Arquivos Diários: 7 julho, 2008

RETRATO poema de manoel de andrade

Outrora

outro era o mar

o grande mar da infância…

tinhas aquela água imensa para salgar tua inocência

o horizonte incendiado pelo fogo das auroras

e as manhãs de espumas, conchas, redes e gaivotas.

Tinhas os crepúsculos de verão para extasiar tuas retinas

e no caminho rútilo dos pirilampos

tinhas a dança luminosa de um farol

e a lua flutuando no plácido espelho das águas.

 

Na voz submersa de um tempo inumerável

o mar te ensinou a mágica leitura do infinito.

No seu murmúrio ouviste o eco de todas as origens,

na linguagem das ondas e das tormentas,

na força  das correntes e nas grandes calmarias,

o mar te ensinou a sonoridade e o silêncio,

o encanto e a indomável magnitude dos movimentos.

Os pescadores te contaram de sua insondável  beleza, 

de passarelas de algas e corais

onde desfilam cores, formas e mistérios.

Te contaram histórias de tempestades e naufrágios,

de embarcações  que se perderam,

de sobreviventes, órfãos  e viúvas.

O mar te seduziu com o beijo incessante das espumas,

te acenou com o lampejo intermitente dos relâmpagos,

com o branco das velas que voltavam.

Encheu teu samburá de caramujos e mariscos,

teus lábios de sal, teus pés de areia

e tatuou em tua vida esta única saudade.

O mar te inundou com sua água imensa e horizontal

e, com suas imensuráveis distâncias, 

deixou em teus passos um caminho aberto para todos os portos.

                                                     

Teu coração enfim,

repleto como um dique,

era um relicário de rotas e promessas

e desde então em tua alma navegam todos os possíveis…

 

Desabrochavas a flor da  adolescência

quando uma onda solitária escorreu teus passos

e a vida te levou para o planalto.

Não conhecias o exílio e a penumbra das cidades

onde piratas velozes manejam o vício e a lança.

Não conhecias os tentáculos da noite

nem as paisagens sitiadas pela sedução.

Sobrevives nestes mares e ilhas inquietantes,

te consolas com a foz dos ribeirões,

recrias aqui a tua praia, o teu manguezal

e um horizonte impossível.

 

Retornas ao teu mar, de quando em quando,

mas ele não é mais o teu mar de outrora.

Recordas um tempo de saudosas navegações,

de pescadores partindo pelas madrugadas

e do regresso das canoas trazidas pelo vento.

Um tempo em que as estações se sucediam em equilíbrio

e num céu de ozônio o sol te oferecia a carícia de uma luz imaculada.

Num tempo em que o petróleo ainda não boiava sobre as águas

e os rios não despejavam nos litorais sua agonia.

As redes  chegavam pesadas e repletas

porque os radares ainda não cercavam os cardumes no teu mar.

Não conhecias o protesto das baleias suicidas,

nem os estertores dos pingüins betumizados.

Os arpões não tinham ainda sua infalível precisão,

os rios não choravam os seus mortos,

nem choravam os recifes os seus corais despedaçados.

 

No fundo e na  superfície

teu pranto assiste agora a um funeral de vítimas.

Num tempo que se curva sob o peso dos pressentimentos,

teus punhos se fecham contra uma legião de predadores.

 

Eis o teu cálice…

tua indignação, teu suplício…

teu grito… como tantos

tua lágrima… como tantas.

Impotente, num mundo que se afoga, sobrevives…

Sobrevives…

na memória e no esquecimento…

Sobrevives…

quando te hospedas na infância…

Sobrevives…

porque um estuário de esperança te sobrepõe à realidade…

Sobrevives…

porque um território de sonho te preserva do naufrágio.

 

 

                                                                                 Curitiba,outubro de 2003

 

 

Este poema consta do livro Cantares, publicado por Escrituras.
 

