Arquivos Diários: 9 julho, 2008

O ANTICRISTO e o BRASIL – por fabrício alves


“…eu sou, em grego, e não apenas em grego, o Anticristo…” – assim se autodefiniu Friedrich Nietzsche em Ecce Homo (De como a gente se torna o que a gente é), um dos mais conhecidos filósofos alemães da história, um crítico voraz de toda a espécie humana, da religião, da moral, e principalmente, dos alemães.

Para Nietzsche, os Alemães arrancaram da Europa as conquistas e o sentido da

última grande época, a época da Renascença, eram culpados da irracionalidade anticultural, do nacionalismo, da política caseira… criticou também Lutero por ter restabelecido a igreja, e assim, ter ajudado indiretamente a sucumbida Igreja Católica voltar com toda a força, trazendo de volta todos os seus valores morais e cristãos…

O asco de Nietzsche chegava ao extremo de, mesmo sendo filho de alemães, alegava ser judeu, apenas para se distanciar ainda mais do povo alemão, que valorizava menos suas obras literárias que os povos vizinhos. Mesmo com essa pouca influência em sua própria pátria, a maior parte da classe operária da Alemanha na época já havia lido algum livro de Nietzsche, a população tinha um nível cultural alto, destacavam-se ainda nessa época compositores, pintores e artistas respeitados em todo o mundo, como por exemplo o compositor Wagner, inicialmente um dos ídolos e posteriormente mais um objeto de críticas de Nietzsche, devido ao seu xonofobismo.

Nietzsche odiava a Alemanha.
Nietzsche nunca conheceu o Brasil.

Nietzsche provavelmente não teria conseguido reunir em um só livro todas suas críticas humanas, culturais e religiosas, caso tivesse nascido ao final do século 20, no Brasil. Faltaria espaço para descrever séculos de desvalorização da cultura, da falta de criatividade de nossos pintores, escritores, escultores, músicos, salvo meia-dúzia destes. Precisaria também de um livro especial para descrever como o brasileiro se tornou aquilo que ele realmente é: “humano, demasiado humano.”

O filósofo alemão poderia também procurar as origens dessa “Transvaloração de todos os valores” em nosso povo. Seriam os governantes os culpados? Mas não somos nós que os elegemos? Ou seria a mídia? Os veículos de comunicação através da história teriam alguma influência sobre a mente de todos nós? Ou eles apenas foram adequados a transmitir aquilo que temos capacidade de compreender?

Poderia ser ainda a falta de nacionalismo de nosso povo… Bom, se isto resolvesse algo, a Alemanha teria progredido culturalmente de uma maneira incrível durante o período do nazismo, algo que a queima de livros, a cegueira da população diante do sistema e a caça aos artistas “decadentes” não permitiram.

Onde estaria então o problema?

Nietzsche morreu após sérios problemas mentais, que o atingiram fortemente durante os seus últimos anos de vida. Talvez o “excesso” de problemas com os alemães e a sociedade da época tivesse causado isto.

Quanto tempo será que o filósofo mais crítico de toda a história sobreviveria vivendo no Brasil, e como ele aprenderia a sobreviver nessa sociedade deteriorada, violenta e aculturada?

O Brasil precisa urgentemente de um Nietzsche, não só para criticar e cobrar todas essas coisas, que já são corriqueiras, mas também para acrescentar algo realmente útil à nossa literatura, a nossa cultura e ao nosso desenvolvimento humano, nem que para isto, precise “bater” duramente em todos os pontos fracos de nosso sistema

BARATAS TONTAS & PAPAGAIOS – por darlan cunha

É de impressionar o tanto de gente que a gente vê atropelando-se nestes mistos de padaria e supermercado, sim, aquele burburinho surdo de gente comprando as novas mesmices de sempre, venenos de todos os dias, melequinhas cotidianas, folhetos e plásticos diários, sempre o mesmo ar delirante, andando e bicando isso e aquiloutro, falando no papai-celular, mamãe-célula, marido assim-assado, enfim, gente cheia de empáfia com as chaves do apertamento e do car®o, feito vespas e marimbondos, dívidas e dúvidas nas mochilas, pastas e bolsas de couro falso de jacaré, ai, e lá vou eu nessa estrada, diz a canção, e eu fico por ali, bicando uma loirinha, passando as mãos no Tempo-Rei, revendo a impressionante e repetitiva quantidade de gente pra lá e pra cá, e por isso mesmo ponho AQUI a letra desta que é uma das grandes canções do BRASIL:

POIS É… PRA QUÊ ?

(Sidney Miller, 1945-80)

 

O automóvel corre, a lembrança morre

O suor escorre e molha a calçada

Há verdade na rua, há verdade no povo

A mulher toda nua, mais nada de novo

A revolta latente que ninguém vê

E nem sabe se sente, pois é, pra quê?

 

O imposto, a conta, o bazar barato

O relógio aponta o momento exato

da morte incerta, a gravata enforca

o sapato aperta, o país exporta

E na minha porta, ninguém quer ver

Uma sombra morta, pois é, pra quê?

 

Que rapaz é esse, que estranho canto

Seu rosto é santo, seu canto é tudo

Saiu do nada, da dor fingida

desceu a estrada, subiu na vida

A menina aflita ele não quer ver

A guitarra excita, pois é, pra quê?

 

A fome, a doença, o esporte, a gincana

A praia compensa o trabalho, a semana

O chope, o cinema, o amor que atenua

O tiro no peito, o sangue na rua

A fome a doença, não sei mais porque

Que noite, que lua, meu bem, pra quê ?

 

O patrão sustenta o café, o almoço

O jornal comenta, um rapaz tão moço

O calor aumenta, a família cresce

O cientista inventa uma flor que parece

A razão mais segura pra ninguém saber

De outra flor que tortura, pois é pra quê?

 

No fim do mundo há um tesouro

Quem for primeiro carrega o ouro

A vida passa no meu cigarro

Quem tem mais pressa que arranje um carro

Pra andar ligeiro, sem ter porque

Sem ter pra onde, pois é, pra quê?

LUA poema de marilda confortim

E por falar em lua …

 

O por do sol ainda sangrava
quando no horizonte despontava
uma lua recém nascida
arrastando um umbigo prateado
sobre a placenta do mar.

Pobre luazinha!
Nascida antes da hora,
órfã das crateras,
das estrelas e madrugadas,
sem um seresteiro a espera
pra batizá-la na viola.

Pobre lua despida!
Tão desprotegida lá nas alturas!
São Jorge ainda dormindo,
bêbados e boêmios ainda sãos,
nenhum poeta assistindo
e os amantes ainda nus.

Pobre luazinha menina!
Perdida na imensidão escura
sem ter a quem dar a luz.

Como eu,
nasceu franzina,
minguada, prematura,
sem berço pra se embalar.


Ela, sem braços no além.
Eu, sem ninguém pra me abraçar.

LABORO exposição de HÉLIO LEITES, é hoje