Arquivos Diários: 5 julho, 2008

Indiana Jones: o plagiato de 1,3 bilhões de dólares – por frederico fullgraf

Indy, o arqueólogo rufião, está de volta: coroa, poeira sobre as pálpebras, ainda arranca suspiros da platéia feminina e surfa virtuosamente na maionese de Steven Spielberg. Mas sua cepa continua obscura para a maioria dos seus fãs. Spielberg, seu alter-ego, se finge de morto, nunca revela suas fontes, e quase trinta anos após sua estréia nas telas, o público ignora que o Indiana Jones da vida real se chamava Hiram Bingham. Nascido no Havaí em 1875, e morto em Washington DC em 1956, foi político nos EUA e “descobridor” das ruínas de Machu Picchu, em julho de 1911.

 

Chapéu de aba murcha ao vento, sorriso debochado, Bingham emprestou ao personagem de Harrison Ford sua estampa de “canastrão, mas bom moço”. Contrariando o zelo arqueológico, em Machu Picchu violou 130 sepulcros incas, metendo a pá onde estava a História. Sob o pretexto de “análise científica”, o aventureiro levou para os EUA 5 mil (as autoridades peruanas falam em 40 mil) peças arqueológicas de inestimável valor, com a promessa de “empréstimo” por doze meses. Quebrou o contrato: entregou o butim ao Museu Yale Peabody, em Boston, e há 97 anos o Peru luta pela devolução de seu patrimônio histórico. 

 

Dublê de arqueólogo e agente secreto, truculento, Indy tem uma faible por mistérios, câmaras ocultas, rituais demoníacos: em “Os caçadores da arca perdida” (1981), disputa a tábua mítica dos Dez Mandamentos; em “O templo da morte” (1984) corre atrás de um gigantesco diamante; na “Última cruzada” (1989) tenta apossar-se daquele cálice com o sangue do Cristo crucificado; o Santo Gral. E dê-lhe “nazistas” e “comunistas”: como “vingador do Ocidente”, o herói não recusa um flerte com o FBI e a CIA. Inventado por Spielberg e George Lucas, durante uma reunião no Havaí de Bingham, Indiana Jones é fenômeno da transição da Guerra Fria para o “império” unipolar. Sustentada por plágios descarados, em vinte e cinco anos a trilogia amealhou a alucinante bilheteria mundial de 1,3 bilhões de dólares – provavelmente a maior bilheteria do Cinema de todos os tempos,  sutil engendramento da lei-da-oferta-e-da-procura e chocante termômetro da irrefreável imbecilização da humanidade.

 

Spielberg não tem tempo de ler livros. Mal lê suas orelhas e freqüenta catacumbas onde, colher de pau na mão, mexe o caldeirão de sua indigesta gororoba, trocando fatos por fábulas. A bola da vez é a Amazônia. Quer dizer, mais ou menos: História e Geografia reais são incômodas. Indiana Jones e a Caveira de Cristal é mais uma versão de samba of the foolish gringo, com figurações, sotaques e referências ao México, quando o enredo “mostra” o Peru (ou seria o Acre, no Brasil?). Lá o herói tenta reencontrar um ex-colega desaparecido. Escreve-se o ano de 1957, auge das disputas com a URSS, e não é que um comando da KGB, travestido de marines e encabeçado por uma “vidente”, primeiro invade uma base de testes nucleares no Nevada, e depois reaparece na “selva amazônica” (filmada no Havaí…), atrás do mesmo obscuro objeto do desejo: o crânio de cristal caçado por Indy?

 

Tais crânios de cristal são tão verdadeiros como o “santo Gral”, o “triângulo das Bermudas” ou os “diários de Hitler”: tudo fake, mas funciona brilhantemente como realimento para esotéricos delirantes e a comunidade dos teóricos da conspiração. Uma dúzia destas recriações do crânio humano, esculpidas em cristal de quartzo, encontra-se espalhada pelo mundo, do British Museum ao museu de história natural Smithsonian, em Washington. Nenhum deles é original, todos são réplicas. Sua verdadeira origem, incaica ou asteca, continua mistério, provavelmente simbolizam rituais de sepultamento e de “passagem”. Já na Internet e em livros esotéricos circula a versão de que os crânios têm 100 mil anos de idade, emanam super-poderes (demoníacos) e que foram deixados na Terra por ETs – “trip” na qual embarcou Spielberg, que, mais “modesto”, afirma serem relíquias de Atlântida, o mitológico continente “desaparecido”.