 

A VISITA DA MULHER ARANHA – de zuleika dos reis

As luzes dos prédios surpreendem-me a fuga e, enquanto mudo a marcha, tento calar os ecos da sua voz.  Transparência nas vidraças, o brilho no chão, nos móveis, nenhum objeto a esmo sobre a mesa-de-centro nem sobre os sofás, nos vasos as plantas sem qualquer folha seca. Pôster de Elis Regina, marinha, abstrato à Mondrian… retrato do Afonso longínquo, tão jovem! A ampulheta de metal, herança paterna. O anjo barroco, de valor inestimável. O computador de última geração. Os espelhos impecáveis. Concerto de Paganini. Repentino relógio marca 22h30min. Outro farol fechado. “Descubra o que sou pra você e se descobrir que não sou nada, não volte e nem me chame. Nunca mais”. Palavras de folhetim, de novela de TV, e ela falou a sério. Do carro ao lado, alguém pergunta pela rua tal. Respondo: Sou estrangeiro. Geraldo prepara o jantar, eu reencontro na estante, entre Verlaine e Rimbaud, um dos cadernos nos quais meu amigo ainda hoje exercita o anacronismo das anotações. Leio, ao acaso: “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” Espera, esta é frase de esboço de texto meu, na tentativa de descrever a cena na casa em Ouro Preto, a cena daquela viagem há quatro anos, aquela cena atroz. Pois é, Geraldo também andou bisbilhotando manuscritos em minha velha escrivaninha… Fico olhando a frase aqui, no seu caderno, na letra irregular, assimétrica. “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” Você, transformado em terceira pessoa do discurso. Pegajosas e quentes, as imagens escorrem pelo asfalto.

                        O vermelho do farol, do sangue, dos signos. Ela, a letra, tem por hábito deitar-se para a esquerda, para a direita, por-se de pé repentina e em todas essas posições dentro da mesma palavra. Quando o dono da letra dorme, costuma fazê-lo imóvel, por causa dos sedativos. Geometrias difíceis de decifrar, no corpo da letra, no corpo do dono da letra. Com que eficácia, amiga, nos escondemos um do outro, enquanto você afiava tanto as suas garras. Era conveniente para mim, eu sei, para você não sei porquê, nem terei coragem para descobrir.

                         Contraponto, o recanto das plantas junto à sacada, com seus brotos saindo da terra úmida. Minha rainha, nosso reinado de nadas. E sempre foi tarde, desde muito antes da Peste.

                         “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” A frase que escrevi duas semanas após nossa volta a São Paulo, os corpos exaustos do naufrágio em Ouro Preto. Quase quatro anos: a síndrome, os vai-e-vens, as fraturas expostas, por fim a grande briga por motivo tão fútil, que se nos varreu da memória. E então, seis meses de silêncio, até sua chamada ontem à noite. Penso em nossa fidelidade incorruptível, degluto minha velha frase em seu caderno, enquanto você prepara o jantar de boas-vindas. Compreendo tudo, faço-lhe justiça. Apesar disso, nesta noite, lançarei meu ultimato.

                        O pensamento e a rua correm, simultâneos. Invertebrado. Bom ser inseto, perder todo o peso de homem.  Impossível recuperar qualquer sentido nos rabiscos palavras a esmo brancos no papel, antecedendo e seguindo-se à frase surrupiada do meu esboço, atitude nem um pouco peculiar, que Geraldo tem por norma, ao contrário do que faz com a própria vida, passar suas páginas a limpo e em duas versões, pelo menos. Por que voltei aqui? Seis meses… um caso a mais na bagagem… e a magia de estar neste apartamento me invade, como antes, como sempre. Da cozinha vem um cheiro de massa folhada. Torta de maçã?

                        O inseto olha, chegou à Paulista. Brigadeiro Luis Antonio. Gazeta, Gazetão, Gazetinha, nomes de cinemas evocando fugas das aulas, USP, Bardugo, Rei das Batidas, ruas dos anos setenta.   Lembra, Geraldo, das infindáveis rodas-de-samba? Certa vez, um amigo nosso vindo de Recife, queria conhecer um bar tranqüilo. Naquela noite, houve briga de garrafadas no Bardugo e todos se escondendo por debaixo das mesas. No Rei das Batidas fazíamos barulho além da conta, os vizinhos reclamavam, a polícia prendia nossos documentos até de manhã – o País, ainda na ditadura militar, já ultrapassara o estágio mais terrível e os tempos de agora, da Peste, ninguém seria capaz de antever naquele mundo cercado de generais onde, na contramão, os corpos – salvo o seu, no meu – se amavam livremente e as mentes se alimentavam só de sonhos utópicos.  

                        Não consigo permanecer inseto, embora o queira tanto. O dia em que eu quis ser uma vaca…. Por baixo das palavras eu sempre me quis só mulher, sua fêmea. Uma vaca, pastando pacífica, compreendendo tudo com enormes olhos sem história.

