Arquivos Mensais: julho \31\UTC 2008

REQUIEM para A.W. por jorge lescano

 

Não há balas perdidas. Existe um número preciso de disparos sem o qual a guerra não se realiza plenamente. A este número, imensurável porém limitado e apenas conhecido pelo contador sobre-humano, corresponde um número proporcional de vítimas.

            A 15 de setembro de 1945, faltava que uma bala fosse disparada para completar a ação total da guerra. Esta bala estava na arma de um açougueiro norte-americano, soldado ocasional. À bala faltava-lhe a vítima. A guerra havia acabado, portanto, a vítima deveria ir ao encontro da bala. Nem a vítima nem o soldado conheciam seu desígnio, porém, ambos estavam vinculados a um ato que completaria o ritual.

             Era necessário que o atirador e o alvo ignorassem a identidade do outro. O enredo exigia que a vítima fosse um civil para evitar qualquer noção de rivalidade. A ordem era de que nenhum interesse pessoal interferisse no cumprimento da cerimônia. Somente assim o fato se revelaria ato não humano, circunstância pura.

            Em Salzburgo é pouco mais de vinte e duas horas de uma agradável noite de fim de verão.

            O músico vai para a rua depois do jantar. Na outra calçada, sombra nas sombras, um vulto pronuncia algumas palavras em inglês, que o austríaco, provavelmente, não compreende. Com um gesto familiar àqueles que o conhecem, o civil leva a mão a um bolso do paletó, à procura de um charuto.

            Então, o tiro. Único no silêncio da noite; e outra vez o silêncio.

            Este eco da guerra, quando todos os estrondos se haviam esgotado, procurava um ouvido capaz de dar-lhe significado? O certo é que ele será o réquiem e o epitáfio do artista. O silêncio não deveria ser o mesmo depois daquele disparo. Agora seria um vazio povoado de ausências, a moldura de sutilíssimos sons, quase nada, que não mais seriam modulados.

Não fosse a vítima Anton von Webern e o tiro passaria despercebido. E não teríamos a revelação do mecanismo do ritual, sem que pretendamos com isto compreender-lhe a razão.  Esta continuará acaçapada por trás do acaso, da coincidência, fatalidade, azar, mal entendido.

Talvez, no momento do disparo, as funções do soldado e do músico foram trocadas, sem que se alterassem a ação ou as identidades das personagens: uma oferenda, Baal, uma bala. Talvez os dois homens fossem meros suportes, acidentes no tempo e no espaço. No entanto, ambos foram necessários para consumar o sacrifício à deidade corporificada no projétil.

 

ATRASO por lélia almeida

Era uma vez um país onde muitos acocaram na boquinha da garrafa, adoraram a Eguinha Pocotó e dançaram o créu com a Mulher Melancia. E na semana em que este país aprovou a pesquisa com as células-tronco e deu um passo definitivo à civilidade, nesta mesma semana e neste mesmo país, Carlão e Bernardinho se casaram, mas não puderam beijar na boca! O beijo foi censurado!
Atraso e hipocrisia no país mais galinha do mundo! Ou devo dizer, no país mais careta e moralista do mundo?
Sábado à noite as comportadas famílias brasileiras puderam assistir ao último capítulo da novela Duas Caras de Aguinaldo Silva. Um casamento coletivo foi realizado e, como é de praxe, todo mundo casou e foi feliz para sempre.
Durante os meses de novela a discussão sobre o politicamente correto e sobre algumas políticas governamentais estiveram na ordem do dia. Bem ou mal, falou-se sobre quotas na universidade, sobre inclusão, sobre racismo e sobre paternidade homoerótica (juro que não fui eu que inventei este termo). Dondocas descobriram que a vida com o povão na favela podia ser uma farra e alguns bandidos se reabilitaram, como foi o caso do inescrupuloso Carlão, que explorou o pobre Bernardinho à farta.
No país que cria uma ficção, em plena novela das oito, onde uma criança pode, legalmente, ter dois pais e uma mãe, e onde um dos pais pode casar com outro homem, acontece o inusitado: casar pode, mas não pode dar beijo na boca!
Assim caminha a humanidade e assim caminha a sociedade global brasileira: um passo a frente, dez para trás. Atraso, minha gente, o nome disso é atraso. Talvez quando tivermos os resultados das primeiras pesquisas com as células-tronco, dentro de alguns anos, Carlão e Bernardinho, quem sabe, depois de assinar a união estável na frente de um juiz, poderão pegar na mão e dar um virginal beijo no rosto. Espantoso!
Porque na vida real a coisa é outra. Na vida real, a coisa é gay. O mundo está gay. As relações são gays, a estética é gay, a moda é gay, e o fashion é ser gay. O cenário obrigatório é queer eye for the straight gay. Confesso que estou exausta com a coisa gay. Estou exaurida com a moda gay. Estou de saco cheio da caricatura. Estou cheia da histeria da ditadura gay para quem tudo é homofóbico, e estou farta da assepsia do politicamente correto e da punheta virtual também. E do feminismo que só discute, na academia e nos movimentos sociais, relações parentais homoeróticas, técnicas reprodutivas para casais homossexuais, quando a discussão sobre gênero, na atualidade, tem um único e último objetivo que é a discussão sobre a coisa gay.
Eu mesma, depois deste desabafo, serei, muito provavelmente, espinafrada por estas poucas linhas, denunciada como preconceituosa e homofóbica. Mas eu realmente estou de saco cheio destes tempos muito sem graça em que estamos vivendo.
Particularmente, tenho saudades da sacanagem e do deboche, sinto falta do tempo em que os homens gostavam de foder com as mulheres e as mulheres se derretiam para dar a bichana. Sinto falta dos tempos em que homens e mulheres podiam se esfregar e assediar e amassar sem que isso fosse um sintoma, uma doença, um desvio, uma ameaça, tenho saudades dos tempos em que era considerado relativamente saudável, – para dizê-lo em bom português, e para que não esqueçamos os nomes das coisas – homens e mulheres gostarem de namorar, transar, trepar ou foder. Estou quase saudosa de pérolas pré-históricas como a coçada no saco, a boa e velha pegada, um peito cabeludo e um mundo de homens sem brincos.
Estou cansada com o exagero da coisa gay, mesmo sabendo que o exagero é necessário para que algumas demandas venham a público. Assim como foi absolutamente necessário que as feministas queimassem sutiãs, há muitos anos atrás, e assim como foram necessários gestos definitivos e exagerados para que reivindicações e novas condutas se estabelecessem.
E mesmo cansada da moda e da patrulha gay que assola a contemporaneidade, digo que o que vi sábado à noite me fez ter medo de um retrocesso à obscuridade da noite dos tempos. Foi patético, Bernardinho e Carlão ali, lado a lado, dando um passo sério e definitivo, em direção a formas afetivas mais livres e menos preconceituosas.

Mas sem beijo na boca! Com beijo na boca censurado!
Atraso, o nome disso é atraso.

BAILANDO NA CHUVA/terceto cruzado – de ângela lugo

Dançando entre os pingos da chuva quente
Que caiu de repente
Você vem e abraça-me fortemente

Vez ou outra vem o choro calmamente
Choro um amor contido
Ainda bem que tu me olhas docemente

Não podes imaginar meu sonho partido
Por te amar escondido
Um amor sem ser correspondido

Dançando na chuva vejo teu bailar descontraído
O amor nos dá maior percepção
Para sabermos quando estás distraído

Queria que tu tivesses sobre o amor mais informação
Sem deixar-me aqui nesta chuva em solidão
Bailando contigo e sustentando a minha condenação

Meu amor por ti é honesto e cheio de retidão
É alentador e acomodado
E quero que um dia ele saia da escuridão

Declarando a ti este sentimento que está sufocado
Dentro do meu coração
Não precisa ser aqui na chuva neste bailado

Pode ser em um dia quando tiver mais emoção
Quando você não estiver em clima de tensão
Procurando justamente por uma afeição

Sentir-se sozinho e não querer da vida somente ilusão
Então poderei te oferecer meus sentimentos
E assim doar-te o meu amor sem dimensão

Quando acontecer viverei intensamente todos os momentos
E quando assim em teus olhos encontrar o amor por mim
Enfim estarei ao teu lado com a alma repleta de contentamentos

PROJETO NORDESTE FÉRTIL – por ana maria maruggi

 

Conta que o presidente Luiz Horácio e sua comitiva visitavam o sertão nordestino para aferir o sucesso do Programa Nordeste Fértil.

 

Nesse Projeto foram construídas muitas cisternas espalhadas pelos municípios e a água era conduzida por meio de tubos de ferro fundido para quase todo o sertão nordestino.  Com essa medida o solo estaria mais apropriado para as diversas culturas da região e a fome começaria a ser erradicada do nordeste.

 

Saíram da capital do país em  Boing presidencial ultra moderno aterrizando numa próspera capital nordestina. Lá o presidente deparou com  um Programa que  ia de vento em popa. O que lhe parecia normal.

 

Mas havia queixas de que nos cafundós do Estado a coisa ia de mal a pior. Incrédulo, o homem ordenou que  embarcassem para um distrito pouco assistido para que ele soubesse com  era o “ir de mal a pior”.

 

As notícias começaram a ficar ruins naquele mesmo instante, pois não poderiam viajar de avião para   distritos que não tivessem aeroportos. É claro!

 

Isso lá era verdade, pensou o presidente com seus bufões. Iriam de carro então. E lá foram até Esperancinha, cidade pequena com pouco mais de 2500 habitantes, poeirenta, com algumas lojinhas de alimentos toscos e uma mercearia onde se servia refeição em prato-feito. No armazém, sentaram e comeram arroz, feijão com toucinho, mandioca cozida com alecrim, e galinha de panela. Não se tratava de um banquete, mas a comida era boa. Não fossem aqueles mosquitos, a sujeira acumulada nas mesas, a louça quebrada nas beiradas, os talheres entortados, o sol escaldante sobre as cabeças,  teria sido um bom almoço. Salvo pela cerveja gelada que foi oferecida gratuitamente para comitiva. Uma única latinha para cada um.

 

Eu estava sentada numa outra mesa  e vi a cara de desolação da comitiva quando lhes foi negada a segunda latinha sob alegação de que faria falta para o freguês que chegasse depois deles.

 

Curioso o presidente tomou a frente e perguntou ao proprietário se o Projeto Nordeste Fértil tinha beneficiado Esperancinha, no que a resposta foi afirmativa devido a proximidade com a Capital.

 

Mas o Chefe do país ainda queria visitar um lugarejo que não tivesse nada além parcas casinhas de pau-a-pique, e seguiram em pau-de-arara até a desconhecida Jaicosa.

 

Movida pelo impulso patriota, juntei-me a eles nesse trecho da viagem. A estrada que nos levava à cidade escolhida era quase intransponível. Sinceramente não saberia dizer o que havia mais: buracos ou poeira. Nenhuma vegetação à beira da estradinha. Ninguém cruzou nosso caminho em mais de duas horas. Mas, finalmente, lá estava Jaicosa! Cidade ausente do mapa do Estado, mas lá estava ela com suas, quase dezoito casinhas. Quase porque uma delas estava em construção há mais de cinco anos e seus proprietários haviam morrido de doença ruim. O esqueleto de construção, num caso como esse, era abandonado à própria sorte. Era aquela a cidade que o presidente queria conhecer!

 

Meu corpo doía em todos os músculos e ossos. O calor nos castigava. Nossas vestes não eram apropriadas e nossa última bebida tinha sido aquela única latinha de cerveja lá em Esperancinha. Desci com dificuldade do pau-de-arara, mas estava tão curiosa em saber que tipo de gente habitava aquele lugar inóspito que nem liguei para minhas dores. Embolei-me no meio da comitiva de mais de 20 pessoas e me esgueirei para frente do grupo, pois não queria perder nem uma ceninha do acontecimento histórico que  estávamos vivendo. Eu, e Jaicosa.

 

O presidente Luiz Horácio protegido pelos seguranças pediu ao assessor que batesse à porta da casa mais próxima. Saiu de lá uma mulher barriguda, despenteada, cheirava mal a pobre coitada, com vivos sinais de sujeira por todo o corpo. A boca sem dentes nem sorria. Não demonstrou nenhum espanto ao ver aquele bando de estranhos  à sua porta, apenas perguntou o que queriamos. O assessor sorriu brandamente diante da falta de curiosidade da moradora e pediu água para beber. Ela nem titubeou, fechou a portinha e manteve o grupo do lado de fora.

 

O assessor sem entender olhou para o Presidente que disse “insista, ela não entendeu o que você disse”. Ele bateu de novo. A porta que não estava trancada, foi abrindo lentamente e lá vem a mulher desajeitada, mancando e coçando a cabeleira.

 

Ele diz: “Boa tarde. Somos da comitiva do Presidente  e queremos saber se o Programa Nordeste Fértil chegou por aqui”.

 

Ela foi imediatamente dizendo: “Aqui não chegou ninguém não sinhô. Faiz mais de seis anos que não vem ninguém aqui. O derradêro foi o Doto Lino, meu cumpadre. Veio e me feiz um fio, o Luiz, e dispois num vortô mais. Nunca mais.”.

 

O grupo não pode evitar  um risinho aqui e outro ali. De repente estavam todos rindo alto. Inclusive a dona da casa. Quando todos já conseguiam falar o assessor  se apressou em pedir água para beber. E ela não demorou em atende-lo. “Luiz Horááááácio, vem cá meu fío. Vai lá na tina buscar água pro moço bebê que ele chegô agora de viaji e tá aguniado”.

 

Ao ouvir que ela dera seu nome ao filho, o presidente adiantou-se e, com um sorriso incomum, perguntou: “- A senhora deu o nome de Luiz Horácio ao seu filho em homenagem a alguém?”

 

A mulher não reconhecendo o presidente foi logo dizendo: “- Ahn, qui nada seu moço! O nome dele é Eufrázio Lino. O mesmo nome do pai, do avô e de um montão di genti aqui de Jaicosa. Mas dizem qui ele se parece muito com um tar de Luiz Horácio, intão o povo chama ele assim”.

 

E o presidente emendou: “Ele ainda poderá ser famoso, senhora. Poderá ser até chegar a  Presidente do Brasil”.

 

E a mulher se benzendo: “Arre qui não, seu moço,  é que farta um dedinho na mão dele , i é purisso que o povo daqui chama ele assim.

 

                   cangaceiros corisco e pancada.  ilustração do site.

ADILSON, O Jabá – por josé alexandre saraiva

 

De todos os bêbados convictos que conheci, Adilson, o Jabá (ou Xarope, como era chamado pelos colegas do ofício), foi o mais feliz e fiel executor da arte de beber. Ninguém sorriu tanto na vida, diante de uma cachacinha da boa, como o inesquecível Adilson.

      Para cada gole, principalmente quando alguém pagava, já que era desempregado e pobre, logo se via o maior sorriso do mundo derretendo em contentamento suas rugas, em nada lhe inibindo a falta dos dois incisivos superiores.

O polaco bebia com o mesmo entusiasmo com que criança come chocolate e com a satisfação de quem, num só instante, saboreava, a cada copo, todos os prazeres e delícias que dizem existir no mundo. Dava a impressão de que sufocava, também, as feridas da alma. E as amarguras que já tinha sofrido, ao longo de seus quarenta e tantos anos de deliciados sorvos da “branquinha”.

Eis que, no sábado passado, Jabá, cujo único defeito era torcer ferrenhamente para o “Coxa” (mas quem é que não tem seus pecadinhos?), acordou às onze, ajudou um vizinho protestante que trocava um pneu do carro e foi ao “Bar Estrela Dalva” para beber o que quis e como quis. Bebeu, bebeu, bebeu … Depois, às sete da noite, com auxílio dos colegas (todos bêbados, evidentemente), foi-se para o barraco de madeira que erguera no quintal da casa onde morou com ex-esposa. Dela estava separado por ser ateu e amante da saborosa cachaça. A sós, na plenitude de sua feliz solidão, completamente encachaçado, morreu de morte morrida.

A notícia correu a Vila Maria Antonieta. Ninguém se conformava. “Era sujeito bom demais … Como pôde ter morrido assim, sem mais nem menos… Gostava tanto das crianças… Sempre tinha sorrisos para todos… Até os cachorros do Zé Piúdo respeitavam a careca do Xarope, para quem latiam sorrindo… Ele sempre colaborou com a “Igreja da Salvação…”

Em meio a uma dúzia de velas e poucas flores campestres colhidas na redondeza, lá estavam, dia seguinte, os companheiros do “Jabá”, enterrando o caixão azul e roxo na cova nº 5840 do cemitério de Piraraquara. Nenhum discurso, nenhum lamento exagerado, como ocorre nas sepulturas de defuntos ricos, famosos. O silêncio. Apenas o silêncio dos sentimentos e as discretas lágrimas não contidas do irmão mais velho, que viajara de Chapecó, solavancos de horas cansadas. Foi ele prontamente consolado pelos perspicazes colegas do Jabá, na certeza de um patrocínio iminente para desafogar a tristeza. Afinal, eles não tinham participado do velório realizado na casa da ex-sogra do falecido, apesar do caloroso protesto da CAC – Comunidade Alcoólatra Convicta, fundada por Jabá, sem qualquer estatuto ou registro.

Saltitando no topo de árvore desfolhada, a mais elegante das figuras marcava presença:

— “Bem-te-vi … Bem-te-vi …”

Nem mais um só eco de emoção naquela tarde fria.

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                         sem crédito. ilustração do site.

AQUÁRIO poema de manoel de andrade

 

 Silente e impassível
o mar
navega sua beleza
em  preguiçosas caudas
e barbatanas velozes,
ilumina-se em translúcidas medusas
e na cromática simetria das escamas.

Refrata a luz e a vida
no remanso submerso das águas,
em seus relicários de pérolas
e no  balé  itinerante dos cardumes.

Mar, ó mar…
escondeste teus íntimos mistérios
na pressão insuportável dos abismos
nessas paisagens indevassáveis da vida
onde transitam  feições primordiais jamais iluminadas.

Abres, contudo, as pálpebras da aurora
e o sol emerge do teu ventre  qual fornalha ardente
e na superfície das águas
ilumina tua face absoluta
nesta horizontal extensão do azul
nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios
onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes
e as asas serenas do albatroz.

Teus brancos litorais abraçam a Terra
desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.
Tuas marés redesenham os cinturões de areia
e delimitam teu espaço inconquistável.
Os manguezais invadidos retratam teus domínios.
Contra teu furor levantam-se falésias
fiordes verticais e punhais de granito.
Edificas tua linha de recifes,
teus castelos de corais,
cultivas teus jardins de algas e sargaços
onde mandíbulas poderosas,
venenos e descargas fulminantes,
ditam teu código submerso.

Mar, ó mar
transparente  beleza de flores e de frutos
território enigmático de vidas e silêncio
abismo onde flutuam os sobreviventes
sudário de todos os náufragos.

Mar azul
chamo-te água absoluta
porque absoluta é a tua sedução
a tua irresistível espuma
a mobilidade do teu ritmo
tua incessante sinfonia
teu eloqüente silêncio.

E contudo…
diante do etérico oceano…
diante dessas deslumbrantes ilhas estelares…
tu és apenas um úmido ponto no infinito
um aquoso respingo
minúsculo aquário
um minuto ondulante na eternidade
há bilhões de anos se espraiando
nessa gota salgada suspensa no universo.
                                 

 

Curitiba, março de 2004
Este poema consta do livro “Cantares”, editado por Escrituras

A CENTRAL DE GOLPES por walmor marcellino

Há só três pontos de vista sobre os acontecimentos no mundo: 1) o da liberdade, do progresso econômico-social-político e autodeterminação dos povos, 2) o do capitalismo-imperialismo, com sua dominação política e produção-destrutiva dos recursos e bens naturais, e 3) o de Vargas Lhosa, Arthur Virgílio-Fernando‑Henrique Cardoso‑Roberto Freire e outros imbecis de vários matizes. Essa redução aqui da espécie humana a simples paradigmas, entretanto, soará sectária ou “radical”, porém não há outra forma de exposição sucinta de temas mais complexos sobre os quais a Rede de Intrigas CNN‑Globo (et caterva) ensinam o gentio e os idiotas a pensar ciberneticamente.
Para quem pensa que vou fazer algum ensaio, desilusão. Cito apenas o jornal “El País” (de “centro-direita”) na sua edição de “viernes, 4 de julho de 2008), que mancheteia: “A operação Jaque começou em janeiro”, e subtitula: “Um grupo de coronéis treinados em Israel e Estados Unidos desenhou o plano de resgate”. Agora, vocês podem ler e escolher uma das informações (que se interpenetram): a minha já passada a vocês pela internet tachada de marxista delirante e a do jornal, que goza de um conceito de “independente”.
A CIA, a DEA, o Moussade (Israel) e até o M-16 foram os autores, os três primeiros planejando a ação-corrupção de resgate e o outro sócio-“informado” como aliado na grande cruzada da Internacional Negra. Claro que era preciso ter projetos táticos aperfeiçoados: nas práticas da CIA e de seus paramilitares colombianos, nos infiltrados na guerrrilha e sua caixinha de “até 100 milhões de dollares” para este caso no aliciamento dos “voluntários”, nos “narcocorrompidos” e no “pay-cash” dos “amigos dirigentes colombianos”. O ensaio do Equador não servira de advertência para os governos da região, de que se trata de um planillo dentro do grande plano estratégico: o governo satélite Uribe como relembrança de que as canhoneiras farão “a sombra política” da determinação imperialista da renascida “Doutrina Monroe”: o México neocolonizado vai infiltrar-se nos demais convidados “G” (China, Índia, Brasil, África do Sul e México) no G-8; a Colômbia vai sinalizando o modelo de cooperação neocolonial-neoliberal, juntamente com o Chile, o Peru e o vacilante Uruguai.
Bem, voltemos: as ações da CIA (como exemplo, nos genocídios políticos praticados pelos militares tipo Castelo Branco-Costa e Silva-Medici-João Figeiredo-Pinochet-Vidella-et fezes) são sabidas embora pouco conhecidas; a canalha oligárquica, institucional e burocrático-militar em nossos países é vista por nós com “seriedade democrática”, as campanhas contra “o narcotráfico” orientadas pela DEA e CIA recebem apoio de todos os idiotas e corruptos: moralistas, políticos e juristas, como pretexto para asfixiar as classes “desobedientes”; o Mossade se associou ao gangsterismo político globalizado para garantir-se “as informações de dentro” da internacional negra do imperialismo e manter o apoio das forças repressivas internacionais; atua em toda parte como “serial killer” bem treinado em matar árabes e palestinos. Continuamos bem.

DA TERRA AO CAOS – conto de leonardo meimes

A terra ainda era menina demais, pois esta história remonta aos longínquos anos em que os homens ainda se dedicavam à vida pacata. O mundo humano se resumia a uma família e a porção de terra conhecida ainda era reconfortante, muito parecida com o paraíso. Na vila, única, se via apenas uma grande casa cercada por pequenas construções de um cômodo e de campos abertos, onde todos cuidavam do ofício de serem pastores ou de plantar hortaliças. Eles não foram sempre pastores, a tradição começou quando o irmão mais novo decidiu criar, cuidar e finalmente usufruir a vida animal, então todos o seguiram. Dantes fora ainda mais pacata suas vidas, resumidas as sombras das florestas de onde retiravam seu sustento comendo frutas suculentas e delícias que afloravam com a terra. Agora ali os animais eram, sim, pastoreados, as ovelhas e os pequenos borregos caminhavam tranqüilamente, sem perceber as intenções de seus criadores, que não deixavam de ser boas. Apenas o necessário era utilizado, pouca mata havia sido avariada, sendo as poucas casas feitas de barro e alguns fragmentos de madeira encontrados já ao chão. O campo não era dividido em áreas, toda área era comum, porém os animais obedeciam apenas a seus pastores. As famílias provenientes do mesmo pai e mãe conviviam em paz, aliás, desdenhas ainda não haviam sido criadas entre os viventes, só entre os viventes e os criadores.

O primeiro filho nascido nesta terra, um grande homem, de barbas espessas ruivas e um apetite voraz por tudo que da terra provinha, foi também o primeiro agricultor. Tinha um nome da terra e se chamava Mica. Arou os campos e refez a terra de modo que tudo o que plantasse, crescia. Ao término de alguns anos, na família santa havia mais de dez filhos, cada um com sua família e criação. Porém à Mica, o velho, não foi dada a graça de uma esposa fértil. Cada um dos irmãos a seu jeito ajudava a crescer a espécie humana, porém Mica e o mais novo, Balé, ainda não tinham plantado raiz nesta terra. Balé era magro, bem frágil e por muitas vezes pensativo, foi quem descobriu a arte de lidar com os animais, de alimentá-los e, mais por necessidade do que por perversidade, de os sacrificar para fartura das famílias. Este irmão, porém, ainda era novo e havia a pouco se casado com uma de suas irmãs, também muito nova, apesar de mais velha do que ele, e planejavam viver sem constituir família, ajudando e trabalhando para o bem de todos os outros moradores da vila.

