Arquivos Diários: 27 junho, 2008

VINDICAÇÃO DE VINCENT de jorge lescano

 

Um poeta cego vende mais jornais que um poeta muito míope.

Jorge Luís Borges

 

Na segunda metade do século XX, Vincent van Gogh foi transformado num dos maiores sucessos de vendas da pintura, do mercado livreiro, do jornalismo e da estamparia. Apesar de hoje ninguém ignorar seu nome e os Girassóis decorarem a sala da classe média do mundo globalizado, reluto em situar seus quadros em primeiro lugar. As duas últimas centúrias deram preferência à imagem dos artistas. No final do século XX, a obra ilustra a biografia e o retrato é substituído pela palavra. Grandes escritores vendem milhares de exemplares que ninguém lê. Pequenos escribas têm milhões de leitores.

Com métodos similares aos do Malleus Maleficarum, que no século XV ensinava a identificar bruxas e possuídos por Satã a partir de sinais externos como gagueira, estrabismo, insônia…, o século XX sacramentou a Loucura. Não é de estranhar, então, que se confunda com loucura a mera estupidez. O século registra duas guerras mundiais em favor desta idéia.

É de van Gogh que pretendo falar. No caso, a aura de loucura (confundida com estupidez) que acompanha seu nome, é responsável por grande parte do sucesso. Não tenho a intenção nem creio necessário escrever um artigo sobre a incompreensão do público seu contemporâneo, nem dos médicos que o trataram antes e depois de cortar a orelha, nem de sua pretensa capacidade visionária — qualquer coisa que isto signifique a seu respeito –, nem do seu apostolado artístico (!), sequer do desastrado tiro no peito com que encerrou sua vida. Não desejo insistir no tom laudatório de praxe, deixo tais matérias para os jornalistas.

Creio que Vincent van Gogh pode ser visto à luz da biografia escrita por sua cunhada Jô van Gogh-Bonger, pelas Cartas de Théo a Vincent, pelas Cartas de Vincent a Émile Bernard (P.A, L&PM Pocket, 2005) e sobre tudo pelas Cartas a Théo, apesar de um certo Charles Terrasse, que na apresentação desta obra (L± R S.; 1986) afirma: este grande pintor jamais teve o dom da palavra (p. viii). Considero sua correspondência um testemunho satisfatório, único, sem as pretensões literárias das autobiografias. Diverso também do van Gogh de Antonin Artaud, interpretação melodramática do pintor.

 

[…] Nenhuma descrição tentada por quem quer que seja poderá as equiparar à simples alienação de objetos naturais e de tintas a que se entrega van Gogh, tão grande escritor como pintor e que transmite dentro da obra que descreve, a de (sic) mas desconcertante autenticidade (Van Gogh, o Suicidado pela sociedade; achiamé; R J ; s.d.; p. 18).

 Vincent descreve para Théo um quadro de Thijs Maris:

Uma velha cidade de Holanda, com fileiras de casas num castanho avermelhado com oitões em escadinha e patamares nas portas, telhados cinzas, e portas brancas ou amarelas, vãos e cornijas; canais com barcos e uma grande ponte levadiça branca sob a qual se encontra uma chata com um homem ao leme, a casinha do guarda da ponte que se vê pela janela sentado em sua pequena escrivaninha.

Um pouco mais longe no canal, uma ponte de pedra sobre a qual passam pessoas e uma charrete com cavalos brancos.

E movimento por toda parte: um homem com um carrinho de mão, um outro apoiado ao parapeito, olhando para a água, mulheres de preto com toucas brancas.

No primeiro plano um cais com lajotas e um parapeito branco.

Ao longe uma torre se ergue sobre as casas.

Acima disso tudo, o céu, num branco cinza.

É um pequeno quadro, vertical (op. cit., p. 2, 3).

 Artaud comenta a descrição de um quadro de e pelo próprio van Gogh:

 Parece fácil escrever dessa maneira.

Tente e então me diga se você não fosse o autor de um quadro, de van Gogh, poderia descrevê-lo tão simplesmente, sucintamente, objetivamente, duravelmente, validamente, autenticamente e milagrosamente… (Artaud; op. cit.; p. 19)

 Mais adiante M. Terrasse admite que:

 Mesmo sem escrever bem, van Gogh impregna suas cartas de tamanho vigor e energia que elas terminam por tornarem-se um documento tão admirável como os diários de Kafka ou Dostoievski (ib.)