 

O novo Indiana Jones é um coquetel de Lost City of the Incas, livro de Hiram publicado em 1948, e de uma farsa urdida nos anos 70, que culmina em 1984 com o assassinato de seu autor, na saída de um restaurante do Leblon: A Crônica de Akakor (Bertram, 1977) de Karl Brugger, então correspondente da rede de Rádio e TV Pública da Alemanha, no Rio de Janeiro. Contudo, crônica making of de um filme que não está na tela, o compromisso da presente é surpreender o leitor, aqui convidado, como fazia o bruxo Machado, a acompanhar o autor escada abaixo, porque a caverna escura de Indiana Jones (não citada por Spielberg nem por Brugger) é bem real e escabrosa.

 

Eis então, em que insuspeitável geografia e companhia  se fecha o círculo do delírio.de Spielberg: Heinrich Himmler, fundador da SS, a tropa de elite nazista. Desde a tenra juventude o ideólogo tinha um notável pendão para o esoterismo, numa versão impregnada de patriotismo racista e antijudaísmo. Acreditava, por exemplo, numa „civilização de Atlântida“, que supunha ter existido na orla da Groenlândia, cujos descendentes presumiu, transmutados, no Tibet e na América do Sul.

 

Na origem do esoterismo de Himmler estão “ariósofos” sombrios, como Karl Maria Wiligut, aliás  Weisthor (austríaco, como de resto aquele mal-sucedido pintor de paredes e futuro “Führer”, Adolf Hitler). Willigut foge de um manicômio, o que não o impede de alcançar a patente de chefe de Brigada da SS, protegido por Himmler, e de atuar como mentor do jovem mitologista Otto Rahn, PhD na saga de Parsifal e nos mitos do Santo Gral. Em 1929 Rahn peregrina à fortaleza medieval de Montségur, na França, convencido de lá encontrar o maldito cálice (que presume ser um monólito). Não o encontra, mas publica uma pesquisa avassaladora sobre a Cruzada contra o Gral (fonte na qual bebe, sem citá-la, outro profissional do plagiato: Dan Brown, autor d´O código da Vinci).

 

Reciclando o Gral como mistério pagão para a SS, Himmler inaugura uma série de expedições para os recônditos do planeta. A primeira delas sob a liderança do zoólogo e montanhista Ernst Schäfer, em 1934 ao Tibet, onde o supremo sacerdote da SS imagina sobreviventes da “raça ariana” e Schäfer se curva respeitosamente à aura do jovem Dalai Lama. Indício, rude, dessa teoria „pan-ariana“, seria a cruz gamada ou suástica (termo de raíz indo-germânica), que desde tempos imemoriais é símbolo da boa sorte dos tibetanos.  Outra expedição teria como destino a Amazônia.

 

Transcorrida mais da metade do filme, a perseguição atinge a apoteose em Akator, uma “cidade perdida”, em cuja grafia Spielberg trocou apenas o ”k” da Akakor de Brugger pelo “t” de seu plágio. Alimentada por uma bizarra teoria da conspiração, a inspirada Crônica de Akakor de Brugger conta que certa “elite nazista”, acompanhada de dois mil soldados e (para delírio da tribo dos UFOlogistas) uma versão primitiva de discos-voadores, teria se refugiado numa “cidade perdida”, também conhecida como “o castelo do Gral dos Incas”, na Amazônia.

 

Já na versão de Spielberg não cabiam os “nazistas” de Brugger porque, segundo a crônica, uma guerra entre os nativos e os primeiros teria virtualmente exterminado os povos de Akakor.  Em seu lugar entraram os soviéticos, tão órfãos de materialismo dialético, quando catatônicos os gringos, face  à  horripilância da “cidade perdida”; úmida morada de múmias, morcegos, escorpiões e caranguejeiras. E então a seqüência final: aqui o auto-referido Spielberg faz desabar a montanha do “Gral andino” e de seu interior decolar (“ET is back”!) um gigantesco disco-voador – mais do que suspeita semelhança com “Eram os deuses astronautas”, do lunático Von Däniken, e com a crônica Babylõniaká (História da Caldéia) de Bérose, sacerdote de Bel-Marduk (330 a.C.), vagamente referida por Platão, segundo a qual o homem primitivo foi visitado pelos akpalos, extraterrestres pisciformes, que lhes transferiram o conhecimento para o despertar da Humanidade nas terras do atual Iraque.

 

Infelizmente, para a teoria da conspiração, o informante de Brugger foi um tal de “Tatunca Nara”, que em 1972 se apresenta como filho de um chefe indígena e de mãe alemã, “refugiada nazista”. Mas Tatunca Nara”, que fala alemão sem sotaque, estava mal parado na foto: no final dos anos 80 a BKA, Polícia Federal alemã, reconhece o cidadão Günther Hauck com bronzeado de urucum, na roupagem do falso índio – alemão, nascido em 1941 em Coburg, na Baviera, procurado por dívidas de pensão alimentícia e por isso escondido, desde a década dos anos 60, em Barcelos, no Amazonas. Mediante declaração cartorial, emitida em 2003, Tatunca Nara”, que já se naturalizou brasileiro, assume sua condição de “doente mental” – foi a segunda morte de Karl Brugger.

