Arquivos Diários: 8 julho, 2008

É E NÃO ESTÁ poema de jb vidal

é outono e está verão,

sou hoje e estou ontem,

 

desconheço minhas estações,

parte da natureza deixo-me levar por si,

 

folhas marron-ferrugem não cobrem as calçadas,

meus pés sentem sua ausência, não é o que deveria, está o que não sei

 

 

 

 

o tempo rebela-se contra definições

ele É sempre e o demais transige,

 

o ciclo não é exato e o homem é impreciso,

se navegar é preciso que vento devo seguir?

 

senhor de mim mesmo não me conduzo,

minhas folhas não caíram, não tenho outono, pareço inverno

 

 

 

 

 

os frios estão por chegar, do tempo, das saudades, da campa,

nenhum terá o rigor deste que me congela desde o ventre,

sem origem nem destino, sinto-o, aqui, dentro,

Deus e o Demônio congelados comigo até a primavera das mentes,

quando a venda dos meus olhos escorrerá com as águas da morte,

então estarei diante deles, dentro deles, sendo eles, sendo um, novamente

 

 

 

CENÁRIO poema de walmor marcellino

 

Conjuras passam nas calçadas,

o trabalho convoca servidão

um chicote esbate a galope

a ferradura faísca no asfalto

que o cavalo lapidará mais tarde.

Só pássaros aluindo os céus

no pólen de alvéolos esgarçados,

um homem espirra, o chicote zara

o cavalo borrega trotando,

se esfumam corpo a fora.

Não era soturno o planger

dos pássaros altos vôos,

alígeros num modo flutuante;

por baixo os silêncios

por cima o firmamento.

Alfim,

o desforço se extenua,

modilhar de sinos entardecem

o dia, o te-deum proclama,

vulvas enfuriadas se excitam

à sofreguidão de almas penadas.

Amanhã repetiremos essa aforia

extremunhado impressentimento

com letargia agônica a morte.

 

DIZER QUE SIM – por jorge lescano

 

