A VISITA DA MULHER ARANHA – de zuleika dos reis

As luzes dos prédios surpreendem-me a fuga e, enquanto mudo a marcha, tento calar os ecos da sua voz.  Transparência nas vidraças, o brilho no chão, nos móveis, nenhum objeto a esmo sobre a mesa-de-centro nem sobre os sofás, nos vasos as plantas sem qualquer folha seca. Pôster de Elis Regina, marinha, abstrato à Mondrian… retrato do Afonso longínquo, tão jovem! A ampulheta de metal, herança paterna. O anjo barroco, de valor inestimável. O computador de última geração. Os espelhos impecáveis. Concerto de Paganini. Repentino relógio marca 22h30min. Outro farol fechado. “Descubra o que sou pra você e se descobrir que não sou nada, não volte e nem me chame. Nunca mais”. Palavras de folhetim, de novela de TV, e ela falou a sério. Do carro ao lado, alguém pergunta pela rua tal. Respondo: Sou estrangeiro. Geraldo prepara o jantar, eu reencontro na estante, entre Verlaine e Rimbaud, um dos cadernos nos quais meu amigo ainda hoje exercita o anacronismo das anotações. Leio, ao acaso: “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” Espera, esta é frase de esboço de texto meu, na tentativa de descrever a cena na casa em Ouro Preto, a cena daquela viagem há quatro anos, aquela cena atroz. Pois é, Geraldo também andou bisbilhotando manuscritos em minha velha escrivaninha… Fico olhando a frase aqui, no seu caderno, na letra irregular, assimétrica. “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” Você, transformado em terceira pessoa do discurso. Pegajosas e quentes, as imagens escorrem pelo asfalto.

                        O vermelho do farol, do sangue, dos signos. Ela, a letra, tem por hábito deitar-se para a esquerda, para a direita, por-se de pé repentina e em todas essas posições dentro da mesma palavra. Quando o dono da letra dorme, costuma fazê-lo imóvel, por causa dos sedativos. Geometrias difíceis de decifrar, no corpo da letra, no corpo do dono da letra. Com que eficácia, amiga, nos escondemos um do outro, enquanto você afiava tanto as suas garras. Era conveniente para mim, eu sei, para você não sei porquê, nem terei coragem para descobrir.

                         Contraponto, o recanto das plantas junto à sacada, com seus brotos saindo da terra úmida. Minha rainha, nosso reinado de nadas. E sempre foi tarde, desde muito antes da Peste.

                         “Você se lembra, eu e Rogério, você invertebrado, olhando?” A frase que escrevi duas semanas após nossa volta a São Paulo, os corpos exaustos do naufrágio em Ouro Preto. Quase quatro anos: a síndrome, os vai-e-vens, as fraturas expostas, por fim a grande briga por motivo tão fútil, que se nos varreu da memória. E então, seis meses de silêncio, até sua chamada ontem à noite. Penso em nossa fidelidade incorruptível, degluto minha velha frase em seu caderno, enquanto você prepara o jantar de boas-vindas. Compreendo tudo, faço-lhe justiça. Apesar disso, nesta noite, lançarei meu ultimato.

                        O pensamento e a rua correm, simultâneos. Invertebrado. Bom ser inseto, perder todo o peso de homem.  Impossível recuperar qualquer sentido nos rabiscos palavras a esmo brancos no papel, antecedendo e seguindo-se à frase surrupiada do meu esboço, atitude nem um pouco peculiar, que Geraldo tem por norma, ao contrário do que faz com a própria vida, passar suas páginas a limpo e em duas versões, pelo menos. Por que voltei aqui? Seis meses… um caso a mais na bagagem… e a magia de estar neste apartamento me invade, como antes, como sempre. Da cozinha vem um cheiro de massa folhada. Torta de maçã?

                        O inseto olha, chegou à Paulista. Brigadeiro Luis Antonio. Gazeta, Gazetão, Gazetinha, nomes de cinemas evocando fugas das aulas, USP, Bardugo, Rei das Batidas, ruas dos anos setenta.   Lembra, Geraldo, das infindáveis rodas-de-samba? Certa vez, um amigo nosso vindo de Recife, queria conhecer um bar tranqüilo. Naquela noite, houve briga de garrafadas no Bardugo e todos se escondendo por debaixo das mesas. No Rei das Batidas fazíamos barulho além da conta, os vizinhos reclamavam, a polícia prendia nossos documentos até de manhã – o País, ainda na ditadura militar, já ultrapassara o estágio mais terrível e os tempos de agora, da Peste, ninguém seria capaz de antever naquele mundo cercado de generais onde, na contramão, os corpos – salvo o seu, no meu – se amavam livremente e as mentes se alimentavam só de sonhos utópicos.  

                        Não consigo permanecer inseto, embora o queira tanto. O dia em que eu quis ser uma vaca…. Por baixo das palavras eu sempre me quis só mulher, sua fêmea. Uma vaca, pastando pacífica, compreendendo tudo com enormes olhos sem história.

