Arquivos Diários: 25 junho, 2008

SEM PROBLEMAS e ESTÁ LÁ? ou NÃO? – mini contos de raimundo rolim

                                                  

Sem problemas

 

A cirurgia estava marcada para os próximos quinze minutos. O paciente já devidamente tricotomizado, assepsiado e ferrado no sono, induzido pela anestesia e claro, não tinha pressa, oras! A equipe preparara-se valentemente. O cirurgião chefe consultou o tipo de incisão que seria feita, deu algumas ordens com a cabeça e movimentos de mãos. Luzes acesas, câmera e muita ação. Rolando o take um: Bisturi em posição de ataque, ali, a milímetros, lambendo a porção de pele do campo operatório. Take dois: Chega alguém esbaforido, na carreira, sem fôlego, também vestido com jaleco branco. Antes de conseguir falar, comunica-se rápido por gestos e idiossincrasias. Perfeito! Param tudo de imediato! O cirurgião chefe, braço suspenso no ar, acabara de ouvir que o paciente era um outro e que este já se encontrava em processo de adiantada e completa irritação, apresentando um quadro de impaciência generalizada pela demora com os serviços de implante. Pois tinha, este outro paciente, o grande e profundo desejo de estrear logo o novo cérebro, que seria trocado pelo velho cansado e antigo de simples homo sapiens. Este tipo de cirurgia era uma nova e diferenciada opção dos serviços médicos gerais, oferecido por uma companhia de seguros recém criada e que apostava no ramo de revolucionárias concepções contemporâneas, seguindo tendências modernas de mercado e moda, para que cada um fosse segundo à sua vontade e experimentasse ser outra coisa totalmente diferente, ainda em gozo de saúde e vida. O volume inquietante e inesperado de adeptos fazia acumular ganhos das ações nas Bolsas desta companhia e nisso tão alto apostara todas as suas fichas. A lista de espera era grande, o que causava tamanha impaciência do segurado na outra sala, que não via a hora de estrear o seu novíssimo cérebro de galinha D’Angola. É que ele apreciava aquele canto onomatopaico intermitente “Tô fraco, Tô fraco” que esse tipo de galinha emite. Aquel’outro ali, sobre a mesa, morgadão, era tão somente check up de rotina para conferência do número de penas vermelhas e a detecção se, por acaso, realmente haviam crescido as novíssimas penugens brancas prometidas em recentíssimo processo de um outro implante do pato do Alaska. Incrível ! – pensou o cirurgião. Incrível… respondeu o paciente pato do Alaska, com voz de pato mesmo e já captando pensamentos !!!

 

 

    

Está lá? Ou não?

 

Sim… Não… Ah… Mas por favor, entreguem e que desta vez não haja engano. E por favor, sejam prestos. Rápidos. Obrigado.

– Entendido?

– Sim e imediatamente!

– Sim, no endereço já mencionado.

– Sim!

– Agradecemos e aguardamos a entrega da remessa com urgência.

– Obrigado!

Desligou o telefone e ficou a pasmaceira no ar. Mas será que o bom homem havia entendido direito desta vez? Já era a quarta ou quinta sessão de ligar e dizer a mesma coisa. Passou-se mais de hora para uma coisinha tão simples, que não demoraria mais que uns dez ou quinze minutinhos. Na dúvida, levantou novamente o fone do gancho e chamou. Na outra ponta da linha, a mesma voz que atendera das vezes anteriores, com jovialidade e calma e muita presteza, dizia então, não se lembrar dos mesmos quatro pedidos feitos anteriormente e há apenas algum tempinho atrás. Desta vez, a voz sugeriu ao cliente, que não saísse de perto do telefone, para que, se eventualmente houvesse qualquer mal entendido, era só chamar no mesmo número que a pizza não demoraria nada. E desligou. 

 

 

 

 

 

                     painel de poty lazzarotto no largo da ordem. Curitiba. ilustração do site. foto sem crédito.

A ORIGEM da @ – env. por mari frança

Na idade média os livros eram escritos pelos copistas à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.

Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um’m’ ou um ‘n’) que nasalizava a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a letra, pode olhar.

O nome espanhol Francisco, que também era grafado ‘Phrancisco’, ficou com a abreviatura ‘Phco.’ e ‘Pco’. Daí foi fácil o nome Francisco ganhar em espanhol o apelido Paco. 

Os santos, ao serem citados pelos copistas, eram identificados por um feito significativo em suas vidas. Assim, o nome de São José aparecia seguido de ‘Jesus Christi Pater Putativus’, ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adotar a abreviatura ‘JHS PP’ e depois ‘PP’. A pronúncia dessas letras em seqüência explica porque José em espanhol tem o apelido de Pepe. 

Já para substituir a palavra latina et (e), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras: &. Esse sinal é popularmente conhecido como ‘e comercial’ e em inglês, tem o nome de ampersand, que vem do and (e em inglês) + per se (do latim porsi) + and.

Com o mesmo recurso do entrelaçamento de suas letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de ‘casa de’. 

Veio a imprensa, foram-se os copistas, mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço – por exemplo: o registro contábil ’10@£3′ significava ’10 unidades ao preço de 3 libras cada uma’. Naquela época o símbolo @ já ficou conhecido como, em inglês, ‘at’ (a ou em).

No século XIX, nos portos da Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contábeis dos ingleses.  Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo seria uma unidade de peso – por engano. Para o entendimento contribuíram duas coincidências;

 

 

 

1- a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo ‘a’ inicial lembra a forma do símbolo; 

2- os carregamentos desembarcados vinham freqüentemente em fardos de uma arroba. Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de ’10@£3′ assim: ‘ dez arrobas custando 3 libras cada uma’.

Então o símbolo @ passou a ser usado pelos espanhóis para significar arroba. Arroba veio do árabe ar-ruba, que significa ‘a quarta parte’, arroba (15 kg  em números redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe (quintar), o quintal (58,75 kg). 

 

 

As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados). O teclado tinha o símbolo ‘@’, que sobreviveu nos teclados dos computadores. 

Em 1972, ao desenvolver o primeiro programa de correio eletrônico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido ‘@’ (at -em Inglês), disponível no teclado, e utilizou-o entre o nome do usuário e o nome doprovedor. Assim Fulano@ProvedorX ficou significando: ‘Fulano no provedor (ou na casa) X’.

Em diversos idiomas, o símbolo ‘@’ ficou com o nome de alguma coisa parecida com sua forma.
Em italiano chiocciola (caracol), em sueco snabel (tromba de elefante), em holandês, apestaart (rabo de macaco). 
Em outros idiomas, tem o nome de um doce em forma circular: shtrudel, em Israel; strudel, na Áustria; pretzel, em vários países europeus.

 

                                                                   foto e ilustração do site.