O CHEQUE A DESCONTAR conto de lázaro parellada

Corria 1955… A terrível geada havia empobrecido todo o Norte do Paraná.

 

 

 

Cumprindo as determinações de meu pai, que havia viajado uns dias antes, fui buscar naquele sábado de manhã o cheque prometido. Era o correspondente à segunda das parcelas estabelecidas para o pagamento dos serviços topográficos que ele fora executar.

 

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Tratava-se, como de costume aliás, da demarcação de lotes para derrubada do “mato” dos terrenos compromissados pelos “jacus”. Pois que assim se apelidava aos colonos simples que os adquiriam. Estes eram em larga maioria interioranos paulistas e mineiros. Ou seja, os animados compradores daquelas paragens que lhes tinham sido mostradas pelos falazes “picaretas” que pululavam pelo centro de Londrina. Estes “lotes” se representavam em planta riscada sobre um papel insistentemente propalado como documento valioso, no qual esses típicos intermediários esfregavam hábeis seu dedo indicador com determinação, e repetidas vezes, apontando para um certo local ali desenhado. Tal “planta” costumava ser uma desgastada cópia heliográfica, em azul, do original de um loteamento de terras que ainda estavam sendo levantadas. E aonde algumas poucas linhas reproduziam com reduzida fidelidade os cursos d’água lá existentes, assim como a projetada disposição de suas divisas e das futuras estradas para seu acesso. Igualmente, sem maior apuro, dava-se sua situação, em um mapa quase sempre limitado ao norte do Paraná e sul de São Paulo, assim como assinalava-se um Norte. Era oportuno inserir-se uma condição ‘afirmativa’ de comunicação rodoviária através dos novos vilarejos que iam surgindo; com ênfase àqueles já incorporados ao folclore pioneiro como os mais recentes eldorados. Fazia também parte dessa rotina cartográfica o não representar-se o relevo local, fato até meio proposital em muitos casos. Qualquer indicação de “posseiros”, isto é moradores estabelecidos anteriormente, ou das muitas benfeitorias encontradas pelos agrimensores, evidentemente, não se repassavam aos desenhos apesar de anotadas nas cadernetas do levantamento. E muito menos aos pretensos compradores. Ao contrário, se lhes dizia que as terras continuavam virgens, que se encontravam “limpas” (livres de ‘invasores’), que tinham escrituras “quentes”, que não existia nenhum tipo de pendência documental… Enfim, aquelas coisas todas que eles, compradores, mais queriam ouvir.

 

Creio na verdade, que aos olhos deles a planta se lhes mostrava como que amontoados de traços parecendo pencas de retalhos. Era este desenho composto de superfícies anexas e mormente trapezoidais, que preenchiam completamente o perímetro d’uma “Gleba Tal” ou de outra “Colônia Qual”. Os lotes se projetavam compridos, geralmente mais largos em cima, lá onde se abriria o carreador que escoaria a copiosa produção futura. Para tanto, acompanhando os espigões, traçava-se a linha dupla significativa de uma estradinha de acesso. Já na parte mais baixa indicava-se uma tortuosa corrente de água. Estes lotes de terras assim formatados se numeravam em seqüência e suas áreas, calculadas planimetricamente, anotavam-se dentro deles. Raras vezes em hectares, mas sempre, sempre em alqueires. Alqueires dos de 24.200 m2, dos mais conhecidos como ‘paulistas’. Quanto à qualidade das terras: se dava garantia total, se repetia insistentemente sua fertilidade, se afirmava ser um contínuo palmital, as mais apropriadas para plantar-se café, onde nunca se ouvira falar de geadas, e outros etcéteras de coisas e loisas entre ingênuas e maliciosas.

 

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O ‘desbravador’, representante do proprietário morador no interior de São Paulo, era o ‘seu’ Afrânio. Este senhor, já com certa idade, quem sabe alcançando os sessenta e tantos anos, tinha aquela maneira de vida que a partir de então passei a caracterizar como “bandeirante”. Isto consistia na prática de um tipo de domínio sistemático, digamos ‘páter-familiar’, bem à velha moda colonial; imperante sobre a mulher e os filhos – mesmo que alguns já fossem casados e pais. E que fazia questão de constantemente reiterar, indiferente à presença dos outros, inclusive de nós (meu pai e eu). Incluía este formato de vivência: o passar o tempo papeando na varanda, que à frente da ampla casa de madeira lhe servia durante o dia de balcão de negócios, e à tardinha para desfrutar da leve brisa que a entrada da noite trazia. Assim, entremeando a mansa conversa em que a família e os lá chegados punham seus assuntos em ordem, se evitava um pouco daquele calor abafado que o intenso sol tropical acumulava ao longo da sua jornada pelos cômodos lá dentro.