                         Cena patética: nós na Avenida Rio Branco (ainda não havia Sambódromo) vendo o desfile das Escolas e discutindo Metafísica. Prateados, azuis, amarelos, vermelhos, dourados, infinitas nuances e timbres, o som da bateria avassalando o mundo e nós, discutindo Metafísica. Levaria ainda muitos anos para viver na pele a plena pungência dessas perdas, dessa Dor. “Quer um aperitivo? Tenho um Porto muito bom”.

                        Rogério e eu, e eu gozando e carpindo você, morto ali, só olhos. Se as lembranças dela parassem de verter sangue na minha cabeça… Dentro, meu ser cindido; fora, você ardendo todo pelo macho imerso em mim até o cabo, mas também ardendo por mim, encharcada desde os ossos. Entre nós três e os esconderijos em São Paulo, a serra, a chuva, as barreiras caindo. Impossível estrada, fuga impossível. Ilhados nas noites sem saída, eu o observava no sono imóvel, com medo de não vê-lo acordar na manhã seguinte.

                        Rua da Consolação. Desde aquela viagem sem ménage à trois, que outro abraço tira seu peso de mim, amiga?  Quem somos, Geraldo? Nada, senão dois blocos de incerteza politicamente desconjuntados. Nada, senão dois prisioneiros de uma ética em quase completo ostracismo. Anacrônicos, por certo; melhores, por acaso? Apenas mendigos, vivendo de esmolas recebidas das Lembranças, incapazes de pertencer, efetivamente, a quaisquer clubes que nos aceitem como sócios.  Não sei como a vi, nem como a vejo agora. Sei apenas que passamos a vida a encenar uma comédia estúpida, sem sangue nem ossos.               

                        Consolação, consolação. O cemitério lembra Lúcio, o habitante mais recente. No entanto, Afonso ainda está vivo, me disseram. Afonso, que se exilou para me proteger, que fugiu para se poupar dos meus sacrifícios, da minha piedade. “O Porto é bom mesmo”. Por Afonso talvez você se veja obrigado a continuar, mesmo à distância. Não por mim, sei que nunca por mim. Deixa-me, Dor, esvaziar este cálice, saborear até o derradeiro grão a paz por um fio do jantar quase pronto.

                        Quatro horas e a duas quadras do edifício onde moro e de onde fugi quando você partiu. Como um suicida, fugi de você para a face escura de Romeu. Romeu, instrumento de uma corda só: Lúcio. O apartamento ainda menor, como se tivesse encolhido junto com o dono.  Os sentimentos também podem encolher aos poucos até sumirem, Geraldo, ou se transformarem em mera curiosidade sobre o destino do antigo amor. Quem sabe eu ainda chegue lá, talvez tenha, com sorte, pelo menos outro tanto de vida para tal esquecimento. Quem sabe outro alguém… alguma espécie de milagre…Você passa, enrolado na toalha. Daqui a pouco sairá do quarto com aquela camisa de que eu gosto, seu perfume, sua virilidade ambígua a seduzir, quase em perfeita inocência, homens e mulheres ao alcance dos olhos, dos dedos… a seduzir principalmente a mim, a mim, a interdita, a interditada.

                        Pergunto pelos quadros, livros, discos… Tudo foi doado, Romeu não sobreviveria às lembranças visíveis. Fico olhando, mínimo. André chega em seguida e fala…fala…da viagem a Nova Iorque, dos becos sempre cheios apesar de tudo, dos amigos comuns, dos novos – “Que negro lindo, toca um sax!”- de Sinésio, e de Lúcio.Romeu foge para o quarto. O incontinente André insiste em ouvir Tom Waits enquanto esvazia a última garrafa do Chivas. Ao sairmos, me arrasta para o bar mais próximo. Continuo com a água mineral, completamente bêbado. Ele comenta: “Você está estranho…” Tenta fechar o cerco. Fujo por uma fresta, meu primeiro teste vitorioso como inseto.

                        Estaciono junto ao meio-fio, com a precisão que jamais tive e a lucidez dos que vão morrer. Luto, consigo escapar dos meus escombros.

                        Saio do carro. Diante da porta, a chave estranha a fechadura. Vida, hall inacessível e uma mesma mulher, satélite inimigo, girando há milênios. Desde quando estou parado em frente a este prédio, com a chave na mão inútil? Ou seria o contrário?

