquer indicação de “posseiros”, isto é moradores estabelecidos anteriormente, ou das muitas benfeitorias encontradas pelos agrimensores, evidentemente, não se repassavam aos desenhos apesar de anotadas nas cadernetas do levantamento. E muito menos aos pretensos compradores. Ao contrário, se lhes dizia que as terras continuavam virgens, que se encontravam “limpas” (livres de ‘invasores’), que tinham escrituras “quentes”, que não existia nenhum tipo de pendência documental… Enfim, aquelas coisas todas que eles, compradores, mais queriam ouvir.

 

Creio na verdade, que aos olhos deles a planta se lhes mostrava como que amontoados de traços parecendo pencas de retalhos. Era este desenho composto de superfícies anexas e mormente trapezoidais, que preenchiam completamente o perímetro d’uma “Gleba Tal” ou de outra “Colônia Qual”. Os lotes se projetavam compridos, geralmente mais largos em cima, lá onde se abriria o carreador que escoaria a copiosa produção futura. Para tanto, acompanhando os espigões, traçava-se a linha dupla significativa de uma estradinha de acesso. Já na parte mais baixa indicava-se uma tortuosa corrente de água. Estes lotes de terras assim formatados se numeravam em seqüência e suas áreas, calculadas planimetricamente, anotavam-se dentro deles. Raras vezes em hectares, mas sempre, sempre em alqueires. Alqueires dos de 24.200 m2, dos mais conhecidos como ‘paulistas’. Quanto à qualidade das terras: se dava garantia total, se repetia insistentemente sua fertilidade, se afirmava ser um contínuo palmital, as mais apropriadas para plantar-se café, onde nunca se ouvira falar de geadas, e outros etcéteras de coisas e loisas entre ingênuas e maliciosas.

 

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O ‘desbravador’, representante do proprietário morador no interior de São Paulo, era o ‘seu’ Afrânio. Este senhor, já com certa idade, quem sabe alcançando os sessenta e tantos anos, tinha aquela maneira de vida que a partir de então passei a caracterizar como “bandeirante”. Isto consistia na prática de um tipo de domínio sistemático, digamos ‘páter-familiar’, bem à velha moda colonial; imperante sobre a mulher e os filhos – mesmo que alguns já fossem casados e pais. E que fazia questão de constantemente reiterar, indiferente à presença dos outros, inclusive de nós (meu pai e eu). Incluía este formato de vivência: o passar o tempo papeando na varanda, que à frente da ampla casa de madeira lhe servia durante o dia de balcão de negócios, e à tardinha para desfrutar da leve brisa que a entrada da noite trazia. Assim, entremeando a mansa conversa em que a família e os lá chegados punham seus assuntos em ordem, se evitava um pouco daquele calor abafado que o intenso sol tropical acumulava ao longo da sua jornada pelos cômodos lá dentro.

 

O alpendre, abalaustrado, ficava recuado de uns quatro metros do avermelhado muro baixo de tijolos que fazia a divisa fronteira da propriedade, e como estava posicionado em torno de um metro acima do nível da calçada, lhe permitia verificar sobranceiro quem se aproximava, e o que se passava pela rua. As raras vezes que não se encontrava lá, o era por suas precisões fisiológicas, inclusive as de comer e dormir, ou nas ocasionais viagens necessárias ao trato dos negócios. E, é claro, nas escapadas que duas vezes por dia, uma durante a manhã e a outra pelo meio da tarde dava até o Café Líder, famoso ponto londrinense de encontro dos “colonizadores” e congêneres, e distante dali menos de quatrocentos metros.

 

– “Ó pai! É o Lázaro, o filho do seu Luis.”