 

Impassível, a inconfidência esotérica insiste que a “expedição amazônica nazista” teria ocorrido entre 1942 e 1943, e que em 1984 Brugger foi liquidado como “queima de arquivo”. Mais aceitável é a hipótese de que Brugger tenha sofrido um assalto banal: levou um tiro quando esticou a mão ao bolso traseiro da calça. Certamente queria apanhar a carteira de dinheiro, mas o pivete fez outra leitura, pensou que seria uma arma – gesto fatal, mas não improvável, para quem já vivia há mais de dez anos no Rio de Janeiro. E desde então “os nazistas” povoam a “cidade perdida dos Incas”, esculpida no subsolo da Amazônia, à qual Spielberg se mudou, sem pagar aluguel.

 

 

foto sem crédito. ilustração do site.

 

Saudades de “NÓS” – poema de sergio bitencourt

Quando a palavra “eu”,

Prevalece em auto-enaltecimento,

(eu faço,eu viro,eu mexo…)

O sentimento “NÓS”,

Desprevalece na mesma proporção.

 

Então,

Ao invés deste iludido enaltecimento,

Prevalece a sensação de sofrimento,

E quando ainda assim,

Não presta-se à conscientização,

A própria dor perde função.

 

E as “vítimas” deste pseudo-amor,

Auto-produzidas em dor,

Não assumem a própria vitimação,

Desintegradas,

 

Partem-se, Excluem-se, Separam-se. 

 

REMORSO PÓSTUMO poema de charles baudelaire

Quando fores dormir, ó bela tenebrosa,
Em teu negro e marmóreo mausoléu, e não
Tiveres por alcova e refúgio senão
Uma cova deserta e uma tumba chuvosa;

Quando a pedra, a oprimir tua carne medrosa
E teus flancos sensuais de lânguida exaustão,
Impedir de querer e arfar teu coração,
E teus pés de correr por trilha aventurosa,

O túmulo, no qual em sonho me abandono
– Porque o túmulo sempre há de entender o poeta -,
nessas noites sem fim em que nos foge o sono,

Dir-te-á: “De que valeu, cortesã indiscreta,
Ao pé dos mortos ignorar o seu lamento?”
– E o verme te roerá como um remorso lento.

INFÂNCIA! por cybele meyer

“Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!”
Casimiro de Abreu

INFÂNCIA – Palavra de uma sonoridade infinita que embriaga os ouvidos como se poesia fosse. Sempre que é pronunciada provoca um sorriso maroto nos lábios de quem a ouve.Quem não guarda, no baú de suas recordações, doces lembranças da infância? Quando falamos em infância, sempre temos uma história deliciosa para contar. Mesmo as maiores travessuras, aquelas que chegaram a tirar a nossa mãe do sério, hoje se tornaram pérolas que guardamos em nosso coração como jóias raras. Bons tempos aqueles em que brincávamos com bolinhas de gude na rua de terra. Ao final do dia voltávamos para casa com os bolsos pesados, cheios de bolinhas de vidro, fruto das partidas ganhas e na mão, para poder contemplar a todo o momento, aquela bolinha especial, tão “cobiçada”, com três listras coloridas, prêmio obtido pelo melhor desempenho na partida. E pular amarelinha! Era divertido desde o momento de procurar um pedaço de tijolo para desenhá-la na calçada. Precisava ter muita noção espacial para não deixar uma casa maior que a outra. Era sempre a mais velha da turma quem desenhava. E a pontaria! Era preciso muita concentração para mirar e acertar na casa da vez. Equilíbrio então!! Ficar num pé só, abaixar-se para pegar a pedrinha e voltar sem colocar o outro pé no chão, era uma missão e tanto. Lembro-me com muitas saudades do “jogo da ordem” em que eu atirava a bola contra a parede e ia recitando: ordem, sem lugar, sem rir, sem ……(falar), um dos pés, o outro, uma das mãos, ….. e ia fazendo os gestos pedidos pela música no tempo da bola bater na parede e voltar. Se a bola caísse no chão, eu perdia a vez (é obvio). Nos dias de chuva brincávamos de cama de gato, jogo da velha, três marias….Passávamos o dia todo entretidos com estas brincadeiras. Riamos muito, corríamos até perder o fôlego, pulávamos, cantávamos, tudo ao som estridente das vozes infantis.