 

O alpendre, abalaustrado, ficava recuado de uns quatro metros do avermelhado muro baixo de tijolos que fazia a divisa fronteira da propriedade, e como estava posicionado em torno de um metro acima do nível da calçada, lhe permitia verificar sobranceiro quem se aproximava, e o que se passava pela rua. As raras vezes que não se encontrava lá, o era por suas precisões fisiológicas, inclusive as de comer e dormir, ou nas ocasionais viagens necessárias ao trato dos negócios. E, é claro, nas escapadas que duas vezes por dia, uma durante a manhã e a outra pelo meio da tarde dava até o Café Líder, famoso ponto londrinense de encontro dos “colonizadores” e congêneres, e distante dali menos de quatrocentos metros.

 

– “Ó pai! É o Lázaro, o filho do seu Luis.”

 

Em me vendo chegar, alertado pelos familiares que constantemente lhe faziam guarda e companhia, e que, reitero, o tratavam com verdadeiro afeto patriarcal – desvelo este tão nítido que me impressionava toda vez que lá comparecia – me convidou a entrar:

 

– “Chega! Chega, Lázaro! Entra aqui…”

 

Várias outras vozes se agregaram e também me mandaram passar com as palavras de boas vindas costumeiras. Saudando subi os poucos degraus. Ato contínuo, após alguns comentários que pretendiam ser gentis, levantou-se e, convidando-me, nos dirigimos para a sala contígua, local da casa também utilizado como escritório. Lá ele guardava seus documentos, e nas paredes, pregadas ou emolduradas em quadros, as plantas dos diversos loteamentos por ele representados. Também se viam aderidas com fita colante diversas fotografias referentes à ‘conquista épica da floresta’. Ou seja as conhecidas variantes sobre o tema fundamental: pessoas versus selva. Umas calçadas de botas e de facões nos cintos, pequenas em baixo de árvores colossais. Outras portando minúsculas ferramentas nas mãos, e que se postavam encarando, enfrentando como que desafiando a mata imensa ao fundo. Enfim, algumas em cima de gigantescos troncos caídos. Duas ou três mostravam um grande trator derrubando árvores enormes, e com homens nele empoleirados brandindo facões, foices ou machados. Em outra, dois peões pareciam desafiar-se agarrados aos extremos do traçador enquanto olhavam para a câmera. E, em quase todas elas, o destaque recorrente para uma figura central, a dele mesmo.

 

Procurou entre seus muitos talões de cheque aquele do banco que lhe pareceu como o mais conveniente, e sentando-se à mesa pegou uma daquelas douradas canetas-tinteiro de marca famosa – tão renomada que me obrigou a dissimular um suspiro de admiração invejosa – e o preencheu cuidadosamente no valor estipulado com meu pai, e que antes confirmara comigo. E cuidando de mantê-lo ao portador, escreveu a data da segunda-feira seguinte àquele fim de semana, e o assinou. Em seguida, abanando-o para que a tinta secasse, me o repassou sem pedir recibo, mas anotando num caderno a quantia e o interessado. Eu o peguei e, a seu pedido, o conferi. Em seguida, enquanto agradecia respeitosamente, o dobrei e o guardei no bolso da camisa. Cuidadosamente dissimulado atrás da minha carteirinha vermelha de estudante!

 

Ao entregá-lo e notar minha mal contida satisfação, creio que fez questão de esboçar um sorriso condescendente, pois ele bem que sabia da triste situação financeira por que passávamos. Sem aquele dinheiro não teríamos, talvez, como agüentar decentemente mais uma semana. Devíamos de três para quatro meses de aluguel, se comíamos era por que o compreensivo japonês da mercearia da esquina nos fiava há mais de dois meses, desde os sólidos até os líquidos. Eu mesmo, que estudava no único colégio particular de Londrina que me aceitara sob condições, visto que o estabelecimento público se negara a matricular-me alegando como razão, a de ser minha documentação didática estrangeira, já havia sido chamado à Secretaria por diversas vezes para acertar os pagamentos atrasados em vários meses. Coisa que assim constrangido prometera, mas que não tivera como atender.