                        Daqui a dez dias começa 1988. A toalha imaculada, a baixela e os talheres de prata, as taças de cristal, o pão e o vinho, a mesa posta, castiçal, velas, flores: cenário perfeito para a comemoração das bodas. Éramos jovens dançando na praça, dançando na praça… como na canção do Chico Buarque.

                        O elevador desce em silêncio. Geraldo me leva para casa. Na despedida, lanço-lhe o ultimato, quem sabe desafio. Qual de nós dois a presa? Quem tece a teia na nossa parede branca?

 

arrumação e foto de jb vidal. Museu Oscar Niemayer. ilustração do site.

SONATA PICTÓRICA OPUS 2002 – 5 /poema de tonicato miranda

para Lineu Carneiro
29 de Março de 2002

 

dia de anjos, de silêncios e ventos levemente bailando
as cortinas das janelas e os tecidos das almas brandas
Corelli, tocando seus violinos vai, devagar, anunciando
anjos, querubins, virgens, párocos, tementes a Deus, reuni-vos
é tempo de genuflexão, de perdão e de sagrados livros
de falar de paz em todas ruas do mundo, por todas suas bandas

num dia como este, muitos outonos atrás, ele morreu
mesmo sendo órfãos da bondade, profanamos nosso relicário
todos tão dependentes da boca, e nela um filho meu ensandeceu
anjos, querubins, virgens, párocos, tementes a Deus, reuni-vos
estou a vossos pés, pedinte, minha sorte sob seus crivos
tira-me em sacrifício, dá ao filho o que de meu é necessário

mas quem se importa com o além das portas dos vizinhos?
para além dos móveis, dos objetos e das misérias dos humanos
há a beleza dos campos, onde araucárias, a relva e os passarinhos
são constantemente visitados por mulheres com algibeiras e ais
colhidas pelo som de Corelli e pelas cores de Ikoma e seus trigais
quando não recolhem elas nosso olhar ou nosso amor cigano

também, violinos viajam por sobre telhados nas mãos de Chagal
mas a paisagem é aqui, Curitiba e seus muitos bairros, descansam
do Barigui ao Bacacheri, do Boqueirão ao Ahú, do Batel ao Chaparral
a cidade dorme nesta tarde modorrenta e muitos são seus sonhos
Corelli, passeando por calçadas irregulares vê dois acordes bisonhos
a menina do caminho, onde apenas a cabeça e a sua trança dançam.

DO SIGNO RECÉM-INAUGURADO / poema de jairo pereira

terçar significados terçar nos terços um tear teares sempre variados flores erigidas em hastes galhos pomares pólens sementes nathivas

:estufas do pensamento: pensamento em pensamento idéia em idéia pomares ideológicos terçar significantes combinar com significados um significante pra cada significado não podem dois significados um só significante e vice-versa um correspondendo a outro um corpo-áudio e seu reflexo no espelho :significante: uma face identificando o original :significado: o primeiro significado o primeiro significante um após o outro ou concomitantes no nascedouro vida-morte a que os destinaram.

Importante o signo recém-nascido podaz poderoso & voraz o signo recém-inaugurado pra desespero dos espíritos.

O Aleph azul de BORGES – poema de bárbara lia

Deixastes aqui teu coração

– Aleph azul

povoado de tigres brancos

e miragens,

que pulsa como esta Milonga Del Angel,

nesta primavera desprotegida

– acordes de Piazzola –

 

 

Nuvens brancas a acenar certezas:

teu coração Aleph azul

permanece – no suave ritmo del sul.

Deixastes um Livro de Areias

– tu’alma –

nós todos virando páginas

deste deserto metafísico – noturno e trágico –

que leva à aurora nítida do reino da poesia.

 

 

Deixastes aqui teu coração,

Aleph onde trafegam signos vários,

e mesmo que tenhas imprimido sonhos

em grego, sânscrito ou aramaico,

deciframos – em alfa –

tuas mensagens de estrelas.

És um vaso vazio de segredos,

pleno de sóis & luas & signos da nobreza,

em uma azul sinfonia que teces

entre seus dedos, enquanto apontas:

 

A eterna água, o ar eterno,

flanando em um vale de sombras

e a inscrição brilhante com fios de ouro

– não existe tempo –

Guardiões do impossível

levamos ao pescoço a ampulheta

como homens-bombas

explodindo a vida,

sem seguir teus passos-acordes.