O irrequieto e voraz Mica decidiu então pedir a deus que este lhe fizesse a graça de lhe conceder um filho. Recolheu as mais bonitas frutas, fez ramos de trigo e pediu que sua mulher fizesse doces e especiarias para que fossem oferecidas a deus num apelo. Armou um templo com estas gostosuras da terra que nem ele, acostumado a ver tanta fartura, recusaria qualquer desejo que lhe fosse pedido. Porém deus, ao contemplá-lo em tal fervorosidade, respondeu que ele seria o último dos irmãos a ter uma progênie, pois seu trabalho como agricultor era um dos mais importantes dentre os que eram desenvolvidos entre os irmãos e não podia ser incomodado. Ficou assim enraivecido o brutal Mica, suas veias saltaram e ele num feroz balbucio despejou desvairadas injurias a tudo e todos. Essas se dirigiam principalmente ao irmão menor, Balé, que não tinha em mente a constituição de uma família, impossibilitando assim que o mais velho pudesse procriar.

Em um encontro, mais do que desnecessário, Mica rogou ao piedoso Balé que fosse junto dele pedir a deus que fosse permitida a cria, que Balé explicasse ao onipotente que não tinha planos de ter filhos e que não podia desta forma o seu destino estar entrelaçado ao do irmão ou o mais velho nunca os teria. Improvisaram um altar, com fogo e ervas essenciais, que espalharam um cheiro que qualquer um cederia. Balé procurou o bezerro mais bonito dentre suas criações, pediu-lhe encarecidamente que participasse do sacrifício e não sendo respondido pelo animal julgou que tudo ia bem. Mica recolheu mais frutas e verdes diversos do que antes e produziu um belo arranjo para a oferenda. Ao amanhecer eles começaram a oferenda e o sacrifício, chamando deus que lhes ouvisse. Este mais uma vez disse que a intenção era boa, porém o destino dos dois estava mais entrelaçado do que o de qualquer dos outros irmãos e que fruto de tal destino haveria de se cumprir para que o mundo fosse completo. Mica enraivecido outra vez perguntou a deus de punhos cerrados e num suplicante gorgolejo se havia meio de sua vontade ser atendida de alguma forma. Deus lhe disse que só com o maior ato de amor e devoção à sua pessoa o destino poderia ser mudado.

Mica olhou ara seu irmão ali ao seu lado ajoelhado e bradou a deus, “Ó deus, lhe ofereço a vida de meu irmão e cometo uma grande ofensa para provar que faço tudo por minha vontade”. Agarrou Balé pelos ombros e desferiu mortal golpe em seu irmão. Balé ali jazia e a voz de deus não foi mais ouvida por Mica.

Mica explicou aos outros irmãos que Balé havia se sacrificado para que deus lhe concedesse a graça da prole e que em nove meses nasceria uma criança. Porém tais meses foram de incrível solidão para Mica, que não tinha coragem de olhar para o rosto dos irmãos e já tinha perdido a vontade de plantar e colher, aderindo ao hábito de andar a sós à noite, o que antes lhe causava repulsa, mas agora era muito reconfortante. Sua mulher foi cada vez mais apresentando os sinais da gravidez. Em três meses já tinha uma barriga e mal podia se mover. Outros fatos estranhos tomaram vez. Havia uma espécie de pássaros que ajudava os homens no laboro com a terra, plantando e espalhando sementes, estes já não eram mais vistos, assim como mais cinco outras espécies, incluindo roedores, peixes, e miúdos. No quarto mês as pragas começaram. Atacando as lavouras foram seis pragas ao todo uma em cada mês que a criança crescia. Ao término dos nove meses, o irmão poeta já havia escrito seis tragédias ali ocorridas, em lindas métricas por ele inventadas. Então, a criança nasceu, em uma caverna onde Mica decidira se instalar. O leito era de pedra sem nada para confortar o bebê. A esposa não teve coragem de chamar os outros irmãos para ver sua criança. Este era um menino, de bom peso e boa aparência, porém eles estavam com dúvidas na escolha do nome. A criança depois de horas sem um nome começou a chorar. De grande altura foi o choro e os animais notaram que uma nova vida havia surgido, curiosos vieram visitar.

Vieram vários animais, cada um ao seu ritmo e ofereceram ajuda a Mica na escolha do nome. Mica expressou seu desejo por um nome animal, pois queria que seu filho tivesse intimidade no lido com estes. Talvez numa homenagem a seu irmão morto escolheu o nome Cordeiro. Olhou para os lados procurando entre os animais um cordeiro para pedir-lhe permissão e como não havia ali um desses foi escolhido o nome. Os animais ali concordaram, pois cada um tinha seu motivo em não dar seu nome a criança que havia desencadeado tal desordem, mesmo antes de nascer. Cordeiro de imediato começou a chorar mais alto. A criança se contraia e corava como se o estivessem torturando. Então Mica retirou-lhe o nome e tudo voltou ao normal, a criança olhava para os lados com uma feição indagativa. Não se fez consenso sobre o nome que o menino receberia e nem haveria tempo para tal, pois três homens chegaram à caverna, cada um montado em seu animal.

Mica não reconheceu nenhum deles como um de seus irmãos e perguntou-lhes de onde vinham. Os três se aproximaram e em rima e verso responderam:

 

 

 

 

O primeiro:

“Sou o rei do alto ocidente!

Venho aqui presentear a criança com ouro.

Ó mestre, que nasceu para reinar valente

Sobre toda a vida existente!”

 

Este estava montado sobre um lindo mustangue e usava roupas vermelhas e azuis.

“serás, ó Rei, o mais temido entre os homens!”

 

O segundo:

“Sou o rei do alto oriente!

Venho lhe presentear com negra especiaria,

Que a sede com a fome sacia!

Ó grão mestre, que nasceu para o que devia!”

 

Desceu de seu camelo, pôs seu turbante ao lado do garoto e ajudou o pequeno a beber o viscoso liquido negro.

“serás o mais temido entre os homens, ó Rei!”

 

O terceiro:

“Sou o rei do sul do mundo!

Venho lhe trazer minha influência.

Pois sei que de norte a sul do mundo,

Todos lhe deverão obediência!

 

Desceu de seu jegue, pegou a criança e lhe deu um beijo.

“serás entre os homens o mais temido, ó Rei!”

 

E sorrateiramente guardou o ouro debaixo de seu casaco.

Tais gloriosos reis seguiram seu caminho terminando o maior ato de reverência a um mortal já feito até aquele momento em toda história. Mica estava abismado com o destino que deus havia dado à sua criança. Uma dúvida agora pairava na mente de todos os animais, que nome haveria de ter tão grande rei? Os animais estavam ansiosos e cada um queria agora que seu nome fosse dado à criança, entusiasmados pelas previsões dos reis. Começaram a declamar.

O Cão:

“Serás Cão!

Pois sua voz soará como um rosnar assustador

À quem se atrever a atrapalhar seu destino!”

 

O Bode:

“Serás Bode!

Pois terá a sabedoria que um líder precisa para

Acabar com seus rivais!”

 

Um Morcego ali alojado:

“Serás Príncipe das Trevas!

Pois não terá medo de infligir a escuridão,

Que seus inimigos tanto temem, como um morcego faz!”

O Lobo:

“Serás Besta!

Pois terá a fúria e a impiedade que só os lobos tem!”

 

O Porco:

“Serás Sujo!

Pois assim manterá longe qualquer indesejado rival,

como fazem os porcos!”

 

Seguiram falando depois o Gato-preto, a Serpente, a Mariposa, o Dragão, o Escorpião e a Aranha. Travaram os animais uma discussão na qual decidiram chamar o menino de Mestre. Só que as conseqüências daquela noite acabaram por irritar o garoto. Após tantos nomes serem dados, a criança se contraiu em um gesto e com um lamento ainda mais alto que o primeiro amaldiçoou a todos. A terra tremeu aos pés dos homens, rachou e se dividiu em várias porções enormes de terra à deriva. Na vila, situada em uma destas porções, as pessoas sentiram uma forte dor em seus ouvidos e ao cessar do lamento já não conseguiam se entender em palavras. Cada um dos irmãos e suas famílias começaram a se desentender, suas vozes eram de um absurdo total e foi necessário que cada família fosse para um canto do mundo para que não brigassem. Levaram consigo, sua forma de falar, suas especialidades, suas crenças e cada um seu nome diferente para o ser que havia perturbado uma paz que reinava há anos. Os animais também passaram pelo mesmo processo e ao término do lamento não se entendiam mais. As vacas em vez de falar a língua dos homens mugiam, os lobos uivavam e todos tentaram desesperadamente dialogar, mas já não era possível.

Mica deitou e chorou. Sua mulher não resistiu ao parto. A criança, soluçando ao fim do lamento, foi então alçada em vôo por um abutre que a levou para longe. A terra se curou, abasteceu-se de novas vidas já abundantes e prosperou, porém nunca mais se livrou da sombra causada pelo garoto. O abutre muito velho e perspicaz criou o menino, alimentou-o e ajudou a crescer quem nós chamamos hoje por vários nomes, todos semelhantes pelo ar sombrio e pesaroso.

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ilustração do site. foto do telescópio hubble. nebulosa da Águia.

O PIRILAMPO E O SAPO poema de marquesa de alorna

 

Lustroso um astro volante
Rompera as humildes relvas:
Com seu vôo rutilante
Alegrava à noite as selvas.

Mas de vizinho terreno
Saiu de uma cova um sapo,
E despediu-lhe um sopapo
Que o ensopou em veneno.

Ao morrer exclama o triste:
– Que tens tu de que me acuses?
Que crime em meu seio existe?
Respondeu-lhe: – Porque luzes?

 

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a poeta Marquesa de Alorna.

peripknestsinder OUTRA VEZ POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS – por jairo pereira

Outra vez Hermes Lucas Perê e outra vez poetas brasileiros contemporâneos. Onde foram parar aqueles guris, acho q. da USP, q. apareceram uma vez na Veja falando de poesia & experimentos de linguagens?! Isso, faz mais ou menos dezessete anos. Lembro q. a repórter (ou o) ouviu Hilda Hilst e Leminski, poesia em camiseta e contrariedade entre os poetas. Promessas poéticas descumpridas. É sempre aquela questão do querer e o poder fazer. Há muito poeta bom por aí, mas fraco de obra. Tem q. produzir mais. Coisa de megalômano, a aventura com os signos e a materialização dessa aventura em obras. Muitas obras. Os velhos já nos resistem, ante pilhas de papéis sujos do nosso dizer. Imagine, salpicando um poeminha aqui outro acolá. E ficando só nisso. O mundo é dos loucos convictos na criação. Os loucos q. ante toda torpeza expandem o dito e arremessam petardos ao deus dará. Tá vendo. Por isso, tô cada vez pior de trabalho e financeiramente. Depois da última abdução, ainda mais misantropo. Firmeza, convicção, acreditamento no produto do seu espíritho, isso é o q. mais falta. Me chama atenção a força da poesia de Neuza Pinheiro, inédita em livro individual. Ninguém, ou quase-ninguém a menciona, quando o assunto é poesia hoje. Ainda não conseguiu um editor interessado na publicação do seu livro. Fico pasmo. Tanta coisinha ruim sendo publicada por aí, e essa enorme poeta, potentada dominadora dos signos ainda inédita. Pra quem não a conhece: Neuza, é também cantora e compositora, tendo atuado na Banda Sabor de Veneno, com Arrigo Barnabé, e participado de festivais de canção da extinta tv Tupi. Tudo é tão pouco quando se fala dessa grande e injustiçada artista brasileira. Um dia ainda tomaremos os meios de produção. Gosto de brincar sobre isso com alguns raros amigos poetas. Uma gráfica para cada dez e estamos felizes. Alguns navios também e grandes carretas, pra distribuir os livros, nesse imenso continente brasilis.

O Douglas Diegues, na fronteira Brasil/Paraguai, está cada vez melhor, espero me mande em breve o seu novo livro de poemas, q. diz ter título retirado de ensaio sobre sua poesia q. fiz certa vez: Una flor na solapa de la miséria. O livro foi editado em Buenos Aires. Douglas manja tudo e sabe do q. estou falando, e q. tem q. por mais esperma e pus nesse processo do criar poeticamente, e do reconhecimento de talentos poéticos no Brasil. Os velhos resistem, covardemente, irreconhecendo a produção contemporânea brasileira, de jovens poetas. Alguém já viu ou ouviu o Ferreira Gullar, alguma vez mencionar o nome de um ou dois ou três poetas das novas gerações, reconhecendo seus talentos? Ou o crítico Wilson Martins, levantar a varinha mágica e revelar um talento atual. O Augusto de Campos –esse- não fala, portanto não vamos ouvir nunca algo sair de sua santa boca. A essas alturas, treme o computher, em ideogramas e compostos puramente visuais. O Haroldo de Campos, mais parlapatão e seguro de si, abria o coração e alarmava gente (poetas jovens) pra todo lado. Raramente, uma alma consagrada, abre caminho na noite veloz, pros bons e jovens cavalos. Há um ódio de gerações, q. perpassa a razão e a emoção. É fria, muito fria, se é q. dá pra se chamar assim, essa dolorida sucessão. Não gosto de ver poetas pedintes, submissos às velhas ratazanas. Poeta q. é poeta sabe disso: meu verso meu guia, minha senda, meu destino sobre todos os destinos. Me alarma, saber do ódio de gerações e a indiferença dos medíocres (alguns até consagrados), às gerações sucessoras. Vais dizer q. não há sucessão dos corpos, das mentes, das linguagens, e q. o q. se institui é imutável e perene?! Na cosmodinâmica, q. imagino tudo é vão e passageiro, e os acentos desocupam e são ocupados novamente em saudável variação. Nunca tive e não tenho esse problema (irreconhecer outro talento). Pelo contrário, gosto de alardear a energia vital, do estreante, do jovem q. descobre a força do signo e constrói veredas da criação, jamais imaginadas por autores veteranos. Esse o grande milagre da criação. Ela –a criação- nunca esgotar-se em si mesma. Contra toda corrente de destruição e morte, as hastes verdoengas ressuscitando sob os cascos dos velhos cavalos. Parafraseando ou repetindo Caetano, isso é lindo. Importa saber q. a noite é grande e extensa a estrada em meio à floresta dos signos. 

Outra questão: o poema social (participativo). Numa época de morte nathural das ideologias, cada vez mais, poetas insistem em cultivar temas exclusivamente intimistas, alheios à realidade social. Intimismos à parte, ninguém vive em asteróide, fora de órbita terrena, (quer dizer eu apenas posso fazer isso porque abduzido). Tal fato, faz refletir o social, no poema. A mesma água do mesmo córrego sujo, q. vai pra planta, q. vai pro pão, q. vai pro bicho beber, q. vai pra fazer o arroz e o feijão, a mesma água q. bebemos e nos banhamos, traz a realidade pra dentro da gente. Cada vez q. o poeta fala em realidade, um frio percorre a espinha. Realidade é objeto jornalístico. Objeto sociológico. Objeto antropológico, philosóphico até, mas nunca poético. Creio q. é tudo isso ao mesmo tempo e mais ainda: fator determinante da melhor poesia, quando a infância com seus arquétipos prensados na alma, conduz o ver & o sentir nas construções do alto espíritho. Lembro do meu amigo Marcos Macedo, assistindo o filme Gringo Velho e chorando. O Marcos só na sala, embebido daquela história. Meu pai mal no hospital, eu no quarto de hóspedes e o Marcos na sala chorando e assistindo aquele filme. Irrelevante ou não, nunca mais pude esquecer aquela cena. Uma liderança, um ideal, uma vida doada a um povo, opressão e luta, e o choro quieto do Marcos. Choro chorado pra dentro. O Marcos é um homem político e idealista per nathura. Não sei porque lembrei disso agora, e se tem algo a ver com o tempo & poesia… Poesia realmente está no emissor dos signos e também no receptor. Não existe a obra sem o outro. A interação dos elementos q. compõem a relação é q. fazem o bom (ou bem) da arte. Esse é Hermes Lucas Perê, repentista de microidéias e quem quiser q. faça outro, mais culto ou sábio. Protonathuralmente é q. tomo decisões e precipito ditos sobre o fazer dos outros. Um instinto de indeterminação (acaso e acidente) conduz meus passos no transfinito mundo das idéias. Poesia melhor q. a de Batista de Pilar, o poeta errante de Curitiba, é rara, em vida e espontâneidade. Quantas vezes o vi –seminu- embaixo do viaduto, ou na Galeria do TUC, com os papéis sujos às mãos, a declamar versos improperiais. Do sujo, do morto, do letargido, da miséria –dessa flor na lapela- difícil de se ver e sentir, é q. nasce as vezes a melhor poesia. Poesia desinteressada, nos fins formais e mesmo de conteúdo. Inaugurações do eu, nathuralmente em estado de graça. Já vi tudo e nada vi ainda pra meu sustento. A vida ensina vida a vida. Cada qual com seu destino, sua luz tênue de poeta. É duro, mas não tenho mais nada a dizer. De repente, não foi a hora certa. Ensaio uns versos só por prazer & escárnio: Vinte anos esperei o bom judeu/q. me editaria/olhava os aviões no céu interiorano/e nada/revoada de andorinhas ao redor da casa/falsos os sinais/quando, quando, o escolhido virá/a colocar-me na rica estante dos consagrados??!! Depois por mero acidente, não sei, resolvi fazer mais uns só pra engrossar este texto: sou um civil/investido de soldado/mas não quero morrer nesta guerra/morrer nesta luta inglória/por um tirano fedendo a bosta/mil vezes morrer/por um poema na lapela da miséria/estou com Douglas Diegues e não abro/uma duas três belas vaginas/pra meu recusado caralho/amor amor amor/& mis vaginas prum tímido e pobre soldado/rico esteta & poeta desesperançado… Não gostou é?! Ínspio o vício lipsio. E por aí vai como vou. Meus filhos crescem livres/ao redor da casa/para o futuro/as hastem progridem belas/nada perdi e tudo ganhei/na loteria dos signos. Aqui graças aos meus deliberados de última hora, quem manda, seu grande filho da putha, soy dio, author, editor, livreiro e marqueteiro, e ninguém (ningum phuto) bota mirgúncias nos meus ditos transfusiados. Os ruídos vão se chegando, as vespas límias, os besouros metálicos, cerzuras de fios invisíveis, comprimindo, enlaçando, os corpos, as almas nos pântanos do consciente e inconsciente. O baralho espiritophânico dá as cartas do meu destino. O galo canta e o cão ladra, o novo dia. Os cavalos estalam os cascos, torneados em acrílico, na estrada asfáltica da grande e velocíssima noite. Uma lua como uma concha um búzio partido conquista cardumes de peixes no meu mar azul alucinógeno. Fragmento-me entre insetos lemptos. Um sapo gordo vem e me engole aos poucos. É a última noite. É a noite do fim dos tempos. Em peripknestsinder, uma língua q. inventei dia desses, composta quase-só de adjetivos, poesia é nandhertesinpher (solitude), perdhiphásilec’s (pensar), arratzhisins (ação) na linha do espíritho q. procura e nunca encontra o sol dos pequeninos.

 

 

hErMes lUcAs pErê, do transpoético

Autor de Anemoria (poesia) e

Arroz, feijão e philosophia (multiprosa)

a serem publicados por editora do Asteróide

AZPHIZ’S 555, da Órbita Savagé no ano 2010.

 

MUTABILE poema de lilian reinhardt

(líricas de um evangelho insano)

Travessia, sumidouro,
fratura d’água, dentirrostro
atravessa o escorso do vento,
perde-se  além do vidro da ilha,
escorre pela vinha dos olhos,
arriba nos pássaros da estiagem,
não diz a palavra caída,
nem rejunta a perdida sombra,
mas, se encolhe no verso vazado,
recicla de azul o céu molhado de aço,
dorme pelos caminhos murchos,
e sob os ossos  escreve na transmigração impressentida…
a rotunda forma de bebidas quimeras,
impermanência coagulada,
líquido tempo, vazante…
Afunda na garganta, das rosas!

ARREVESAMENTO poema de carlos vogt

 

 

A verticalidade

vertiginosa

da poesia mergulha

o cotidiano da novidade

no esquecimento

da atualidade

horizontal da prosa

PAPEL HIGIÊNICO LITERÁRIO – por jaime leitão

Os puristas e conservadores entortarão o nariz para essa idéia no mínimo original e exótica. Uma empresa lançou há pouco tempo na Espanha um produto que está fazendo o maior sucesso: o papel higiênico literário. Isso mesmo: papéis higiênicos, com papel e tinta especiais, trazendo obras de escritores clássicos: Cervantes, Shakespeare, Unamuno e outros grandes nomes da literatura espanhola e mundial.As vendas têm sido muito boas. O dono da empresa, Raúl Camarero, justifica a sua ousadia com o seguinte argumento: “Hemingway dizia que clássico é o livro que todo mundo respeita e ninguém lê. O que estamos fazendo é levar o livro aos banheiros, aproximando a literatura dos homens”. Completa: “E surge aí um conflito interessante: limpar o traseiro com uma bela obra e o dilema moral que isso representa”. Da Bíblia foram colocados trechos do “Apocalipse”, dos “Provérbios” e do “Cântico dos Cânticos”, três livros extraordinários. Do budismo, os escolhidos foram o “Sutra do Lótus” e “O Livro Tibetano dos Mortos”. Um dos sócios quis colocar trechos do “Corão”, livro sagrado dos muçulmanos, mas os outros recuaram com medo de represália.

A idéia surgiu quando Camarero, que é diretor e autor teatral, escreveu uma peça sobre uma empresa que havia criado os tais papéis higiênicos literários. A peça ganhou um prêmio no Festival de Sevilha, fazendo com que Camarero propusesse a alguns amigos sociedade no empreendimento. O nome da peça é “Empreendedores”, da empresa também. A realidade extraiu da ficção o produto, o que torna ainda mais interessante o projeto.

 

O autor mais solicitado pelos “leitores de banheiro” tem sido o genial poeta espanhol Federico García Lorca. Eu sou defensor ardoroso do livro e do jornal, mas não posso ser contra essa idéia que, de uma maneira ou de outra, estimula a leitura e pode fazer com que aqueles que não lêem livro passem a se interessar por eles depois dessa leitura feita na intimidade de um banheiro.Ler é fundamental. Temos que buscar os mais variados suportes para que a leitura seja incentivada. Se uma empresa aqui no Brasil me procurasse e me propusesse publicar os meus microcontos em versão papel higiênico, eu toparia. Antes da higiene corporal, por que não fazer uma higiene mental, lendo trechos de uma obra? É claro que um romance não é uma boa idéia, mas frases, haicais, textos de humor e microcontos se dariam muito bem nesses rolos literários.

O preço não é para qualquer bolso. Um rolo de papel higiênico-literário na Espanha custa 3,70 euros, cerca de R$9,80. O comprador-leitor pode escolher a cor e a obra. As letras são grandes, com grande espaço entre elas, para facilitar a leitura. Os donos da empresa vêm sendo convidados para entrevistas em diversos canais de televisão da Espanha, prova que estão agradando.
                         sem crédito. ilustração do site.
                                                                                        

CONVITE poema de osvaldo wronski

A cada encontro uma nobre ocasião

Sem precisar você é precisa

Um beijo na medida proibida

Vindo arrancar o canto dos meus cisos

Com suas mãos incisivas

Feliz me revelo

ao desvendar seus segredos

Campo sem batalhas

para uma nova conquista

Sentir-te saudades a perder de vista

E  lembrar-te logo na despedida

Quem me dera poder te ver

antes que você se vista

no instante da inesperada visita

o poema se atreve a dizer

o que esta escrito

na página branca do seu corpo

lendo esta indecifrável sensação

a cada encontro estaremos a sós

presentes sem omissão

 

W3 – de tonicato miranda

(anos plúmbeos e “aliás”)

W-3

em qual mês,

minha primeira vez?

Lembro de você, serpente

deitada desde o poente

até os limites da Torre de TV

W-3

todo mês

fez menino fez / fez menina fez

minha rua / minha tez /

W-3 / W-tez / toda sua / toda minha / um de cada vez

passo lento / passa vento / passa passa – W-3

W-3

era bom lhe ver

passear você e a cidade não ver

passar nas suas vitrines a ver

primeiras e últimas novidades

tentação feminina, limiar do querer

W-3

BiBaBo, Mocambo, Casebre 13,

lojas guardadas na sua rica caixa

uma delas Casa da Borracha, onde está

nos guardados não mais se acha?

queimou –se, virou fogueira, virou acha

W-3

centro comprido, reta pura

loja depois de loja, confundindo a procura

lugar de encontros e cursos de costura

escolas de datilografia; casas de fotografia

3×4, 5×8; dentistas com dentaduras na polia

W-3

cruzava-a todos os dias sem lhe partir

No rumo do CASEB e do Elefante Branco

Elefante que não solapava seus barrancos

Elefante Branco, Branco, Branco, Branco

distante um pouco dos seus muitos bancos

W-3

não tenho saudade de você avenida

nem das suas praças de cimento

pois ainda está aí, com todas suas feridas

no seu canteiro já teve retornos e carros

muito mais árvores, algumas muito floridas

W-3

querem agora lhe dar bonde moderno

pensam lhe remoçar como nova noiva

para a visita dos homens de terno

queira não, chama o povo a um beijo terno

diga que lhe apraz o céu mais do que o inferno

W-3

em qual mês,

minha primeira vez?

