Arquivos Diários: 4 julho, 2008

PALAVRAS poema de cleto de assis

 

Para Saramar, a aprendiz de poeta (que mentira!), em luta constante com as palavras

 

 

 

Palavras são lepidópteros

a riscar desenhos invisíveis frente a meus olhos.

Bruxuleantes, gatafunhantes, coisa de criança,

que é pra ninguém entender na primeira leitura.

E como fiz uma boa rede de caçar borboletas

às vezes eu as capturo, uma a uma,

e colo em um pedaço de papel

onde elas também se divertem

apesar de aprisionadas a normas gramaticais.

Oxítonas, paroxítonas, estas sempre mais abundantes

em buliçoso panapaná.

Quando em quando, aparecem também as proparoxítonas

genuinamente lepidópteras,

que, raras e vaidosas, adoram ser chamadas de esdrúxulas.

Metafóricas e cândidas, sabem ser trêfegas,

embora, ultimamente, tenham aparecido trêmulas

depois da notícia de que poderão perder seus acentos

por mero capricho da Academia.

Mas, uma vez juntas, esquecem suas diferenças

de raça, cor, sexo, religião, ideologias, nacionalidade, morfologia,

sintaxe e fonética

e brincam de criar alegorias que mexem com minhas sensações.

 

 

Cleto de Assis

Curitiba

10.janeiro.2008

NOSSO MEDO poema de erly welton

Não usa sapatos novos

Nem assoma na janela

O uivo de sete paredes

Nosso medo

 

Ruas mal-iluminadas

Pedra assentada no ombro

O que espreita na lida

O nosso medo

 

Signo de nenhuma estrela

Crucificada no erro

Em vestes corruptíveis

Nosso medo

 

Fala pelos cotovelos

Entre ossos e lama e aço

Cerra olhos e punhos

Nosso medo

 

Não tem a morte no rosto

Não oferece a outra face

Ferro e fogo do verso

O nosso medo

 

Cálice de vinho e veneno

Inverno de mitos sangrentos

Desperta mil vezes em cena

O nosso medo

 

É uma montanha de pedra

Ciência e deuses no Olimpo

Rosário de cal e areia

Nosso medo

 

Punhado de sal na têmpora

O dia que ainda não veio

Barco na névoa espessa

Nosso medo

 

Cova rasa do julgamento

A linha de qual horizonte

Minúncias de cal e areia

Nosso medo

 

São farpas e ferpas na unha

Estrada longa e estreita

Reza pra todos os santos

O nosso medo

 

Ferrugem no pó e nos pelos

O sangue de metal e fungos

A certeza de não sabermos

O nosso medo

 

Em doze motes de cera

Ferro de muros e cercas

Arame em torno do punho

O nosso medo

 

AS INCRÍVEIS PINTURAS DE ISABEL GUERRA – pela editoria

as-pinturas-de-isabelguerra-impressionante1

MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (I) por alberto moby

Qual a relação entre a expressão “música popular bra­sileira” e a sigla MPB? A resposta pode parecer ób­via, mas não é. Alguns cantores e compositores bra­sileiros, durante muitos anos, particularmente os anos 1960-1980, quando se deu o auge da MPB, embora can­tas­sem canções que pudessem tran­qüi­la­men­te ser clas­sificadas como parte de uma “música popular brasileira”, nunca foram classificados como cantores da MPB, usando-se para as canções que faziam ou can­tavam outras classificações, tais como “música brega”, “sambão jóia”, “música romântica”, entre ou­tras. Essa diferenciação ainda permanece em nossos dias, em­bo­ra eu tenha a impressão de que o significado implícito de MPB tenha se ampliado, se tornado mais elástico e mais condescendente com estilos e ritmos musicais que antes jamais seriam classificados como tal. Mas, ainda assim, continua havendo uma clara distinção entre o que seria a “verdadeira MPB” e outras músicas, tais como a “sertaneja”, a “axé music” ou “samba-reggae”, o “funk” e outros estilos para os quais seria injusto dizer que não são “música popular brasileira”. E então, como saímos dessa sinuca de bico? Convido vocês a seguirem comigo alguns passos que, imagino, nos levarão à saída deste labirinto.