Procuro nas Cartas o perfil deste artista tão controvertido em vida quanto idolatrado após a morte. Artaud culpa Théo pela morte de Vincent, e acrescenta que o fato daquele morrer seis meses mais tarde não muda nada. Acusa Théo de tentar acalmar as alucinações (sic) de Vincent em vez de acompanhá-lo no delírio, do qual dependia, ao que parece, a qualidade de sua arte, porque não é o homem mas o mundo que se tornou anormal (p. 3). Entendo que Théo era culpado de não ser gênio, e que Artaud confunde um estágio do sistema capitalista com a condição do planeta. Na verdade, Artaud, romântico exacerbado, aproveita o tema van Gogh para a autodramatização.

O caráter “sublime” da vida e obra de van Gogh irá ganhando volume a medida que estas sejam divulgadas, vulgarizadas, pela imprensa, a “literatura”, o teatro, o cinema…

A imprensa, mais preocupada com a propaganda e a venda dos seus produtos do que com a verdade, divulga a imagem do artista incompreendido, estóico, puro, sem mácula comercial; nunca omite que vendeu apenas um quadro em vida.

 Foi Anne Boch, irmã de Eugène Bock (ou Boch), 1855-1941, pintor francês que, em fevereiro de 1890, comprou em Bruxelas A Vinha Vermelha, por quatrocentos francos, provavelmente o único quadro de Vincent que Théo conseguiu vender. (Jo van Gogh-Bonger; op. cit; p. 107)

 Este dado fortuito confirmaria as qualidades supracitadas. Até a assinatura pode ser prova de modéstia ou, em todo caso, ter função ambígua:

Será preciso inserir meu nome no catálogo tal como eu o assino nas telas, ou seja, Vincent, e não van Gogh, pela simples razão que não saberiam pronunciar este último nome aqui. (Cartas; p. 147)

 Eu tinha começado a assinar minhas telas, mas logo parei com isto, pareceu-me demasiada besteira. Numa marina há uma assinatura vermelha muito exorbitante, porque eu queria colocar uma nota vermelha no verde. (id. p. 195)

A reflexão aconselha calma e paciência:

 Se aos quarenta anos eu fizer um quadro de figuras semelhantes às flores de que Gauguin falava, terei uma posição de artista ao lado de qualquer um. Portanto, perseverança. (id., p. 230)

 Van Gogh não chegará aos quarenta anos. E não haverá uma ponta de vaidade nesta afirmação?:

 Ora, eu como pintor nunca significarei nada de importante, sinto-o perfeitamente. (id.; p.264)

 Ou seja, Vincent desejava ser importante! E enganou-se duplamente. Não só é um marco da arte moderna, como um dos personagens mais frequentados pelos escribas.

Ao idealizar-se a figura do artista ao gosto do consumidor médio, começa a deturpação da vida de Vincent van Gogh. Omitem-se os dados que possam macular a imagem pretendida. Assim, raramente se menciona o fato dele beber excessivamente, elude-se a análise em profundidade do seu caráter irascível, que o torna incapaz de controlar suas opiniões sustentadas aos gritos. Estas particularidades serão convenientemente atribuídas a sua pretensa loucura. Nesta disposição de espírito conseguiu se indispor não apenas com os pintores que freqüentava como com seu próprio irmão, se bem que com este por pouco tempo.

Em alguma carta exporá a idéia de que os quadros deveriam ter as assinaturas de ambos. Não sem arbitrariedade podemos ignorar este reconhecimento ao seu único benfeitor. A interpretação de Artaud é tendenciosa, subjetiva, mais uma conseqüência do abuso ou descontrole da linguagem do que uma opinião refletida à luz dos fatos. Aqui, como em outros momentos de sua obra, Artaud é arrastado pela linguagem. Em sua interpretação, cada um dos atos da vida do pintor ganha novos significados. De um modo geral, os acréscimos morais a estas figuras correm por conta e risco da boa vontade dos articulistas, crescem, bifurcam-se

canonizando o artista.

Não endosso a idolatria. Vincent van Gogh, aquele cara de açougueiro ruivo que nos inspeciona e vigia; que nos escava com o olhar turvo (Artaud, op. cit., p. 29), não era um santo, se estes existiram alguma vez. Precisamente por ser “apenas um homem” é que sua obra merece estudo. Fosse ele um mensageiro divino e teríamos direito a exigir mais pureza, mais estoicismo, menos intenções comerciais.