 

Em me vendo chegar, alertado pelos familiares que constantemente lhe faziam guarda e companhia, e que, reitero, o tratavam com verdadeiro afeto patriarcal – desvelo este tão nítido que me impressionava toda vez que lá comparecia – me convidou a entrar:

 

– “Chega! Chega, Lázaro! Entra aqui…”

 

Várias outras vozes se agregaram e também me mandaram passar com as palavras de boas vindas costumeiras. Saudando subi os poucos degraus. Ato contínuo, após alguns comentários que pretendiam ser gentis, levantou-se e, convidando-me, nos dirigimos para a sala contígua, local da casa também utilizado como escritório. Lá ele guardava seus documentos, e nas paredes, pregadas ou emolduradas em quadros, as plantas dos diversos loteamentos por ele representados. Também se viam aderidas com fita colante diversas fotografias referentes à ‘conquista épica da floresta’. Ou seja as conhecidas variantes sobre o tema fundamental: pessoas versus selva. Umas calçadas de botas e de facões nos cintos, pequenas em baixo de árvores colossais. Outras portando minúsculas ferramentas nas mãos, e que se postavam encarando, enfrentando como que desafiando a mata imensa ao fundo. Enfim, algumas em cima de gigantescos troncos caídos. Duas ou três mostravam um grande trator derrubando árvores enormes, e com homens nele empoleirados brandindo facões, foices ou machados. Em outra, dois peões pareciam desafiar-se agarrados aos extremos do traçador enquanto olhavam para a câmera. E, em quase todas elas, o destaque recorrente para uma figura central, a dele mesmo.

 

Procurou entre seus muitos talões de cheque aquele do banco que lhe pareceu como o mais conveniente, e sentando-se à mesa pegou uma daquelas douradas canetas-tinteiro de marca famosa – tão renomada que me obrigou a dissimular um suspiro de admiração invejosa – e o preencheu cuidadosamente no valor estipulado com meu pai, e que antes confirmara comigo. E cuidando de mantê-lo ao portador, escreveu a data da segunda-feira seguinte àquele fim de semana, e o assinou. Em seguida, abanando-o para que a tinta secasse, me o repassou sem pedir recibo, mas anotando num caderno a quantia e o interessado. Eu o peguei e, a seu pedido, o conferi. Em seguida, enquanto agradecia respeitosamente, o dobrei e o guardei no bolso da camisa. Cuidadosamente dissimulado atrás da minha carteirinha vermelha de estudante!

 

Ao entregá-lo e notar minha mal contida satisfação, creio que fez questão de esboçar um sorriso condescendente, pois ele bem que sabia da triste situação financeira por que passávamos. Sem aquele dinheiro não teríamos, talvez, como agüentar decentemente mais uma semana. Devíamos de três para quatro meses de aluguel, se comíamos era por que o compreensivo japonês da mercearia da esquina nos fiava há mais de dois meses, desde os sólidos até os líquidos. Eu mesmo, que estudava no único colégio particular de Londrina que me aceitara sob condições, visto que o estabelecimento público se negara a matricular-me alegando como razão, a de ser minha documentação didática estrangeira, já havia sido chamado à Secretaria por diversas vezes para acertar os pagamentos atrasados em vários meses. Coisa que assim constrangido prometera, mas que não tivera como atender.

 

Voltei realizado ao nosso ‘escritório’, um par de salas que meu pai acertara dividir com um engenheiro civil, e onde meu trabalho no atender ao seu expediente fazia as vezes de nossa parte nas despesas. E logo depois, quando deram as doze no relógio da Matriz, fui para casa, encerrando meus trabalhos daquele dia. Meu caminho ziguezagueava pelo centro de Londrina. Começava quase na Avenida Paraná, descia a Rua São Paulo, dobrando à esquerda, seguia pela Sergipe para virar na Pernambuco (atualmente Guaporé), lugar mais apropriado para atravessar a linha férrea, e mais à frente alcançava a Belém, onde morávamos. Caminhando rápido, a todo instante apalpava o bolso para certificar-me mais uma vez da solidez do tesouro que carregava. Ia já prevendo a satisfação da minha mãe. Até antecipava a alegria dela quando visse o cheque. Ela o pegaria, o desdobraria, o conferiria, o leria uma e outra vez… E com certeza reafirmaria que finalmente nosso pai havia conseguido um cliente sério. Que cumpria o prometido! Um que não apenas nos pagava, mas que até o fazia em dia. Certamente um “homem de compromisso”. Uma pessoa admirável na Londrina daqueles tempos pós-geada de 1.955.

 

Na manhã seguinte, um domingo ensolarado, ao sair da missa do meio-dia, ouvimos a notícia incrível e assustadora. Seu Afrânio havia falecido naquela madrugada! Sem mais, assim de repente! E agora? No desespero das nossas precárias condições começamos a imaginar as hipóteses mais absurdas. Valeria o cheque? Ainda restaria valor a um documento emitido por uma pessoa morta? Toda a cidade o conhecia! A comunidade imobiliária o tinha como um dos seus homens mais representativos… E até lá, amanhã, todo mundo o saberia defunto!

