Arquivos Diários: 10 julho, 2008

COMO SE POLUI UM RIO – por gil portugal

Em realidade, despoluir ou não poluir um rio é uma tarefa de múltiplas facetas e exige atuações postas tais quais um feixe de retas paralelas em uma mesma direção.

Em primeiro lugar, para coordenar idéias, compete definir aquilo que é, para um rio, o seu elemento ou elementos vitais, a partir de que ele será um rio “com saúde”.

Desculpem-me se, daqui para frente, passarei a escrever sobre o óbvio mas, se o farei, nada mais é que para ordenar a linha de pensamento.

Na massa d’água corrente de um rio existem um sem número de organismos vivos dos reinos vegetal e animal e em todos os graus de entrosamento. É um ecossistema. E a Natureza nos ensina que todo ecossistema tem que viver harmoniosamente.

Vejamos, para começar, o reino animal que está presente no rio. A grande maioria de seus membros, devido ao rio, sobrevive, porque ali se alimenta e respira (oxigênio) ar e por isso, eles são animais aeróbios. Se não existissem no rio alimento ou ar eles morreriam. Com isso, tira-se a primeira conclusão: o ar, isto é, o oxigênio é peça indispensável para a sobrevivência do ecossistema, da mesma forma que o alimento, como para qualquer animal, e que, neste caso é a matéria orgânica. Acontece que a respiração é a função primordial, visto que, à sua falta o animal perece de imediato, donde se conclui que o oxigênio é a matéria prima fundamental para a sobrevivência do ecossistema rio.

Basicamente, o oxigênio estará presente na massa líquida por dois processos: a diluição em contato com o ar atmosférico e a fotossíntese devida aos vegetais. E aí, podemos chegar à primeira grande conclusão: se não houver diluição de contato e fotossíntese somadas em quantidade suficiente, fornecendo oxigênio para atender a fauna, ela perecerá gradativamente, até a posição de equilíbrio com a demanda.

O animal respira oxigênio e expira CO2 (dióxido de carbono), se alimenta de matéria orgânica e a transforma em minerais; a planta absorve o CO2 e através da fotossíntese, regenera o oxigênio.

Essa teoria é límpida e certa e com ela, podemos analisar um a um os fatos que fazem “adoecer” um rio e, com isso, nominar cada reta do nosso feixe de paralelas citado. Vejamos:

Desmatamentos – A retirada de um vegetal do solo ou mesmo sua morte, enfraquecerá a resistência mecânica desse solo graças a fixação que havia pelas raízes. Ao perder essa resistência, as águas de chuva iniciam um processo de erosão que, invariavelmente, mesmo que longe do curso d’água, irá carregar para os leitos desse curso, quantidades anormais de sólidos, levando ao processo de assoreamento.

O assoreamento conduz a dois acontecimentos, um deles de caráter não ambiental propriamente dito, que é a diminuição da seção fluída e com isso, provocará alagamento extra-caixa do rio e o outro ambiental, que se dá pelo soterramento dos vegetais de fundo e inibição da penetração para eles do oxigênio, passando, aí, a ocorrer outro processo de decomposição do material orgânico soterrado – sem a presença de oxigênio – através de organismos ditos anaeróbios (que não necessitam do oxigênio dissolvido para respirarem) mas que, ao invés de darem como produto o dióxido de carbono e minerais (insumos para a fotossíntese), produzirão gases derivados de carbono e do enxofre como o metano, as mercaptanas e os gases sulfurosos, venenos para a fauna aeróbia.

Agrotóxicos – São substâncias utilizadas em plantações com a finalidade de matar organismos nocivos à saúde dessas plantações; evidentemente que, essas substâncias, mais cedo ou mais tarde, pelas chuvas, serão carreadas para um curso d’água, continuando ali seu efeito tóxico sobre outros organismos que não aqueles a que se destinavam eliminar. Tais organismos, principalmente os microorganismos, são exatamente aqueles que se encarregam de fazer a decomposição das substâncias orgânicas no seio da massa líquida e se eles estão mortos ou doentes, funcionarão como mais alimentos a serem consumidos, ao invés de transformadores de alimentos.