Lembro de você, serpente

deitada desde o poente

até os limites da Torre de TV

W-3

todo mês

fez menino fez / fez menina fez

minha rua / minha tez /

W-3 / W-tez / toda sua / toda minha / um de cada vez

passo lento / passa vento / passa passa – W-3

 

Brasília, 20/07/2008

COMO ALFABETIZAR SEM REPROVAR – por vicente martins

 

Uma criança, em sala de alfabetização, não deve nem pode ser reprovada.  Direi de outra maneira: a alfabetização não tem caráter avaliativo, com fim de promover o aluno de um nível de ensino para outro.

 O presente artigo prova, através da legislação educacional, que a sala de alfabetização não é reconhecida pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)  nem tem, por isso mesmo, caráter reprovativo. Nenhum aluno, matriculado, em sala de alfabetização, em escolas públicas ou privadas, municipais, estaduais ou federais, pode ficar retido em sala de alfabetização,ou pode ser rotulado de  “reprovado”, mesmo que a escola considere que criança não está alfabetizada em leitura.

A Lei 9.394, a LDB, promulgada em 20 de dezembro de 1996, não reconheceu a sala de alfabetização como nível ou subnível de ensino. Pelo artigo 21, da referida Lei, a  educação escolar compõe-se de: (1)  educação básica, formada pela educação infantil ensino fundamental e ensino médio e (2)  educação superior.

O que se pode observar pelo artigo 21 é que a Lei não faz qualquer referência à alfabetização.  No artigo 29, a LDB, sim, refere-se à Educação Infantil entendida como primeira etapa da educação básica cuja finalidade precípua é “o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade”.

Durante muito tempo instituições privadas de ensino entenderam que a classe de alfabetização poderia ser considerada um  subnível da educação infantil. Ou, talvez, uma fase intermediária e imprescindível entre a educação infantil, especialmente a pré-escola e o ingresso na primeira série do ensino fundamental. Uma concepção com boas intenções, mas com uma origem equivocada ou falaciosa: o ensino fundamental, no seu primeiro ciclo, é exatamente para dar início ao processo de alfabetização. Veja que utilizei a palavra processo para dizer que durante toda a fase da educação básica o aluno, ao certo, está sendo “alfabetizado” em leitura, escrita, ortografia, informática, e assim adiante.

A educação infantil não acolhe a sala de alfabetização. No artigo 30, a lei diz que a  educação infantil será oferecida em: (1) creches, ou entidades equivalentes, para crianças de até três anos de idade e (2)  II – pré-escolas, para as crianças de quatro a seis anos de idade. Na verdade, hoje, com a Lei nº. 11.274, de 2006, a rigor, a educação infantil só vai até os cinco anos.

          E por que existe sala de alfabetização no Ceará? Ora, por pura tradição e predomínio de uma pedagogia de época que via na alfabetização uma fase preparatória para o ingresso da criança no Ensino Fundamental, etapa que os professores já esperavam, também, o domínio rudimentar em leitura, escrita e cálculo por parte dos alunos.

          Durante muito tempo, a pedagogia de alfabetização do bê-á-bá também favoreceu o surgimento de sala de alfabetização não só no Ceará como em muitos estados da Federação, especialmente os da Região Nordeste. Por alfabetização, se entendia e se entende, em muitas escolas, a prática de ensino da primeiras letras. É o que os teóricos de leitura chamam de decodificação, onde o principal papel da escola é ensinar a criança a reconhecer as letras, nomeá-las e de forma não muito sistemática a relação letra-fonema, para o início da leitura mecânica. Aqui, vale dizer  que não se cogita ou se cogitava o ensino da leitura com sentido, isto é, ler o texto para atribuir-lhes sentidos.

          Em  outros casos, o pensamento ou metodologia de muitos alfabetizadores, favorecidos,  quase sempre, pelas cartilhas de alfabetização, do abecê, concebia (m)  a alfabetização como a iniciação no uso do sistema ortográfico. Ora, esta concepção é descartada, hoje, é ampliada e  vista como processo de aquisição dos códigos alfabético e numérico ou, em outras palavras, como o uso social da língua verbal e não-verbal, o chamado letramento  que deve ser trabalhado, principalmente, na primeira série do ensino fundamental e enfatizada até a quarta-série do mesmo nível de ensino. É aqui que se ensina, realmente, a língua e o sentido que permeia as habilidades lingüísticas como leitura, escrita e ortografia e os números. Na etapa anterior, a da educação infantil, o que se pode fazer é uma educação lingüística, enfatizando, em sala, a linguagem e suas funções, mas sem qualquer conotação ou apelo metalingüístico ( por exemplo, estudo das vogais, das consoantes, das semivogais, das sílabas, dos ditongos etc)

          Agora, tanto na educação infantil como ainda nas remanescentes salas de alfabetização (no Rio Grande Sul, por exemplo, não existem mais salas de alfabetização) não têm caráter de promoção, isto é, não é pré-requisito para que a criança entre no ensino fundamental. O pai ou responsável pode, inclusive, queimar esta etapa e matricular a criança diretamente no ensino fundamental. Claro, o maior prejuízo, nesse caso, é a perda da socialização uma vez que se aprende bem a língua materna em interação, na relação interpessoal e em vida social. Na educação infantil, pode a escola, desde cedo firmar as bases do aprender a ser, a conviver, a conhecer e a fazer, pilares da educação universal, segundo a UNESCO. Mas isso é uma alfabetização para a vida, para um olhar novo sobre o mundo, como quis a pedagogia paulofreiriana.

         O artigo  31, da LDB, diz, textualmente e reafirma o que dissemos anteriormente, que na educação infantil a avaliação far-se-á mediante acompanhamento e registro do seu desenvolvimento, sem o objetivo de promoção, mesmo para o acesso ao ensino fundamental. O quer dizer que os pais ou responsáveis podem, repito, não matricular seus filhos nesta etapa e, aos seis anos, podem matricular a criança diretamente no ano inicial do ensino fundamental, mesmo sem “ ser alfabetizado”. Por quê? Porque o ensino fundamental, especialmente no seu primeiro ciclo, é exatamente o período para a alfabetização em lectoescrita.

Mais recentemente o artigo 32, da  LDB, foi modificado pela Lei nº. 11.274, de 2006. A lei determinou que o ensino fundamental obrigatório passou a ficar com duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade, e tendo, por objetivo,  a formação básica do cidadão.

        (1) – o desenvolvimento da capacidade de aprender, tendo como meios básicos o pleno domínio da leitura, da escrita e do cálculo;

        (2) – a compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade;

        (3)  – o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores.

          O item 3 do artigo 32, da  LDB, como podemos observar, se constitui, assim, um momento de alfabetização no ensino fundamental onde a criança vai desenvolver a competência de aprender através do domínio da leitura, da escrita e do cálculo.

          Diria que nesta fase de ingresso da criança, aos seis anos, no ensino fundamental deve ser prioritariamente dedicado ao “o fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e de tolerância recíproca em que se assenta a vida social”, conforme acentua o inciso IV do artigo 32, da LDB

          Vale salientar que o artigo 6º da LDB, modificado pela Lei nº. 11.274, de 2006 estabelece, de forma compulsória, o dever dos pais ou responsáveis de efetuar a matrícula dos menores, a partir dos seis anos de idade, no ensino fundamental.

          Uma outra novidade que deve ser considerada por gestores educacionais, pais ou responsáveis e educadores é que o artigo 32 da LDB sofreu, pela Lei 11.274, a seguinte modificação em sua redação: o ensino fundamental obrigatório passou duração de 9 (nove) anos, gratuito na escola pública, iniciando-se aos 6 (seis) anos de idade e terá por objetivo a formação básica do cidadão.

         Uma palavra final: não permita que se filho ou filha seja retido (a) em sala de alfabetização. A existência de sala de alfabetização revela hoje o quanto a escola está na contramão da LDB e dos demais estados que têm experiência exitosa em alfabetização, como os da Região e Sudeste do País.  Em caso de resistência da escola, procure esclarecimento junto ao Conselho Estadual de Educação ou evoque à LDB através da promotoria pública.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará. –

                 sem crédito. ilustração do site.

                        

O AGÁ e o JOTA por alceu sperança

 

 

Ouve-se dizer, freqüentemente, que a educação é a solução para todos os males. É coisa falsa. No Brasil, os adeptos do senador e ex-ministro Christovam Buarque repetem muito esse conceito, sem entender direito o que o mestre quer dizer. Se você quantificar os prejuízos causados por todos os crimes cometidos por miseráveis de baixa escolaridade e formar uma pilha de dinheiro e depois amontoar os prejuízos causados à sociedade pelos colarinhos brancos, verá que a pilha dos prejuízos cometidos por gente com ensino superior é muito maior.

O moreninho é criminoso. Já o seu dotô de olhos azuis apenas deu um mau passo na vida. O miserável tem que ser executado na periferia: vai cortar lenha pro Capeta, como dizia Novaes. Mas seu dotô tem que ter mais uma chance para ir à igreja e fingir que está orando ao Onipotente. Pobre, quando está correndo, foge da polícia; o rico foge da gordura. A educação é fundamental, mas não resolve nada por si mesma. Pode-se perfeitamente formar um grande canalha na melhor universidade.

A educação necessária é aquela que arranca o cidadão do controle ideológico. Só a educação das massas hoje oprimidas pela brutal exploração poderá fazê-las compreender que são escravizadas pela hegemonia cultural do neoliberalismo e seu mercado de horrores: guerras, preços altos de comida e remédios, doenças espalhadas e curas sonegadas, fé no irrelevante e descrença em si mesmo.

A ideologia domina tão completamente os cidadãos que eles não percebem como são tratados. Usuários, pagam duas, três vezes, por um mesmo serviço. Quando pagam impostos, já pagam os serviços públicos em geral, mas ainda têm que pagar de novo por asfalto, transporte, pedágio, água, coleta de lixo, energia, escola dos filhos, exames médicos etc. Quem compra é “consumidor”, e ao comprar está pagando ainda mais impostos. Paga os impostos de todos os que produziram, transportaram e venderam o produto. Quem diz que gera emprego não gera nada: quem gera é o cara que pagou todos os impostos dos produtores e vendedores. Ou seja, você.

Os indivíduos, assim, são reconhecidos apenas por um valor utilitário conferido pelos donos do mundo: “Você é quanto lucro pode me dar”. Mas aquilo que tem valor de uso não é gente, é objeto. Se os indivíduos não são pessoas, então são coisas, e quem não consome não vale nada, segundo o escritor Luiz Fernando Ferreira:

− Um cachorro manco nos comove mais. A brutalidade contra animais gera reações de revolta bem mais constantes que a crueldade rotineira contra homens e mulheres. E essa crueldade crescente e gratuita, sem outro fim que ela mesma, é de um tipo novo: é uma adaptação. Os crimes contra a vida não se esgotam na morte. É indispensável fazer sofrer, torturar, queimar, esquartejar. Tais atos de negação extrema (…) atingiram um grau de banalização desconcertante.

Quando o pobre-diabo é brutalizado na periferia, executado por traficantes aos quais não pagou pela droga (pois uma hora o corpo arria e nem roubar mais o sujeito consegue), há um coro feliz: “É uma limpeza! Teve o que mereceu”. E quanto mais limpam, mais sujeira aparece.

Não basta diploma para ser honesto com agá maiúsculo. Para haver a verdadeira honestidade é preciso também haver justiça com jota maiúsculo.    

 

….

O autor é escritor.

ilustração do site. tela de mazé mendes.

 

Rumorejando (Por razões óbvias, os noticiários não podem parar de mostrar tantas falcatruas. A ética e a moral estaria, de vez, se esfumando?) – por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

 

Constatação I (Homenagem a todos os cartunistas).

Não se pode confundir gênios com gêmeos, exceto no caso mais conhecido por Rumorejando dos gêmeos Caruso, os cartunistas.

 

Constatação II (Ah, essa falsa cultura).

O Incrível Hulk, cujo nome verdadeiro é Dr. Robert Bruce Banner, é um personagem conhecido das histórias em quadrinhos, criado por Jack Kirby e Stan Lee, em 1962, que se inspiraram em Frederico Garcia Lorca que escreveu Romance sonâmbulo que começa “Verde que te quero verde”.

 

Constatação III

E como dizia aquela bisavó que ainda lembrava-se do tempo, contado por sua avó que falava no Marechal Deodoro da Fonseca: “Efetivamente, está havendo uma deterioração dos costumes. Depois dos vestidos e blusas ‘tomara que caia’, hoje em dia se vê as mocinhas usando calça comprida que dá pra chamar com o mesmo nome e que, acho que se inspiraram no ator Mario Moreno, mais conhecido por Cantinflas.

 

Constatação IV (Quadrinha para ser recitada para senhores da assim chamada Terceira Idade, como exemplo da Teoria da Relatividade para principiantes).

Uma prostatite

Não é melhor,

Nem pior

Do que uma uretrite.

(Perdão, jovens leitores e também os nem tanto).

 

Constatação V

Tenho que ser franco:

Sendo velho freguês,

É um tormento

Pagar, ao banco

Quinze por cento

De juros, ao mês.

 

Constatação VI (Análise combinatória de: Arranjos, Permutações e Combinações).

Tem obcecado que faz do amor um teatro;

Tem obcecado que faz do teatro um amor;

Tem amor que é obcecado;

Tem amor que é teatro.

 

Constatação VII (Dúvida crucial via haicai).

É muito dolorido

Ter um amor

Desabrido?

 

Constatação VIII

Rico tem um atraso temporário; pobre, perde o metrô. (O bonde da história nem falar). 

 

Constatação IX

Rico come caviar; pobre, bóia fria.

 

Constatação X

Fiz uma seresta

Pra ela.

A mãe enfarruscada,

Enfezada

Apareceu na janela.

Acabou a festa.

Coitada.

Dela*

*Não ficou muito claro se “dela” se refere à mãe ou à filha. Afinal, a mãe também deixou de escutar minha maviosa voz.

 

Constatação XI

E já que falamos no assunto, não se pode confundir voz com vez, muito embora no mundo, de maneira geral, e em nosso país, em particular, os pobres não têm vez nem voz ao contrário dos ricos que possuem as duas condições retro mencionadas. E, segundo alguns, inclusive, indevidamente…

 

Constatação XII (Ah, esse nosso vernáculo).

Quando ela pisa no meu calo, eu me abalo e não me calo. Se não, eu me ralo e tudo acaba no ralo. Então, eu falo. E tudo culmina com prejuízo do que falo e, claro, do meu pobre e inocente fal, digo ato falho…

 

Constatação XIII

Quanto ao tempo passado,

A gente é originado

De algum antepassado,

Provavelmente casado

E de papel passado.

 

Constatação XIV

O monólogo

Com si mesmo

Descambou

Prum diálogo,

Sem prólogo,

Pra uma discussão

Acirrada

Onde até rolou

Palavrão

A esmo.

Obviamente,

Apenas, não ocorreu,

Não aconteceu,

Pescoção

Ou bofetada

Tão-somente.

Coitada!

 

Constatação XV (Dúvida crucial de um pobre genro).

Parece um iracundo vulcão,

Da terrível sogra a explosão,

Quando entra em erupção?

Ou assemelhava-se a um tufão?

 

Constatação XVI

Deu na mídia: “BRASÍLIA – O presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), disse nesses dias que o vazamento de informações de processos judiciais está generalizado e que são necessárias medidas que inibam essa prática. ‘Há deputados e senadores que vazam mais que chuveiro, tem ministros de tribunais superiores que falam mais com a imprensa do que nos autos, tem Polícia Federal que age fora da lei, tem Ministério Público que às vezes também abusa de sua autoridade’, criticou Chinaglia”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas Rumorejando acha que S. Excia. não lembrou dos vazamentos que permite que escritórios de advocacia liguem pra casa das pessoas oferecendo serviços (20 a 30% de honorários), a fim de recuperar as diferenças dos Planos Bresser, Collor, etc. Indubitavelmente, foram funcionários de bancos que vazaram a lista de pessoas que podem auferir esses montantes. Aliás, o governo teria que obrigar os bancos a devolverem essas diferenças, independente de ter que se entrar em juízo. Passado o prazo, o dinheiro fica e ficou com os bancos. Afinal, isso não é grave, os bancos estão só praticamente dobrando o seu patrimônio a cada ano. E viva “nóis”… E os banqueiros, é claro…

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

sem crédito. ilustração do site. esperto?

OFERTÓRIO-DOR poema de jb vidal

a dor que ofereço não foi provocada

nem   apacentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os aneis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior  que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

do livro OFERTÓRIO a ser lançado em setembro de 2mil e oito. 

MORS-AMOR poema de antero de quental

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!
“Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”

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o poeta.

SÚPLICA poema de florbela espanca

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d’astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente…
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! …

Vem para mim,amor…Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!…

 

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a poeta.

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Biografia

Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

 

 

 

FARO FINO e AMNÉSIA – mini contos de raimundo rolim

 

Faro-fino

        

Acordou com uma leve impressão de que aquele dia seria diferente! Intuição pura! Farejou o ar assim que abriu os olhos. Despejou imenso, ruidoso e tamanho bocejo que fez desabar a casa em cima de tudo; e da própria boca que bocejava. Uau!!!

 

Amnésia

 

Tudo pronto! Só que o leão estava velho, quase senil e não haviam ainda se dado conta desse fato. A fidelidade da rotina a que estavam sujeitos naquele mundo de espetáculo circense não permitia especulações, nem divagações! E o “bichanão” saiu da jaula e deu umas quantas voltas pelo picadeiro. O admirável público em pé, preparava-se para algo que estava no ar. Alguns suavam frio, outros agarravam os filhos para protegê-los do que parecia não ir bem. Ao menos, ao que se supunha, o negócio havia escapado ao controle do homem que em vão gritava palavras em código e chicoteava o chão com mais e mais força, enquanto ele, o leão, se insurgia contra as ordens, fera magoada. Num salto preciso – treinado em muitos e intermináveis anos extra-selva, – conseguiu finalmente alcançar aquele que o fizera pular por todas as rodas de fogo, e mostrar as garras inúteis por centenas de cidades ao longo da carreira. Desta vez, saiu-se a exibir o amigo, seu exclusivo amo-domador, que imobilizado, suspenso e seguro pelo meio da cintura, ficara preso na enorme e poderosa mandíbula, trespassado por caninos igualmente majestosos. Saíram assim, fera e domador, desse jeito, a caminhar pelo meio da platéia. O chicote despencou-lhe bestamente da mão que sem destino, despenhou-se inerte e pálida, enganchando-se ao carrinho de pipoca do lado de fora da lona, sob olhares de quantos ainda, ingressos à mão, não acreditavam naquele “novo número” que o circo, talvez por um lapso, esquecera de anunciar: “O SAFARI DO REI DOS ANIMAIS LEVANDO A REBOQUE O SEU FIEL DOMADOR”.

 

sem crédito. ilustração do site.

NOSSO ÚLTIMO CONTATO – por ana maria maruggi

Homem de aparência rude, olhos cansados. A pele maltratada pelo sol intenso da roça já carregava  rugas profundas aos 42 anos.

 

Honorato, de pouca fala e poucos gestos. Olhar manso, e desinteressado.

Pai de cinco filhos. Homem cuidadoso, de poucas carícias, e de muita firmeza. Trabalhador exemplar.

 

Esposou Dona Julieta quando ela tinha apenas dezesseis anos. Foi um pedido do pai da moça, que ele aceitou com prazer, pois era a filha mais bonita do Seu Lucindo. Tornou-se um marido zeloso, de muita atenção e respeito.

 

Nada poderia ser dito em desabono ao Senhor Honorato Oliveira. Proprietário de pequena porção de terra nos cafundós de Guaxupé, que pagou com sacrifício e muito suor.  Neste espaço montou roça de milho e feijão, construiu sua casinha e constituiu família. 

 

Viveu  sempre discretamente sem muitos amparos, e sem nenhum luxo. Suas roupas velhas e puídas pareciam ser as mesmas há anos.

 

Conheci esse sitiante, por acaso:

 

Era um novembro calorento. Eu estava em viagem  pelo interior de Minas Gerais, quando meu carro sofreu uma pane. Lugarzinho inóspito, e poeirento. Estava faminta, cansada, e sem nenhuma perspectiva de socorro naquele fim de mundo. Foi quando apareceu esse homem simples, montando um velho e caquético cavalo marrom, de raça desconhecida.   Ele estancou diante de mim, me olhou como se eu fosse um ser de outro planeta, fez uma reverência  com a cabeça enquanto tirava o chapéu em forma de respeito, e balbuciou um cumprimento quase inaudível.

Tomando conhecimento do meu problema,  propôs-se prontamente a buscar ajuda.  Disse, e saiu.

 

Não acreditei que alguma ajuda viria por intermédio dele, mas só tinha isso.

 

Esperar era a única saída.

 

Já estava começando a escurecer, e os insetos tomavam conta do silêncio, quando pude ouvir ao longe o ruído de um motor.

 

Fiquei eufórica!

 

Era O Nando, o mecânico da cidade. E junto com ele, o Seu Honorato em sua montaria me trazendo uma garrafa de água e uns sequilhos.

 

Meu veículo foi guinchado para a oficina, e dentro dele, eu.

E o incansável Honorato ao lado do guincho.

 

O carro ficou com o Nando para consertar. E eu ganhei uma simpática hospedagem na casinha do Seu Honorato e sua família.

 

Embora cansada, fiquei até muito tarde tagarelando com eles. Contei como eu vivia e o que eu fazia para ganhar a vida.   Lembrei algumas piadas e rimos muito. Os meninos tinham muitas histórias engraçadas. Comemos uma  saborosa galinhada, cozida com mandioca e cravos da índia, preparada por Dona Julieta que, muito prestativa, fez questão de cozinhar um arroz fresco colorido com açafrão, feijão com miúdos de frango, e salada de alface. Orgulhavam-se em contar que tudo que comíamos ali era fruto do trabalho deles.

 

Quando o Nando veio trazer meu carro, senti uma pontinha de tristeza em sair de lá. Nos despedimos, trocamos endereços e deixei meu telefone para contato.

 

Parti imaginando que nunca mais nos veríamos, e isso me incomodava.  Mas me sentia realizada por ter conhecido pessoas tão verdadeiras.

Fiquei três dias com a família e pude aprender muito sobre como viver bem com o que se tem.

 

No Natal, enviei-lhes um cartão  e uma carta de sincero agradecimento.

 

Não esperava que me escrevessem, pois nem gostavam muito de falar.

 

Depois de alguns cartões e cartas contando a minha volta e a venda do meu carro, dona Julieta me escreveu umas linhazinhas tortas, mas com muito sentimento e pureza. Ela contou que o Fernando, filho mais velho, ia se casar em breve, e que Seu Honorato mandava lembrança. E revelou que ele não sabia ler e escrever.

 

Fiquei feliz por ter recebido notícias.

 

Voltei lá alguns meses depois para o casamento do filho, e levei muitos presentes para todos.

 

Seu Honorato vestiu seu velho e bonito paletó de linho azul-marinho, que há muito guardara como símbolo de sua juventude vaidosa. E dona Julieta usou o vestido novo que eu lhe presenteei.

 

Deixei a casa deles no domingo, e de novo com a triste impressão de que não mais os veria.

 

Talvez eu estivesse enganada. Talvez eu os visitasse no Natal seguinte.

 

Mandei carta de agradecimento, e não sei se receberam.

 

Mandei mais um cartão no Natal do ano seguinte, mas não recebi nenhuma linha.

 

Sei que eles estão lá naquele sitiozinho pobre,  cheio de vida e carinho.

Eles sabem que estou aqui em São Paulo em labuta constante, e que penso neles.

 

A distância nos calou, truncou nossas falas, e nos separou pelo resto de nossas vidas.

 

ilustração do site. ovelhas. de raphael.

CAOS poema de joão batista do lago

                                                                      dedicado ao poeta  JB Vidal

 

entre a tensão de mudanças e de origens

cobra-se a mudança da origem.

como mudar o caos da virgem?

nela não há céu, tampouco inferno;

não há terra, tampouco mar!

Ela é simplesmente caos:

abismo nebuloso que me faz vagar

como força misteriosa

moldada entre vazios diásporos.

e assim, filho do caos da virgem

vou-me originando em cada verbo

sem pressentir que em cada verso

pretendo transgredir a virgem

num poema feito de versos noviços

pensando rasgar o abismo

da virgem em palavra que me pariu poeta

poeta sem terra, nem céu!

poeta sem inferno, nem mar!

 

[…]

 

poeta do caos!

 

APÁTRIA poema de zuleika dos reis

                   Onde nasceste?

                   Em Apátria.

                   Ah, sempre ouvi falar deste País, mas tu és o primeiro apátria

                   que conheço                  

                   Estamos todos espalhados pelo mundo.

                   Então, teu país não existe.

                   Existe, sim.

                   Onde?

                   Em Memória.

                   Memória? É um continente?

                   Não, não é um continente.

                   Neste caso, o que é?

                   Digamos… um arquipélago.

                   Apátria é uma ilha?

                   Sim, uma ilha.

                   Lembras do nome das outras ilhas?

                   Não me lembro… faz tempo… faz tanto tempo…

                   Desde quando estás aqui?

                   Desde que vim de minha Pátria.

                   Não deixaste nada nem ninguém em Apátria?

                   Eu sou Apátria.