Artaud escreve seu libelo em 1947, depois de visitar a exposição de van Gogh no Museu l’Orangerie.

 Van Gogh está na moda — escreve George d’Espagnat –, moda frenética, ao extremo de que os visitantes se aglomeraram em quatro filas diante dos quadros enquanto uma fila tão comprida como as que vemos nos cinemas se estendia à entrada do museu. Em todos os lugares elegantes, nos chás luxuosos ou sensivelmente burgueses, as pessoas do mundo mais elegante lançam exclamações cheias de admiração por este pintor que cada um se congratula de ter descoberto.(Cartas; p. 298)

Artaud assume o tom d’O Justo, como corresponde à autodramatização. Culpa a sociedade pela morte do pintor, como se a sociedade (?) devesse arcar com os gostos pessoais em pintura. Pressupõe uma função social do artista sem contar com que ela exige a assimilação de valores explicitados na obra, por outras palavras, o produto deve atender o gosto do consumidor. E aqui cabe o termo detestável. Van Gogh, a despeito de ter vendido apenas um quadro em vida, pretendia, achava coerente, em todo caso, viver da venda dos seus quadros. Desejava ser um artista profissional no sentido burguês;o erro foi não renegar de sua profissão de fé:

 (Tersteeg) sempre diz não é vendável, e em primeiríssimo lugar é preciso ser vendável.

Quanto a mim, atribuo a isto o seguinte significado: “O senhor é uma mediocridade e o senhor é pretensioso em não querer submeter-se e fazer coisinhas medíocres; o senhor se torna ridículo com suas supostas pesquisas, e o senhor não trabalha.” (Cartas, p. 68)

 No impasse, decidiu acatar o conselho de Théo: Sigamos nosso caminho tranqüilamente, trabalhando para nós mesmos. (id.; p. 185)

O sistema econômico tornou a profissão de artista uma aberração, tanto quanto a de atleta profissional, inexistente antes do século XX, quer me parecer.

Imaginemos um esportista que inventasse um jogo do qual apenas ele conhecesse as regras, teria direito de reclamar da falta de público? Até o século XVIII, o artista sentia-se amparado pela “sociedade”: a igreja, a nobreza. A mudança de regime deixa o artista a descoberto. O artesão, outrora respeitado porque a serviço de instituições tradicionais, torna-se um paria. Ele mesmo terá que ser um objeto “artístico”: imagem exótica, espécie de urso dançarino, pois se aprecia mais a singularidade do comportamento que a qualidade da obra.

Aquele momento funda a espécie romântica “artista miserável”, a era dos ismos e o culto do sofrimento doméstico, matéria prima da arte dita realista. Logo a psicologia dará fundamentos teóricos para interpretar a obra a partir da vida do artista. O círculo se fecha harmoniosamente, vida e obra se complementam para satisfação generalizada dos ideólogos e dos donos do mercado. O preço da obra flutua embalado pelos ventos da crítica de arte, não raro financiada pelos seus beneficiários: colecionadores, marchands, investidores (sic), artistas inseridos no contexto. A imortalidade já é previsível, inclusive quanto a sua duração.

Não é o caso de justificar a indiferença pela arte nova do “grande público” (instituição parida nas novas condições do mercado), antes, denunciar o sistema que faz a manutenção da ignorância, explorando-a com e para o consumo de produtos de baixa qualidade. Não se censure este vocabulário, é o adequado quando se fala de mercadorias.

Um quadro de van Gogh, O Suicidado pela Sociedade, tem hoje um dos preços mais altos no mercado internacional de arte. Nunca compreendi o mecanismo que determina o valor de um quadro, se é que existe um mecanismo. O caso dos Girassóis de van Gogh exemplificará outros. Tento me localizar fazendo abstração do tipo de produto em pauta. Imagino um objeto industrializado, digamos: um carro. É questionável minha habilitação para depor, visto não ser o feliz possuidor do artefato proposto; suponho que isto justificará a minha candura aos olhos das montadoras, da psicologia e da crítica especializada. Suponho que quando é lançado no mercado um novo modelo de automóvel, todos os exemplares da série têm o mesmo preço. Suponho que este seja determinado pelos custos de fabricação, mais a margem de lucro. Suponho que tudo isto seja calculado matematicamente. Suponho que o resultado da operação seja justo.