A expressão “música popular”, no Brasil, antes do surgimento da sigla MPB tinha o mesmo sentido que lhe é atribuído pelo maestro e crítico musical Júlio Medaglia, para quem, em linhas gerais, poderíamos dividir em três tipos preponderantes as diferentes espécies de manifestação musical popular no Ocidente. A primeira, que se convencionou chamar de folclórica, liga-se mais diretamente a determinadas situações sociológicas, históricas e geográficas, congregando em sua estrutura uma série de elementos básicos que a tornam característica de uma época, uma região e até mesmo de uma maneira de viver. Por isso, suas formas de expressão seriam mais estáticas e menos passíveis de evolução e influências exteriores[1].

Os outros dois tipos são de origem urbana, sendo qualificados simplesmente como música popular e possuindo as seguintes características que os identificam e diferenciam: “o primeiro tem suas raízes na própria imaginação popular e é aproveitado e divulgado pela rádio, pela TV, pelo filme e pela gravação; o outro é a espécie de música popular que é fruto da própria indústria da telecomunicação”[2] .

Segundo o maestro, o chorinho é uma música de origem, expressão e posse popular. O chamado “iê-iê-iê”[3] seria um estilo musical que existia em função de um número limitado de elementos que o praticavam e que alcançaram popularidade imediata através dos recursos modernos da telecomunicação.

No Brasil, até os anos 60, independentemente dos variados ritmos musicais, do segmento social de onde provinham os compositores e intérpretes e do público, havia consenso em que “música popular” era a expressão para caracterizar sua situação de oposição à “música clássica” ou “erudita”. A partir dos anos 60, porém, tal expressão passa a ser substituída, em algumas situações bastante definidas, pela sigla MPB. Daí em diante, essa sigla passa a designar não mais toda e qualquer música produzida e/ou consumida pelas classes populares no Brasil. É com o surgimento da bossa nova e dos grandes festivais de música veiculados pela televisão que a expressão MPB aparece no mercado musical brasileiro. O curioso é que esta sigla e toda a produção poético-musical que ela passa a designar é uma construção política e não significa mais, como pode parecer, toda e qualquer música popular brasileira, sendo um subproduto – ou melhor, para que o termo não soe pejorativo –, uma subseção dela.

Resulta praticamente impossível precisar o momento exato em que nasce a sigla MPB. Algumas pistas, no entanto, apontam para a rapidez das transformações na “linha evolutiva” da música popular brasileira (conforme expressão de Caetano Veloso) a partir do final dos anos 50, particularmente através da bossa nova e, num momento imediatamente posterior, via festivais. Ao que tudo indica, seu surgimento teve, como objetivo inicial, combater a tentativa da indústria cultural de fazer com que o iê-iê-iê fosse vendido também como sendo música popular “de raiz”. A sigla se cristalizaria no nome de um conjunto vocal – o MPB-4 – e se consolidaria durante os chamados “anos duros” do regime militar.

Mas é preciso, porém, identificar onde está a diferença entre a MPB e a música popular em geral. A esse respeito Marilena Chaui, em ensaio de 1986, afirmava:

se, no início deste século, os compositores mais conhecidos eram “lá do morro”, no final do século, grande parte da música popular é composta e ouvida por universitários. Em contrapartida, a chamada música sertaneja (designação mais freqüente para a música caipira e para a moda de viola sob a influência de novos ritmos urbanos) corresponderia muito mais à idéia do “popular” como “subalterno”. Por outro lado, as composições mais admiradas pela população “popular” são aquelas que costumam receber a qualificação pejorativa de kitsch[4].

Embora Chaui siga implicitamente a linha de raciocínio da Escola de Frankfurt, ao referir-se à oposição entre um “público universitário” e a “população ‘popular’”, sua hesitação, ao considerar a música “universitária” como parte da música popular brasileira mostra a dificuldade de conceituar “música popular” na época de sua reprodutibilidade técnica. Essa dificuldade, que certamente não é exclusiva da história da música no Brasil, comporta uma especificidade: o surgimento da MPB.

Ao longo dos anos 70, a sigla MPB, já relativamente consolidada no meio artístico e nos mass media, não designava mais toda e qualquer música produzida e/ou consumida pelas classes populares no Brasil, quer a “autêntica” música popular (rural e/ou “folclórica”), quer a música “de consumo”. Aqui, nem sempre os compositores e ouvintes da chamada MPB pertencem às ditas “camadas subalternas”, sendo mais comumente localizados na classe média. Além do mais, não é raro que cantores e compositores da MPB se utilizem do instrumental teórico musical para grafar e reproduzir suas canções, o que dificultaria a conceituação de “música popular” para a MPB em oposição a “música erudita” também por esses critérios.