DESCONEXOS CAUSAIS por walmor marcellino

O que tem de ver as razias da polícia do Rio nas favelas do Rio com a denunciada força sindical na corrupção do BNDES, com o hábeas-corpus de Daniel Dantas e Nagib Nahas, com a distribuição de novos cargos no Senado Federal? Em comum o ônus da República e as atitudes políticas na formação jurídico-política da democracia social que vamos construindo. Todos esses fatos e seus motivos têm haver com a justiça porém estão amparados no direito e nas práticas institucionais. Alguns chamam isso de jogo democrático de poder; outros, de delinqüência institucional; terceiros, de estado geral de corrupção-decomposição institucional-constitucional, com a ação dos “patifes ilustres” (“a lei é uma semântica ao dia”, conforme sua hermenêutica) das celebradas mordomias público/privadas.

O governante do Rio de Janeiro e sua troupe instauraram um “tolerância zero” ao estilo fascista de Rodolpho Giuliani nas favelas e outras áreas de pobreza; e cuidam de estatísticas: para cada 10 inocentes pelo menos um criminoso é executado. O Paulinho Pereira ganhou um ministério e um acesso aos cofres públicos; é mera contrapartida política no jogo democrático. O Supremo, por seu presidente, afirma que bandido de colarinho não foge à luta, portanto não deve ficar preso como se fosse marginal. Os patifes do Senado atropelaram as leis e decidiram distribuir mordomias por cabeça e partido.

Ai de nós se não fosse a polícia, o BNDES, o Supremo Tribunal e o Senado Federal. Mas se esse é o “barato” do jogo, não quero mais jogar; mesmo porque não posso fechar a tavolagem nem o prostíbulo. Não sei o que devo ir achando embora pense em mudar de igreja já que não posso mudar de país. De classe e de estilo de vida não, porque estaria muito velho para azeitar dobradiças.

Segundo velho brocardo, o tempo e a indiferença são os melhores remédios, porque depois que tudo passa tudo já passou.

RESPEITO ao “VELHO CHICO” por mauro chaves

 

Ao se omitir de um debate profundo sobre o projeto de transposição do Rio São Francisco, deixando que a sociedade brasileira e as futuras gerações venham a sofrer os efeitos desastrosos de um “fato consumado”, imposto pelo governo, o que pode resultar numa obra tão faraônica quanto ambientalmente estúpida, o Congresso Nacional está passando um recibo de criminosa irresponsabilidade.O Velho Chico, rio da integração nacional, cuja força das águas já foi tamanha que durante séculos o fez avançar vários quilômetros adentro do Oceano Atlântico, a ponto de embarcações pararem em pleno oceano para se abastecerem de sua água doce, hoje sofre em sua foz um trágico recuo, por insuficiência de vazão. Já se disse que esse projeto de transposição é a transfusão que tem como doador um doente internado na UTI. Se a idéia de levar águas do São Francisco, por gravidade, para o semi-árido do Nordeste setentrional já estava na cabeça generosa de dom João VI, é porque naquele tempo não existiam açudes, nem adutoras, nem estudos hidrogeológicos.

Durante séculos muitos têm defendido a transposição como solução salvadora para a tragédia das secas. Mas a quantidade formidável de açudes já construídos – que já chega a cerca de 70 mil – e a possibilidade de retirada de água do subsolo nordestino (que, embora muitos não saibam, é abundante em água) sugerem soluções muito menos dispendiosas e mais eficazes para distribuir água às populações que dela mais necessitam. E distribuição, no caso, é a palavra-chave, pois em grande parte a malsinada “indústria das secas” nordestina tem sido mantida pelos chefetes políticos para comandar o abastecimento de água de seus currais eleitorais. A transposição não significará a oferta de água a 12 milhões de nordestinos – como têm dito seus defensores -, mas sim a canalização para determinados projetos de irrigação do agronegócio, enquanto falta distribuição de água até para projetos e populações bem mais próximas do rio, nos Estados ribeirinhos.

O engenheiro Manoel Bomfim Ribeiro, especialista em hidrologia e geologia, ex-diretor do Dnocs e autor do livro Potencialidades do Semi-Árido Brasileiro, num texto sobre as obras inconclusas do Nordeste assevera: “A indústria das secas é um fato inerente à vida política da região nordestina tendo como carro chefe o pipa a desfilar pelos nossos sertões sequiosos, onde o chefe político exerce o seu poder sobre a água. Esta indústria vem num crescendo constante com obras de todos os tamanhos, açudes, canais, adutoras, obras inconclusas. Agora é a vez da Transposição, obra inócua e desprovida de significado, pois que o Nordeste setentrional, penhoradamente, agradece e dispensa as águas do rio São Francisco, por total e absoluta falta de necessidade, uma vez que já acumula, somente nos oito grandes açudes, 13 bilhões de metros cúbicos de água (5 vezes e meia a baía da Guanabara), exatamente os 8 açudes plurianuais que irão receber os magros 2 bilhões/m3 anuais (127m3/s) advindos do canal da Transposição. A evaporação anual dos 13 bilhões é da ordem de 4 bilhões, o dobro da água que vai chegar do rio. Uma irrisão. Mais ainda, os 3 Estados mais ávidos por mais água, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, já acumulam nos seus imensos reservatórios 26 bilhões de metros cúbicos, 70% das águas estocadas no semi-árido brasileiro, 11 vezes as águas da baía da Guanabara.”E em outro texto escreve o especialista: “Dos aqüíferos do Nordeste podem ser extraídos até 20% das reservas existentes, cerca de 27 bilhões de m3/ano sem queda de pressão hidrostática, pois são reabastecidos, anualmente, pelas águas de chuvas e que drenam verticalmente para o seio da terra. Só extraímos até hoje cerca de 4% deste potencial disponível, 800 a 900 milhões de m3 através de 90.000 poços, sendo que 40% destes estão paralisados por razões diversas menos por falta de água. O deserto de Negev, com área de 16.000 km2, fornece para Israel 1 bilhão de m3/ano de água extraído do seu subsolo, mais que a produção da nossa região cuja área é 60 vezes maior que aquele deserto.”

 

Esse projeto faraônico, de pelo menos R$ 15 bilhões, além de poder resultar em desastre ambiental – como o do Rio Colorado (para o México) e o do Rio Amarelo, na China, dentro do “espetáculo de horror dos rios que morreram” a que se refere João Alves Filho -, está criando uma cizânia entre os Estados ribeirinhos e o do Nordeste setentrional, acirrada pelo presidente Lula, quando disse aos cearenses que seus irmãos nordestinos não lhes negarão (com a transposição) “uma cuia de água”. Só não contou que está mandando o Velho Chico pra cucuia.

Se o Congresso mostra vergonhosa frouxidão em não debater esse tema, cabe à sociedade mobilizar-se para fazê-lo.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor.

 

 

rio são francisco “velho chico.” foto de joão zinclar.

SOBRE o MSN – por arnaldo jabour

Sempre odiei o que a maioria das pessoas fazem com os seus MSN’s.

Não estou falando desta vez dos emoticons insuportáveis que transformaram a leitura em um jogo de decodificação, mas as declarações de amor, saudades, empolgação traduzidas através do nick.

 

O espaço ‘nome’ foi criado pela Microsoft para que você digite O NOME que lhe foi dado no batismo. Assim seus amigos aparecem de forma ordenada e você não tem que ficar clicando em cima dos mesmos pra descobrir que ‘Vendo Abadá do Chiclete e Ivete’ é na verdade Tiago Carvalho, ou ‘Ainda te amo Pedro Henrique’ é o MSN de Marcela Cordeiro. Mas a melhor parte da brincadeira é que normalmente o nick diz muito sobre o estado de espírito e perfil da pessoa. Portanto, toda vez que você encontrar um nick desses por aí, pare para analisar que você já saberá tudo sobre a pessoa…

 

‘A-M-I-G-A-S o fim de semana foi perfeito!!!’ acabou de entrar. Essa com certeza, assim como as amigas piriguetes (perigosas), terminou o namoro e está encalhadona. Uma semana antes estava com o nick ‘O fim de semana promete’. Quer mostrar pro ex e pros peguetes (perigosos) que tem vida própria, mas a única coisa que fez no fim de semana foi encher o rabo de Balalaika, Baikal e Velho Barreiro e beijar umas bocas repetidas.

O pior é que você conhece o casal e está no meio desse ‘tiroteio’, já que o ex dela é também conhecido seu, entra com o nick ‘Hoje tem mais balada!’, tentando impressionar seus amigos e amigas e as novas presas de sua mira, de que sua vida está mais do que movimentada, além de tentar fazer raiva na ex.

‘Polly em NY’ acabou de entrar. Essa com certeza quer que todos saibam que ela está em uma viagem bacana. Tanto que em breve colocará uma foto da 5ª Avenida no Orkut com a legenda ‘Euem Nova York’. Por que ninguém bota no Orkut foto de uma viagem feita a Praia-Grande – SP ?

 

‘Quando Deus te desenhou ele tava namorando’ acabou de entrar. Essa pessoa provavelmente não tem nenhuma criatividade, gosto musical e interesse por cultura. Só ouve o que está na moda e mais tocada nas paradas de sucesso. Normalmente coloca trechos como ‘Diga que valeuuu’ ou ‘O Asa Arreia’ na época do carnaval.

 

Por que a vida faz isso comigo?’ acabou de entrar. Quando essa pessoa entrar bloqueie imediatamente. Está depressiva porque tomou um pé na bunda e irá te chamar pra ficar falando sobre o ex.

 

‘ Maria Paula ocupada prá c** ‘ acabou de entrar. Se está ocupada prá c**, por que entrou cara-pálida? Sempre que vir uma pessoa dessas entrar, puxe papo só pra resenhar; ela não vai resistir à janelinha azul piscando na telinha e vai mandar o trabalho pro espaço. Com certeza.

 

‘Paulão, quero você acima de tudo’ acabou de entrar. Se ama compre um apartamento e vá morar com ele. Uma dica: Mulher adora disputar com as amigas. Quanto mais você mostrar que o tal do Paulão é tudo de bom, maiores são as chances de você ter o olho furado pelas sua amigas piriguetes (perigosas).

 

‘Marizinha no banho’ acabou de entrar. Essa não consegue mais desgrudar do MSN. Até quando vai beber água troca seu nick para ‘Marizinha bebendo água’. Ganhou do pai um laptop pra usar enquanto estiver no banheiro, mas nunca tem coragem de colocar o nick ‘Marizinha matriculando o moleque na natação’.

 

‘ < . ººº< . ººº< / @ || e $ $ ! || |-| @ >ªªª . >ªªª >’ acabou de entrar. Essa aí acha que seu nome é o Código da Vinci pronto a ser decodificado. Cuidado ao conversar: ela pode dizer ‘q vc eh mtu déixxx, q gosta di vc mtuXXX, ti mandá um bjuXX’.

 

‘Galinha que persegue pato morre afogada’ acabou de entrar. Essa ai tomou um zig e está doida pra dar uma coça na piriguete que tá dando em cima do seu ex. Quando está de bem com a vida, costuma usar outros nicks-provérbios de Dalai Lama, Lair de Souza e cia.

 

‘VENDO ingressos para a Chopada, Camarote Vivo Festival de Verão, ABADÁ DO EVA, Bonfim Light, bate-volta da vaquejada de Serrinha e LP’ acabou de entrar. Essa pessoa está desesperada pra ganhar um dinheiro extra e acha que a janelinha de 200 x 115 pixels que sobe no meu computador é espaço publicitário.

 

‘Me pegue pelos cabelos, sinta meu cheiro, me jogue pelo ar, me leve pro seu banheiro…’ acabou de entrar. Sempre usa um provérbio, trecho de música ou nick sedutores. Adora usar trechos de funk ou pagode com duplo sentido. Está há 6 meses sem dar um tapa na macaca e está doida prá arrumar alguém pra fazer o servicinho.

‘Danny Bananinha’ acabou de entrar. Quer de qualquer jeito emplacar um apelido para si própria, mas todos insistem em lhe chamar de Melecão, sua alcunha de escola. Adora se comparar a celebridades gostosas, botar fotos tiradas por si mesma no espelho com os peitos saindo da blusa rosa. Quer ser famosa. Mas não chegará nem a figurante do Linha Direta.

 

Bom é isso, se quiserem escrever alguma mensagem, declaração ou qualquer coisa do tipo, tem o campo certo em opções ‘digitem uma mensagem pessoal para que seus contatos a vejam’ ou melhor, fica bem embaixo do campo do nome!! Vamos facilitar!!!!

 

ARRUFOS e O GRITO – por deborah o’lins de barros

“Arrufos – Belmiro de Almeida”

  

O quadro “Arrufos”, de Belmiro de Almeida, foi pintado em 1887 e, para mim, é uma das maiores obras-primas da pintura nacional. O termo “arrufos” é, nada mais, nada menos que uma briguinha boba, mas o que eu vejo é mais, muito mais…

   Todas as vezes que parei em frente a esse quadro, no Museu Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro, sempre me deparei com uma das mais tristes cenas já pintadas. Sempre imagino que a mulher pecou e até está arrependida, mas sabe que dessa vez não terá volta. Já o homem, sentado fumando um charuto, está tão decepcionado que parece preferir não pensar no assunto, e não dá bola para as súplicas da mulher. E eu tenho a impressão de que não foi a primeira vez que isso aconteceu, pois o homem não está chorando.

   Bem, essa é a minha interpretação, triste, romântica, mas gosto dela. No roteiro que escrevi sobre o meu amado-morto Álvares de Azevedo há uma cena que na minha cabeça só terá o sentido que quero se ficar visualmente semelhante a esse magnífico quadro, cheio de frestas onde nossa imaginação dá asas ao sentimento.

 

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              “O Grito de Munch”

 

Parece inconsebível, sob um olhar romântico, que esse quadro tenha sido pintado em 1893. No século XIX. Mesmo hoje, no século XXI, ele ainda é enigmático, quase assustador. Quase sempre imaginamos um final de século XIX sem luz elétrica, sem automóveis, sem fotografia colorida e com saias compridas. Mas não devemos esquecer que três anos antes de Munch dar seu Grito ao mundo, Van Gogh morria na França.

   Imagino que Munch deva ter se inspirado nas decisivas mudanças daquele fim de século: sufragismo; unificação italiana e alemã; a movimentada Paris, com as coristas de Toulouse-Lautrec; os bondes; o investimento na construção de navios gigantescos, comparados aos que haviam até então; as peças de teatro escritas por Oscar Wilde…

   Meu Deus! Que fim de século mais turbulento! É exatamente isso que passa pela minha cabeça quando vejo esse personagem amarelo desesperado. Deve estar se perguntando: “Aonde estão o bucolismo? e a mansidão? e o meu livro do Stendhal?”, “Como será o mundo dos meus filhos? meu Deus! e dos meus netos?”, “Será que o mundo acabará em uma grande guerra?”

    É, esse quadro foi uma premonição que o mestre do expressionismo Munch teve, no angustiado final do século XIX, sobre os devastadores séculos que viriam em seguida.

 

PAIXÃO NÃO VÁ EMBORA NÃO poema de zazisca

Sentido sem aviso;

Chega invade;

Reage, domina, contamina;

Aquece, esfria.

Paixão ai paixão quem tu és?

És bendita ou és maldita.

Afinal como vens, por onde vens?

Chega sem avisar, e já se apodera de mim.

Por que sofro assim, é bom é ruim.

Quero você pra mim.

Isso sim.

Me sinto viva,

Descobri por onde vens!

É um olhar a contaminar,

Entras pela janela da alma.

Assim cheia de calma.

Vais ao coração e da aquela bela explosão.

Não quero que vás embora, pelo menos não agora.

Sofres a metamorfose, como uma lagarta vira borboleta.

És bela, mas não mais a mesma,

Outra fase.

De Paixão viras Amor, fase boa .

Mas depois de Amor viras Respeito;

Aí não tem mais jeito, sofro assim você longe de mim.

Para onde tu foste bela Paixão, me deixas-te por pequenos tostões.

Escapaste de minhas mãos , a não! Foste embora de vens do meu coração.

O respeito te quero não, vai-te daqui. Quero de volta a minha Paixão.

Ai como era bom, Amor te Amo, mas a Paixão era diferente ;

Era a força motriz, como se diz ? Nossa eu sou uma infeliz…………

 

ESTA É DENÚNCIA DO SITE: “FLORES ROUBADAS do JARDIM ALHEIO” – por ivo barroso

“As Flores do Mal” – Charles Baudelaire – texto integral – Tr. Pietro Nassetti – Editora Martin Claret (São Paulo, 2001) – 192 págs. R$19,00

 

Já tivemos aqui a oportunidade de mostrar como algumas obras literárias estão sendo criminosamente “apropriadas” por editores inescrupulosos e reeditadas sob o nome de falsos tradutores. No caso anterior, vimos como a tradução genial do “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand, devida ao falecido professor pernambucano Carlos Porto Carreiro, foi simplesmente “clonada” e atribuída a um desconhecido Sr. Fábio M. Alberti, que já devia ficar contente se seu nome aparecesse como autor das notas de pé de página que figuram na edição. Nelas há esclarecimentos sobre personagens e fatos um tanto ou quanto incomuns, pelo menos para a classe de leitores desses livros ditos “populares”, vendidos em bancas de jornal. Apressamo-nos em esclarecer que nada temos conta esse tipo de venda e achamos mesmo que se trata de um serviço prestado ao leitor médio, que pode assim adquirir livros de grandes autores a preços inegavelmente convidativos. O que não nos parece ético é o escamoteio e a usurpação do nome dos tradutores originais desses livros, seja pela prática da sua atribuição a outrem, seja pelo artifício vergonhoso do plágio disfarçado.

Nessa última categoria podemos incluir, consistentemente, a edição de “As Flores do Mal”, o clássico livro de poemas de Charles Baudelaire, lançada “no verão de 2001” pela Martin Claret, de S. Paulo, em tradução ali atribuída a Pietro Nassetti, que, não se tratando de um pseudônimo de Jamil Almansur Haddad, responde certamente pelo nome de seu plagiário indecoroso, tal a maneira inequívoca com que se apropria da obra alheia.

É sabido que temos no Brasil pelo menos duas edições integrais de “As Flores do Mal”. A mais conhecida e, a nosso ver, a mais bem realizada, a de Ivan Junqueira, foi editada pela Nova Fronteira, sendo de 1985 a última reimpressão, com o texto original de face à tradução. Foi essa a escolhida para figurar no volume “Charles Baudelaire – Poesia e Prosa”, que organizamos para a Editora Nova Aguilar e que foi editado em 1995, em papel bíblia, reunindo em português praticamente toda a obra do Poeta. A outra, mais antiga, de 1958, editada pela Difusão Européia do Livro na coleção Clássicos Garnier, é de Jamil Almansur Haddad, poeta paulista, autor de “A lua do remorso” (1951), que além de Baudelaire traduziu também “As Líricas”, de Safo, “O Cântico dos cânticos”, de Salomão, o “Rubaiyat”, de Omar Khayyam, o “Cancioneiro” de Petrarca, o “Decamerão” de Boccaccio e as “Odes” de Anacreonte. O leitor, ainda que não versado no assunto, pode bem imaginar o que representa de tempo e esforço a tarefa de traduzir poesia, principalmente no caso de um autor como Haddad que respeita a métrica e a rima existentes no original. Mas hoje parece estar se generalizando a prática certamente recriminável de se tomar um texto preexistente e maquiá-lo, mudando aqui uma palavra mais difícil, ali uma construção mais arrevesada, e, passando por cima dos ditames métricos e rímicos, apresentá-lo ao leitor numa “nova” edição popular, supostamente feita por outro tradutor.

No presente caso a contrafação é tão explícita que chega a ser vergonhosa. Tomemos por exemplo o poema “Hino à Beleza”, dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. “Infernal et divin” é traduzido por ambos como “celestial e daninho”; “le couchant et l´aurore” por “matutina e noturna” e o verso “Qui font le héros lâche et l´enfant courageux” é impressionantemente resolvido da mesma forma: “Se à criança dão valor, tornam o herói covarde”. E naquele que encerra o terceiro quarteto: “Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien” – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo “réponds” por “respondes”, quando a construção francesa “réponds de rien” equivale a “submeter-se a nada”. “Bénissons ce flambeau!” é “Bendito lampadário” em ambos e “tombeau” (túmulo) é transformado também por ambos em “sudário”. Há momentos, no entanto, em que o copiador servil resolve “melhorar” (como talvez pense) o texto saqueado. Em geral isso ocorre diante de palavras que ele julga “difíceis” ou pouco atuais. Assim, onde Jamil escreveu “O amoroso anelante a pender sobre a bela”, o tradutor-xerox reescreve: “O namorado ofegante a pender sobre a bela”, não se importando com isso de sacrificar a métrica do verso. Neste mesmo poema há inúmeros exemplos dessa espécie: “Pisando mortos vais, com ar de desacato” (Jamil) e “Caminhas sobre os mortos, com ar de desacato” ( pseudo tradutor). O “papel carbono” parece ter achado que o “vão” (adjetivo) de “Sobre teu ventre vão dança amorosamente” poderia ser entendido pelos seus leitores como verbo e “conserta” para “Sobre teu ventre orgulhoso dança amorosamente”, conseguindo o fenômeno de um alexandrino de 14 versos. Outro: “Beleza! monstro ingênuo e de feição adunca!” lhe soa muito precioso e ele emenda para: “Beleza! monstro ingênuo, assustador e horrendo!” Mas pasmem que temos no início da quinta quadra o que se poderia chamar de dupla coincidência: No verso “Uma efêmera vai ao teu encontro, ó vela”, tanto na tradução de Jamil quanto na de seu “vampiro” Pietro Nassetti há uma nota de pé de página dizendo exatamente o mesmo: “Efêmera: substantivo comum, espécie de inseto”, que, se não fosse cópia servil seria um caso de duplicidade até na indigência definidora. Estender a amostragem seria recair ad infinitum na certeza que desde já se patenteia de que os poemas apresentados nesta edição de “As Flores do mal” foram subtraídos do berço alheio e criados por pais adotivos em proveito próprio.

Essa prática inescrupulosa da apropriação de traduções alheias – pela cópia deslavada ou enganosa maquiagem – parece estar se ampliando junto a editores de livros em série ou coleções ditas populares. Há muitos títulos de obras clássicas que circulam por aí que, se examinados com cuidado, revelariam – como um triste palimpsesto – o nome apagado e explorado do tradutor original.

UMA PENA – poema de jorge barbosa filho

 

 

uma pena, deve ser

um olhar de índio

em teu coração aflito.

deve ser.

 

seja a canção

uma pena,

deve ser.

eu pago a pena

qualquer preço.

deve ser.

fico parado

no incêndio

e as penas voando.

voando.

 

tento entender

porque queimar plumagens

quando seríamos

o pássaro

e voarmos

no justo instante

que você me dissesse

sim.

 

ah! tô muito a fim

pra qualquer bobagem

que te falasse

em pleno vôo, 

fingindo minha própria rapina.

 

desisti, meu amor

do índio que havia em mim   

e faleço em pleno sonho.

 

fiquei só

do tamanho de um dó

e não percebi.

que me quis

uma música.

uma nota, sol.

um beijo.

 

 

 

a tarde ardia

num lusco-fusco desesperado.

mas mesmo assim

faço dos meus dias

uma lágrima escorrida,

um desenho, em si,

um oceano,

na qual te via

o meu rosto insano.

 

ah! já deixei de ser

tudo aquilo que queria:

tudo aquilo que sumia

pelas minhas mãos

de pianista.

 

amor, não fuja de mim,

tenho os vôos nos olhos

e as chamas, e as chamas

de quem te chama.

penas

de quem te ama

te ama.

 

ACROBATA DA DOR poema de cruz e souza

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta…Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

 

————

 

o poeta.

SEQUENCIAL PARA UMA CONTEMPLAÇÃO ABSTRATA poema de altair de oliveira

 

Pressinto a festa que infesta os olhos

que bebem saias que sugerem vôos

de flores tintas que animam cores

de aves raras com motivos vivos

que giram loucos nesta dança rouca

e tomam a tarde feito revoada

inesperada de alegrados risos

de nove noivas soltas na calçada.

 

Мэр Костромы подала в отставку. Эксперты прогнозируют борьбу за региональный центр – por Ирина Переверзева

 

время публикации: 22 июля 2008 г., 17:24
последнее обновление: 22 июля 2008 г., 18:32

 

 

 

 

 

Мэр Костромы Ирина Переверзева завершит работу на посту главы города 29 июля, сообщили “Интерфаксу” во вторник в пресс-службе горадминистрации.

“Ирина Переверзева подписала постановление о сложении полномочий главы города Костромы 29 июля текущего года в связи с отставкой по собственному желанию”, – рассказал собеседник агентства.

В пресс-службе добавили, что постановление об отставке до конца дня будет направлено в Костромскую гордуму.

Заявление о готовности досрочно сложить с себя полномочия главы Костромы Ирина Переверзева сделала 27 июня на заседании городской Думы сразу после отчета о работе в 2007 году, пишет Regions.ru. В коротком докладе, она, в частности, призналась, что многие из предвыборных обещаний остались не выполнены. “Продолжать работу на посту главы города с учетом требований настоящего момента я не могу”, – сказала Переверзева, предоставив продолжать заседание своему заместителю Александру Кудрявцеву.