Como calcular o preço de um quadro? Van Gogh propõe várias maneiras de cotação, em algumas cartas expõe planos de venda e arrisca avaliações de sua obra:

 

Se nos atrevemos a acreditar, e continuo convencido disto, que os quadros impressionistas subirão, é preciso fazer muitos e valorizá-los. Mais uma razão pela qual é preciso cuidar tranqüilamente da qualidade da coisa e não perder tempo. (Cartas, p. 153)

 

Mauve fez e vendeu uns seis mil francos em aquarelas, pelo que você mesmo me contou na época. Pois bem, existem tais filões dos quais, em meio às dificuldades atuais, eu sinto a possibilidade.

Nesta remessa há o pomar cor-de-rosa em tela grosseira, e o branco horizontal, e a ponte, os quais, se os guardarmos, acho que mais tarde poderiam subir, e uns cinqüenta quadros desta qualidade nos ressarciriam de alguma forma pela pouca sorte que tivemos no passado. Pegue portanto esses três para sua coleção e não os venda, pois mais tarde valerão quinhentos cada um. (id., p. 157)

 Que tal avaliação fosse modesta não altera nada.

 Creio ter mais chances de lograr as coisas e mesmo os negócios um pouco maiores, do que me limitando a fazê-los muito pequenos. E é justamente por isso que eu acho que vou aumentar o formato das telas e descaradamente adotar a tela de 30. (id., p. 165)

 Enfim, estou mais ou menos certo de conseguir fazer uma decoração que valerá dez mil francos daqui a algum tempo. (id. p.204)

 Fazer mil quadros a cem francos durante uma vida de artista é muito, muito difícil, mas quando o quadro vale cem francos e ainda assim […] (id., p. 225)

 É claro que não esqueço o troço (não tão) diabolicamente bom que acabou dando porque não pude me decidir a vendê-lo. (id., p. 120)

O quadro do meu exemplo pertence a uma série na qual todos os exemplares têm dimensões similares, isto faz supor um preço mais ou menos igual da tela em branco e das tintas utilizadas, supondo que tais materiais tenham sido adquiridos na mesma época e no mesmo local. Pelas declarações de Vincent, podemos supor que nelas se tenha investido um tempo de trabalho mais ou menos equivalente. Suponho que sou autorizado a supor um preço aproximado entre estas obras.

Outro modo de avaliá-los poderia ser o sistema de griffe (?) ou marca, como se dizia antes da globalização (a. G.). Suponhamos que a marca Simplesmente Vincent (S.V.) atingiu o valor X. Todos os artefatos desta marca terão o mesmo preço ou, digamos, um preço equivalente, dependendo das dimensões ou da época em que foram fabricados. É obra de transição, tal Os Comedores de Batatas? Trata-se de Sorrow, o único nu pintado por S. V.? Se as cotações alcançadas não respondem estas questões, é de supor que o funcionamento do mercado seja arbitrário, portanto, os valores (monetários, artísticos) das obras não são impostos pela sociedade ou o mundo, mas por setores interessados na especulação financeira, aos quais não seria estranho o jornalismo cultural.

 Mera curiosidade o fato de que o magnata japonês que pagou pelo quadro mais de U$ 70 milhões (Baratinho! Baratinho!, nas suas palavras), tenha determinado em testamento que a obra deve ser incinerada

junto com ele. Não é amor excessivo pela arte. Acontece que no Japão os impostos sobre heranças são tão exorbitantes que é preferível destruir os bens. Um quadro de Renoir, adquirido na mesma época, pela mesma pessoa e com valor aproximado, corre o risco de sofrer as conseqüências da mesma determinação. Poderá se questionar se este… colecionador, por assim dizer, tem o direito de destruir tais

obras. Desde que se admita a propriedade privada dos objetos culturais, sua intenção é totalmente legal. Paradoxos da valorização da arte! Sabemos que o exótico comprador faleceu há algum tempo, ignoramos se enquanto cumpria pena por corrupção, sendo ele o corruptor. Paradoxos da jurisprudência do dito Primeiro Mundo!