 

“Meu Deus… – suspirava minha mãe – Como faremos se não recebermos este dinheiro?”

 

E intranqüilos, passamos o restante do dia conjeturando os piores presságios. E assim entre as ondas insistentes e crescentes das nossas dúvidas em alta, e as marolas das certezas em baixa pronunciada, decidimos que eu, como de costume, sairia para trabalhar, aguardaria a hora do banco abrir e na primeira ocasião possível lá compareceria. E calado, de boca fechada, apresentaria o cheque para desconto. Enquanto isso minha mãe, devidamente acompanhada da minha irmã, compareceria ao velório levando nossos sentidos pêsames à convalida família. E de qualquer modo que as coisas corressem nos reuniríamos, conforme o horário, ou no velório na casa do finado, ou no séquito do féretro do falecido, ou no seu enterro lá no cemitério. E foi o que eu fiz. E o que de ansiedade até o caixa finalmente gritar o meu número. Aí, me adiantei, ele olhou indiferente para mim, pegou a ficha de metal prateado que lhe apresentei, a recolheu, a conferiu, leu o valor do cheque… E sem qualquer comentário foi cuidadosamente catando e ajuntando as notas, as arrumou e contou novamente. Encarando-me as dobrou e reuniu com um elástico. Repassou-me o dinheiro por baixo da emoldurada grade de latão, empurrando-o e colocando-o ao alcance da minha mão. E eu tão nervoso quanto satisfeito, sem afastar-me do guichê, retirei o cordão de borracha a fim de conferir a quantia entregue, e como estava em ordem, exata, enquanto o recolocava, agradeci. Depois me afastei deixando-lhe um alegre cumprimento de despedida.

 

E me dirigi lépido para o cemitério, local mais que certo do encontro a estas alturas. Radiante pelo sucesso, mas um tanto receoso pela ‘dinheirama’, que firmemente segura em minha mão, avultava o bolso direito de minha calça.

dança flamenca. foto de ricardo silva.

A RELATIVIDADE do ERRADO por isaac asimov

Outro dia eu recebi uma carta. Estava escrita à mão em uma letra ruim, tornando a leitura muito difícil. Não obstante, eu tentei devido à possibilidade de que fosse alguma coisa importante. Na primeira frase, o escritor me disse que estava se formando em literatura Inglesa, mas que sentia que precisava me ensinar ciência. (Eu suspirei levemente, pois conhecia muito poucos bacharéis em literatura inglesa equipados para me ensinar ciência, mas sou perfeitamente ciente do meu estado de vasta ignorância e estou preparado para aprender tanto quanto possa de qualquer um, então continuei lendo.)

Parece que em um de meus inúmeros ensaios, eu expressei certa felicidade em viver em um século em que finalmente entendemos o básico sobre o universo.

Eu não entrei em detalhes, mas o que eu queria dizer era que agora nós sabemos as regras básicas que governam o universo, assim como as inter-relações gravitacionais de seus grandes componentes, como mostrado na teoria da relatividade elaborada entre 1905 e 1916. Também conhecemos as regras básicas que governam as partículas subatômicas e suas inter-relações, pois elas foram descritas muito ordenadamente pela teoria quântica elaborada entre 1900 e 1930. E mais, nós descobrimos que as galáxias e os aglomerados de galáxias são as unidades básicas do universo físico, como descoberto entre 1920 e 1930.

Veja, essas são todas descobertas do século vinte.

O jovem especialista em literatura inglesa, depois de me citar, continuou me dando uma severa bronca a respeito do fato de que em todos os séculos as pessoas pensaram que finalmente haviam compreendido o universo, e em todos os séculos se provou que elas estavam erradas. Segue que a única coisa que nós podemos dizer sobre nosso “conhecimento” moderno é que está errado. O jovem citou então com aprovação o que Sócrates disse ao saber que o oráculo de Delfos o tinha proclamado o homem o mais sábio da Grécia: “se eu sou o homem o mais sábio”, disse Sócrates, “é porque só eu sei que nada sei”. A conseqüência era que eu era muito tolo porque tinha a impressão de saber bastante.