Как сообщается на сайте Центра политической конъюнктуры России, в смене руководства мэрии Костромы было заинтересовано большинство влиятельных игроков, так что за контроль над региональным центром развернется нешуточная борьба. По мнению эксперта Центра Оксаны Гончаренко, победа (или избрание лояльного кандидата) на мэрских выборах может стать рычагом влияния на решения областной администрации. В числе “заинтересованных лиц” от “Единой России” – депутат Госдумы прошлого созыва и крупный региональный бизнесмен Евгений Трепов и депутат областной думы Алексей Ситников. Последний проиграл Переверзевой мэрские выборы-2003 во втором туре и может быть особенно заинтересован в том, чтобы взять “реванш”.

Возможно и выдвижение на пост мэра “губернаторской” кандидатуры, которая получит преимущественные шансы на победу за счет использования административного ресурса региональной власти.

Гончаренко также не исключает и возможность изменения процедуры формирования мэрии Костромы: избрание мэра из числа депутатов гордумы или же привлечение к управлению сити-менеджера, работающего по контракту.

На введении должности сити-менеджера, в частности, настаивал костромской губернатор Игорь Слюняев. Он занял свой пост в октябре 2007 года, а к апрелю 2008-го стало ясно, что губернатор и мэр вместе работать не смогут, пишет журнал “Эксперт”.

Еще в конце июня губернатор Костромской области Игорь Слюняев заявил, что градоначальница должна уйти в отставку. Губернатор нередко публично критиковал состояние городского хозяйства и состояние костромских дорог.

Согласно нынешнему уставу Костромы, в случае досрочного прекращения полномочий мэра его полномочия до вступления в должность вновь избранного главы города временно исполняет один из заместителей. Кандидатуру должна определить дума.

Выборы мэра проводятся по мажоритарной системе абсолютного большинства по единому избирательному округу, составляющему всю территорию Костромы. В случае, если баллотируется три и более кандидата и ни один из них не получает более 50% голосов избирателей, проводится повторное голосование по двум кандидатам, получившим наибольшее число голосов.

Тогда результаты определяются на основе относительного большинства. Решение о назначении досрочных выборов также принимает дума города.

Досье

Ирина Переверзева возглавила Кострому в декабре 2003 года и стала единственным в России женщиной-мэром областного центра, сообщает “Эксперт”.

 sem crédito.  ilustração do site.

SEGUNDO MANUSCRITO SOBRE F.K. – por jorge lescano

Como se conta uma viagem da alma, a essência, não a seqüência do sonho?

A história da literatura informa que F.K. teria pedido ao seu amigo M.B. – o caso foi contado por este – que queimasse seus manuscritos depois de sua morte porque eu, por meu lado, não tenho forças para destruir esses testemunhos de minha solidão. M.B. se recusa a cumprir o pedido e registra a recusa em nota à primeira edição do romance O Processo. Com louvável dedicação assume a tarefa de publicar a obra do morto.
 Esta a versão tradicional, imposta pelo testamenteiro, sem dúvidas a maior autoridade no assunto, e aceita pela maioria dos leitores. Consumado o fato, as interpretações variam. Vejamos três delas.
 Quis o caos de minha biblioteca, ao qual chamo Destino, que os três leitores convocados para testemunhar tenham origem argentina. A seqüência das citações é cronológica e não expressa nenhum juízo de valores.

No caso de Kafka, sabemos muito pouco. Sabemos apenas que ele estava muito insatisfeito com o seu próprio trabalho. É claro, quando ele disse ao seu amigo Max Brod que queria que seus manuscritos fossem queimados, como fez Virgílio, suponho que ele soubesse que seu amigo não faria isso. Se um homem quer destruir seu próprio trabalho, ele o joga no fogo, e lá se vai. Quando diz a um amigo íntimo: “Quero que todos os manuscritos sejam destruídos”, ele sabe que o amigo jamais fará isso, e o amigo sabe que ele sabe e que ele sabe que o outro sabe que ele sabe, e assim por diante.*

A interpretação parece plausível, até provável. Em todo caso não é absurda. Contudo, existe a notícia de que Dora Dymant chegou a queimar alguns originais e M.B. menciona quatro cadernos dos quais encontrou apenas as capas, todas as folhas haviam sido destruídas.

Para os sufis, todos os homens que executam uma determinada tarefa, são o mesmo homem. Transferindo-se tal concepção para a história da literatura, poder-se-ia concluir que o que importa a esta é a obra, não seu autor. Assim, não seria um despropósito afirmar que a obra supera a vontade do autor. Seguindo suas próprias leis de sobrevivência, sacrifica homens e outras circunstâncias. Neste caso, a vontade de F.K. é apenas uma digressão.
 Ricardo Piglia, o segundo leitor, expressa seu parecer no romance Nome Falso:

A grande tentação de Max Brod não consistiu em publicar os textos ou queimá-los. No jogo dessa dupla obediência, talvez tenha pensado que a resposta do enigma estava na própria ordem: se Kafka realmente tivesse querido destruir seus manuscritos, ele mesmo os teria queimado. Tampouco é muito atrevimento pensar que outra dúvida assaltou Max Brod em algum momento. A dúvida foi (deve ter sido) a seguinte: “Ninguém – a não ser eu, a não ser Kafka, que morreu – sabe da existência  desses escritos. Então: publicá-los sob o nome de Kafka ou assiná-los e publicá-los como sendo de minha autoria? Esses textos não são de mais ninguém: não são de seu autor, que não os quis. Não são de ninguém”. A imortalidade, a fama, ou o simples papel de testamenteiro, de suave  e  humilde ajudante que dedica sua vida à maior glória de um escritor querido mas desconhecido? Oposto de Eróstrato (que fascinava Kafka), a opção de Max Brod enobrece-o mas ao mesmo tempo – por um estranho paradoxo, mais uma vez típico de Kafka – aniquilá-o  Não teria sido mais agradável (não podemos pensar que era isso o que ele desejava?), para o gênio distante e perverso de Franz Kafka, um Max Brod que usurpa a fama do defunto e que na hora de morrer revela a alguém (a outro testamenteiro serviçal, a outro Max Brod) a secreta autoria daqueles textos?*
Dúvida, secura, silêncio, é assim que tudo se passará.
Entre as considerações do porque da negativa, e nas notas sobre o manuscrito, diz M.B.:
Entre os escritos que deixou, não se encontrou testamento. Na sua escrivaninha, no meio dos papéis, descobriu-se um bilhete escrito a tinta e já dobrado, endereçado a mim. Esse bilhete dizia:
Querido Max,
Este é meu último pedido: tudo o que se pode encontrar no que deixo depois de mim (ou seja, na minha biblioteca, no meu armário, na minha escrivaninha, em casa e no escritório, ou no lugar que for), tudo o que deixo em termos de cadernos, manuscritos, cartas pessoais ou não, etc., deve ser queimado sem  restrição e sem ser lido, assim como todos os escritos ou notas minhas que você possua; outras pessoas também os têm, você os reclamará a elas. Se houver cartas que não ;he queiram devolver, será preciso, pelo menos, que se comprometam a queimá-las.
Seu, de todo o coração
 Franz Kafka.*

E acrescenta outro bilhete provavelmente mais antigo e escrito a lápis, no qual F.K. é mais explícito:
Só se devem conservar os seguintes títulos: Urteil, Heizer, Verwadlung, Strafkolonie, Landarzt, e a novela Hungerkünstler. (Os poucos exemplares da Betrachtung  podem ficar, não quero dar a ninguém o trabalho de destruir a edição, mas não se deve reimprimi-la.) Quando digo que só se conservem esses cinco livros e essa novela, isso não significa que eu deseje que sejam reimpressos para serem transmitidos à posteridade; pelo contrário, se desaparecerem completamente, o acontecimento terá correspondido a meus desejos. Mas como já existem, se alguém quiser guardá-los, não o impedirei.
 Em compensação, todos os meus outros escritos (tudo o que pode ter saído em revistas, todos os manuscritos, todas as cartas), tudo o que você puder encontrar ou pedir de volta aos possuidores (você os conhece quase todos, trata-se principalmente de N.N., e não se esqueça sobretudo de alguns cadernos que estão em poder de N.), tudo isso deve ser queimado sem nenhum tipo de exceção, e de preferência sem ser lido (não o impeço de dar uma olhada, mas preferiria que não o fizesse; em todo caso, ninguém mais tem o direito de olhar), e peço-lhe que proceda a essa operação o mais breve possível.
Franz.*
 Se o pedido de F.K. é uma invenção de M.B. – é este quem garante a autenticidade das notas transcritas – o leitor  – você – terá o encargo de descobrir ou imaginar o móvel dessa atitude. Descartam-se propositadamente os interesses do mercado livreiro. Está-se num tempo –aquele onde transcorre a ação – em que o livro, a obra literária, ainda não é um produto a mercê da ditadura do consumo.
Analisado do ponto de vista literário, o meu destino é muito simples. O talento que eu possuo para passar a limpo a minha vida íntima, vida que está aparentada ao sonho, fez com que todo o resto caísse no acessório. Ora, a força de que posso dispor para realizar essa narração é totalmente imprevisível. Estou, portanto, flutuante, lanço-me sem descanso para o topo da montanha, porém somente com dificuldade ali posso estar um momento. Outros estão flutuantes também, porém em regiões mais baixas e com mais energia.

Alberto Manguel, nosso terceiro leitor, em seu livro Uma História da Leitura, diz:

É famosa a história segundo a qual Kafka pediu ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos depois de sua morte: sabidamente, Brod desobedeceu. O pedido de Kafka foi considerado um gesto autodepreciativo, o obrigatório “eu não mereço” do escritor que espera que a Fama lhe responda: “Mas como não? É claro que merece”. Talvez haja outra explicação. Como Kafka percebia que, para um leitor, cada texto precisa ser inacabado (ou abandonado, como sugeriu Paul Valéry),  que na verdade um texto pode ser lido somente porque  é inacabado, deixando assim espaço para o trabalho do leitor, talvez quisesse para seus escritos a imortalidade que gerações de leitores concederam aos volumes queimados na biblioteca de Alexandria.
Como para confirmar sua tese, na página seguinte cita:
Ernst Pawel, no final de sua lúcida biografia de Kafka, escrita em 1984, nota que “a literatura que trata de Kafka e sua obra compreende atualmente cerca de 15 mil títulos, na maioria das principais línguas do mundo”.*

 As obras mais conhecidas de M.B. são: Os Falsários, drama, uma biografia de F.K., e preservar do fogo e publicar os escritos do seu biografado. Não se deseja insinuar que ele salvasse a obra apenas para ter a oportunidade de escrever sua biografia. Tampouco que lhe usurpasse o nome – F.K. era praticamente desconhecido à época de sua morte, digo: era menos conhecido que M.B.
 Não seria arbitrário acreditar que este, por um salto da imaginação, decidisse criar um alter-ego, com o qual pudesse homenagear seu amigo. Nesta hipótese, os livros que conhecemos como sendo de F.K. são, na realidade, apócrifos, seu verdadeiro autor é M.B. e F.K. por favor, considere-me um sonho, seria um personagem “kafkiano” criado por seu mentor, e então K., o agrimensor, e Joseph K., poderiam ser indicações e, ao mesmo tempo, uma pueril maneira de ocultar a verdadeira identidade do seu “modelo”  não me falta nada, apenas me falto a mim mesmo.
 Talvez esta interpretação necessite uma justificativa. Tratando-se de uma obra religiosa não creio que sejamos um naufrágio radical de Deus; simplesmente um dos seus aborrecimentos, um mau dia – tal é a visão de M.B. -, é conveniente que seja anônima ou de um profeta já morto.*  Esta circunstância, ignoro por que, dá mais crédito à palavra divulgada por seus apóstolos. Assim, ao ceder sua obra, M.B. satisfaz este requisito e transfere para o alter-ego seu destino atroz: a fama e a incompreensão perdoa-me porque eu não me perdôo.
 À semelhança de Sócrates, alguém já havia cogitado sobre a não existência de F.K. sem, contudo, fornecer argumento. Nessa ordem de idéias, não faltou quem conjeturasse se tratar da criação de um sionista ou rabino de Praga, cidade maneirista, como se sabe, ponto de encontro da alquimia, da cabala e da lingüística.
 Não pretendo estabelecer meras especulações no lugar da verdade histórica. Todavia, suspeito que estas não desagradariam aos protagonistas do caso,** a algum poeta português ou dramaturgo italiano e, com certeza, não seriam desprezadas por um mestre taoísta, para quem as borboletas podem sonhar que são homens.

 
* Quase a totalidade dos críticos insiste em diminuir a importância desta afirmação do único biógrafo que conviveu com F.K… Para eles, provavelmente, o teto da Capela Sixtina perde interesse artístico pelo fato de estar destinado à veneração dos fiéis – de alguns fiéis. E que quê dizer, então, da obra de Johann Sebastian Bach? De nossa parte, sabemos que toda obra significativa supera a intenção do artista. A obstinação destes estudiosos os torna suspeitos de – para dizer o menos –preconceito cultural. (N. do C.).

** Vale lembrar  “A Primeira Longa Viagem de Trem ou Richard e Samuel – Viagem Curta pelas Regiões da Europa Central”, texto inconcluso, no qual F.K. e M.B. se atribuíram a personalidade do outro. (N. do A ).

* Jorge Luís Borges, entrevista concedida em julho de 1966 à Paris Review, em: Os Escritores; Companhia das Letras, S.P., 1988, pág. 209 (N..A). 

* Ricardo Piglia: Nome Falso-Homenagem a Roberto Arlt , Iluminuras; S.P, 1988, pág. 49-50 (N.A).

 **Max Brod: Notas a O Processo; Círculo do Livro; S.P., s.d., pág. 266 (N.A).
* Max Brod; op. Cit., pág. 267

Alberto Manguel: Uma História da Leitura; Companhia das Letras; S.P., 1997; pág. 112-113

COPACABANA, NUA e CRUA! (l) conto de jb vidal

todas rodoviárias são iguais, têm um cheiro característico. ruim. 
              a de Porto Alegre, cidade onde  morávamos, óbvio, não era diferente. 
              ali estava eu. eu e José Luiz, o amigo que teve a idéia de fazermos esta viagem para o Rio de Janeiro.
              mês de julho. 1966. ditadura. férias. pouco dinheiro. contamos o que tínhamos. dava para curtir uma semana. ficaríamos numa pensãozinha. uma refeição por dia e sanduíches. pronto. vamos. o nosso negócio era praia e mulheres!
                                      
              tirando o cheiro de chulés e outros, a viagem foi normal.

              chegamos às quinze horas de um sábado. um tumulto. gente  pra caralho. aquele cheiro novamente. inacreditável que houvesse um mil e quinhentos quilômetros entre uma e outra.

              como moscas tontas andamos, de um lado para outro, a fim de obter informações, em local oficial, pois não estávamos dispostos a virar presas fáceis de qualquer má intenção.
                                    
              aceitamos a indicação da moça do setor turístico e fomos para uma pensão na rua do Resende em Botafogo. diária e café da manhã compatível com nossos recursos. o local estava próximo a Copacabana, nosso objetivo permanente. praia, mulheres e cervejas. talvez não nessa ordem.

              Madalena, a dona – também de uma bela bunda – mostrou-nos o quarto e o banheiro no final do corredor. casa antiga, confortável.
              tomamos banho e rua.
              dezoito horas, e lá estávamos andando na av. Atlântica. os olhos atentos buscavam todas as mulheres. lembrei da dona da pensão.
              escolhemos, estrategicamente, uma das mesas do calçadão no Bar e Restaurante OK, junto à praça do Lido. sabia que ali, após as dezenove horas, muitas apareceriam para um chope, comer ou serem comidas. 
              “cerveja garçom!” gritou o Zé Luiz, com uma empáfia que me fez rir e pensar “afinal estamos no Rio, para o que der e vier!”
              tínhamos que ganhar as minas que topassem nos levar para a casa delas, pois Madalena havia alertado para a proibição. isto dificultava as coisas.
              “mais uma!” e as mesas lotaram.
              
              uma noite quente abraçou Copacabana e o frenesi dos carros que iam e vinham com suas luzes cintilavam nos copos e garrafas criando um ballet de sombras e brilhos destacando o anonimato das pessoas e cada qual assumia sua identidade hipnoalcoólica condição para chegar à madrugada onde só a euforia seria a companheira de Baco.
             
              retornava do banheiro quando uma jovem tesuda, com quem já havia trocado sorrisos, sedutoramente vestida, pega minha mão e diz “vem comigo”.
              levou-me para o centro da praça. encostou-me numa árvore e passou a me beijar como se estivesse apaixonada. beijava, mordia, pegava no pau, na bunda “é hoje! estou com sorte!” pensei, enquanto amassava aquelas tetinhas e chupava o pescoço com gosto de banho recente.

“voei para o bondinho do Pão de Açúcar, subi pelo cabo pé ante pé, olhei a praia do Flamengo, linda, com a orla iluminada naquela noite quente, virei-me e vi o Cristo Redentor, noturnamente maravilhoso, mas, achei que ele piscou para mim e fez um olhar de advertência, para não encara-lo, olhei rapidamente a baia da Guanabara, a vi como um escuro infinito e senti-me engolido por aquele buraco negro.”       
                                        
              “vamos voltar minha amiga pode se preocupar.” eu era um fogo só.    
             antes de sair da praça dei uns tapas no pau para amolecê-lo. “você é daqui?” perguntou, “não” “eu sabia!”.
                                         
              “viu?” “vi, e a outra? vai dar pé? elas têm onde levar a gente?” “calma! eu nem falei com ela, não deu tempo, deixa eu  tomar fôlego, uns goles e vamos pra mesa delas.”
             
               eufórico, pedi uma dose de Trigo Velho para acompanhar a cerveja, ficar mais “alto”. agora, a iniciativa era minha.

               o Rio, na minha época de garoto, era o que se chama “sonho de consumo,” as praias maravilhosas, o relevo da cidade nada monótono. Copacabana! a sedutora de todos os boêmios, onde encontrei no “Beco das Garrafas” tom Jobim, Maísa, Antonio Maria, Vinicius, Elis ….. o Rio inspirava poetas e cantadores com perucas loiras da corte, com bailes na Ilha Fiscal ao mesmo tempo em que viam negras esbeltas subindo os morros da cidade, selvagens ainda, para onde correram os escravos recém libertos. e a paixão da nobreza era aquela negra com uma lata d’água na cabeça, feliz, cantarolando sua canção africana revestida de banzo, sonhos e desejos.
                                          
              “cadê as mina Rodrigo?” perguntou o Zé Luiz. olhei em direção à mesa onde deveriam estar. ninguém. procuramos. nada.
              debaixo de acusações mútuas, buscamos o culpado pelo descuido.    
              nenhuma conclusão. óbvio.
              andamos por outros bares e boates. sem sucesso. nem elas nem outras. as que topavam queriam grana. nem pensar.
              o Zé pagou o táxi e fomos dormir desenxavidos.

              “que domingo lindo! que sol! essa mulherada pelada! Copacabana é realmente a melhor praia do mundo!” disse o Zé tentando me animar.
              sem toalha, sentado naquela areia escaldada pelo sol das treze horas, meus colhões cozinhavam. levantei e fui ao mar. nadei com raiva e voltei.
              “vamos bicho! se anime! qualé? em vez de ficarmos uma semana, serão quatro dias! tá bom!”. 
              “que habilidade! ah! se encontro aquela puta! vai devolver todo o dinheiro e vou encher de porrada! ladra, vagabunda!”.
              o resto do domingo transcorreu nesse clima, pra baixo. 
             
              a gente sofre quando as coisas não saem como planejadas, mesmo as pequenas.
                                          
              fui salvo por um porre que apareceu no inicio da noite e me jogou na madrugada.
                                           
              segunda-feira. tarde. o Zé salta da cama e tenta me acordar.     
              desiste e sai. despertei quando era noite com Madalena batendo na porta.  queria saber se estava bem ou necessitava de algo “não, obrigado”. fiquei mais puto comigo, poderia ter fingido alguma coisa ela entrava e quem sabe…
                                      
              toquei uma punheta pensando nela.
                                      
              ainda estava de pau duro e com a porra na mão, quando o Zé entra no quarto aos safanões dados por dois milicos da PM. um deles, apontando o fuzil, manda que me levante com as mãos na cabeça.
              como havia dias que não transava nem me masturbava e somando à excitação com a puta-ladra no Lido, era muita porra, que, ao levantar as mãos escorreu para os cabelos, rosto e peito.
              “porco de merda! não gosta de mulher!?” gritou, encostando o fuzil no estômago e pressionando contra a parede. doeu muito.
              o Zé, que tinha saído sem os malditos documentos, caíra numa blites para carros e pedestres na saída do túnel da av. Princesa Isabel. agora, apresentava todos, com mãos que mal podiam segurá-los. mostrei os meus. reviraram tudo. toda a casa; pois logo após os dois, entraram mais cinco. não encontraram nada que comprometesse alguém.
                                      
              me pegaram pra cristo. com os demais hóspedes encostados nas paredes do corredor e Madalena, histérica, dizendo que era amiga de um tal coronel do exército, me tiraram do quarto, nu e com as mãos na cabeça, obrigaram-me andar alguns passos “este porco não gosta de mulher! flagramos o filho da puta tocando punheta! ele é bichona!”
             
              desde que me conheço por gente, fui assim, diante de uma situação de enfrentamento primeiro surge o medo e a seguir uma raiva crescente. o cérebro, dá a impressão que incha e a mente entra num torvelinho de espiral ascendente buscando uma saída para a orgia de pensamentos, confusos, cinzas, inexatos e velozes. a razão vai pro caralho.
corri pra cima do milico “bicha é tu filho da puta!” que me esperou com uma coronhada de fuzil no estômago. estatelei-me desmaiado.  
              queriam me levar. por desacato e atentado ao pudor. todos argumentaram. Madalena pediu, implorou. foram-se.
              
              ficou claro que a dona da bela bunda interferiu, não por mim, mas para resguardar a moral da sua pensão, que certamente seria escrachada na imprensa de aluguel por abrigar subversivos políticos, razão alegada naqueles tempos para qualquer arbitrariedade. ordenou que deixasse-mos a pensão imediatamente. cumpriu-se o pensamento do bar OK “estamos no Rio para o que der e vier”.

não esperava tanto.    

                   sem crédito. ilustração do site.

DAS LESMICES DITAS LÍRICAS poema de joão batista do lago


O que é a lírica feita apenas de lírica?
– um montinho de imagens que fedem estética – merda pura! –
um jeitinho bonitinho de arrumar palavras sobre palavras
castelos de areia que não agüentam a primeira maré

essa tua poesia feito peido de gabinete
que circula nos ares nobres de salões engalanados
sacramenta a idiotia das modernas gentes
que relincham como adestrados ginetes

sim! cansei das lesmices ditas líricas
feitas ao sabor do cântico factótum
donde te pensas deus-de-américas
contudo regurgitas tão-somente teu verso póstumo

pede meu verso que te peça perdão
– ele não canta ilusões… ele não tem qualquer paixão
meu verso é víscera que transcende o amor
ele é apenas verso de fome, sede e dor

ÚLTIMO ALMOÇO poema de marilda confortin

Já não há mais nada de interessante

nas paredes desse restaurante

para consumir nosso tempo

Os  velhos marujos de gesso

nos conhecem pelo avesso.

A coleção de nós de corda de navio

orna com nossos laços, frios.

Não vai chover,

nem esquentar,

nem esfriar.

Não há mais tempo

nem assunto.

O silêncio incomoda.

O garçom some.

Quem paga a conta

dessa falta de fome

que nos consome?

 

 

Escritores e críticos analisam literatura brasileira em Parati

Paul Auster, Martin Amis, Ian McEwan e Margaret Atwood. OK. Mas e nós? Aproveitando o dia mais brasileiro da Festa Literária Internacional de Parati, que terá de manhã Ferréz, pela tarde o trio Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Luis Fernando Verissimo e Chico Buarque na entrada da noite, a Folha ouviu escritores, críticos, agentes literários para bater uma chapa da ficção que fica aqui depois que o circo da Flip for desmontado. Qual a situação da literatura brasileira hoje?
O caçula do festival, Daniel Galera, 25, dá o mote da toada. “É impossível definir como é a ficção feita hoje no país. É tudo muito variado, cada um seguindo sua viagem.” Escritor e dono da microeditora Livros do Mal, ele é inimigo ferrenho de “geração 90”, “geração 00” e outras estampas que pregam nas costas dos autores que se consolidam agora.

A ânsia de classificar o que está sendo feito agora, opina Augusto Massi, é sinal da falta de “espírito crítico”. Ator, diretor e contra-regra, ou seja, editor, ensaísta, professor e poeta, ele acredita que o problema não está na produção literária nacional nem naqueles que a imprimem. “Quando ninguém consegue se localizar montam-se logo antologias. São coletâneas feitas por gerações, gêneros ou ‘os cem melhores’. Mas essas listas são pouco confiáveis.” Massi acredita que faltam críticos novos, que possam organizar um mercado que dá espaço “para todo mundo: do cara dos poemas pornôs ao best-seller”.

Raimundo Carrero, 14 romances nas costas, discorda. “Faltam é leitores.” E a oferta nacional das novíssimas gerações (“nova geração sou eu também, não morri”), segundo ele, é das mais generosas possíveis. “Vivemos a perplexidade de um novo milênio. A literatura brasileira vive o que Alejo Carpentier chamou de terceiro estilo, que é a falta de um estilo”, aponta o autor pernambucano.