 

 

Cegos, não percebemos,

a inutilidade da areia que cai em conta-gota,

teu coração quer nos gritar isto –

Aleph azul que guarda segredos rojos.

Alguns o folheiam em prece, como anjos.

Eu o folheio, deslumbrada,

com a mesma cálida e reverente ternura

com que olhava abismada a estrela Vésper.

 

 

Azul como teu Aleph coração.

Seta e sinal em meu caminho:

A estrela Vésper

e o Aleph azul de Borges.

O HOMEM-ATIMIA por antonio carlos lopes

A personalidade, segundo a Psicologia, representa o conjunto harmônico e integrado das tendências e caracteres, fisiológicos e psicológicos, sociais e culturais, formando uma unidade do eu.

As experiências são formadas no seio de nossas relações humanas, descobrimos o complexo mundo dos sentimentos, as emoções, as atitudes, as inexoráveis decepções, as quais somos submetidas às vezes, nas mais variadas circunstâncias da vida.

A psicologia não é o meu campo de estudo, muito menos pretendo escrever um tratado, mas registrar minhas ”subjetivas” impressões, resultado da trajetória existencial, que classifico como sendo “o olhar no cotidiano”, portanto isento de qualquer pretensão de “Dono da Verdade”, mas à busca da qualidade e o aperfeiçoamento de minha humanidade.

Há o surgimento de um “novo ser”, o qual está integrado em nosso convívio, o homem-atimia, segundo a Psicologia, Atimia: trata-se de uma ausência de afetividade, pelo menos de suas manifestações exteriores, um arquétipo que se insurge, numa proliferação assustadora, já consagrada, está em todo lugar; nas ruas, nas praças, nos bares, nas universidades, muito próximo de nós, uma epidemia mundial, hoje, um dos “produtos” mais notáveis do mau caratismo moderno.

A intenção não é criar, uma discriminação ou desrespeito com as pessoas que sofrem dessa patologia, mesmo porque à conotação empregada no texto, está voltada para àquele sujeito que se aproxima de você, se faz “amigo”, desfruta da sua companhia, senta-se à mesa, come, bebe, se faz “parceiro”, mas na verdade, ele é o seu inimigo íntimo, ele quer ser você, ele quer te ver humilhado, na lona, sua intenção é extrair o seu melhor, para nutrir à mediocridade existente no ser.

Talvez, uma espécie de “Dândi” ou um canalha da nova geração globalizada ou melhor um indivíduo amorfo, aquele sem marca pessoal, sem traço saliente, e cujo caráter, sem unidade, é simples reflexo do meio.

Valores como: caráter, amizade, respeito, fraternidade, significam nada, mas são utilizados como elementos para o seu desempenho conspirador e farsante, a alcançar de forma única e exclusiva, os seus objetivos mais inescrupulosos.

Definição de Atimia:
s.f. Ausência de manifestações afetivas, freqüente nos esquizofrênicos.
sem crédito. homem conversa com estátua de DRUMONND de ANDRADE na praia de Copacabana/RJ/BR. ilustração do site.

COMO UMA SUPERSTIÇÃO SE TORNA RELIGIÃO – por janos biro

1. As pessoas que foram atropeladas enquanto atravessavam a rua não estavam segurando o nariz. Logo, quem não segura o nariz na hora de atravessar a rua é atropelado.

2. Quem não segura o nariz na hora de atravessar a rua nem sempre é atropelado, mas não vale a pena arriscar.   
 

3. Quem não segura o nariz na hora de atravessar a rua pode não ser atropelado nunca, mas ainda vai sofrer muito por causa disso.

4. Quem segura o nariz na hora de atravessar a rua ainda pode ser atropelado misteriosamente, mesmo tomando muito cuidado, porque não segurou o nariz com convicção.

5. Quem não segura apropriadamente o nariz na hora de atravessar a rua pode achar que está segura e feliz, mas não está. Por dentro essa pessoa sente um vazio.

6. Quem segura apropriadamente o nariz na hora de atravessar a rua não só não será atropelado como se torna uma pessoa mais feliz e mais ética.

7. Algumas pessoas perdidas dirão que não é necessário segurar o nariz na hora de atravessar a rua, mas apenas tomar cuidado. Elas não sabem o que estão dizendo, tenha pena delas e segure seu nariz por elas na hora de atravessar a rua.