                         Cena patética: nós na Avenida Rio Branco (ainda não havia Sambódromo) vendo o desfile das Escolas e discutindo Metafísica. Prateados, azuis, amarelos, vermelhos, dourados, infinitas nuances e timbres, o som da bateria avassalando o mundo e nós, discutindo Metafísica. Levaria ainda muitos anos para viver na pele a plena pungência dessas perdas, dessa Dor. “Quer um aperitivo? Tenho um Porto muito bom”.

                        Rogério e eu, e eu gozando e carpindo você, morto ali, só olhos. Se as lembranças dela parassem de verter sangue na minha cabeça… Dentro, meu ser cindido; fora, você ardendo todo pelo macho imerso em mim até o cabo, mas também ardendo por mim, encharcada desde os ossos. Entre nós três e os esconderijos em São Paulo, a serra, a chuva, as barreiras caindo. Impossível estrada, fuga impossível. Ilhados nas noites sem saída, eu o observava no sono imóvel, com medo de não vê-lo acordar na manhã seguinte.

                        Rua da Consolação. Desde aquela viagem sem ménage à trois, que outro abraço tira seu peso de mim, amiga?  Quem somos, Geraldo? Nada, senão dois blocos de incerteza politicamente desconjuntados. Nada, senão dois prisioneiros de uma ética em quase completo ostracismo. Anacrônicos, por certo; melhores, por acaso? Apenas mendigos, vivendo de esmolas recebidas das Lembranças, incapazes de pertencer, efetivamente, a quaisquer clubes que nos aceitem como sócios.  Não sei como a vi, nem como a vejo agora. Sei apenas que passamos a vida a encenar uma comédia estúpida, sem sangue nem ossos.               

                        Consolação, consolação. O cemitério lembra Lúcio, o habitante mais recente. No entanto, Afonso ainda está vivo, me disseram. Afonso, que se exilou para me proteger, que fugiu para se poupar dos meus sacrifícios, da minha piedade. “O Porto é bom mesmo”. Por Afonso talvez você se veja obrigado a continuar, mesmo à distância. Não por mim, sei que nunca por mim. Deixa-me, Dor, esvaziar este cálice, saborear até o derradeiro grão a paz por um fio do jantar quase pronto.

                        Quatro horas e a duas quadras do edifício onde moro e de onde fugi quando você partiu. Como um suicida, fugi de você para a face escura de Romeu. Romeu, instrumento de uma corda só: Lúcio. O apartamento ainda menor, como se tivesse encolhido junto com o dono.  Os sentimentos também podem encolher aos poucos até sumirem, Geraldo, ou se transformarem em mera curiosidade sobre o destino do antigo amor. Quem sabe eu ainda chegue lá, talvez tenha, com sorte, pelo menos outro tanto de vida para tal esquecimento. Quem sabe outro alguém… alguma espécie de milagre…Você passa, enrolado na toalha. Daqui a pouco sairá do quarto com aquela camisa de que eu gosto, seu perfume, sua virilidade ambígua a seduzir, quase em perfeita inocência, homens e mulheres ao alcance dos olhos, dos dedos… a seduzir principalmente a mim, a mim, a interdita, a interditada.

                        Pergunto pelos quadros, livros, discos… Tudo foi doado, Romeu não sobreviveria às lembranças visíveis. Fico olhando, mínimo. André chega em seguida e fala…fala…da viagem a Nova Iorque, dos becos sempre cheios apesar de tudo, dos amigos comuns, dos novos – “Que negro lindo, toca um sax!”- de Sinésio, e de Lúcio.Romeu foge para o quarto. O incontinente André insiste em ouvir Tom Waits enquanto esvazia a última garrafa do Chivas. Ao sairmos, me arrasta para o bar mais próximo. Continuo com a água mineral, completamente bêbado. Ele comenta: “Você está estranho…” Tenta fechar o cerco. Fujo por uma fresta, meu primeiro teste vitorioso como inseto.

                        Estaciono junto ao meio-fio, com a precisão que jamais tive e a lucidez dos que vão morrer. Luto, consigo escapar dos meus escombros.

                        Saio do carro. Diante da porta, a chave estranha a fechadura. Vida, hall inacessível e uma mesma mulher, satélite inimigo, girando há milênios. Desde quando estou parado em frente a este prédio, com a chave na mão inútil? Ou seria o contrário?

                        Daqui a dez dias começa 1988. A toalha imaculada, a baixela e os talheres de prata, as taças de cristal, o pão e o vinho, a mesa posta, castiçal, velas, flores: cenário perfeito para a comemoração das bodas. Éramos jovens dançando na praça, dançando na praça… como na canção do Chico Buarque.

                        O elevador desce em silêncio. Geraldo me leva para casa. Na despedida, lanço-lhe o ultimato, quem sabe desafio. Qual de nós dois a presa? Quem tece a teia na nossa parede branca?

 

arrumação e foto de jb vidal. Museu Oscar Niemayer. ilustração do site.

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