Os “novíssimos” apontam a internet como multiplicadora desses modos tão variados de prosear. “A palavra é jogo. Nós jogamos os textos na internet e estamos jogando literariamente para encontrar nossos caminhos, nossos estilos”, opina Emílio Fraia, 22, paulistano.

Essa “busca de caminhos” o trouxe às Veredas da Literatura. Esse é o nome de um projeto literário da Flip que reuniu de quinta a hoje uma trupe de 50 autores inéditos ou nos primeiros passos para uma oficina com o romancista e professor Milton Hatoum.

Vindos de diversas cidades, e agrupados “woodstockianamente” em uma pousada, eles terão um mês a contar de hoje para apresentarem projetos de livros. Dois deles serão brindados pela Vivo, patrocinadora do projeto, com R$ 12 mil (oito de R$ 1.500) para concluírem os escritos.

Os “novíssimos” farão “vanguardismos”? Não necessariamente. Antonia Pellegrino, 24, carioca, fala sem meias palavras. “Caguei para a vanguarda. Escrever uma boa história já é ótimo. Se quer fazer vanguarda, tem que ser gênio. Ficar no meio do caminho não dá”, diz a neta do poeta e psicanalista Helio Pellegrino.

Um dos principais contistas brasileiros, Sérgio Sant’Anna, safra 1941, não pensa assim. “A palavra ‘vanguarda’ envelheceu, mas o desejo de inovar não. Quem prega que o que importa é só o enredo, e não a linguagem, são setores conservadores, um pouco reacionários”, diz o escritor, que pôs o tema na roda ontem em encontro com Luiz Vilela.

Carrero, Marcelino Freire, Ivana Arruda Leite e Daniel Galera, reunidos em frente à Igreja da Matriz, rezam nessa cartilha. Em conversa com a Folha, dizem eles que a ficção brasileira tem muita gente experimentado bem a linguagem, sim. Mas não acreditam que esse (ou qualquer outro traço) possa ser amarrado nas novas escrituras brasileiras.

“Tentar definir o que está acontecendo é como abrir o liqüidificador enquanto a vitamina está sendo feita. Voa abacate para todo lado”, diz o poeta, prosador e editor Joca Reiners Terron. Sem receio dos “abacates”, Augusto Sales, editor da revista literária “Paralelos” e um dos organizadores da Veredas da Literatura, arrisca um retrato de corpo inteiro.

“Os autores cariocas trabalham mais a partir da memória afetiva. São pequenas obsessões, crises existenciais e o incômodo com a superficialidade do mundo contemporâneo. Já São Paulo é mais ‘faca no bucho’, fala mais da violência urbana. Tem influência de Rubem Fonseca e do cinema. No Sul, vejo mais elementos fantásticos. Mas, em comum, têm a concisão, o apreço pelos minicontos, o que é influência da internet.”

Contam-se em dedos minguados os jovens autores que não trabalham com a “rede”, a julgar pela amostragem da oficina Veredas. Uma delas vem do interior paulista. Fabíola Moura, 31, é o nome da “avis rara”. “Sou uma exceção aqui, porque não tenho blog. Sou autora do século passado. O que acho ótimo nos novos autores é a desmistificação da escrita. A busca de comunicação direta pela net possibilita isso.”

Outra “desmistificação” é a de que não é possível exportar nossa literatura. Lucia Riff, principal agente literária brasileira, diz que não passa nenhum mês sem negociar autores brasileiros com o exterior. “Tenho recebido pedidos de países que nunca publicaram nossa literatura. Anos atrás o desconhecimento da literatura brasileira chegava a ser constrangedor. Agora estamos na moda.”

Mas ainda falta. Com a palavra o enviado do jornal espanhol “El País”, José Andrés Rojo: “O leque da literatura brasileira é imenso, com obras de variedade surpreendente. É literatura ainda praticamente desconhecida, que precisa ser posta em órbita”.

 

 

 

Por: CASSIANO ELEK MACHADO e
LUIZ FERNANDO VIANNA

de conrado maestro. ilustração do site.

 

 

EDU HOFFMANN e seus HAICAIS (ll)

cirandar

 

 

     amor que prende

 

     amor que solta

 

   amor que me leva

 

   e me traz de volta

 

 

   =

 

 

                              noite alta

 

                     criança risonha sonha  

 

 

                          estrelas azuis

 

 

=

 

 

 

                rã saltando

 

 

         enche minha boca

 

                  d’água

 

 

=

 

                       no alto galho

 

 

                pensava estar vendo o sol

 

 

                       era um caqui

 

 

               =

 

 

assim que se escreve

 

 

 

 

                      procuro e não tem

 

 

                           meu Deus

 

 

                  sem caneta sou ninguém

 

 

=

 

 

                    Clínica Freudulenta

 

 

                          no recreio

 

 

                 servia bolachas reichiadas

 

SÍNDROME POR UMA CAMA DECENTE por darlan cunha

Durmo num sofá, e isso requer paciência, porque é como vestir roupa que não seja nossa, e assim é que se está sempre sob desconforto de dores e insônia.

Com os pés e a cabeça mais elevados, a gente fica como um longo “U” a noite toda, madrugada inteira, e se levanta corcunda, cheio de tristeza, empapuçado o olhar, sensação de amor mal-feito e, de verdade, nem feito nem sonhado.

Durmo num sofá, só eu e minhas (in)consequências já muito duradouras, e sei que devo dar logo um jeito definitivo nisso de viver com dores no lombo quanto nos quadris e nos ombros, carregando uma placa na testa onde se lê “Insônia”.

SEDE DE AMAR poema de bárbara lia

A mulher dobra o arco-íris
e o esconde sob a mortalha.
Colhe a estrela matutina
e a aninha, ainda quente,
entre as rosas mortuárias.
A pedra pequena recolhida
nos trilhos da rua do amado
coloca em seu ouvido
como concha
para levar na eternidade
o eco dos passos dele.
Ela está morrendo
e seu amor não sabe.
Bebe o último copo d’água
sabendo
que a sede mais intensa
nunca foi saciada.

A LEI DO TURISTA-CIDADÃO/ por alceu sperança

Por falta de capacidade (ou vontade) de resolver os problemas reais que as pessoas vivem, nas campanhas eleitorais surgem, como sempre, propostas absolutamente irrelevantes, como a criação de guardas municipais a pretexto de combater a criminalidade.

Outra proposta que não muda o valor do dólar ou do euro nem reduz a buraqueira que o crack faz nos cérebros das crianças é o debate sexo-angelical sobre se o setor de turismo deve fazer parte da Secretaria Municipal da Cultura ou da Indústria e Comércio? Partindo dessa dúvida absolutamente bestial, como diriam os “patrícios”, poderíamos embutir nessa questão outras perguntas. Por que o turismo não faz parte da Educação, já que é necessário educar toda a população para bem receber os turistas? Sem educação, como trataremos bem os gringos e seus dólares/euros?

Vamos em frente: como tratar bem os turistas se continuamos atropelando gente e fazendo roleta-paulista por aí? Não seria, então, o caso de atrelar o turismo ao Detran? Em Cascavel, um burocrata da Prefeitura tentou dar um pouco de educação (sempre ela) ao pessoal que lida com o tráfego e foi chamado de maluco por pretender transformar o serviço de táxi numa espécie de organizado Yellow Cab americano. A crítica mais habitual é “aqui não funciona”.

Mas o turismo talvez pudesse ser reivindicado pela Secretaria do Planejamento, pois a cidade não está preparada nem para o convívio dos cidadãos “aborígines” – por que cargas d’água estaria para os estranjas? Claro que a Secretaria de Assuntos Comunitários também poderia reclamar o turismo, na medida em que depois de dar cidadania e civilidade aos “agentes ecológicos” (catadores de papel) pode também transformar os “flanelinhas” em “recepcionistas turísticos”, inclusive com noções de gringuês.

A Secretaria da Saúde, por sua vez, reclamaria o turismo alegando que alguém poderia vir do exterior trazendo a gripe aviária, sendo necessário criar, talvez junto com a tal Guarda Municipal, um cadeião todo almofadado, tipo cinco estrelas, decorado com retratos de mulatas seminuas e motivos paisagísticos tropicais, para que os gringos visitantes ficassem de quarentena até que o risco de transmitir a perigosa doença fosse contornado.

A Secretaria do Meio Ambiente poderia com justa razão reivindicar o turismo para motivar a visitação aos velhos e aos novos parques temáticos de preservação das fontes e dos fundos de vale. A Secretaria das Finanças poderia baratear o custo do desassoreamento dos lagos entulhados cobrando de cada turista um pedágio adicional: um caminhonaço de lodo tirado do lago lhe valeria o título de Cidadão Honorário Sanepariano do Município.

Temos secretarias demais, departamentos demais, gastos demais com caciques e pouca esperteza na articulação entre as instâncias da administração, que deveriam jogar juntas, como as peças de uma equipe – digamos o insopitável Coxa – que pretende ganhar uma competição.

O turismo é uma grande fonte de renda. Será nosso grande negócio se soubermos lidar com ele. Mas não é preciso criar nenhum departamento de Turismo nem na Cultura, nem na Indústria e Comércio, nem em qualquer outro lugar: basta cumprir uma pequenina lei, a exemplo das Três Leis da Robótica, de Isaac Asimov, com apenas três artigos:

“Art. 1° – Em Curitiba, Estado do Paraná, toda pessoa residente no perímetro municipal será tratada como turista, com todos os seus direitos de cidadão, mordomias e salamaleques assegurados;

“Art. 2° – Todo visitante e turista será, para todos os efeitos, tratado como o é todo cidadão curitibano.

“Art. 3° – Revoguem-se as disposições (e as patetadas) em contrário.”

Não sei se essa “lei”, tecnicamente, tem fundamento, pois leis não podem embutir ironias nem, talvez, uma proposta mal disfarçada de revolução final contra a opressão capitalista. Mas deveria começar a vigorar imediatamente, ao menos em nosso coração.

 

sem crédito. ilustração do site.

MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (II) – por alberto moby

Na mensagem anterior afirmei que, ao utilizarmos as expressões “música popular brasileira” e “MPB” não estamos falando do mesmo objeto, pelo menos se o período a ser analisado for o do regime militar. Para ajudar a sustentar essa afirmação vou fazer aqui uma breve análise da reação de alguns compositores dos anos 70 frente ao rigor da censura nos chamados “anos duros” da ditadura – o período compreendido entre a edição do Ato Institucional n.º 5 e o término do governo do general Emílio Médici. Eram esses compositores (ou a maior parte deles) que eram chamados pelo público e por parte da mídia como MPB.

Numa entrevista de 1974, para o jornal Opinião, não publicada por ter sido proibida pela Censura, Chico Buarque de dialogava com a jornalista Ana Maria Bahiana:

– Quer dizer que até o fim do ano você não pretende mexer com nada de música?

– Ah, isso é pacífico. Tem aí umas idéias – mas não tem nada marcado – de um dia fazer um disco com músicas de outros autores, mais tarde um disco de retrospectiva, porque pra esse ano não vai dar, mesmo.[1]

Na mesma entrevista, Chico Buarque comentava o LP Chico canta, do ano anterior, contendo as canções da peça teatral Calabar – o elogio da traição, dele e de Ruy Guerra:

– Bem, eu estive pensando, no final das contas, olhando bem, não é um bom disco, entende? Quer dizer, é um disco cuidado, com arranjos lindos do Edu [Lobo], mas quem vai comprar um disco que metade das músicas não tem letra? Vale como documento, mas você não pode obrigar as pessoas, ninguém está informado de nada. Não estão informa¬das, como é que vão comprar um disco de capa toda branca? O título do disco é CHICO CANTA, quer dizer, não tem nada a ver, é a capa que não é capa. Uma porção de músicas sem letra e, aí sim, muito mais presas a uma peça que não houve. Quer dizer… todas as músicas de CALABAR se ressentem da au¬sência da peça, porque estão muito mais vinculadas a ela.[2]

Como a peça, vetada pela Censura, o disco tivera as letras de várias das canções a ela vinculadas também censuradas. Além disso, foi proibida a capa do disco, com a palavra Calabar pichada num muro[3]. Na canção Fado tropical (proibida para o show Tempo e contratempo, de 1974, com Chico e o conjunto MPB-4) foi proibida a frase “além da sífilis, é claro” (uma das heranças lusitanas no sangue brasileiro, segundo o personagem Mathias), parte de um texto declamado por Ruy Guerra, co-autor também das músicas. Anna de Amsterdã teve toda a letra proibida, assim como Vence na vida quem diz sim, só sendo permitido incluí-las no disco em versão instrumental. Na canção Bárbara, foi cortada a palavra “duas”, que sugeria um relacionamento homossexual entre as personagens Anna de Amsterdã e Bárbara, viúva de Calabar. Anna de Amsterdã e Bárbara sofreriam os mesmos cortes, substituídos por palmas, no LP Caetano e Chico juntos e ao vivo, gravado naquele mesmo ano durante um show no Teatro Castro Alves de Salvador. Além dessas duas canções, a música Partido alto, interpretada por Caetano no show, só fora permitida com alterações na letra, onde foram substituídas as palavras “brasileiro” (por “batuqueiro”) e “pouca titica” (por “pobre coisica”).

A violência da Censura contra o disco Calabar, no entanto, já era o resultado do aumento sistemático da violência contra o trabalho de Chico Buarque, que continuaria ainda por muito tempo. Angustiado, Chico declararia a Ana Maria Bahiana: “… eu espero que daqui a um ano eu possa fazer música de novo, no momento me considero um ex-compositor”[4]. Mas, mais adiante, o próprio Chico relativizava essa declaração, talvez na tentativa de se proteger de um tipo de acusação que até hoje o persegue – a de que se fazia de vítima da ditadura para conquistar o público e vender:

– Também não quero usar isso como álibi, é preciso saber até que ponto eu pego no violão e não tenho vontade de compor porque acho que não vale a pena, que não vai passar. Não é autocensura, é um cansaço de se empolgar com um troço bonito e perdê-lo. Então você antes disse: já não vai fazer pra não ter o desgosto. Agora também não posso dizer que é só por causa disso, primeiro porque eu não quero dar esse gosto a ninguém […]. É uma crise. Tem umas gotinhas vindas de fora, uma pressão; mas não é só isso”.[5]

A angústia e a tensão entre a luta contra a Censura e uma (im)provável falta de criatividade acabam levando Chico Buarque a concluir: “Não dá pra fazer show de capa branca, com metade das músicas sem cantar”[6]. Além do mais, acrescenta: “é muito chato isso das pessoas te pararem na rua e perguntarem pela censura, e não pelo meu trabalho. Como artista eu quero ser julgado pelo meu trabalho. Foi um ano perdido”[7].

O vigor com que a Censura se abateu sobre Chico Buarque não seria “privilégio” dele, nem tampouco novidade em 1973. Só para citar mais alguns exemplos, o LP Paulinho da Viola, de 1971, teve as canções Chico Britto, de Wilson Batista e de Afonso Teixeira (música composta em 1949), e Um barato, meu sapato, de Paulinho da Viola e Milton Nascimento, proibidas[8], por destacarem o “clima marginal do samba”[9]. Em 1972, Jards Macalé teria que reescrever sete vezes a letra de Revendo amigos (LP Movimento dos barcos). Em 1973, Raul Seixas teria 18 composições vetadas pela Censura, Luís Melodia, em seu disco de estréia, teve várias palavras podadas de suas canções, além de várias músicas vetadas na íntegra.

Mas o disco que faria par com Calabar, em 1973, seria o álbum (um LP e um compacto simples) Milagre dos peixes, de Milton Nascimento. Apesar de ter contado com participações especiais, como Radamés Gnatalli como arranjador, Clementina de Jesus e Gonzaguinha, entre outros, a Censura não se intimidaria, vetando as canções Hoje é dia d’El Rey, Cadê e Escravos de Jó, impedindo a participação no LP de Dorival Caymmi, que deveria cantar uma das faixas mutiladas. Além disso, outras canções teriam as letras parcialmente proibidas, como é o caso de Diálogo entre pai e filho, cuja única frase permitida dizia: “Meu filho”!. Conformado, Milton Nascimento decidiu gravar apenas as melodias das canções vetadas.

Ainda naquele ano, a revista Veja[10] revelava que o LP Luiz Gonzaga Jr., contendo dez faixas, era o sobrevivente dos cortes de quinze músicas pela Censura. Isso sem contar que a canção Comportamento geral, gravada nesse LP, fora proibida de ser executada nos meios de comunicação.
A onda de repressão à música popular dos primeiros anos da década de 1970 faria o crítico musical Tárik de Souza mostrar-se “surpreso”, em meados de 1974, com a “calmaria excessiva e perigosa, sujeita a discos técnicos e performances de discreta estética comportada”[11] que se abatia sobre o mercado musical brasileiro. Ironicamente, Tárik de Souza concluía seu raciocínio, refazendo-se do “susto”:

Evidentemente que quem quisesse acompanhar ainda com maior profundidade as oscilações da linha de frente da música brasileira deveria munir-se de um sismógrafo resistente. Muitos fatores contribuem para os efeitos de luzes e sombras que tingem os rostos dos espectadores. A estes muitas vezes será preciso ainda informar que tudo pode acontecer pelos costumeiros – e sempre insondáveis – motivos de ordem técnica. Perdão, leitores.[12]

Na próxima mensagem vou tentar comentar as formas que a MPB encontrou para resistir ao rigor da Censura.


PS: Este post é uma versão adaptada das p. 146-150 do meu livro Sinal Fechado: a música popular sob censura (1937-45/1969-78, publicado no ano passado pela editora Apicuri, do Rio de Janeiro (www.apicuri.com.br).

[1] BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes: MPB nos anos 70. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 36. Sobre os discos de que fala Chico Buarque, o primeiro deles, com músicas de outros autores, foi realmente produzido: trata-se do LP Sinal Fechado (Philips, 6349122), de 1974, onde apenas a canção Acorda, amor, assinada com os pseudônimos de Leonel Paiva e Julinho de Adelaide, inventados por Chico, era dele. Quanto ao disco de retrospectiva de sua carreira, não chegou a ser realizado.
[2] Idem, p. 37.

[3] A capa foi proibida “pois os censores enxergaram um significado subversivo. Chico reagiu lançando o mesmo disco com capa totalmente branca e sem título. O seu Álbum branco, digamos assim. Manteve, entretanto, a ficha técnica da capa anterior, com os nomes dos fotógrafos (eram três), evidenciando, assim, mais uma vez, a ação da Censura. O curioso é que esta capa também acabou sendo recolhida, mas não por ordem da repressão. A decisão foi da própria gravadora. É que o disco simplesmente não vendeu, e o departamento comercial da Philips identificou na capa branca a causa do fracasso comercial. Semanas depois, o LP foi relançado com nova capa, mais simples, mais normal, apenas com uma foto do artista, de perfil, com o título Chico canta.” (MARTINS, Lula Branco. “Chico Buarque e a imagem do artista: como se deu a construção de um símbolo nacional”. JB online, 13/JUN/2004. Disponível em http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2004/06/12/jorcab20040612013.html. Acesso em 13/04/2008.)

[4] BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes…, cit., p. 37.

[5] Idem, p. 39.

[6] Ibidem.

[7] Idem, p. 40.

[8] Chico Britto só seria regravada em 1979, no LP Zumbido, e Um barato, meu sapato, provavelmente modificada, com novo nome, Meu novo sapato, e sem a parceria com Milton Nascimento, sairia no LP Memórias cantando, de 1976.

[9] “Um caso à parte”. Veja, 10/11/1971, p. 90.

[10] “Bem inspirado”. Veja, 25/07/1973, p. 98.

[11] SOUZA, Tárik de. “Música popular: interferências empresariais e outras”. Opinião, (78):23, 06/05/1974.

[12] Ibidem.

EM NOME DO PAI & DA PALAVRA – de jairo pereira

 

Em nome do pai, do filho e do espíritho santo da poesia. A palavra tem esse dom, de concentrar energias, q. nossos sentidos não conseguem identificar. O signo e suas sadias espirithações, como já disse na apresentação do meu livro-poema Espirith Opéia. A gente vai e volta, na mesma questão: a palavra será capaz de manter-se no tempo, como signo majoritário à poesia do futuro!? Não tenho dúvidas q. sim. Partícula mínima das linguagens escritas, a palavra, oferece a possibilidade do processo de conhecimento. Ciências, philosophias, éticas e estéticas, tornam-se acessíveis pelas linguagens escritas. Assim, o conhecer se dá diretamente pelo manuseio da língua e da palavra q. a compõe. Ninguém vai muito longe, guiando-se só por signos visuais, símbolos ou ideogramas, no processo do cognocer. Ainda mais por ícones expressos numa tela de computador.

Instrumento criado por Deus, a palavra, não poderia ser diferente, nas suas qualidades numinosas, ou seja: ser simples, direta, como água de fonte, e ao mesmo tempo ensejando complexas variações, na formação das mais diversas linguagens. E, não só isso: o exercício pleno e libertário das linguagens (compostas de palavras) opera o milagre da comunicação, numa primeira instância. Em segunda e terceira instância, nas mãos do artista, (poetas e escritores) A PALAVRA, alcança o estágio de elevação espirithual, também realizando outro grande milagre: a criação livre de author. A obra e seu lugar no espaço-tempo. A voz da linguagem, é nua e pura, em estado bruto. E, a linguagem da voz, após a intelecção (quando a linguagem não tem como escopo principal a comunicação direta) se traduz, na criação poético-ficcional. Entendo assim, sponte própria, nos meus parcos conhecimentos lingüísticos. Na realidade meus conhecimentos lingüísticos, são mais de poeta, manejador diuturno dos signos. A intimidade com a palavra é q. nos dá a compreensão do fenômeno e grandeza, dessa alma (palavra) aparentemente simples e impotente. Muitos governos ruíram, em face da palavra. O Poder da palavra, é maior de q. muitos poderes instituídos pelos homens. Não à toa, alguém contemplava reverencialmente, as inscrições nas pedras, no deserto. A palavra corroendo a pedra do tempo, e sempre mantida nas intempéries. Muitas vozes romperam fronteiras, trazendo na palavra novas ideologias. A palavra registra a vida, costumes, atos, fatos, idéias, projetos, realizações. A sã convicção do sujeito no dizer a palavra, vale mais q. muitos livros escritos, repousados nas grandes bibliotecas, como mortos em sarcófagos subterrâneos. Cristo, é exemplo paradigmático, quando se trata da força da palavra nos tempos. Gosto daquela belíssima sentença, ou duas conjugadas, na forma como aparecem: Eu vos deixo a paz. Eu lhes dou a minha paz. É de se perguntar aos sábios lingüistas, onde está, nos ditos acima, a voz da linguagem e a linguagem da voz?? Creio, comporem as presentes sentenças, conjugadas como estão, uma só linguagem e uma só voz. Portanto una, a linguagem da voz e a voz da linguagem. Prescindível, qualquer intelecção humana à emissão sígnica, acima expressa, o que retira de antemão a linguagem da voz. O que isso tudo tem a ver com poesia?! Pense o q. quiser pensar. Tem tudo e nada ao mesmo tempo. Primeiro porque a poesia tem o poder de instituir-se da mesma forma q. a palavra nathuralmente, num processo de simples fala, quando se trata de poetas sem a dita cultura civilizada. Segundo porque os deuses excêntricos da criação, com suas extravagâncias, de conduta, mentem muito e em prestidigitações inumeráveis, enganam o sujeito/criador. A relação sujeito x objeto x prismas de análise, tríade, originária de toda arte, fulgurações no céu, acidentes da língua, fala e consciência, são determinantes do produto final: a obra. O que era simples palavra no início, na abordagem primária dos objetos, torna-se com ação e esforço ou acidente dos sentidos, composto singular, complexo nos meios e fins, ao ponto de o emissor dos signos, esquecer q. aquilo tudo fora constituido pela simples palavra, q. encanta e ilumina. Não gosto dessa coisa, de ficar procurando símbolos arbitrários no computador, (embora já tenha feito isso) ou nos diversos outros meios eletrônicos, a fim de compor um poema, um conto, uma criação livre de author. Todos os conflitos étnicos, fatos philosóphicos, antropológicos, místicos e religiosos, estão contidos na simples palavra. O bom dia (esse simples cumprimento) diz mais q. muitas teses de lingüistas eméritos da USP e outras grandes universidades brasileiras. O q. interessa ao poeta é o q. interessa à poesia: milagre de luz na criação q. comunica e expande o signo/palavra. É muita tese, pra pouco resultado prático. O q. buscam eles, os “gênios” da lingüística?! Só deus sabe. E, o acúmulo inócuo de teses é imensurável. Nós os poetas, podemos prescindir da tese e atingir o nirvana com a simples palavra q. ilumina. Comer o pão pela manhã e servir-se da palavra no todo dia. A palavra como ente sagrado, inesgotável na sua tridimensionalidade de significação, combinações infinitas, etc. Um mundo, dois mundos, três mundos, multimundos se erigem com a simples palavra q. ilumina. Uma benção, indescritível esse poder, q. não é conquistado à força, não é vendido, nem leiloado pelos trogloditas tecnocratas. Q. a força de minhas palavras na esteira crística, pastoreiem belas imagens, a fim de compor minha poesia. Uma poesia de força de investimento nos atos, fatos, pensamentos. Os governos detém a palavra como instrumento de PODER, falseando-a, em verdade, ética e impondo estéticas de horror. A própria palavra nos parlamentos, vinga-se dos ordinários. Anjos poliglotas vigiam, o bom uso da língua e os desideratos singelos da santa palavra. Não se iluda. Tua sanha de poder e asco, nada pode contra os atributos do signo verbal. O poeta, procura extrair da palavra o seu poder sacrossanto, criônico, e de revelação da vida. Andar pelas veredas impostas pela palavra e descobrir os mundos novos, q. o imaginário propicia, é dos melhores prazeres terrenos. Minhas mulheres, idealizadas nas palavras. Minhas utopias, projeções de mundos ideais, relações cordiais e profícuas criações. A mãe sabe disso: a mãe provedora universal, a linguagem de minhas verdadeiras palavras. A poesia, nunca irá trair o desiderato da pobre e glorificada palavra. Aos monstros, a subversão deletéria dos signos. Como liberdade de expressão, ético-estética, o poeta também pode fazer isso, e o faz, mas num plano de criação livre, embalado pelas musas e os amplos horizontes de confirmação do talento, chuvas de facas e fumacear de gases tóxicos. O dramaturgo, o cineasta em seus roteiros, o ficcionista em sua prosa, idem nas especulações/projeções fantasiosas com os signos. A questão é manter o respeito e render-se aos milagres q. o signo/verbal nos oferece. Esta a nossa grande estrela, poetas, (a palavra) oferecida no céu da lira entusiasmada, como majoritário instrumento da criação. Todo signo, símbolo, ideograma, ícone e módulos de significações semióticos, fotópticos & afins, serão bem vindos ao processo da poesia do futuro. Mas jamais, podemos prescindir da palavra, língua e linguagens, no processo de conhecer e ser conhecido, decodificar e ser decodificado, megassêmico cosmos do dizer e ser dito. Há de se ter destreza com a palavra, sim. Destreza, interesse, razão, emoção, projeção, pontos importantes, aos compostos do alto espíritho. Minhas palavras, meus sopros, meus gritos, meus nervos, minha intelecção, minha construção de mundo, minha philosophia, minha práxis e ideologia. Quem é capaz, de descartar em sua vida o esplendor da palavra? Na lúdica jogada do viver e fazer poesia, a palavra é como santinha de igreja, de se carregar no bolso. Falta nos água, mas não palavra, falta nos o pão, a mesa posta, mas não palavra. Falta nos o sonho, mas não a palavra, mesmo sendo essa a Senhora esplendorosa do sonho. Um não-sonhar, é só quando a palavra solipsia, e o sujeito criador, se deixa levar pelo baixo espíritho. As negras presenças invisíveis, cerceiam, caçam e prendem a palavra. Um poeta, estar sempre em guarda, na liberdade plena e irrestrita da palavra. Ela a deusa do dizer, conhecer, compor, nos levará aos mundos da razão e des-razão, aos elevados/enlevados da alma dos tempos. Mesmo os loucos-loucos nos manicômios, rendem-se aos ruídos da alma (proto-palavras, palavras), a denotar seus estados de ser, sentir e estar no mundo. Os loucos e as palavras tem tudo em comum: vertentes de significados difusos, quando é preciso, monólogos longos ao caminho do nada, q. é perder-se e encontrar-se na própria palavra.    