Na verdade, a sigla MPB está vinculada, sem dúvida, à resistência da faixa de compositores e cantores que, herdeira da chamada “canção de protesto”, de origem universitária, tinha como proposta combater o regime militar. Para esses compositores e cantores, segundo Gilberto Vasconcellos, “o importante é saber como pronunciar; daí a necessidade do olho na fresta da MPB. Contudo – continua – não basta somente retina. Além de depositar certa confiança na argúcia do ouvido musical, a metáfora da fresta contém uma aporia: restam ainda os percalços objetivos da decodificação”[5].

Eis aí a MPB que, com o fim da ditadura militar, começa a desaparecer enquanto sigla e enquanto movimento artístico-político, cedendo lugar cada vez mais definitivo ao rock and roll em português, ao “pagode”, à canção “brega”, à “new-sertaneja” e, mais recentemente, à chamada axé music e ao funk.

Assim, parece claro que, ao utilizar as expressões “música popular brasileira” e “MPB” não se pode estar falando do mesmo objeto, quando estiverem referidas ao regime militar. Acre-dito ser essencial marcar essa peculiaridade da expressão MPB: não se trata da música popular urbana brasileira como um todo (apesar do aparente significado da sigla), mas da expressão de um grupo de compositores, cantores e um público de classe média universitária, centrado no eixo Rio-São Paulo prioritariamente, aos quais corresponde também uma identidade política anti-ditadura militar.

PS: Este post é uma versão adaptada das p. 142-146 do meu livro Sinal Fechado: a música popular sob censura (1937-45/1969-78, publicado este ano, em segunda edição, Editora Apicuri, do Rio de Janeiro (www.apicuri.com.br).

NOTAS:

[1] Cf. MEDAGLIA, Júlio. “Balanço da bossa nova”. In: CAMPOS, Augusto de (org.). Balanço da bossa e outras bossas. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 1986, p. 67.

[2] Idem, p. 67-68.

[3] Medaglia escrevia em 1967 e referia-se à adaptação que a juventude ligada ao movimento musical conhecido como “Jovem Guarda” faria, para a língua portuguesa, do constante “refrão” yeah yeah yeah presente em várias das canções do rock and roll anglo-norte-americano do começo da década de 1960, cujo exemplar mais famoso era She loves you, dos Beatles (de John Lennon e Paul McCartney).

[4] CHAUI, Marilena de Souza. Conformismo e resistência: aspectos da cultura popular no Brasil. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1989, p. 10.

[5] VASCONCELLOS, Gilberto. Música popular: de olho na fresta. Rio de Janeiro: Graal. 1977, p. 72.

 

pintura urbana. sem crédito. ilustração do site.

 

