SEM PROBLEMAS e ESTÁ LÁ? ou NÃO? – mini contos de raimundo rolim

                                                  

Sem problemas

 

A cirurgia estava marcada para os próximos quinze minutos. O paciente já devidamente tricotomizado, assepsiado e ferrado no sono, induzido pela anestesia e claro, não tinha pressa, oras! A equipe preparara-se valentemente. O cirurgião chefe consultou o tipo de incisão que seria feita, deu algumas ordens com a cabeça e movimentos de mãos. Luzes acesas, câmera e muita ação. Rolando o take um: Bisturi em posição de ataque, ali, a milímetros, lambendo a porção de pele do campo operatório. Take dois: Chega alguém esbaforido, na carreira, sem fôlego, também vestido com jaleco branco. Antes de conseguir falar, comunica-se rápido por gestos e idiossincrasias. Perfeito! Param tudo de imediato! O cirurgião chefe, braço suspenso no ar, acabara de ouvir que o paciente era um outro e que este já se encontrava em processo de adiantada e completa irritação, apresentando um quadro de impaciência generalizada pela demora com os serviços de implante. Pois tinha, este outro paciente, o grande e profundo desejo de estrear logo o novo cérebro, que seria trocado pelo velho cansado e antigo de simples homo sapiens. Este tipo de cirurgia era uma nova e diferenciada opção dos serviços médicos gerais, oferecido por uma companhia de seguros recém criada e que apostava no ramo de revolucionárias concepções contemporâneas, seguindo tendências modernas de mercado e moda, para que cada um fosse segundo à sua vontade e experimentasse ser outra coisa totalmente diferente, ainda em gozo de saúde e vida. O volume inquietante e inesperado de adeptos fazia acumular ganhos das ações nas Bolsas desta companhia e nisso tão alto apostara todas as suas fichas. A lista de espera era grande, o que causava tamanha impaciência do segurado na outra sala, que não via a hora de estrear o seu novíssimo cérebro de galinha D’Angola. É que ele apreciava aquele canto onomatopaico intermitente “Tô fraco, Tô fraco” que esse tipo de galinha emite. Aquel’outro ali, sobre a mesa, morgadão, era tão somente check up de rotina para conferência do número de penas vermelhas e a detecção se, por acaso, realmente haviam crescido as novíssimas penugens brancas prometidas em recentíssimo processo de um outro implante do pato do Alaska. Incrível ! – pensou o cirurgião. Incrível… respondeu o paciente pato do Alaska, com voz de pato mesmo e já captando pensamentos !!!

 

 

    

Está lá? Ou não?

 

Sim… Não… Ah… Mas por favor, entreguem e que desta vez não haja engano. E por favor, sejam prestos. Rápidos. Obrigado.

– Entendido?

– Sim e imediatamente!

– Sim, no endereço já mencionado.

– Sim!

– Agradecemos e aguardamos a entrega da remessa com urgência.

– Obrigado!

Desligou o telefone e ficou a pasmaceira no ar. Mas será que o bom homem havia entendido direito desta vez? Já era a quarta ou quinta sessão de ligar e dizer a mesma coisa. Passou-se mais de hora para uma coisinha tão simples, que não demoraria mais que uns dez ou quinze minutinhos. Na dúvida, levantou novamente o fone do gancho e chamou. Na outra ponta da linha, a mesma voz que atendera das vezes anteriores, com jovialidade e calma e muita presteza, dizia então, não se lembrar dos mesmos quatro pedidos feitos anteriormente e há apenas algum tempinho atrás. Desta vez, a voz sugeriu ao cliente, que não saísse de perto do telefone, para que, se eventualmente houvesse qualquer mal entendido, era só chamar no mesmo número que a pizza não demoraria nada. E desligou. 

 

 

 

 

 

                     painel de poty lazzarotto no largo da ordem. Curitiba. ilustração do site. foto sem crédito.

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