A palavra vã, em suas vestes pobres, milagreira da imagens: identidade e contradição, silêncio e ruído, realidade e imaginação, todas antinomias, na sua órbita de entendimento. Mãe dos entes concretos e abstratos, a palavra, pisa todos os caminhos, navega todos os mares, e nunca se dá por vencida na sua missão de nos revelar a vida. O homem q. habita na palavra está em sintonia com o cosmos. É espelho da alma contrita do signo lêtrico, navega, configura e expande o dicionário universal. Resido de há tempos, nesse ente numinoso, bem coletivo, supercomum a todos os homens. Em seus canais de significação, interpreto a vida, crio meus poemas, ensaio, ficciono, produzo a estética e philosophia de minha grande verdade. Sou portanto, inquilino vitalício da palavra, e o aluguel q. pago, sopro vital, meu entusiasmo diante do objetário q. me cerca, reflete na minha nathureza (consciência e inconsciência) e é devolvido em texto pra esse mesmo mundo e realidade. Viva a vida, sempre renovada, no interior da palavra. E viva a poesia q. emana da sua lavra preciosa, mina inesgotável de um dos minérios mais caros, ao homem: o sublime.

 

hErMes lUcAs pErê

Autor de Anemoria (poesia),

Poie-açu (poesia) e Arroz, feijão e philosophia

(multiprosa), inéditos, a serem publicados

no ano 2010, por editora do Asteróide

ZIPHSK 333, da Órbita Savagé.

 

 

 

sem crédito. ilustração do site.

Rumorejando (Quanta gente da coluna social para a policial passando) – por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

 

Constatação I (De uma dúvida crucial. Não deste assim chamado escriba).

E como ponderava o obcecado em suas – dele – lucubrações: “Não vejo mal algum no que aconteceu entre o Bill Clinton com a Mônica Levinski. Será que alguma alma piedosa, caridosa e beatífica poderia me explicar o porquê de tanta celeuma?

Constatação II (Dúvida crucial via pseudo-haicai).

É um xereta sexual

Também

O voyeur virtual?

Constatação III

Rico fala com convicção; pobre, enrola.

Constatação IV

Quem não lê, não tem assunto. Consequentemente, ficando falando dos outros. E, evidentemente, em condição (a)normal de pressão e temperatura, só mal…

Constatação V (Dúvida crucial, via pseudo haicai).

Foi o jacaré que ‘seliconou’

A sua – dele – “poupança”

E se sentou?

Constatação VI (De diálogos matrimoniais).

Disse o marido recém casado pra mulher:

-“Um pedido teu pra mim é uma ordem”.

Respondeu a mulher:

-“Eu jamais faço pedido. Eu apenas dou uma ordem”.

-“Ah bom, quer dizer, ah ruim, quer dizer, ah bom mesmo”.

Constatação VII

A cera técnica no jogo de futebol pode fazer falta no final para quem estava todo o tempo fazendo. Mal comparado, às vezes, é o tipo do tiro (de meta ou de falta) que saiu pela culatra (chutado contra o próprio arco).

Constatação VIII

A gente pode não ter ganhado um Prêmio Nobel, mas tem o fato de sempre estar inovando no nosso sistema democrático, representado pelo Executivo, Legislativo e Judiciário. Principalmente nas incongruências…

Constatação IX

Em homenagem ao Dia Mundial do Rock’n’roll passei o dia escutando chorinho, mas com o pensamento respeitoso aos adeptos desse ritmo. Se houver um Dia Mundial ou, ao menos Brasileiro, do Chorinho vou passar o dia escutando os mesmos chorinhos para lembrar a minha homenagem ao Dia Mundial do Rock’n’roll…

Constatação X (Reminiscências…)

O engenheiro Karlos Rischbieter lançou no dia 1° de abril deste ano o livro Fragmentos de Memória, abordando, dentre outros, aspectos da sua vida profissional. Nele, há referência a sua participação na vinda da Volvo para Curitiba. O que me suscitou a lembrança de um fato, com relação à fábrica de ônibus e caminhões sueca que ocorreu quando eu era empregado do BADEP – Banco de Desenvolvimento do Paraná S. A. Vamos a ela, pois:

Lá pela década de 70 fui instado a atender dois funcionários, ligados à comunicação social da Volvo sueca, que chegaram, após passar por São Paulo, a Curitiba. Do aeroporto Afonso Pena levei-os para a Cidade Industrial de Curitiba, a fim de mostrar o terreno aonde iria se localizar a fábrica, como de fato veio a acontecer. Também para que vissem as indústrias já implantadas ou em fase de implantação. Na volta, passamos pela CEASA – Centrais de Abastecimento do Paraná S.A., o terminal abastecedor de alimentos, onde foi explanado como uma provável fonte supridora para o refeitório da empresa. Quando estávamos circulando pelo pátio da CEASA, os suecos se puseram a gritar: “Um caminhão Volvo! Um caminhão Volvo!” Saltaram do carro e começaram a tirar fotos de todos os ângulos possíveis e imagináveis de um caminhão Volvo, modelo da década de 50, que se encontrava estacionado. Copiaram o número do motor, do chassi, da placa, do certificado de propriedade. Abriram o capô, examinaram por cima e por baixo. Fizeram mil perguntas ao proprietário. Após solicitar que fosse posto em movimento, auscultaram o ritmo do motor. Enfim, fizeram um estardalhaço tal que até o guarda em serviço veio ver o que estava acontecendo. Também ele não deixou de levar sua lembrancinha da Volvo, àquela altura distribuída em profusão. Mormente ao dono do caminhão que já estava ficando tonto com toda aquela inesperada atenção.

Em certo momento, o proprietário – um catarinense dono de uma simplicidade e simpatia irradiantes – me chama ao lado e me pergunta:

-“Mas afinal, quem são esses caras aí?”

-“Esses ‘caras aí’ são funcionários da Volvo. Não sei se o senhor sabe, a Volvo vai implantar uma fábrica de caminhões em Curitiba”.

-“Ah é? E vai demorar muito?”, tornou a perguntar.

-“Não. Acho que daqui a dois anos deverá estar pronta”.

-“Então será que o senhor poderia perguntar se, quando os caminhões estiverem prontos, eles me dariam um novo de presente?”

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

            a fenomenal barriga do “fenômeno.” sem crédito. ilustração do site.

A ARTE ESTÁ DE LUTO: MORRE DERCY GONÇALVES

Morre Dercy Gonçalves aos 101 anos

Ela estava internada no Hospital São Lucas, em Copacabana. A atriz era famosa por suas entrevistas irreverentes

A atriz Dercy Gonçalves, de 101 anos, morreu às 16h45 deste sábado (19) no Hospital São Lucas, em Copacabana, Zona Sul do Rio. Segundo a assessoria de imprensa do hospital, Dercy foi internada na madrugada deste sábado, e com um quadro de pneumonia comunitária grave, que evoluiu para uma sepse pulmonar e insuficiência respiratória.

Dercy Gonçaves era famosa por suas entrevistas irreverentes, pelo seu bom humor e pelo uso constante de palavras de baixo calão. É a maior expoente do teatro de improviso no Brasil.

“Ninguém é mais feliz”

Em entrevista em abril do ano passado, ela disse que ninguém era mais feliz do que ela. Sem um pingo de nostalgia, disse que o passado não interessava. “O ontem acabou. Não tenho mágoa de nada e nem saudade de nada. Vivo o hoje. Tenho alegria de viver, adoro a vida”.

Vaidosa, a comediante disse que já havia feito mais de dez plásticas. “Não quero ficar feia. Também já fui criança ou você pensa que fui velha a vida inteira?”, brincou. Depois de se curar de um câncer e sobreviver a uma tuberculose, ela se achava uma vencedora. “Tudo que passou, acabou. Eu sobrevivi.”

Dercy fugiu de casa aos 14 anos e dizia não se arrepender. Argumentava que aprendeu tudo o que sabe da melhor forma possível: vivendo. “Meti a cara, casei. Vivi 20 anos casada, com dignidade. Nada de ruim me aconteceu. Não me envergonho de nada.”

Mesmo depois de ter viajado por vários países, Dercy disse que não tinha lugar mais bonito que o Brasil. “Conheço mais da metade do mundo. Não tem país de mais calma e dignidade que o Brasil. Isso aqui é lindo”. Ela não se dizia religiosa, mas acreditava na natureza. “Não acredito em santo nenhum. Minha religião é a natureza. Deus é um apelido. Ele pra mim não existe. O que existe é a natureza. Deus é fantasma, mas a natureza é a verdade.”

 

 foto sem crédito. texto rpc.com

BRASILEIRO ESTÁ LENDO MAIS POESIA? por felipe lindoso

A recente divulgação da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”[1][i], em sua segunda edição (a primeira pesquisa do gênero foi feita em 2000) provocou uma surpresa – agradável, para todos os que comentaram o assunto: foi anunciado que a poesia estava como o quinto gênero de livros mais lidos no Brasil, com 28% dos leitores declarando sua preferência[1][ii].

Entre os autores brasileiros mais admirados pelos leitores apareciam Vinícius de Moraes (5º. lugar), Cecília Meireles (6º. lugar), Carlos Drummond de Andrade (7º. lugar), Mário Quintana (11º. lugar) e Manuel Bandeira (14º. lugar) e Castro Alves (21º. Lugar). Todos poetas do cânone. Em outros gêneros o primeiro lugar é uma surpresa: o autor mais admirado é Monteiro Lobato. Seria ótimo se não fosse o fato de Lobato não ter livros nas livrarias quando da pesquisa – a lembrança veio do programa de televisão e das histórias em quadrinho. Depois de Lobato seguem Paulo Coelho, Jorge Amado e Machado de Assis; depois dos três poetas já citados aparecem Érico Veríssimo, José de Alencar e o quadrinista, Maurício de Souza. O resto da lista pode ser visto no site do Instituto Prolivro, que organizou e financiou a pesquisa.

         É verdade que não aparecem poetas contemporâneos e vivos, mas sem dúvida os citados estão entre os melhores da poesia brasileira moderna e o condoreiro fica sempre bem.

A surpresa se manifestava também pelo fato da “subida” da poesia na preferência dos leitores ter sido significativa, não tanto na posição, mas sim na quantidade de leitores que declaravam essa preferência em relação à pesquisa do ano 2000. Naquela pesquisa, respondendo à pergunta se tinham “consultado, folheado ou lido nos últimos 12 meses”, a poesia aparecia em 6º. Lugar, com 19% dos entrevistados masculinos e 26% dos femininos respondendo afirmativamente.

         Quando perguntados (em 2000) sobre suas preferências por gênero de livro (resposta única, naquela ocasião), a poesia aparecia em 5º. lugar no geral, com um total de 4% dos leitores fazendo essa afirmação (1% dos leitores homens e 5% dos leitores mulheres).

 

Em 2008, a quantidade de entrevistados que declarou ter lido pelo menos um livro nos últimos três meses anteriores à pesquisa foi de 95,6 milhões de pessoas (55%) da população estudada. Mas, importante ressaltar, 47,4 milhões desses leitores são estudantes que  lêem livros indicados pelas escolas, incluindo aí os didáticos. Portanto, os leitores que declararam sua preferência por poesia como gênero (não exclusivo) seriam 26,323 milhões, dos quais a metade estudantes.

         Destaque-se também, para referência, que o universo da pesquisa de 2008 incluía toda a população acima de cinco anos de idade, independentemente do nível de escolaridade.

No ano 2000 a situação era diferente.

Em primeiro lugar o universo estudado era diferente: foi pesquisada a população acima de 14 anos de idade e com pelo menos três anos de escolarização.

Nesse universo a preferência por gêneros de leitura era assim:

 

 

 

Para matizar um pouco mais o quadro vejamos como os leitores do ano 2008 se dividiam por sexo.

 

A pesquisa do ano 2000 não tem uma tabela idêntica (e nunca esqueçamos que trabalha com universos diferentes). Entretanto apresenta outra tabela também interessante para ser vista. É a tabela formada pelas respostas dadas pelos entrevistados a partir da pergunta sobre se nos últimos doze meses tinham tido contato, folheado ou lido algum livro dos gêneros, com a possibilidade de respostas múltiplas. Ou seja, uma pergunta um pouco mais parecida com a feita em 2008 na primeira tabela.

 

Note-se que alguns gêneros, ainda que declarados como preferidos, não foram mencionados entre aqueles lidos ou consultados nos doze meses anteriores (técnicos, fisiologia, jurídico, saúde e sexo/eróticos)[1][iii].

         Antes de examinarmos o conjunto dos dados para tentar entender que leitores brasileiros gostam de poesia é importante acrescentar mais duas tabelas, referentes à pesquisa de 2008. Mas desta vez só transcrevemos as informações sobre os leitores de poesia.

Esses resultados estão tabulados por escolaridade, idade, nível de renda familiar e classe social[1][iv]

 

 

 

 

 

O que nos dizem esses números?

         A pesquisa de 2008 mostra que os leitores que declararam sua preferência pelo gênero poesia são em sua maioria menores de 14 anos e estudantes (48,3% do total). Pelo perfil de renda e socioeconômico é provável que a maioria deles esteja na escola pública. Esses leitores estavam fora da pesquisa de 2000.

         A tabela disponível que permite especular um pouco sobre as duas pesquisas é a que distribui os leitores de poesia por gênero (masculino e feminino). Em 2000 a proporção era de 19% dos leitores masculinos e 26% dos leitores femininos. Já em 2008 essa proporção era de 22% para os homens e 32% para as mulheres.

         No perfil demográfico da amostra de 2008 a população com menos de 14 anos de idade representa 20% do total. Entretanto, é nessa população que se concentram 48,3% dos leitores de poesia.

         O que os números nos mostram, portanto, é que a escola é a grande fonte dos leitores do gênero. Mais importante ainda é que esses jovens declaram que a poesia é seu gênero preferido de leitura.

         A partir desses números, entretanto, não se sustenta a idéia de que “os brasileiros” em geral estão lendo mais poesia. É impossível comparar com precisão os dados das pesquisas de 2000 e 2008 a respeito, mas as poucas porcentagens que vimos mostram que as diferenças para a população acima de 14 anos não são tão significativas quanto poderiam parecer.

         A persistência da preferência pela poesia na idade adulta desses jovens que estão com menos de 14 anos hoje é algo que só poderemos ver quando fizermos, no futuro, novas pesquisas do gênero Retratos da Leitura no Brasil.

         Até lá os poetas têm que trabalhar – muito além de escrever as poesias – para que essa preferência não esmoreça. Ao contrário, que se consolide. Para isso é importante que os poetas sigam o velho chamado de Castro Alves e se dirijam ao encontro de seus jovens leitores nas escolas, nas feiras de livros, em festivais de poesia.

         O animador é que existe essa receptividade para poesia. E lembrem-se que há trinta ou quarenta anos atrás os poetas lidos pelos adolescentes se mediam pelo padrão J. G. de Araújo Jorge. Acho que já melhorou, e pode melhorar ainda mais.

         É preciso ter esperança de que não apenas os índices de leitura de poesia cresçam, mas que aumentem os índices de leitura em geral, para todos os gêneros, em todas as idades e situações sócio-econômicas.

         Se os livros estiverem mais disponíveis para todos e se o nível educacional da população continuar melhorando é certo que isso acontecerá, e isso define nossa equação para que o Brasil seja um país de leitores:

         Mais livros disponíveis = mais bibliotecas + mais educação de qualidade = mais leitores.

 


[1][i] RETRATOS DA LEITURA NO BRASIL ver em http://www.prolivro.org.br

[1][ii] Resposta estimulada ao questionário da pesquisa em que o leitor podia escolher mais de uma opção.

[1][iii] Essas incongruências mostram uma das características de pesquisas de opinião. Os entrevistados respondem a todas as perguntas, mas quando as respostas puxam pela memória – no caso, lembranças de um ano – nem sempre elas correspondem entre si.

[1][iv] O critério de “classe social” é o da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa – ABEP

 

 

Felipe Lindoso é editor, antropólogo, e estudioso do mercado editorial e das políticas públicas para o livro no Brasil. Tem vários artigos publicados sobre o tema e o livro “O Brasil pode ser um pais de leitores?”. Trabalhou em instituições da área cultural e do livro, e hoje dá assessoria sobre a questão. Criou e desenvolve um projeto que, apoiado pela Lei Rouanet, instala Bancas-Bibliotecas por todo o país.

 

 

QUANDO MORRE UM POETA por pedro salgueiro

“Eu sou eu, íntegro e inviolável dentro de mim mesmo. (…) O que está no limiar e afogado no abismo.”

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/0 oito)

 

Quando morre um poeta o mundo fica lastimavelmente mais pobre.

Terrivelmente mais triste. Inevitavelmente mais feio.

Às 11h15min de um sábado, dia 31 de maio de 2008, um imenso dragão, disfarçado de motocicleta, atacou impiedosamente o velho poeta, de 85 anos, José Alcides Pinto, em plena Rua General Sampaio, bem em frente ao palacete conhecido como Vila do Barão, de ladinho da Praça da Bandeira, nos arredores da Faculdade de Direito do Ceará.

O rapaz da banca de revista próxima disse que ele havia passado cedo com alguns envelopes na mão, “dessa vez não vinha com a moça loura”, completou; no envelope iam os dois livros recém publicados, mas ainda não lançados, que despacharia para alguns amigos do Rio e São Paulo. Voltava devagarinho (talvez ainda não recuperado do cobreiro que o maltratara meses atrás), esperou debaixo de uma árvore o trânsito acalmar, apressou o passo e… Parou no meio da pista ainda molhada pela garoa de fins de maio, quando finalmente avistou o pássaro enorme em vôo rasante, ainda deu pra notar o vermelho dos olhos da fera, as teias de aranhas das asas e o barro seco das garras, que era com certeza lá das coroas do rio Acaraú.

O poeta saiu quebrado numa ambulância, o motoqueiro foi manquitolando atrás; a moto esquecida na sarjeta. 40 minutos depois sua filha passa tranqüilamente na mesma calçada; o rapaz da banca grita para avisar do acidente, ela apressa o passo fugindo do enxerimento. Quem deve ter lhe contado a triste notícia?

No dia 02 de junho a alma, também magérrima, do nosso saudoso poeta maldito foi, na frente, esperar pelo corpo que já ia em cortejo rumo a São Francisco do Estreito, Santana do Acaraú, Fazenda “Terras do Dragão”, comboiado por Sérgio Braga, Lustosa da Costa, Audifax, José Teles, Carlos Augusto Viana e outros amigos do peito. Deu tempo ainda de pôr os últimos números em sua lápide, que havia sido meticulosamente preparada por ele anos antes. Não havia tido coragem de adivinhar o último algarismo. Reencontrava enfim seu pai, sua terra, sua paz…

 

SOB O SIGNO DA POLÊMICA

Na juventude freqüentava a casa de Otacílio de Azevedo, convivendo com os filhos do pintor e poeta, Rubens, Miguel Ângelo (Nirez) e Rafael Sânzio; já tinha um jeito despojado e falaz.

Sua alcunha entre os estudantes era “Alma de Gato”, talvez pela magreza exagerada.

Sua ida para o Rio, sua volta à terrinha, sua saída do emprego na Universidade Federal do Ceará, seu uso de um traje franciscano, sua adesão ao nascente concretismo, seus amores e desamores, enfim, seu comportamento de uma vida inteira foi marcado pela polêmica.

Enquanto os outros grandes poetas de sua geração vestiram o paletó e(ou) a camisa da oficialidade e(ou) o da reclusão, ele arriscou a jaqueta surrada da marginalidade e da maldição; enquanto uns cavavam prêmios e condecorações e outros se fechavam mais e mais em seus casulos, ele corria calçadas, mexendo com as moças, instigando jovens poetas sujos e cabeludos, espalhando boatos difamatórios sobre si mesmo. Criou uma imagem tão forte e polêmica sobre ele próprio, que às vezes ele mesmo esquecia quem realmente era: um sujeito frágil e religioso, bom pai, que ia à missa toda semana e rezava antes de dormir. E tinha uma das gargalhadas mais sinceras que conheci.

Sempre estava cercado (e ajudado) por uma leva de boas almas, mas também por uma corja de parasitas, cujas benesses (e elogios) ele sabia manipular com maestria; todos admiradores de seus poemas e de seu comportamento arrojado. Sobre os de boa-fé quase sempre despejava injúrias, não raro alguns de seus melhores amigos e colaboradores saíram magoados de seu convívio; em cima dos oportunistas jogava iscas, elogios falsos e prefácios não escritos. Sempre esteve acima do bem e, principalmente, do mal; todos debitavam suas ações polêmicas ao seu gênio literário. Os ofendidos perdoavam sempre; os canalhas engordavam à sombra de suas asas negras.

Estava acima do bem e do mal: tanto fazia engendrar um poema genial (e pendurá-lo no arame do varal) como caluniar um amigo que tanto o ajudara. Todos o perdoavam com um rizinho de escárnio.

Estava acima do bem e do mal.

 

UNS ALTOS MUITO ALTOS, UNS BAIXOS…

Ao amigo que me dizia que ele tinha altos e baixos, eu retrucava: “— E qual o poeta que não os têm!?”. Depois lembrava que para cada poema fraco dedicado a Lady Diana ou Chico Mendes (ou algumas rimas escatológicas) ele tinha no mínimo uma dúzia de versos endiabrados.

Precisaríamos de alguém com muito talento, coragem e ética para fazer um inventário de sua vida e obra; alguém com isenção estética e moral para mapear suas forças e fraquezas.

Talvez com a devida distância do corpo físico.

 

A CAVERNA DO DRAGÃO

Na minha “Crônica da Gentilândia”, do livro Fortaleza Voadora, digo: “…e o velho dragão Alcides Pinto sobrevoando as copas das árvores, com suas asas negras — quando ele se cansa de resmungar sozinho em sua caverna e sai para assustar os últimos bêbados da Gentilândia”.