Não menosprezo a obra de Vincent van Gogh. Desejo compreender o método que a impõe a um consumidor tão despreparado em matéria de pintura quanto os gigolôs e (os) pivetes que achavam especialmente interessante ver as cores saindo dos tubos. (id., p. 207) Este público — a maioria da espécie — é a verdadeira vítima do engodo. O artista inovador sempre terá lucidez para perceber as falhas do sistema e a loucura de apontá-las. Esperar reconhecimento em vida por isto é não compreender o funcionamento do mercado ou excesso de ingenuidade.

Van gogh se aproxima de uma teoria e uma crítica de sua obra:

Tenho a intenção de aprender seriamente a teoria; não considero isto de forma alguma inútil, e acredito que freqüentemente o que sentimos ou o que pressentimos instintivamente torna-se claro e certo quando somos guiados por alguns textos que tenham um real sentido prático. (id.,p.87)

 Isto nega tanto a “loucura” quanto a “inspiração”, conceitos vizinhos, se não sinônimos, em certas poéticas.

Caso van Gogh fosse um louco (!?), o seria nas horas vagas. Ao pintar, é de supor que seguisse os planos traçados que apresenta a Théo:

Não creia pois que eu manteria artificialmente um estado arrebatado, mas saiba que em pleno cálculo muito complicado, do qual resultam rapidamente, uma atrás da outra, telas feitas bem depressa, mas muito calculadas previamente. E aí está, quando lhe disserem que isso foi feito depressa demais, você poderá responder que eles também viram depressa demais. (ib., p.176)

 

Em meu quadro do Café Noturno, busquei exprimir que o café é um lugar onde podemos nos arruinar, ficar louco, cometer crimes. Enfim, procurei, através dos contrastes de rosa tênue e de vermelho-sangue e borra de vinho, de suaves verdes Luís XV e Veronese, contrastando com verdes-amarelos e verdes-azuis duros, exprimir algo como o poder das trevas de uma espelunca. (id., p. 255)

Meus estudos não têm para mim nenhuma razão de ser além de uma espécie de ginástica para subir e descer nos tons; assim, não se esqueça que pintei meu musgo branco ou cinza com uma cor de barro e que apesar de tudo, no estudo, ele fica claro. (id., p. 114)

 Na sua opinião, nem sempre está à altura do plano ou consegue realizá-lo plenamente:

 Infelizmente tenho uma profissão que não conheço o suficiente para me exprimir como desejaria. (id., p. 255)

 Não é arbitrário considerar sua obra um conjunto de estudos:

 […] Por enquanto só O Semeador e o Café Noturno são ensaios de quadros compostos. (id., p. 203)

Como se vê, a imagem do louco inspirado perde consistência quando confrontada com o dia-a-dia das suas cartas. Esta documentação original, insuspeita, traz a tona as preocupações de um artista consciente do seu trabalho, debilitado fisicamente pelas privações materiais que acabaram provocando perturbações nervosas identificadas com a loucura (?), para maior satisfação do público em geral, embrutecido pelo jornalismo sensacionalista, que fingindo corrigir, insiste em confirmar os fatos sórdidos de sua vida.

Gauguin teria cortado a orelha de van Gogh, segundo especialista

Londres, 22 jul (AFP) – A orelha esquerda de Vincent van Gogh pode ter sido cortada por Paul Gauguin durante uma briga sob efeito do álcool, afirma uma especialista alemã que contradiz, com sua tese, a versão oficial de uma automutilação, indicou este domingo o jornal Sunday Times.

Em um livro que será publicado em breve, a crítica de arte Rita Wildegans afirma ter descoberto muitos buracos na popular versão do incidente…

[…] “Não afirmo ter cem por cento de certeza de que minha teoria esteja correta. Nenhum historiador o faria”, explica Wildegans.

[…] Para a crítica alemã, também é muito suspeito que Gauguin tenha partido de Arles com grande precipitação no mesmo dia…

[…] Há também o fato de que Gauguin pediu por correio que suas coisas fossem enviadas a Paris e, entre os objetos pessoais, seu equipamento de esgrima, por era (sic) apaixonado. No entanto, não pedia que lhe enviassem a espada. Dessa forma, a crítica alemã deduz que, para dissimular, a havia levado consigo.