e o pai diz que sim, que temos que ir de qualquer jeito, que não agüenta mais e que se à irmãzinha acontecer o pior, a morte, quer dizer, ele faz uma barbaridade daquelas de mandar cristão pro xadrez… e diz que temos que ir, mesmo que não dê jeito, e que o trabalho o fez Deus pro home viver e não pra matar o home, e que é isso o que ta acontecendo; e ainda diz que se o Diabo quisesse danar algum, não ia escolher ele, que ninguém conhece e que nunca se deu mal porque é home de paz e de trabalho, como toda sua família que sempre foi, e que se alguém jogou praga pra daná-lo, prefere perder as vistas, que ´o pior pro home trabalhadeiro, a que lhe aconteça qualquer coisa, por miúda que for, à Rosinha, que ele pôs nome de flor pelo cheirinho gostoso que sempre teve, mesmo na hora da nascença. 
 E a mãe balança a cabeça como um cavalo com sono, e diz que sim, que tudo vai dar certo, porque uma veiz na vida a gente merece sair do chiqueiro; e escondendo o medo do silêncio do pai e a vontade dela de sair do sítio, diz que sim. E diz que as crianças não têm culpa de nada nem pecado algum, e que se Deus quiser cobrar dívidas não tem precisão de fazê-las sofrer, e assim dizendo olha pro rostinho murcho da Rosinha e pra meus pés duros como cascos de bode. Que a gente grande faz e desfaz, diz, às veiz sem tenção de fazer, mas que Deus sabe disso e tem que entender que criança nasce anjinho, e olha a Rosinha, e adepois não é mais porque a vida não deixa; e que mesmo o Calixto, com deiz anos feitos e quase onze, não pode ter feito grande coisa, e mesmo fazendo, isso não é mais que falta de miolo pela idade pouca, e que isso Deus também entende sem precisão de Padre-Formado explicar, e que sendo assim, não pode ser que o Pai Santo esteja mexendo com a gente, e assim sendo, só pode ser coisa do Cão, e faz pelos-sinal olhando o Cristo esfumaçado que pinga dum barbante quase preto pelo fogão de lenha. E adepois coça os olhos com as costas dos dedos e olha pro pai, que fuma e olha a lonjura com olhos pequenininhos, como no inverno, quando a mãe fecha a porta e o fogão vira locomotiva velha: só fumaça enchendo o rancho.     
 E eu fico sem saber as minhas responsabilidades e fico sem jeito acocorado num canto, mode não atrapalhar ninguém, mas com uma vontade doida de dizer que sim, que tudo vai dar certo e a Rosinha vai ficar boa pra que o pai olhe pra ela com esse olhar manso de vaca velha, e pra que o dedo grosso do pai mexa no queixinho dela e na barriguinha dela e no narizinho dela, e vai ficar boa pra que o pai possa pegá-la pelos sovacos, meio sem jeito sempre, com as mãos duras de calos duros. E quando o pai olha pra mim, quase sabendo minhas idéias, eu quero sumir na parede como se fosse mais uma sujeira no barro rachado de seco. E ele olha porá mim bem demorado, como se eu fosse um estranho ou mulher alheia, e então penso no que Deusinho pode pensar de mim ouvindo o que o pai e a mãe acham do que fiz, sem fazer ou fazendo, até mesmo querendo não fazer, mas sempre na ignorantice de que Ele estava olhando. E a mãe passa a mão na minha cabeça e eu não gosto, embora saiba o que sente. E então o pai olha pra mãe primeiro e adepois pro canto onde está a Rosinha e pra mim, e eu acho que tenho culpa de estar vivo enquanto a Rosinha vai se desmilingüindo, e o pai dá uma tragada comprida, de afundar as bochechas e adepois solta a fumaça de uma veiz só, sei lá se pra esconder a vergonha ou a tristura. E quando a fumaça some ele já está de olho na lonjura, acocorado que nem eu, só que na porta, e então eu  vejo as costas dele, com dois  ossos que parecem  asinhas de anjo recém-parido. E às
veiz,  quando  fica muito  tempo  desse  jeito  acocorado, eu quase o vejo, sem vê-lo, voando feito urubu, menos negro e maior, mas do mesmo voando por cima da terra escura, como pra afugentar os gafanhotos que voam por cima do milho e das batatinhas iguaizinhos que poeira grossa e barulhenta, como a mãe diz que são as cinzas do Inferno. E então eu penso no que a mãe disse quando a gente se aprontava pra ir sem voltar da capital. E mesmo querendo que o pai não fique nesse não dizer nada e que a mãe não ponha mais a mão na minha cabeça mode não me sentir criança sem amparo, não consigo dizer que sim, que tudo vai dar certo, a começar pela Rosinha, e que nóis vai pra capital, com jeito ou sem, e que o pai vai arrumar serviço, que pra isso Deus não lhe tirou os braços e  mãe também vai trabalhar, só de manhã. Mas eu queria dizer que sim. Que na escola ninguém vai mexer comigo, como contou Seu Toríbio, só por causa da cor escura da minha cara e das minhas mãos, que o resto do corpo não tem precisão de mostrar. E dizer que sim, que a gente estuda é com os miolos e não com o cabelo liso e preto de índio, nem com os dentes, amarelos e mordidos por desconhecença de remédio pra isso. E então o pai vira, e enquanto joga longe a ponta do cigarro, diz vida puta, nóis vai nem que for a pé. E a mãe vira as costas pra ele e encara o fogão, frio, com um amontoado de cinzas, e mexe a cabeça pra cima e pra baixo como um cavalo com sono e eu olho a Rosinha, que começa a espernear e solta um berro rouco, como se já estivesse cansada do choro, quando na verdade apenas começou. E então eu faço força e digo pra mim mesmo que sim, que nóis vai de qualquer jeito. Apenasmente eu sei, feito a mãe, que o pai sabe que nóis nunca vai arredar pé do sítio, da terra magra que nem a Rosinha, que sem malquerença pra ela, já tem rostinho de anjo. E bem nas profundezas do meu entendimento eu acho, sem maldade pra ela, que é melhor morrer, mesmo sabendo que o pai terá que cavar uma cova do ladinho das outras duas. Então abaixo a cabeça e coço os olhos, e pra dizer qualquer coisa, mode desentupir a garganta, digo que sim, que nóis vai nem que for a pé.   

de valtecir santos. ilustração do site.

…preciso de copos quebrados para sobreviver! – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Belíssima carta a sua, em resposta às minhas do mês anterior, ele que já se foi assim como afastou a memória de São João e de São Pedro para as festividades juninas do ano que vem. Interessante esta frase, não? Como pode a memória se ocupar com fatos futuros? Somente na cabeça de escritores distraídos e desassuntados pode nascer uma construção dessas. Bobagem grossa. Deixa pra lá.

 

Queria tecer breve relato do nosso último sábado, quando ali, na Feira do Litoral, ao lado do homem nu e da mulher nua, tivemos o prazer de ter mais duas companhias que se juntaram ao nosso vinho e às ostras. Aliás, para conseguir comê-las – infelizmente apreciá-las ainda não –, levei um pão de linhaça fatiado, comprado na antiga Padaria Vianna, quase esquina da Tiradentes.