 

Voltei realizado ao nosso ‘escritório’, um par de salas que meu pai acertara dividir com um engenheiro civil, e onde meu trabalho no atender ao seu expediente fazia as vezes de nossa parte nas despesas. E logo depois, quando deram as doze no relógio da Matriz, fui para casa, encerrando meus trabalhos daquele dia. Meu caminho ziguezagueava pelo centro de Londrina. Começava quase na Avenida Paraná, descia a Rua São Paulo, dobrando à esquerda, seguia pela Sergipe para virar na Pernambuco (atualmente Guaporé), lugar mais apropriado para atravessar a linha férrea, e mais à frente alcançava a Belém, onde morávamos. Caminhando rápido, a todo instante apalpava o bolso para certificar-me mais uma vez da solidez do tesouro que carregava. Ia já prevendo a satisfação da minha mãe. Até antecipava a alegria dela quando visse o cheque. Ela o pegaria, o desdobraria, o conferiria, o leria uma e outra vez… E com certeza reafirmaria que finalmente nosso pai havia conseguido um cliente sério. Que cumpria o prometido! Um que não apenas nos pagava, mas que até o fazia em dia. Certamente um “homem de compromisso”. Uma pessoa admirável na Londrina daqueles tempos pós-geada de 1.955.

 

Na manhã seguinte, um domingo ensolarado, ao sair da missa do meio-dia, ouvimos a notícia incrível e assustadora. Seu Afrânio havia falecido naquela madrugada! Sem mais, assim de repente! E agora? No desespero das nossas precárias condições começamos a imaginar as hipóteses mais absurdas. Valeria o cheque? Ainda restaria valor a um documento emitido por uma pessoa morta? Toda a cidade o conhecia! A comunidade imobiliária o tinha como um dos seus homens mais representativos… E até lá, amanhã, todo mundo o saberia defunto!

 

“Meu Deus… – suspirava minha mãe – Como faremos se não recebermos este dinheiro?”

 

E intranqüilos, passamos o restante do dia conjeturando os piores presságios. E assim entre as ondas insistentes e crescentes das nossas dúvidas em alta, e as marolas das certezas em baixa pronunciada, decidimos que eu, como de costume, sairia para trabalhar, aguardaria a hora do banco abrir e na primeira ocasião possível lá compareceria. E calado, de boca fechada, apresentaria o cheque para desconto. Enquanto isso minha mãe, devidamente acompanhada da minha irmã, compareceria ao velório levando nossos sentidos pêsames à convalida família. E de qualquer modo que as coisas corressem nos reuniríamos, conforme o horário, ou no velório na casa do finado, ou no séquito do féretro do falecido, ou no seu enterro lá no cemitério. E foi o que eu fiz. E o que de ansiedade até o caixa finalmente gritar o meu número. Aí, me adiantei, ele olhou indiferente para mim, pegou a ficha de metal prateado que lhe apresentei, a recolheu, a conferiu, leu o valor do cheque… E sem qualquer comentário foi cuidadosamente catando e ajuntando as notas, as arrumou e contou novamente. Encarando-me as dobrou e reuniu com um elástico. Repassou-me o dinheiro por baixo da emoldurada grade de latão, empurrando-o e colocando-o ao alcance da minha mão. E eu tão nervoso quanto satisfeito, sem afastar-me do guichê, retirei o cordão de borracha a fim de conferir a quantia entregue, e como estava em ordem, exata, enquanto o recolocava, agradeci. Depois me afastei deixando-lhe um alegre cumprimento de despedida.

 

E me dirigi lépido para o cemitério, local mais que certo do encontro a estas alturas. Radiante pelo sucesso, mas um tanto receoso pela ‘dinheirama’, que firmemente segura em minha mão, avultava o bolso direito de minha calça.

dança flamenca. foto de ricardo silva.

Uma resposta

  1. Papi,

    Muito legal!!! Bjs de sua filhota, Cintia

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