 

UOL DIVERSÃO & ARTE — Índice de notícias — 22/07/2001 — 09H18

 

 

 

É de supor que o jornal não ironiza ao chamar a “pesquisadora” de crítica de arte. Isto me remete às freqüentes investidas sobre, ou contra, a Mona Lisa. Lembro de três: Em meados da década de 1970 um médico japonês, utilizando sofisticada tecnologia eletrônica, descobriu que na esclerótica dos olhos da personagem (não há certeza de que tenha existido historicamente) aparecem manchas verdes, o que o levou a diagnosticar afecção hepática, e concluía com gravidade científica: algo muito sério para uma mulher de sua idade . A segunda também vem do Japão e é mais recente, já no presente século. Um pesquisador acaba de descobrir a voz de Mona Lisa! A terceira aconteceu no fim da década de 1980 na terra natal da matrona: dois estudiosos, após exaustivas pesquisas, conseguiram identificar a paisagem que aparece ao fundo do quadro. Trata-se de uma localidade perdida no interior da Itália e cujo nome não consegui guardar.

 

 O fato é que um van Gogh louco vende mais revistas, jornais, livros, filmes…, que um pintor com os nervos à flor da pele por uma alimentação deficiente e falta de materiais e de companhia:

Estive tão duro desde quinta, que de quinta a segunda só fiz duas refeições, quanto ao resto eu só tomei pão e café que mais de uma vez eu fui obrigado a beber fiado e que tive que pagar hoje. (Cartas, p. 219)

Que pena que a pintura custe tão caro! Esta semana eu tive o suficiente para me incomodar menos que as outras, portanto eu me soltei; eu teria gasto a nota de cem numa única semana, mas ao fim teria meus quatro quadros, e mesmo se acrescentasse o preço de toda a cor que usei, a semana não teria sido um fracasso. (id., p. 197)

[…] passam-se muitos dias sem que eu diga uma palavra a alguém, a não ser para pedir o almoço ou um café. E assim foi desde o começo.

[…] Até o momento, no entanto, a solidão não me incomodou muito, de tão interessante que eu achei o sol mais forte e seu efeito sobre a natureza. (id., p. 177)

Eu não teria medo de nada se não fosse esta maldita saúde. […] E o caso é que, quase não comendo, e quase não bebendo, estou muito fraco, mas meu sangue se refaz ao invés de se estragar. (id., p. 153)

Meu caro irmão, talvez o melhor seja zombar de nossas pequenas misérias e também um pouco as (sic) grandes misérias da vida humana. (id., p. 253)

Em 6 de junho de 1888, escreve:

Sei também que pretendo manter minhas opiniões deste inverno, quando conversamos sobre a associação de artistas.

Não que eu tenha um grande desejo ou esperança em realizá-la […] (id., p. 171)

 

Seria de lamentar que Artaud confirmasse a imagem elaborada pelo mercantilismo. Tal não acontece, seu Van Gogh… é um depoimento do autor sobre si mesmo, não um estudo da vida e obra do pintor. A leitura das Cartas e a observação atenta dos quadros (não como ilustrações) sempre dirão mais sobre o homem e o artista do que qualquer “interpretação”, por autorizada (?) que seja.Não se trata de denegrir a imagem de van Gogh, apenas de devolver-lhe a estatura humana.Hoje, a “rebeldia”, o “satanismo”, têm carta de cidadania cultural. Com todo fervor, não desejo cair na tentação de, negando a loucura (qualquer coisa que se entenda por isto), afirmar a santidade (qualquer coisa que isto signifique) de quem lucidamente escolheu a pintura como forma de realização pessoal. Numa interpretação descabida e romântica do sistema capitalista, o fracasso comercial pode ser “prova” (?) de autenticidade psicológica (!), de honestidade profissional, de generosidade espiritual. Livre-me Deus (qualquer coisa que isto signifique hoje) desse dês(a)tino!

 


tela de vincent van gogh. ilustração do site.

MARQUES DE MARICÁ, alguns aforismas

 

 

 

Não chores porque já terminou, sorria porque aconteceu.

 

 

Desperdiçamos o tempo, queixando-nos sempre de que a vida é breve.

 

 

O louvor fecundo distingue menos que a admiração silenciosa.

 

A companhia dos livros dispensa com grande vantagem a dos homens.

 

 

O louvor que mais prezamos é justamente aquele que menos merecemos.

 

 

Os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir.

 

 

Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores dos nossos erros, vícios e imperfeições.

 

 

A paciência em muitos casos não é mais senão medo, preguiça ou impotência.