Minha resposta a ele foi esta: “John, quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando pensaram que a Terra era esférica, elas estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana, então sua visão é mais errada do que as duas juntas”.

O problema básico é que as pessoas pensam que “certo” e “errado” são absolutos; que tudo que não é perfeitamente e completamente certo é totalmente e igualmente errado.

Entretanto, eu penso que não é assim. Parece-me que certo e errado são conceitos nebulosos, e eu devotarei este ensaio a explicar por que eu penso assim.

… Quando meu amigo, o perito em literatura inglesa, me disse que em todos os séculos os cientistas pensaram ter entendido o universo e estavam sempre errados, o que eu quero saber é quão errados estavam eles? Todos estão errados no mesmo grau? Vamos dar um exemplo.

Nos primeiros dias da civilização, a sensação geral era que a Terra era plana. Não porque as pessoas eram estúpidas, ou porque queriam acreditar em coisas estúpidas. Achavam que era plana por evidências sólidas. Não era só uma questão de “parece que é”, porque a Terra não parece plana. Ela é caoticamente irregular, com montes, vales, ravinas, penhascos, e assim por diante.

Naturalmente há planícies onde, em áreas limitadas, a superfície da Terra parece relativamente plana. Uma dessas planícies está na área do Tigre/Eufrates, onde a primeira civilização histórica (com escrita) se desenvolveu, a dos Sumérios.

Talvez tenha sido a aparência da planície que convenceu os Sumérios inteligentes a aceitar a generalização de que a Terra era plana; que se você nivelasse de algum modo todas as elevações e depressões, sobraria uma superfície plana. Talvez tenha contribuído com essa noção o fato que as superfícies d’água (reservatórios e lagos) parecem bem planas em dias calmos.

Uma outra maneira de olhar é perguntar qual é a “curvatura” da superfície da terra ao longo de uma distância considerável, quanto a superfície se desvia (em média) do plano perfeito. A teoria da Terra plana diria que a superfície não se desvia em nada de uma forma chata, ou seja, que a curvatura é 0 (zero) por milha.

É claro que hoje em dia aprendemos que a teoria da Terra plana está errada; que está tudo errado, enormemente errado, certamente. Mas não está. A curvatura da terra é quase 0 (zero) por milha, de modo que embora a teoria da Terra plana esteja errada, está quase certa. É por isso que a teoria durou tanto tempo.

Havia razões, com certeza, para julgar insatisfatória a teoria da Terra plana e, por volta de 350 A.C., o filósofo grego Aristóteles as resumiu. Primeiro, algumas estrelas desapareciam para o hemisfério do sul quando se viajava para o norte, e desapareciam para o hemisfério norte quando se viajava para o sul. Segundo, a sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar era sempre o arco de um círculo. Em terceiro lugar, aqui na própria Terra, é sempre o casco dos navios que desaparece primeiro no horizonte, em quaisquer direções que viajem.

Todas as três observações não poderiam ser razoavelmente explicadas se a superfície da Terra fosse plana, mas poderiam ser explicadas supondo que a Terra fosse uma esfera.

E mais, Aristóteles acreditava que toda matéria sólida tendia a se mover para o centro comum, e se a matéria sólida fizesse isso, acabaria como uma esfera. Qualquer volume dado de matéria está, em média, mais perto de um centro comum se for uma esfera do que se for qualquer outra forma.

Cerca de um século após Aristóteles, o filósofo grego Eratóstenes notou que o Sol lançava sombras de comprimentos diferentes em latitudes diferentes (todas as sombras teriam o mesmo comprimento se a superfície da Terra fosse plana). Pela diferença no comprimento da sombra, calculou o tamanho da esfera terrestre, que teria 25.000 milhas (cerca de 40.000 km) de circunferência.

Tal esfera se encurva aproximadamente 0,000126 milhas por milha, uma quantidade muito perto de 0, como você pode ver, e que não seria facilmente mensurável pelas técnicas à disposição dos antigos. A minúscula diferença entre 0 e 0,000126 responde pelo fato de que passou tanto tempo para passar da Terra plana à Terra esférica.