8. Se você for atropelado enquanto atravessa a rua segurando seu nariz apropriadamente, isso aconteceu por um bem maior, e de qualquer forma você vai ser mais feliz assim. O que é realmente importante é que você segure o nariz apropriadamente na hora de atravessar a rua, porque é o mínimo que podemos fazer em respeito a todos que não seguraram o nariz e morreram. Se você morrer enquanto segura o nariz apropriadamente, você ainda vai ser mais feliz numa outra vida, que de qualquer forma é melhor que essa, então não se preocupe, não discuta e não pense demais sobre isso, apenas faça!

9. Uma força superior enviou seu único filho para morrer apenas para nos ensinar a segurar o nariz apropriadamente na hora de atravessar a rua, por isso devemos respeito e submissão completa.

10. Dar seu dinheiro para nós é uma forma de mostrar que você realmente está comprometido em segurar o nariz apropriadamente ao atravessar a rua, tanto que você nem precisa segurar mesmo, o importante é que você vai ser recompensado ficando rico como nós.

11. O universo tem um único propósito: Fazer os seres evoluírem para formas capazes de segurar o nariz na hora de atravessar a rua com cada vez mais perfeição.

Se você quiser incluir alguma outra religião, fique à vontade.

                                               

                                                   sem crédito. ilustração do site.

O POEMA de BASHÔ e o ZEN – pelo mestre h. masuda goga

Quase todos os que estudam o haicai acreditam que Bashô escreveu seus poemas de acordo com a iluminação Zen. Portanto, pensam que o haicai é uma poesia que nasceu do zen-budismo. Mas o próprio Bashô disse que não era bonzo nem adepto da seita Zen, apesar da grande amizade com o bonzo Bucchô.
Pode-se dizer que Bashô foi espiritualmente influenciado pelo bonzo amigo de forma profunda, tendo a sua atitude perante a arte tornado-se cada vez mais rigorosa e séria. Ele ficou sensibilizado pelas vicissitudes não só da vida humana, mas também dos outros seres vivos que habitam o universo.
O saudoso bonzo zen Ryohan Shingu discorreu certa vez em artigo sobre a “tranqüilidade”. Esta é uma virtude do zen-budismo. Pensamos que Bashô queria expressar no famoso haicai da rã um ambiente de quietude, inspirado pelo súbito acontecimento da natureza: um salto de rã na água de um velho tanque.

Certa vez, lemos que este haicai foi criticado por Kikaku, um de seus discípulos, que sugeriu o termo “yamabuki” (um tipo de rosa) no lugar de “velho tanque”. Mas o Mestre preferiu o original, reforçando sua sensibilidade poética ao referir-se à quietude que enfrentava e ao mesmo tempo apreciava.

Reconhecemos a influência do budismo no poema de Bashô, mas o haicai por si mesmo não é Zen ou produto artístico do Zen.

COMPLEMENTO:

 

Perguntar a um mestre se o que ele pratica é Zen pode deixá-lo zangado ou simplesmente mudo. “O que você entende por Zen?”, ele poderá perguntar. Em sua racionalidade, você discorrerá sobre as teorias expostas nos livros. “Se é isso que você pensa ser Zen, então o que eu faço não é Zen”, responderá ele.

Conceituar qualquer arte como Zen é levar o Zen ao nível mais baixo. Certa ceramista objetivou o Zen na forma e na queima das peças. O comportamento “Zen” dessa ceramista era justamente descobrir as formas no próprio processo de transformação. Cada peça nascia quando da manipulação da matéria-prima pela artista, de maneira completamente não-intencional.

“Como posso chamar a minha arte de Zen se nem ao menos sei o que vou criar?”, irritou-se ela, ao ser abordada por jornalistas. Afirmar que uma arte é Zen é possuir uma idéia pré-concebida. No momento em que isso ocorre, aquela arte deixa de ser Zen. Em outras palavras, quando afirmo “aqui está vazio”, o “vazio” desaparece.

Francisco Handa
O que é Zen
Editora Brasiliense

 sem crédito. ilustração do site. 

COMO ACABAR COM A VIOLÊNCIA NA ESCOLA – por vicente martins

Encontro-me com um grupo de professores da educação básica. O bate-papo é inicialmente informal e ameno. Aos poucos, porém, a conversa torna-se confragosa, crua e empedrouçada. Ouço, atento, o relato das dificuldades pedagógicas dos mestres, em sala de aula, sobretudo as relacionadas ao ensino e à aprendizagem da leitura, escrita e ortografia. Logo me incomoda a descrição da escola enquanto palco de situações de violência. A violência escolar nas escolas, públicas e privadas, é um problema pedagógico.