 

 

A beleza é uma letra que se vence à vista, a sabedoria tem o seu vencimento a prazos.

 

 

A sinceridade imprudente é uma espécie de nudez que nos torna indecentes e desprezíveis.

 

 

Custa menos ao nosso amor-próprio caluniar a sorte, do que acusar a nossa má conduta.

arte nas mãos de guido daniele/milão. ilustração do site.

 

 

 

AUSÊNCIA poema de tonicato miranda

(para Jane)

Do que é feito o triste?

não ter a mulher amada por perto

sentir no jazz saudades em forma de trumpete

querer estar errado, quando se está certo

viver sem contrastes, se sentindo um traste

Do que é feito o triste?

dia interior nebuloso, apesar do sol claro lá fora

prostrar-se diante da TV e nada ver ou falar

a lágrima seca, que não brota, não chora

saudade pulsando no coração como um quasar

Do que é feito o triste?

um copo e uma garrafa sobre a mesa

um piano pingando notas de dedos musicais

olhar sua foto na parede, seus tempos de princesa

sua ausência e um tempo que não volta mais…

Do que é feito o triste?

olhar seu brinco sem sua orelha

sua blusa largada na cadeira sem seus braços

suas flores beijadas por uma grande abelha

seu sorriso sempre lindo afastando meus abraços

Do que é feito o triste?

um piano dedilhado ligeiro

uma bateria marcando tempo

retratos na parede

retratos na memória

um cigarro, vinte cigarros

uma bebida forte

chuva miúda na janela

um sapato encharcado

um casaco dependurado

um guarda-chuva solitário

nenhum táxi circulando

ruas vazias na noite escura

não querer tomar um último gole

não querer fumar um último cigarro

sentar a sua espera

o olhar fixo no infinito

ouvir o jazz e se deixar levar

para o seu passado

no presente da minha tristeza

eu aqui, sem jantar

você tão longe, já na sobremesa

555 VALE A PENA PARA SER NÚMERO – poema de sérgio bitencourt

“Minha mulher gosta de jantar às 7:00 hs

 Eu prefiro às 8:00. Jantamos às 7:30 hs

 De modo que nos contrariamos mutuamente.

Isto é que se denomina fazer concessões conjugais”

 

                                            Chateaubriand 

 

 

 

 

Seiscentos pode ser um modelo

Um jeito auspicioso

Gosto de morango

Gosto gostoso de todos os sorvetes da vida

Consistentes nas temperaturas certas

Para que possam continuar rígidos. 

 

Quinhentos pode ser um propósito solto

De não considerar a coerência exata de todos os acertos

De jantar a gosto de viver na boa

Bebendo até a ilusão do tempo

A tempo de continuar passando

Como um sorvete derretendo à toa.

 

Quinhentos e cincoenta fica na média do Chateaubriand

Com seus jantares da vida.

 

Quinhentos e cincoenta e cinco

É coerente por si só

Pela própria mecânica dos seus dígitos

Portanto tão ímpar

Que não é por acaso.

 

O caso é que

Seja em que número for

Amar eu sempre vou te amar.

 

 

 

 

SINA – poema de vanessa lima de carvalho

 

 

Sem a lua,

Onde estariam meus reflexos azuis?

Sem o mar,    

Quais águas seriam minhas?

 

Sei o longínquo som da dor,

Sinto a luz que atravessa a janela.

Ainda não sei,

Mas sinto,

Mais uma vez,

Tudo.

 

Aquela luz

Lá no fundo da porta,

Dos olhos,

Da praça.

 

Tudo foi dito sem sentido,

Intacto termo de vida,

Pois nada justifica

o cansaço,

o desmaio,

a ferida.

 

Nem uma pétala caída

Das palavras antigas

Julgam meu estado,

Minha sina de existir.

 

Qual nome, portanto,

Revela tal melancolia?

Os passos, porém,

São os mesmos…

Tristes.

 

Aquela varanda, afinal,

Parece tão feliz.

Não conheço os cômodos atrás da porta,

Mas sei o cheiro exalante de jasmim.

 

À espreita de uma fresta vazia,

Vivo eu, então, só.

As nuances vem-me ao corpo

Anestesiado ao tato.

 

Talvez, ainda que fugaz,

Minha pele perca-se em um sopro de vida

Minhas mãos toquem a areia fina…

O caos, as vozes calem,

E eu…

Inesquecível.