…preciso de copos quebrados para sobreviver! – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Belíssima carta a sua, em resposta às minhas do mês anterior, ele que já se foi assim como afastou a memória de São João e de São Pedro para as festividades juninas do ano que vem. Interessante esta frase, não? Como pode a memória se ocupar com fatos futuros? Somente na cabeça de escritores distraídos e desassuntados pode nascer uma construção dessas. Bobagem grossa. Deixa pra lá.

 

Queria tecer breve relato do nosso último sábado, quando ali, na Feira do Litoral, ao lado do homem nu e da mulher nua, tivemos o prazer de ter mais duas companhias que se juntaram ao nosso vinho e às ostras. Aliás, para conseguir comê-las – infelizmente apreciá-las ainda não –, levei um pão de linhaça fatiado, comprado na antiga Padaria Vianna, quase esquina da Tiradentes.

 

O poeta Osvaldo Wronski se juntou a nós, logo nos primeiros goles, contribuindo com um espumante gelado que neste momento não aflora a minha memória a marca do produtor do precioso líquido. Além de Osvaldo chegou, momentos depois, Marilda Confortin. Esta, meu caro Vidal, você conseguiu arrancar da cama às 11h da manhã. Estávamos vivendo um sábado frio, onde o sol logo apareceu mostrando sua força. Mesmo assim não conseguiu ele espantar o ar entristecido e sisudo dos curitibanos.

 

Lembro que Marilda entrou em discussão acalorada sobre o Poetrix e o “haikai” com Osvaldo, ensaiando debate sobre um poema mostrado por ele, onde a análise girou sobre o carimbo de ser ou não o poema um “haikai” correto ou não, por serem as sílabas tônicas ou átonas importantes para se estruturarem dentro do rigor do 5-7-5. Bobagem obtusa esta.

 

Lembro também que em determinado momento prometi a Marilda um desafio e o envio de um texto voltado à desmistificação dos poemas curtos. Besteira longa da minha parte, agora, Vidal. Marilda tem razão, os tercetos sempre existiram e sempre existirão. Fazem parte da nossa cultura lusitana, desde os tempos dos cavaleiros andantes, e mesmo antes, nos jograis medievais. Por causa de Marilda estou relendo Bashô, de Leminski, vinte anos depois “primavera não nos deixe/pássaros choram lágrimas/ no olho do peixe” – Bashô.

 

Voltando do Japão a Curitiba, lembro de dias atrás, quando almocei com um amigo português. Conversamos sobre o Brasil. Concluímo que não temos um país, mas sim um conglomerado diverso de interesses e culturas, onde a única ligação entre os territórios é a língua portuguesa. Pois neste país lingual, tão vilipendiando pelos políticos e pela comunicação massificada, ainda sobram rasgos de cultura espontânea que nos levam para algum orgulho em ser daqui.

 

Digo pertencer a todo este grande espaço continental, não apenas ao sul brasileiro. Interessante falar de sul. Tenho alguns conhecidos, desde meus primórdios em terras curitibanas, que consideravam como norte todos estados situados acima de São Paulo. Uma visão estereotipada e preconceituosa deste imenso país. Para eles não há Norte, Nordeste, Sudeste ou Centro Oeste. Tudo se divide entre sul e norte. O sul vai do Chuí a São Paulo, e o resto é o norte eunuco.

 

Voltando ao amigo português, Vidal, explico que ele vive de vender copos. Então, te assustaste? Eu sempre tive curiosidade. Mas, sem ter antes a oportunidade, nunca havia perguntado como ele vivia uma vida tão boa vendendo copos. Estando com a minha mísera adega residencial sem copos, resolvi perguntar se me venderia alguns recipientes de vidro. Ele, com um sorriso matreiro no canto da boca, respondeu-me que não vendia copos. Espantado, perguntei, como não? E ele adiantou que tinha uma equipe de vendedores, não aceitando encomendas inferiores a 500 copos. Acho que não preciso de tantos copos.

 

O mais interessante foi a aula de qualidade e técnicas de venda de copos que ele me deu. Pegando sobre a mesa quatro copos utilizados por nós durante o almoço; dois deles utilizados para tomamos duas doses de cachaça e só isto de álcool, devido a Lei Seca; e dois outros copos, onde tomamos água, demonstrou porque aquele vendido por sua empresa era o melhor. Batendo os copos que representava um contra o outro, observou que eles bateram ao meio, numa parte mais resistente e espessa. Enquanto isto os outros dois copos tocaram-se no bordo, região mais fina e frágil do copo. Disse que o argumento era infalível para o convencimento dos donos do estabelecimento. E adiantou ainda, infelizmente, aquele era um copo muito bom. Se isto ajudava a vender inicialmente os copos, por outro lado, ajudava o pessoal desastrado das cozinhas, que demoravam a quebrar os copos vendidos por ele, diminuindo as vendas de reposição desse tipo de mercadoria. E adiantou – preciso de copos quebrados para poder sobreviver.

 

Lembrei neste momento, meu caro Vidal, das nossas taças deixadas na Barraca das Ostras, e de que uma das moças, logo em nossa chegada, nos comunicou ter uma delas quebrado na viagem. Será que a taça fazia parte do “portfolio” do amigo português? Ficou a dúvida. De qualquer maneira, no próximo sábado teremos mais vinho, ostras e literatura ao vivo na última barraca do Homem e da Mulher Nus na praça da vida. Ali, onde coisas naturais estão ou nas bancadas das ostras ou presas aos meios fios da via pública, enquanto o imaginário anda solto em nossas cabeças. Apenas teremos de cuidar das doses para não ultrapassarmos os limites da Lei Seca, ou ajudar meu amigo português quebrando mais copos.

 

Ánton Passaredo

Curitiba, 2 de Julho de 2008.

 

                                                

                                               sem crédito. foto da época. ilustração do site.

 

 

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