Quando a tarde chegava, tomava banho e me sentava diante da TV para assistir desenho animado. Era o Pica-pau fazendo das suas, o Plic e o Ploc enganando o Chuvisco, o Tom e o Jerry que nunca se entendiam. Depois dos desenhos vinham os episódios dos Três Patetas, como eu ria das palhaçadas deles. Também havia o seriado do Zorro. Este ativava muito a minha imaginação. Eu amarrava um lençol no pescoço e colocava a meia preta do meu pai sobre os olhos, deixando uma fresta para poder enxergar e pulava de cima do sofá para o chão empunhando numa das mãos como se fosse uma espada, a colher de pau da minha mãe. Era uma delícia! Depois jantava e às nove horas da noite, quando começava a tocar na TV a música dos cobertores Parahyba “Tá na hora de dormir, não espere a mamãe mandar…” eu tinha que dar boa noite rapidinho e ir para o meu quarto dormir, caso contrário no dia seguinte ficava sem assistir televisão. Eu sabia que daquele horário em diante era só programa de adulto, então, como eu ainda era criança, não podia assistir.

É uma pena que as crianças de hoje não possam usufruir dessas delícias, primeiro em razão do progresso, brincar na rua nem pensar, o trânsito é imenso e a falta de segurança é outro fator crucial. Temos também que concordar que hoje os tempos são outro, a tecnologia é outra, os tipos de brinquedos são outros, só que isto está acabando com o espírito infantil.

No tempo citado acima não havia variedade de brinquedos mas o que havia em grande quantidade era a imaginação, a fantasia, a criatividade. Hoje, o consumismo tomou o lugar do brincar. A criança quer muito um determinado brinquedo, logo após ganhá-lo já começa a pedir outro. Quando a criança vai à casa de um amiguinho para brincar e leva um brinquedo novo – o brinquedo que a criança carrega consigo é sempre “o novo” pois o que ele ganhou ontem “é velho” e não tem mais importância – ela o fica segurando todo o tempo. Não brinca com ele, não o empresta, apenas o exibe.

Com relação às meninas, fazem uma verdadeira coleção de bonecas da moda. É uma boneca com roupa de praia, outra com a roupa que vai esquiar, a com roupa para ir ao supermercado, a com roupa de festa e assim vai. E mesmo tendo todas estas bonecas, ela ainda não se sente satisfeita, pois sua amiguinha tem uma com um modelo que ela ainda não tem, então ela vai pedir este outro modelo, incessantemente, até conseguir.

Agora me responda, elas brincam com as bonecas? Não! Elas apenas as exibem e comentam que vão ganhar mais esta ou aquela. Este tipo de comportamento, roubou o prazer do brincar, do faz de conta. O que existe agora é o adquirir, o competir, a satisfação relâmpago do TER. A criança de hoje não conversa mais com seus bichinhos, não sabe brincar sozinha, não se entretem com nada! Ops!!! Mas tem o videogame!

Realmente o “must” agora é o videogame. As crianças ficam sentadas no sofá, quase nem piscam, praticamente nem se lembram de fechar a boca e ficam ali, com os olhos arregalados, com a língua pendurada do lado de fora da boca, só movimentando os dois dedões, um de cada mão, é claro, vidradas nas imagens que elas têm o poder de movimentar para o lado que quiserem. Quando acaba a força do “boneco”, que é computada pela quantidade de sangue que aparece na parte inferior do vídeo, é que se lembram de olhar em volta e se dão conta de que estão no sofá da sala e que perderam ou ganharam o “game”. Passam horas ali sentadas sem perceber que estão na mesma posição o tempo todo. Quando a noite chega, só se afastam um pouco mais para o canto do sofá para dar lugar aos outros membros da família que também querem ali se sentar. Então começam as novelas das 6h, das 7h, o Jornal Nacional, a novela das 9h e elas ali assistindo a tudo isto. Ninguém se importa se elas têm 2 ou 3 ou 4 ou 5 anos. Assistem a tudo com muita atenção, afinal tudo ali é muito interessante. Tem traição, tem assalto, tem assassinato, tem desfalque, tem seqüestro, tem sexo, tem… tem…E elas ali vendo tudo isso. Continuam com os olhos arregalados e com a boca aberta, totalmente concentradas no que estão assistindo. Diante desta realidade toda não sobra lugar para a fantasia.

É uma pena que as coisas estejam caminhando desta forma. Isto irá gerar, no futuro, um vazio muito grande nessa geração infantil pois tudo de bom que levamos, pela vida afora, são as lembranças dos nossos tempos de criança. São estas lembranças que nos energizam no dia a dia. Sempre haverá uma música antiga ou um aroma de perfume que nos transportará para um tempo, não muito distante, onde éramos simplesmente crianças.

 

 

foto sem crédito. ilustração do site.