Note que mesmo uma diferença minúscula, como aquela entre 0 e 0,000126, pode ser extremamente importante. Essa diferença vai se acumulando. A Terra não pode ser mapeada em grandes extensões com nenhuma exatidão se a diferença não for levada em conta e se a Terra não for considerada uma esfera e não uma superfície plana. Viagens longas pelo mar não podem ser empreendidas com alguma maneira razoável de encontrar sua própria posição no oceano a menos que a Terra seja considerada esférica e não plana.

Além disso, a Terra plana pressupõe a possibilidade de uma terra infinita, ou da existência de um “fim” da superfície. A Terra esférica, entretanto, postula que a Terra seja tanto sem fim como no entanto finita, e é este postulado que é consistente com todas as últimas descobertas.

Assim, embora a teoria da Terra plana esteja somente ligeiramente errada e seja um crédito a seus inventores, uma vez que se considere o quadro todo, é errada o suficiente para ser rejeitada em favor da teoria da Terra esférica.

Mas a Terra é uma esfera?

Não, ela não é uma esfera; não no sentido matemático estrito. Uma esfera tem determinadas propriedades matemáticas – por exemplo, todos os diâmetros (isto é, todas as linhas retas que passam de um ponto em sua superfície, através do centro, a um outro ponto em sua superfície) têm o mesmo comprimento.

Entretanto, isso não é verdadeiro na Terra. Diferentes diâmetros da Terra possuem comprimentos diferentes.

O que forneceu a idéia de que a Terra não era uma esfera verdadeira? Para começar, o Sol e a Lua têm formas que são círculos perfeitos dentro dos limites de medida nos primeiros dias do telescópio. Isso é consistente com a suposição de que o Sol e a Lua são perfeitamente esféricos.

Entretanto, quando Júpiter e Saturno foram observados por telescópio pela primeira vez, logo ficou claro que as formas daqueles planetas não eram círculos, mas claras elipses. Isso significava que Júpiter e Saturno não eram esferas de fato.

Isaac Newton, no fim do século dezessete, mostrou que um corpo de grande massa formaria uma esfera sob atração de forças gravitacionais (exatamente como Aristóteles tinha proposto), mas somente se não estivesse girando. Se girasse, aconteceria um efeito centrífugo que ergueria a massa do corpo contra a gravidade, e esse efeito seria tão maior quanto mais perto do equador. O efeito seria tão maior quanto mais rapidamente o objeto esférico girasse, e Júpiter e Saturno certamente giravam bem rapidamente.

A Terra gira muito mais lentamente do que Júpiter ou Saturno, portanto o efeito deveria ser menor, mas deveria estar lá. Medidas de fato da curvatura da Terra foram realizadas no século dezoito e provaram que Newton estava correto.

Em outras palavras, a Terra tem uma protuberância equatorial. É achatada nos pólos. É um “esferóide oblato” e não uma esfera. Isto significa que os vários diâmetros da terra diferem em comprimento. Os diâmetros mais longos são os que vão de um ponto no equador a outro ponto oposto no equador. Esse “diâmetro equatorial” é de 12.755 quilômetros (7.927 milhas). O diâmetro mais curto é do pólo norte ao pólo sul e este “diâmetro polar” é de 12.711 quilômetros (7.900 milhas).

A diferença entre o maior e o menor diâmetro é de 44 quilômetros (27 milhas), e isso significa que a “oblacidade” da Terra (sua diferença em relação à esfericidade verdadeira) é 44/12755, ou 0,0034. Isto dá 1/3 de 1%.

Em outras palavras, em uma superfície plana, a curvatura é 0 em todos os lugares. Na superfície esférica da Terra, a curvatura é de 0,000126 milhas por milha todos os lugares [ou 8 polegadas por milha (12,63cm/km)]. Na superfície esferóide oblata da Terra, a curvatura varia de 7,973 polegadas por milha (12,59cm/km) a 8,027 polegadas por milha (12,67cm/km).

A correção de esférico a esferóide oblato é muito menor do que de plano a esférico. Conseqüentemente, embora a noção da Terra como uma esfera seja errada, estritamente falando, não é tão errada quanto a noção da Terra plana.

