Stultorum infinitus est numerus (*) – por walmor marcellino

Ao assumir, em 2003, era dever do governo Luiz Inácio Lula da Silva fazer um acerto de contas com o governo anterior. Isso não foi e não é um assunto pessoal entre Fernando-Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva; é assunto de governo, questão de Estado. Porém, as leniências e acordos de compadre vão mostrando que a política da ameaça-de-rabo-exposto faz parte dos interesses e das relações sociais de classe nobre; mesmo quando ferrenhos opositores se defrontam. E o PT não mexeria no rabo do PSDB para não ter o rabo em jogo.

Algum genioso patife, senador, deputado ou juiz contesta que esse dever de esmiuçar as contas e os procedimentos na transmissão de cargo deva ser cumprido?

Pois bem, passada a oportunidade da diferenciação essencial de programa e mandato, o que o governo petista deveria ter feito era reunir em um dossiê as informações passadas ‑ a que acabou sendo mais tarde levado por acurácia ideológica e defesa política. Só que esse dossiê legítimo e legal enquanto registro privativo do poder não poderia ser exposto ou até esgrimido para ameaçar e/ou chantagear os adversários.

Eis que então a desídia funcional de alguém da Casa Civil se somou ao despeito e mal-querença de outrem já exonerado e deserdado dos poderes burocráticos. De confidências a arquiteturas, convidaram outro transgressor para fazer um escândalo com os dados ainda em sigilo; só que esse tertius era um senador da República que transformou a “contravenção” ou “crime” que se seguiu à inconfidência funcional, em um fato político na forma de divulgação. A razão do interdito legal da divulgação se consumou com a deliberada ação criminosa do senador, que sequer tinha levado o caso à direção do Senado Federal a que pertence. E nem sequer o veículo “transmissor da ilegalidade” foi objeto de denúncia.

Como não entendo a moralidade própria dessa elite política, fico na minha: divulgar fatos oficiais protegidos por segredo é transgressão funcional e crime civil; acoitá-los como depositário-intermediário é cumplicidade e crime; e divulgá-los é o desiderato do mesmo crime da subtração e quebra de sigilo. Afinal, de que é que os palhaços estão ainda falando? Ou saltimbanco sou eu que não compreendo a política?

 (*) Versículo 15, capítulo I, do Eclesiastes: “Os perversos dificilmente se corrigem e o número dos insensatos é infinito”.)

 

foto sem crédito. ilustração do site.

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