 Diretores e professores de escolas públicas me descrevem, apavorados, ocorrências de depredações dos prédios, casos de arrombamento de salas e laboratórios, ameaças e casos de detenções ou prisões e, não poucas vezes, situações de constrangimento e amedrontamento envolvendo pais, professores e alunos. 

 Um professor me diz que a situação está tão grave que um puxão ou uma tapinha entre alunos, dentro ou fora da escola, já pode  não ser sinal de uma simples brincadeirinha infanto-juvenil, mas de safanão  que logo será desferido contra o colega de sala, a ser deflagrado com intenção de dano físico, moral e requinte de perversidade  Agora, uma pergunta advém: em que  a universidade pude ajudar as escolas públicas? Onde podemos encontrar, na Academia, respostas concretas para uma situação real e preocupante das escolas públicas?

Uma solução simplista, imediata e necessária é, decerto, o policiamento e a colocação de grades. Mas isso não basta.Quase sempre as medidas coercitivas e paliativas parecem reforçar, apenas, a violência escolar.

São nas crenças, atitudes e reações dos mestres e na descrição do que se passa efetivamente na ambiência escolar que um novo olhar de todos nós, educadores, pais e poder público, deve ser proativo e, desde logo, vale começar por uma questão fundamental: de onde vem a violência? E, em seguida, levantar dúvidas do tipo: onde há a exclusão social se manifesta de modo mais acentuado a violência escolar?  Onde as causas? Onde as soluções?

 As respostas que nos vem à consciência nos mostra que as escolas não ficam isoladas  do contexto social uma vez que, realmente, estão muito próximas das famílias e da sociedade. A escola, para lembrar Louis Althusser, é o principal aparelho ideológico do Estado. As boas experiências de superação da violência escolar sairão, pois, do interior dos  próprios estabelecimentos de ensino.

Os gestores escolares sabem que medidas tradicionais como gradeamento, vigilância e policiamento, a médio ou longo prazos, não são suficientes nem atingem os  pontos centrais do problema da violência escolar ou urbana.

 Se tomarmos, como referência a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN), a Lei 9.394/96,  ela, ao certo, dar-no-á pistas para uma resposta mais contumaz e convincente para a violência escolar.

O artigo 22, da LDBEN, referindo-se à educação infantil, ao ensino fundamental e médio, estabelece que é tarefa das instituições de ensino assegurar aos alunos a formação para cidadania e fornecer-lhes meios para progredir no trabalho, nos estudos posteriores e na vida.  Agora, novos questionamentos: a escola tem cumprido esta missão? A escola tem se preocupado em formar os alunos para viver em sociedade, a saber-estar na vida social, ou tem se limitado a repassar conteúdos curriculares?

Sei que nada disso é fácil. E a primeira tarefa é sairmos do discurso ou espírito da Lei e ingressarmos na ação concreta. Então, com o fim de colaborar nessa missão, eis algumas sugestões ou passos  em direção  ao que chamaria aqui de práxis cidadã.

O primeiro passo para uma práxis cidadã, certamente, pode ser o de seguir alguns procedimentos de gestão participativa como, por exemplo, o de ouvir todos os segmentos envolvidos na comunidade escolar, em especial, os alunos.

O segundo passo é o de explicitar as contradições existentes na escola. Um terceiro passo é o de trabalhar as contradições internas da escola para que, em quarto momento, possa propor melhorias para as relações humanas. Um quinto procedimento é o de organizar comissões para aprofundar as discussões sobre violência e sobre a segurança possível na escola, no bairro, na cidade. E, por fim, duas ações são fundamentais para uma escola com menos violência e mais cidadania: os gestores devem abrir as escolas para dentro e para fora, inclusive aos finais de semana, e fazer funcionar, sem medo, e  efetivamente,  as estruturas democráticas das escolas.