Mesmo a noção esferóide oblata da Terra é errada, estritamente falando. Em 1958, quando o satélite Vanguard I foi posto em órbita sobre a Terra, ele mediu a força gravitacional local da Terra – e conseqüentemente sua forma – com precisão sem precedentes. No fim das contas, descobriu-se que a protuberância equatorial ao sul do equador era ligeiramente mais protuberante do que a protuberância ao norte do equador, e que o nível do mar do pólo sul estava ligeiramente mais próximo o centro da terra do que o nível do mar do pólo norte.

Não parecia haver nenhuma outra maneira de descrever isso senão que dizendo a Terra tinha o formato de uma pêra, e muitas pessoas decidiram que a Terra não se parecia em nada com uma esfera mas tinha a forma de uma pêra Bartlett dançando no espaço. Na verdade, o desvio do formato de pêra em relação ao esferóide oblato perfeito era uma questão de jardas e não de milhas, e o ajuste da curvatura estava na casa dos milionésimos de polegada por milha.

Em suma, meu amigo literado em inglês, viver em um mundo mental de certos e errados absolutos pode significar imaginar que uma vez que todas as teorias são erradas, podemos pensar que a Terra seja esférica hoje, cúbica no século seguinte, um icosaedro oco no seguinte e com formato de rosquinha no seguinte.

O que acontece na verdade é que uma vez os cientistas tomam um bom conceito, eles o refinam gradualmente e o estendem com sutileza crescente à medida que seus instrumentos de medida melhoram. As teorias não são tão erradas quanto incompletas.

Isto pode ser dito em muitos casos além da forma da Terra. Mesmo quando uma nova teoria parece representar uma revolução, ela geralmente surge de pequenos refinamentos. Se algo mais do que um pequeno refinamento fosse necessário, então a teoria anterior não teria resistido.

Copérnico mudou de um sistema planetário centrado na Terra para um centrado no Sol. Ao fazer isso, mudou de algo que era óbvio para algo que era aparentemente ridículo. Entretanto, era uma questão de encontrar melhores maneiras de calcular o movimento dos planetas no céu, e a teoria geocêntrica acabou sendo deixada para trás. Foi exatamente porque a teoria antiga dava resultados razoavelmente bons pelos padrões de medida da época que ela se manteve por tanto tempo.

Novamente, foi porque as formações geológicas da Terra mudam tão lentamente e as coisas vivas sobre ela evoluem tão lentamente que parecia razoável no início supor que não havia nenhuma mudança e que a Terra e a vida sempre existiram como hoje. Se isso fosse assim, não faria nenhuma diferença se a Terra e a vida tinham bilhões ou milhares de anos. Milhares eram mais fáceis de se entender.

Mas quando cuidadosas observações mostraram que a Terra e a vida estavam mudando a uma taxa que era minúscula mas não nula, a seguir tornou-se claro que a Terra e a vida tinham que ser muito antigas. A geologia moderna surgiu, e também a noção de evolução biológica.

Se a taxa de mudança fosse maior, a geologia e a evolução alcançariam seu estado moderno na Antigüidade. É somente porque a diferença entre as taxas de mudança em um universo estático e em um evolutivo estão entre zero e quase zero que os criacionistas continuam propagando suas loucuras.

Uma vez que os refinamentos na teoria ficam cada vez menores, mesmo teorias bem antigas devem ter estado suficientemente certas para permitir que avanços fossem feitos; avanços que não foram anulados por refinamentos subseqüentes.

Os Gregos introduziram a noção de latitude e longitude, por exemplo, e fizeram mapas razoáveis da bacia mediterrânea mesmo sem levar em conta a esfericidade, e nós usamos ainda hoje latitude e longitude.

Os Sumérios provavelmente foram os primeiros a estabelecer o princípio de que os movimentos planetários no céu são regulares e podem ser previstos, e tentaram achar maneiras de fazê-lo mesmo assumindo a Terra como o centro do universo. Suas medidas foram enormemente refinadas mas o princípio permanece.

Naturalmente, as teorias que temos hoje podem ser consideradas erradas no sentido simplista do meu correspondente bacharel em literatura inglesa, mas em um sentido muito mais verdadeiro e mais sutil, elas precisam somente ser consideradas incompletas.

Original: The Relativity of Wrong.  tradução de daniel sottomaior.

planeta Terra visto da nave apollo 17. foto da nasa.