À sua casa corriam as mais diversas faunas literárias; escritores de várias idades, ideologias e estéticas, principalmente os mais jovens, que ficavam embevecidos com as atitudes despojadas, estridentes e loquazes do velho poeta.

Sua residência mais famosa foi a da Rua Rodrigues Junior, casa grande, sempre muito freqüentada; ainda hoje muitos contas histórias e causos nem sempre verídicos, muitas fantasias e traquinagens ficaram no anedotário boêmio-intelectual dessa nossa loirinha desmiolada pelo sol, tão pródiga em tipos populares e bodes YoYôs, literários ou não.

Já o conheci na Vila Cordeiro, na Av. Tristão Gonçalves, bem próximo à vilinha em que ainda hoje mora minha mãe. Habitava uma casa conjugada, numa pobreza franciscana mas digna, com sua querida filha Jamaica. Também conheci seu filho Antonin Artaud, um rapaz magro como o pai, porém de temperamento calmo, com uma timidez oposta à tagarelice do seu progenitor.

Convivi por um bom tempo com o poeta (era meados dos anos 1990), através dele e de suas muitas visitas fiquei sabendo dos subterrâneos de nossa literatura, tão pródiga em fofocas e vaidades. Ali tive um curso intensivo de como transitar, e sair sem arranhões (embora eu não tenha tirado boas notas em algumas matérias) da famigerada guerrilha literárias e suas disputas por farelos e migalhas.

Um dia me pediu para que organizasse seus contos, que estavam dispersos em um livro, Editor de Insônias (1965), e uma miscelânea, Reflexões, terror, sobrenatural (1984), além de alguns inéditos datilografados em folhar amarelecidas. Em 1997, o Dr. Martins Filho publica essa edição de seus contos completos, Editor de Insônias e outros contos, pela Coleção Alagadiço Novo.

Depois soube que ele andou criticando umas palavras que inseri como “Nota do Organizador”, ou sugerindo que eu estava querendo aparecer às suas custas. Nunca passei recibo nem tomei satisfação, apenas me afastei um pouco de seu convívio. Depois disso ele sempre repetia para mim ou para alguns amigos: “Se não fosse você, o livro não teria saído”, no que eu sempre respondia: “Pois não é, poeta. Quem sabe se um dia a gente não tira uma 2ª edição, não é!?”. No seu último livro tem um poema dedicado a mim (quem sabe ainda resquício de uma consciência pesada) e a Nilto Maciel, a quem levei, depois da volta definitiva deste ao Ceará, à sua casa e anunciei alto da porta:

“— Poeta, tô aqui com o maior contista do Ceará!”, no que ele perguntou lá de dentro: “— Quem, poeta, o Airton Monte?”, acabando de vestir as calças; caímos na gargalhada.

A última vez que o vi ele estava saindo da sua vilinha com a Jamaica, cumprimentei-o e ele me perguntou onde era o “Buraco da Gia”, pois estava querendo arranjar uma empregada e lhe deram um endereço, falei que era na Princesa Isabel, vizinho à minha casa, e fomos caminhando devagar. Quando chegou perto do beco ele parou, receoso, e disse que só entraria lá se eu fosse com eles, depois puxou uma pequena faca de mesa, dessas de cortar bife, e disse que estava preparado (mas que era bom eu entrar com ele, disse assombrado). Olhei para Jamaica, que também estava rindo, e disse que não tivesse receio que ali só morava gente de bem, e me despedi alegando ainda ir pegar minha filhinha no colégio.

Não tive coragem de ir vê-lo em seu velório na Academia Cearense de Letras. Queria ficar com a lembrança dele vivo, alegre e brincalhão.

E parece que estou vendo aquele sujeito magro (“tão magro que parecia estar sempre de perfil”, como bem disse, em seu A Guerra do Fim do Mundo, Vargas Llosa), com sua gargalhada sempre sincera, dizendo — e apontando pra si mesmo — para os muitos anjinhos (ou demoninhos, tanto faz) que lhe cercam em algazarra:

“— Agora quem manda aqui é esse poeta ‘Viadão Pós-Moderno’!”

 

“Eu sou aquele que come as flores do aniversário.”

(José Alcides Pinto, 10/09/1923 — 03/06/2008)

 

 

 

Pedro Salgueiro tem dois filhos, dez irmãos e derrubou algumas árvores para fazer diversos livros. Faz uns continhos que, de tão curtos, estão quase desaparecendo. Tem uma mãe que faz o melhor capote da cidade. Sente muita saudade de um pai que era sapateiro de chinelos e idéias.

O RESTO DA MINHA VIDA poema de tonicato miranda

para os amigos do Varandaes

Triste… é assim

meus olhos choram

cinza… o jasmim

refletindo a cor do céu

cinzas no jardim e em mim

O que fazer agora

com o resto da minha vida…

ouvir Bill Evans, por horas

a tristeza escorrendo, se deixando levar

rio abaixo, tempo afora

O piano deixa cair um plim

notas musicais em seqüência

lentamente caem também de mim

são folhas da memória descendo

calmamente do rio ao mar, e ao fim

O que fazer amanhã

com o resto da minha vida

passear no parque envolto em lã

sentar num banco, mirar passarinhos

ver na pedra Bashô e o salto da sua rã

O piano convida e eu vim

emprestar o ouvido à emoção

a lágrima pulando do olhar assim

mais do que rio, ela é o barco da alma

reflexo musical, um acorde: meu plim

O que fazer na próxima semana

com o resto da minha vida

papéis antigos, fumaça na cabana

neste inverno rigoroso revejo amigos

um bom vinho pode me levar a Havana

Triste… é assim

meus olhos choram

cinza… o jasmim

refletindo a cor do céu

cinzas no jardim e em mim

Aos Senhores Burgueses e seus Capachos Políticos – poema de ubirajara passos

Quando a revolução bater à vossa porta
Não  lamentareis pela expropriação
Dos vossos caros jatinhos e mansões.

Quando a revolução interromper vossas orgias,
Regadas a vinho cujo preço
De alguns milhares de reais é o máximo requinte,
Não sofrereis com o clamor dos “peões”
Pelo fuzilamento imediato
De vossos corpos vestidos do glamour
Que o trabalho exaustivo e acachapante
Da manada humana propicia.

Quando a insurreição incendiar-nos
E a liberdade iluminar a Terra,
Quando perderdes a “celebridade”
E a adoração abestalhada e inciente
Das mentes hipnotizadas
Pela vossa oca e envolvente “mídia”,
Não vos desesperareis, tanto,
Na falta do escravo assalariado,
Com a extinção de vossa vadiagem chique.

Vós sofrereis, sim,
Por não poder
Pisotear mais as cabeças de bilhões,
Nem gozar, histéricos, babando,
Com a tortura e o aniquilamento
Quotidiano das nossas vidas simples,
Que desgraçais, tornando ocas e infelizes,
Com o sádico tacão de vosso mando!

ZULEIKA DOS REIS COMENTA EM “É E NÃO ESTÁ”

COMENTÁRIO:

Zuleika dos Reis

Na lucidez dos lúcidos, fielmente loucos de si feito você (assim o poema atesta), nenhum ciclo é exato, pode nunca.Viver é mesmo muito perigoso, ah, mestre Rosa, mestre Rosa! E todo louco-lúcido/lúcido- louco, Lúcifer de si-mesmo, jamais desiste da Esperança da Epifania, jamais, muito menos ainda em Mundo-Falso-Eterno-Presente-Este-Estrangeiro de Si- do Outro.
Abraço forte
Zuleika.

 

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MANOEL DE ANDRADE COMENTA EM “O LIVREIRO DE CABUL”

COMENTÁRIO:

Manoel de Andrade

É bem isso aí, caro Salomão. A industria editorial, como a fonográfica, no mundo inteiro, está promovendo a cultura unicamente pelos “valores” de mercado. “Campeõs de venda” nas listas de grandes jornais e revistas??? “Formadores de opinião literária”??? Esta encomenda faz parte do marketing mafioso das editoras. É preciso resistir. O que é difícil…, numa cultura cada vez mais marcada pela alienação e pela aparência. Nesse shopping de ilusões que é o mundo, só se consome o que está na vitrine e, infeslizmente, a grife está marcando também a literatura. É imprescíndível ter espírito crítico quando se entra nesse bazar sedutor da pós-modernidade, onde estão expostas as “novas tendências”, a decantada “conceitualidade” e todo esse irreverente varejo intelectual. Mas tudo isso faz parte do jogo globalizado. Temos que resistir até a últimas trincheiras. Sobre este livro, tenho-o visto por aí, quase todo dia, por que também sou um rato a procura de um bom pedaço de queijo. Agora…, como não uso meu tempo com a leitura de best-sellers, nada posso comentar.

 

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CARLO PAOLUCCI COMENTA em “A PASSEATA DOS CEM MIL”

Comentário:
1968, o ano q nunca terminará

O mundo de 68 começa a revidar às bestialidades patrocinadas pela direita-profissional na guerra fria e aos genocídios de Che Guevara e do povo vietnamita, e dá inicio a luta urbana através da esquerda-com-raiva, q deflagra sua cratera-lunar(expressão belga: desprezo à perfídia norte-canalha-americana e seu (i)mundo hollywoodiano). Inicia-se pelo movimento universitário em Nanterre-França, onde, liderados p Bendit-Le-Rouge, invade a Europa e toma universidades/ruas do mundo (pasmem, até em Bercley-Califórnia). Ameaçados pelos terroristas da c.i.a. de intervenção da OTAN, a direita-profissional promove a carnificina na cidade-luz. A mídia pró-ocidental omite esses fatos, assim como o fez nas barbáries argelina(63) &amp; vietnamita(67/75). Lá, HOCHIMIN inicia a expulsão da canalha americana da Indochina, iniciada em Quang Tri(73). Essa canalha já vem ofertando ao mundo inúmeros crimes de lesa-humanidade, a saber: A)extermínio da nação indígena. B)Ku Klus
Klan. C)450 mil calcinados em Hiroxima e Nagazaki. D)genocídio de 3,5 milhões de heróis vietnamitas. E)invasões de Granada, Panamá, Belize. F)gasolina p vidas no Iraque. G)a hipocrisia ilegal em Guantánamo. Na década de 60, Kennedy, o gãngster-mor, ñ conseguindo invadir Cuba(varridos na Baía dos Porcos-61) fabrica a crise dos mísseis cubanos p camuflar os 75 mísseis atômicos apontados p Moscou instalados na Turquia. Depõe governos democraticamente eleitos no Cone Sul e implanta a tortura através de sua infame Aliança p o Progresso. Mas Dan Mitrione, um Torquemada da Operação Condor(travestido de monitor de tráfego) é heroicamente justiçado pelos Montoneros argentinos. Após o golpe de 64 os terroristas da c.i.a. se reapresentam e instruem a direita-profissional tupiniquim com técnicas de tortura &amp; assassinato. Com a Passeata dos 100 Mil(Rio) se iniciam os anos de chumbo através do AI-5 e Operação Obam, e o BRAZIL se transforma no país-vomitório dos
norte-canalha-americanos. A ditadura tupiniquim acrescenta o exílio aos q reagem c ações armadas ou políticas. Quem ñ é jogado vivo ao mar é jogado semimorto em Argel/Paris/Bruxelas. A Igreja, cúmplice do golpe na 1ª hora, sai às ruas após freis Beto/Tito, Herzog, Manoel Fiel Filho, Stuart Angel. Hoje, com as piores lembranças supostamente pacificadas, eu posso dizer EU LUTEI! Mas por que torturadores ñ podem dizer EU TORTUREI? Simples, o (i)mundo hollywoodiano ñ os quer perto dos holofotes, pois lhes reserva o lugar de sua eterna desonra, os porões. O mundo de 68 jamais terminará p os bufões da direita-profissional!!!!

 

 

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VALORES na VIDA em SOCIEDADE – por vicente martins

 

Os valores não surgem na vida em sociedade como um trovão no céu. São construídos na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações culturais, nos movimentos e organizações locais. Conhecê-los, compreendê-los e praticá-los é uma questão fundamental da sociedade atual.

 

Perguntei à minha filha Mariana, de 11 anos, o que pensava da seguinte situação: um pai, vendo um filho passar fome, resolve roubar alimentos em um supermercado no bairro em que mora. Ele agiu certo ou errado ao cometer esse delito? Ela me respondeu: “Acho que ele agiu certo porque ao ver o filho com fome não suportou a cena de miséria em sua casa e não teve saída senão roubar. Por outro lado, também agiu errado por ter roubado o supermercado; afinal, roubar é uma ação feia”.

O exemplo acima pode nos dar uma idéia da complexidade que é viver em sociedade. A luta por um mundo melhor, por uma civilização mais humana, mais democrática e mais justa tem sido, historicamente, construída pelo homem. 

Atualmente, os governos, as organizações não-governamentais e os cidadãos do mundo lutam pela eqüidade. O que é a eqüidade? É uma forma de praticar a Justiça, isto é, o respeito à igualdade de direito de cada um, que independe do que está escrito nos códigos jurídicos. No século 21, a sociedade civil e política quer que todos pratiquem a eqüidade como expressão de um sentimento do que se considera justo, que seja expressa em forma de virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos dos homens.

Por isso, na Filosofia, a ética é o ramo de estudos que cuida particularmente de investigar os princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano. Ela reflete especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.

Podemos observar que as ações humanas, em face de sentimentos, estímulos sociais ou de necessidades íntimas, requerem, para a boa convivência na vida social, bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade. Uma pessoa, mesmo com as mais contundentes e sensíveis justificativas, em situação de privação material ou de fome, comete um crime ao roubar para alimentar-se. Roubar é um ato que fere a moral e os bons costumes.

Entre as diferentes ambiências humanas, a escola tem sido, historicamente, a instituição escolhida pelo Estado e pela família, como o melhor lugar para o ensino-aprendizagem dos valores, de modo a cumprir (em se tratando de educação para a vida em sociedade) a finalidade do pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho. Sem a prática de valores, não podemos nem falar em cidadania.

Sendo assim, caberá às instituições de ensino a missão de ensinar valores no âmbito do desenvolvimento moral dos educandos. Através da seleção de conteúdos e metodologias que favoreçam temas transversais (Justiça, Solidariedade, Ética etc.), presentes em todas as matérias do currículo escolar, os valores podem ser conhecidos e aplicados na vida diária.

 

 

Decálogo dos valores

Confira abaixo dez conceitos que podem ser desenvolvidos para melhorar a nossa vida em sociedade:

Autonomia: Refere-se ao valor que reconhece o direito de um indivíduo tomar decisões livremente, ter sua liberdade, independência moral ou intelectual. É a capacidade apresentada pela vontade humana de se autodeterminar segundo uma norma moral por ela mesma estabelecida, livre de qualquer fator estranho ou externo.

Capacidade de convivência: Valor que desenvolve a capacidade de viver em comunidade, na escola, na família, nas igrejas, nos parques, enfim, em todos os lugares onde se concentram pessoas, de modo a garantir uma coexistência interpessoal harmoniosa.

Diálogo: Valor que reconhece na conversa um momento da interação entre dois ou mais indivíduos, em busca de um acordo.

Dignidade da pessoa humana: Valor absoluto que cada ser humano tem. A pessoa é fim, não meio. A pessoa tem valor, não preço.

Igualdade de direitos: Valor inspirado no princípio segundo o qual todos os homens são submetidos à lei e gozam dos mesmos direitos e obrigações.

Justiça: É o valor mais forte. Manifesta-se quando a pessoa é capaz de perceber ou avaliar aquilo que é direito, que é justo. É o princípio moral em nome do qual o direito deve ser respeitado.

Participação social: Valor que se desenvolve à medida que nos tornamos parte da vida em sociedade e leva-nos a compartilhar com os demais membros da comunidade conflitos, aflições e aspirações comuns.

Respeito mútuo: Valor que leva uma pessoa a tratar outra com grande atenção, profunda deferência, consideração e reverência. A reação da outra será no mesmo nível: o respeito mútuo.

Solidariedade: Valor que se manifesta no compromisso pelo qual as pessoas se obrigam umas às outras e cada uma delas a todas, particularmente, diante dos pobres, dos desprotegidos, dos que sofrem, dos injustiçados, com o intuito de confortar, consolar e oferecer ajuda.

Tolerância: Valor que se manifesta na tendência a admitir, nos outros, maneiras de pensar, de agir e de sentir diferentes ou mesmo diametralmente opostas às nossas.

 

Vicente Martins, professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA), Sobral, CE.

SEM CÍRCULO VICIOSO – por darlan cunha

O jardim, o quintal e a garagem onde se deposita

quinquilharias, em tudo tu entras

e sais de lá deixando o rastro inerente

a quem prepara uma artimanha ou uma surpresa no meio

da noite, e eu me arguo querendo saber mais

sobre o ofício de viver, em vão

calço botas e visto luvas, me asseguro de beber e comer algo

antes de pôr os pés onde as mãos não vão, de pôr as mãos

onde primeiro deveria ir a prudência, mas

em se tratando de ti, de ti que ilude

a ilusão, melhor assim esteja eu: abrindo-me devagar

como um olho ou uma ‘munheca’ de samambaia,

porque o sol volta e re-volta há noites e pesadelos, há

sonhos novos e envelhecidos.

COLÔNIA CECÍLIA a TERRA PROMETIDA – por deborah o’lins de barros

No século XIX gostava-se de novidades…

D. Pedro II adorava fotografia,

nos trouxe o telephone

e sua esposa, Teresa Cristina,

estudou até arqueologia.

 

E tamanha foi a curiosidade,

que quando um italiano propôs uma “experiência”,

vejam só que ironia:

o Brasil, na época da monarquia,

foi Terra Prometida até para a Anarquia!

O CARTUNISTA “PAIXÃO” (gazeta do povo) ABRE EXPOSIÇÃO de CARTUNS, HOJE!

Cartunista Ademir Paixão apresenta mostra de cartuns políticos no Beto Batata

 

O cartunista Ademir Paixão abre a exposição Paixão e Cidadania nesta quinta-feira, dia 17, às 20 horas no Espaço Cultural Beto Batata (R. Professor Brandão, 678 – Alto da XV). A mostra individual apresenta uma espécie de retrospectiva de carreira com 50 cartuns originais – recentes e mais antigos – escolhidos por Paixão como parte de sua obra mais significativa nos últimos anos. Na galeria de personagens desenhados estão muitos políticos – nacionais e internacionais – que servem como fonte de inspiração para Paixão mostrar com bom humor as notícias que tiram a gente do sério.

Dono de um traço singular, Paixão é cartunista titular do jornal Gazeta do Povo onde diariamente busca com seus desenhos revelar de forma sucinta o que está acontecendo no Brasil e no mundo. Apesar do olhar crítico, seus pincéis oferecem sempre um viés curioso e suave da notícia escolhida por ele. Nessa exposição o presidente Lula aparece em um momento como “O Aviador”, personagem de cinema estrelado por Leonardo Di Caprio. Em outro o presidente Bush comemora o afastamento de Fidel Castro do governo cubano. Em outro desenho, mais recente, Paixão é implacável e mostra o banqueiro Daniel Dantas entrando numa prisão com porta giratória do tipo:entra-e-sai.

Assim, nessa exposição o público vai poder contemplar um pouco desse universo de Paixão que trata com bom humor e cidadania a vida contemporânea brasileira e internacional. O melhor de tudo é que contemplando os desenhos da mostra o espectador, quando menos espera, está dando risada de personagens que normalmente dá vontade de chorar.

 

Serviço:

Exposição Paixão e Cidadania – com 50 obras d o cartunista Ademir Paixão. Neste quinta-feira, dia 17, às 20 horas no Espaço Cultural Beto Batata (R. Professor Brandão, 678). Tel: 3262-0840. Horário de visitação: diariamente, do meio-dia à meia-noite. Entrada franca. A exposição fica em cartaz até o dia 31 de agosto.

 

Mais informações e entrevistas:

RB – Escritório de Comunicação

Rodrigo Browne (41) 9145-7027

 

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DELIRIUM GINICOLÓGICUS poema de marilda confortim

 

Um estado febril me abate

O corpo dolorido, reclama

Passo os dias em meu catre

Presa em minha pobre cama.

 

É gripe, dizem os otimistas.

Tome um chá que logo passa.

Uma aspirina, talvez um uisqui.

Guaco, limão, mel e cachaça.

 

Talvez seja a menopausa…

Faço exames, reviro tudo.

“Não querida, não é essa a causa!”

Me diz o doutor voz de veludo.

 

Então é aids, estou morrendo?

Eu mato aquele desgraçado!

Deus me livre! Eu me arrependo!

Juro! Nunca mais cometo pecado.

 

E o médico ri, às gargalhadas

“Veja lá com quem estás saindo”

Fico vermelha, encabulada,

Pego a roupa e vou vestindo.

 

“Fique tranqüila. Deu negativo

E tire essa roupa de uma vez”

Doutor, não faça isso comigo…

Eu volto daqui a um mês.

 

Examina o termômetro: 36.

Puxo assunto:  será que chove?

“Respire fundo e diga 33”

Doutor, pode ser sessenta e nove?

 

Nem ri da piada e apalpa meus seios.

Pensa que sou de ferro, o rapaz.

“Tem um carocinho, aqui no meio”

Só um? Procure bem, que tem mais.

 

Ele não dá bola pra minha fantasia

e metódico inicia o papanicolau.

Sádico, pega o bico de pato e enfia

aquele especulo frio no canal vaginal.

 

Com se eu fosse uma melancia 

recolhe amostras do meu interior.

Pensa que sou um vegetal, fria…

É um insensível, esse doutor !

 

“Pronto. Pode se vestir, Dona Maria.

Está tudo bem, é só uma gripe.

Traga-me o resultado da mamografia

e trate de controlar seu apetite“

 

Filho da ….  que alívio doutor!

Eu estava tão preocupada.

Pensava que fosse um tumor.

Já me sentia desenganada.

 

“Não brinque com coisas sérias. 

Doença não é assunto pra poesia.

Tome um analgésico, tire férias

E cuidado com a hipocondria”.

 

Cabeça de mulher é complicada

É um trem barulhento, confuso

Tem que manter bem lubrificadas

As idéias, porcas e parafusos.

ENSAIO PARA UM POEMA de philomena gebran

Empilhei minhas palavras

Arrumei todas as frases

Pondo todos os pingos nos is.

Cuidei de todas as vírgulas

Dei especial atenção

As crases e aos fraseados

Enfileirei reticências

Coloquei exclamações

Ordenei os pontos e vírgulas

O til os acentos graves

Não esqueci o circunflexo

Nem tão pouco o agudo

Compus bem a concordância

Exclui a interrogação

Pra que ninguém duvidasse

Do cuidado que tomei

No preparo do discurso.

E tem mais

Palavras não repetidas

Pronomes verbos certinhos

Sem desprezar advérbios

Artigos e tudo o mais

Adjetivos escassos

Pra não cansar o leitor.

Apenas o necessário

Cabível dentro do texto

E pronto!

Tudo bem arrumadinho

Pra começar a escrever

Posso escolher com cuidado

Está tudo a minha frente.

Mas…. o que é mesmo

Que eu tinha a dizer?

MARÍTIMO poema de manoel de andrade

 

 

 

Quando a vida te exilou num cais de pedra,                                                                       

teus vinte anos desabaram numa tarde do mundo…

e tu ficaste…

ficaste tão somente com o sal das tuas lágrimas,

preso à magia dos teus barcos de papel

e ao feitiço sonoro dos grandes caramujos

que te embalaram a infância com a sinfonia íntima dos mares.

Tuas lágrimas nunca molharam a tua face

mas transformaram tua alma numa laguna imensa.

Teu olhar… translúcido de pérola e verde

restou… sem a tatuagem dos oceanos.

Teu barco,

atrelado à fantasia,

soçobrou nas brechas das calçadas.

Teu canto, sem proa e sem rumo,

silenciou nos abismos do teu ser.

 

E tu… ficaste

impotente…

atado ao mistério do destino.

Sim, tu ficaste

tu… o grande marítimo

e teu coração afogou-se na vazante

e a vida te partiu em dois pedaços

e tiveste que sobreviver entre as lembranças indeléveis do teu sonho

e a súbita consciência de um dever a ser cumprido.

 

E tu… ficaste

na penumbra

na desfigurada penumbra das margens

sem a passagem do Gibraltar

sem cruzar o Helesponto

sem o farol na noite,  sem a terra à vista

sem a visão do iceberg solitário.

Tu ficaste sem a aurora  e  o crepúsculo perfeitos

sem o vôo do  albatroz e a dança das baleias

sem as monções, sem os alísios

sem o marulho e a calmaria.                                                                                                   

Tu herdaste apenas  uma onda solitária

apagando sempre os teus passos na areia

                                                                                                                                                          

Sim… tu ficaste!

algemado à pesada âncora do sonho                                                                    

escamoteando os teus suspiros

e a tua inconfessável angústia.

De todos os navios,

de todas as tripulações,

restou apenas

a tua efígie de grumete

como um clandestino escondido no sacrário do teu ser,

a banhar-se agora nas marés e no orvalho da poesia…

refrigério

ressurreição

alaúde soluçante.

 

Já não ousas sonhar com a fascinante travessia dos fiordes

com a paisagem insular da Polinésia

com a visão das ilhas distantes

quais manchas cinzentas reco