A atuação de cada docente pode se materializar em projetos especiais nas escolas públicas. Como professor de língua materna, sem hesitação, montaria um projeto “ Ler Mais para uma Vida Melhor”. Sim, começar, pela leitura. Não é,  por certo, um projeto original, mas, para o modelo de escola que temos no Brasil, não há dúvida de que há de ser inovador, um novo olhar sobre a problemática escolar. Um bom exemplo (e é bom imitar o que é bom) é o projeto Círculos de Leitura, do Instituto Fernand Braudel, com grande atuação em Diadema, São Paulo.

O nome do Instituto é inspirativo: Fernand Braudel, um historiador francês e um dos mais importantes representantes da Escola dos Annales. Esta escola foi pioneira na abordagem de um estudo de estruturas histórias de longa duração nos eventos. Conhecer a história é, de alguma maneira, conhecer a geografia, cultura material, as mentalidades e a psicologia da época.  Da mesma forma, conhecer a violência urbana ou escolar é algo que extrapola histórica, social e juridicamente a questão da segurança pública e  nos conduz ao campo dos valores, crenças, maneira de pensar, disposições psíquicas e morais da coletividade.

Pois bem. As atividades do Instituto começaram assim: um grupo de estudiosos da problemática social, ao conduzirem pesquisas de campo nas escolas públicas da periferia da Grande São Paulo, em 1999, documentaram a falta da prática da leitura, reflexão e debate no cotidiano da sala de aula. A partir do diagnóstico, desenvolveram uma política de apoio às bibliotecas escolares, através de mutirões e capacitação de voluntariado em parceria com a comunidade escolar.

O método da Fundação Fernand Braudel é fantástico, por sua simplicidade e eficácia e, mais do que isso, por seus resultados.  Eles trabalham com grupos pequenos e interativos de educadores pagos e voluntários  que trabalham de forma interativa com grupos de 10 a 15 jovens. Com esta medida, o Instituto oferece melhores condições para o jovem dialogar e formar vínculos com outros alunos e professores.

Outra interessante atividade é o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem a partir da leitura de temas universais e clássicos da literatura. Vale destacar que trabalham com obras literárias que trazem em suas  histórias (e estórias) temas universais, com que o jovem pode se identificar, ampliando seu repertório cultural e relacionando suas experiências com relatos que sobrevivem ao tempo.

Entre as atividades de lectoescrita, a Fundação  faz um trabalho de desenvolvimento da leitura em voz alta e em grupo. A Fundação acredita, e isso é verdade, que para aquisição da capacidade cognitiva, alunos necessitam de instrução efetiva em cinco áreas: fonêmica, fonética, fluência, vocabulário e compreensão do texto. Em pequenos círculos, participantes se alternam lendo em voz alta e parando periodicamente para discutir sobre o significado dos trechos lidos.     

Ainda no campo da lectoescrita, os voluntários da Fundação Fernand Braudel desenvolvem atividades como produção textual para que o aluno reflita e escreva sobre o que foi lido e discutido em grupo. As redações desenvolvidas durante as sessões do Círculo são utilizadas para acompanhar o progresso de cada aluno e do grupo. Ao final de cada encontro, os participantes lêem e refletem sobre os conteúdos dos poemas e textos encontrados ou escritos por eles.

Por fim, outras ações da Fundação, não menos significativas, são a participação voluntária do jovem, peça-chave para a construção de sua cidadania, e sua contribuição na melhoria das condições do espaço escolar. As atividades culturais também têm lugar na missão da Fundação. São elas que auxiliam no aprendizado do jovem e ampliar seu universo de referência cultural a partir das obras lidas, além de organizar atividades e passeios culturais, incluindo visitas a bibliotecas, parques  e teatros.

         O que sei, depois de duas décadas de magistério, é que a privação da leitura interfere no desenvolvimento da personalidade dos alunos. Um sem-leitura é como um sem-terra sem a posse legal da terra em que vive e trabalha. Um aluno sem leitura não compreende os códigos lingüísticos e sociais e, o mais grave, não sabe interpretar, naquela visão paulofreiriana, a vida em sociedade. Não é à toa que um aluno sem-leitura é rechaçado e rechaçador, triste e deprimido, agressivo e angustiado, potencialmente um excluído do convívio social. .

         Numa sociedade de informação, ler ou escrever bem é condição de superação da desigualdade social. A leitura vai além do repertório de palavras que brotam do alfabeto.  Ler é compreender, interpretar, descobrir, criar e, sobretudo, desfrutar do reino do conhecimento.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), de Sobral, Estado do Ceará.
foto feita pelo telescópio hubble. foto da nasa.