 

O poeta Osvaldo Wronski se juntou a nós, logo nos primeiros goles, contribuindo com um espumante gelado que neste momento não aflora a minha memória a marca do produtor do precioso líquido. Além de Osvaldo chegou, momentos depois, Marilda Confortin. Esta, meu caro Vidal, você conseguiu arrancar da cama às 11h da manhã. Estávamos vivendo um sábado frio, onde o sol logo apareceu mostrando sua força. Mesmo assim não conseguiu ele espantar o ar entristecido e sisudo dos curitibanos.

 

Lembro que Marilda entrou em discussão acalorada sobre o Poetrix e o “haikai” com Osvaldo, ensaiando debate sobre um poema mostrado por ele, onde a análise girou sobre o carimbo de ser ou não o poema um “haikai” correto ou não, por serem as sílabas tônicas ou átonas importantes para se estruturarem dentro do rigor do 5-7-5. Bobagem obtusa esta.

 

Lembro também que em determinado momento prometi a Marilda um desafio e o envio de um texto voltado à desmistificação dos poemas curtos. Besteira longa da minha parte, agora, Vidal. Marilda tem razão, os tercetos sempre existiram e sempre existirão. Fazem parte da nossa cultura lusitana, desde os tempos dos cavaleiros andantes, e mesmo antes, nos jograis medievais. Por causa de Marilda estou relendo Bashô, de Leminski, vinte anos depois “primavera não nos deixe/pássaros choram lágrimas/ no olho do peixe” – Bashô.

 

Voltando do Japão a Curitiba, lembro de dias atrás, quando almocei com um amigo português. Conversamos sobre o Brasil. Concluímo que não temos um país, mas sim um conglomerado diverso de interesses e culturas, onde a única ligação entre os territórios é a língua portuguesa. Pois neste país lingual, tão vilipendiando pelos políticos e pela comunicação massificada, ainda sobram rasgos de cultura espontânea que nos levam para algum orgulho em ser daqui.

 

Digo pertencer a todo este grande espaço continental, não apenas ao sul brasileiro. Interessante falar de sul. Tenho alguns conhecidos, desde meus primórdios em terras curitibanas, que consideravam como norte todos estados situados acima de São Paulo. Uma visão estereotipada e preconceituosa deste imenso país. Para eles não há Norte, Nordeste, Sudeste ou Centro Oeste. Tudo se divide entre sul e norte. O sul vai do Chuí a São Paulo, e o resto é o norte eunuco.

 

Voltando ao amigo português, Vidal, explico que ele vive de vender copos. Então, te assustaste? Eu sempre tive curiosidade. Mas, sem ter antes a oportunidade, nunca havia perguntado como ele vivia uma vida tão boa vendendo copos. Estando com a minha mísera adega residencial sem copos, resolvi perguntar se me venderia alguns recipientes de vidro. Ele, com um sorriso matreiro no canto da boca, respondeu-me que não vendia copos. Espantado, perguntei, como não? E ele adiantou que tinha uma equipe de vendedores, não aceitando encomendas inferiores a 500 copos. Acho que não preciso de tantos copos.

 

O mais interessante foi a aula de qualidade e técnicas de venda de copos que ele me deu. Pegando sobre a mesa quatro copos utilizados por nós durante o almoço; dois deles utilizados para tomamos duas doses de cachaça e só isto de álcool, devido a Lei Seca; e dois outros copos, onde tomamos água, demonstrou porque aquele vendido por sua empresa era o melhor. Batendo os copos que representava um contra o outro, observou que eles bateram ao meio, numa parte mais resistente e espessa. Enquanto isto os outros dois copos tocaram-se no bordo, região mais fina e frágil do copo. Disse que o argumento era infalível para o convencimento dos donos do estabelecimento. E adiantou ainda, infelizmente, aquele era um copo muito bom. Se isto ajudava a vender inicialmente os copos, por outro lado, ajudava o pessoal desastrado das cozinhas, que demoravam a quebrar os copos vendidos por ele, diminuindo as vendas de reposição desse tipo de mercadoria. E adiantou – preciso de copos quebrados para poder sobreviver.

 

Lembrei neste momento, meu caro Vidal, das nossas taças deixadas na Barraca das Ostras, e de que uma das moças, logo em nossa chegada, nos comunicou ter uma delas quebrado na viagem. Será que a taça fazia parte do “portfolio” do amigo português? Ficou a dúvida. De qualquer maneira, no próximo sábado teremos mais vinho, ostras e literatura ao vivo na última barraca do Homem e da Mulher Nus na praça da vida. Ali, onde coisas naturais estão ou nas bancadas das ostras ou presas aos meios fios da via pública, enquanto o imaginário anda solto em nossas cabeças. Apenas teremos de cuidar das doses para não ultrapassarmos os limites da Lei Seca, ou ajudar meu amigo português quebrando mais copos.

 

Ánton Passaredo

Curitiba, 2 de Julho de 2008.

 

                                                

                                               sem crédito. foto da época. ilustração do site.