FINALMENTE, ENFURECI! por waldo luís viana

Acordei de madrugada, neste outono de terremoto, a pensar sobre o que aconteceu realmente em meu país. Todo mundo já disse tudo. A imprensa golpista, a imprensa esquerdista que não se diz golpista (aliás que caricatura grotesca o esquerdismo a favor!) – e fiquei matutando: o que nos aconteceu?
        Os políticos continuam os mesmos, safados, entre uísques, interesses e amantes, procurando os seus cadinhos, como moscas em volta das fezes do poder. Uma Pátria dirigida por pútridos, em sucessão de escândalos que não dá pra registrar, empreiteiros, bicheiros, lobistas, vigaristas, assessores, falsos empreendedores com escritório de fachada, amantes em busca de carteiras gordas e uma gravidez premiada, traficantes pequenos e grandes, a cocaína e a prostituição à solta, a pornografia invadindo os olhos dos nossos filhos pela internet e a corrupção vitoriosa, tão inexcedível em seu poder de persuasão, que os corruptos levam os filhos de carro blindado para a escola e seus netos serão inevitavelmente chacinados por alguém, desesperado, que o gordo, careca, de terno cinza e gravata vermelha, com certeza no passado prejudicou…
        O que aconteceu neste país que nossos vizinhos querem tomar nossas riquezas e os índios e ONGs estrangeiras nossos territórios e minerais? Onde generais, sempre ciosos do respeito à hierarquia, acalmam as suas mulheres nos travesseiros noturnos, dizendo que com certeza virá o próximo aumento para a tropa? E olha que mulher de militar é fogo, hein, tem coragem…
        O Brasil, como dizia o velho general Golbery é um barril de pólvora. E dizia mais: entre sístoles e diástoles vamos desdobrando nosso vil destino, enquanto as maiorias não cobram o seu quinhão. Esperemos, pois, que a Rocinha desça um dia e tome São Conrado, onde reside o Sr. César Maia e outros que tais. Vai ser uma novela da Rede Globo. Ainda bem que o Projac fica mais longe…
        Cá estou eu, diante do computador que ainda me resta, pensando em meu país, sem dormir, como o velho seringueiro de Mário de Andrade. De que adianta pensar que minha filha está longe e se atravessar minha cidade de madrugada possa levar uma bala perdida? E o festival em torno da morte da menina Isabella? A mãe verdadeira já está sendo envolvida por duplas caipiras e talvez se torne artista do próximo Big Brother…
        Tudo nessa terra é banalização. Vivemos a morte bem morrida da ética. Eu também tenho os meus pecados, como cruel mortal, mas diante do que vejo, das carnificinas, das bocas de fumo, dos caveirões e fuzis AR-15, sou reles e ingênuo inocente.

 
 

 

        Escritor e poeta com tantos livros a publicar, outros no estrangeiro porque minha gente não me deseja ler, porque não apanhei da ditadura (tinha quinze anos quando ela explodiu) e não posso nem requerer indenização…
        O que aconteceu, meu Deus, a meu país, em que as mulheres precisam tirar a roupa para subir na vida e encontrar um figurão para escorar o divórcio. Em que as prostitutas são seres dos mais nobres porque fazem distribuição de renda: tiram dos homens mais velhos o dinheiro que revertem para os filhos mais novos, que não pediram para nascer…
        E nossos aposentados, roubados a cada dia em seus proventos de vento, não podem recorrer a ninguém, já sem forças. Os que lhes esmagam serão velhos um dia também, mas vivem da esperança de repatriar o dinheiro de paraísos fiscais, onde os brasileiros detêm 150 bilhões de dólares e não receiam qualquer guerra e, no íntimo, fazem previsão meteorológica de que jamais haverá um tsunami no Caribe…
        Nossos juros, os mais altos do planeta, para conter o egoísmo da inflação produzido por nossas elites. Nenhuma idéia nova. Só a mesma ortodoxia econômica da Escola de Chicago. Como se o sol nascesse a cada dia por causa do Itaú, do Bradesco e do Banco de Boston. Essas instituições não valem a beleza de um carvalho, nem o pescoço de uma vaca pendido no pasto…
        O Brasil da dengue, dos seios siliconados, da febre amarela, do carnaval do abadá e do rouba-cá, das geladeiras novas do bolsa-família para poupar energia, enquanto entregamos Itaipu para o falsificado irmão Paraguai, da solidariedade latino-americana que é sempre contra nós, dos norte-americanos que ainda pensam que comemos bananas e temos cobras pelas ruas passando entre tiros de fuzil, pobre Brasil, em que os poetas não estão nas praças públicas, mas trombadinhas e mulheres grávidas morrem nas portas dos hospitais públicos, aqueles da saúde quase perfeita.
        Afinal temos um PAC de placas, discursos e pedras fundamentais, pastores bandidos que devem ao fisco e não podem ser investigados porque têm bancadas parlamentares, um congresso fascista, movido a facções profissionais como queria Mussolini, e  uma falsa esquerda, sempre ética antes de chegar ao poder e coberta de dossiês e socialismo de mercado quando encontra com ele. Pobre país em que temos quase 50 ministros, como na extinta União Soviética e 22 mil cargos de confiança, como em qualquer ditadura africana.
        Onde isso tudo vai acabar? Em nada. Na minha cama, Para onde irei como sempre, assustado, à espera do efeito do calmante…
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* Waldo Luís Viana é escritor e economista.
Rio de Janeiro, 24 de abril de 2008.

“O INTERNO” escultura gigante de ron mueck.