Adubos – São substâncias colocadas em plantações com a finalidade de abastecê-las de seus elementos vitais como o nitrogênio, o potássio e o fósforo, são as “vitaminas” da flora e estimulam seu crescimento. De uma forma ou de outra, parte desses adubos serão carregados para os rios e ali incentivarão o crescimento dos vegetais aquáticos, principalmente os minúsculos como as algas e esse crescimento exagerado fará acontecer o fenômeno de eutrofização (proliferação exagerada de vegetais) que turvará de verde as águas, dificultando a penetração de luz solar, imprescindível à fotossíntese (que é geradora de oxigênio).

 Barragens – O turbilhonamento das águas é fator que facilita a dissolução de oxigênio do ar na água. Se as águas ficam tranqüilas, caso das águas barradas, a tendência à oxigenação diminui à montante (antes) da barragem e também, fica facilitada a deposição de poluentes pesados que comprometem o ecossistema; de positivo, nesse caso, há um favorecimento na depuração das águas à jusante (depois).

Lixeiras – Uma lixeira (local de disposição de lixos domésticos, chamada lixão, aterro sanitário) deve se constituir num sistema de proteção que preveja o recolhimento dos percolados e do “chorume”, que nada mais é que um “caldo” altamente orgânico e que demandará um grande consumo de oxigênio ao chegar a um curso d’água; não se contando aí, a possibilidade do lixo conter patogênicos, se for oriundo de hospitais.

Lixos Públicos – As populações ribeirinhas têm, no geral, o costume de lançar seus lixos diretamente nos rios por suas margens; isso significa mais material orgânico a demandar oxigênio bem como, materiais biodegradáveis como metais e plásticos que se não afetam diretamente a saúde do rio, irão causar transtornos aos sistemas de captação das águas para tratamento.

Esgotos Sanitários – Está aí a causa maior da alta demanda bioquímica de oxigênio (consumo de oxigênio) de um rio. Estudos mostram que, para cada pessoa, o esgoto produzido demanda, por dia, um consumo de 54g de oxigênio das águas do rio, isso sem contar os prejuízos dos não biodegradáveis que irão influenciar, por efeito direto, na saúde da flora e da fauna.

Atividades Pastorís – A criação de animais implica numa concentração não natural de espécies e consequentemente, em conseqüência, focos concentrados de dejetos altamente orgânicos a sacrificar os cursos d’água, localizadamente.

Abatedouros – Da mesma forma, há uma concentração não natural de fontes altamente demandáveis de oxigênio nos cursos d’água, além de outros inconvenientes, como exemplo, as penas que constituem um grande transtorno de filtração primária nas estações de captação de águas para tratamento.

A Poluição Atmosférica por Particulados – A geração e lançamento ao ar de partículas pelas diversas atividades industriais têm o efeito de cobertura constante dos solos e vegetais. Tais partículas, mais cedo ou mais tarde, por efeito das chuvas, irão atingir os cursos d’água, causando efeitos de assoreamento e de turbidez.

Os Pós de Varrição – Da mesma forma, as partículas geradas nas vias públicas por veículos, principalmente, irão, mais cedo ou mais tarde, alcançar um curso d’água.

Efluentes Líquidos de Hospitais e Laboratórios – Não se tem notícias de que haja tratamentos nesses casos; isso leva, evidentemente, à poluições de caráter patogênico e químico, respectivamente.

Os Aterros Industriais – O fenômeno de lixiviação de metais nos aterros industriais, sem uma perfeita proteção do solo, infiltram para os aqüíferos subterrâneos esses metais em dissolução, terminando seu deságüe em curso d’água.

As Micro-Atividades – Oficinas, postos de gasolina, fundições, galvanoplastias, cemitérios etc. são contribuidores constantes de óleos, outros orgânicos e metais.

A Poluição Térmica – O lançamento de águas quentes num rio causará, de imediato, fenômenos localizados de desoxigenação pois, o calor favorece a dissipação do oxigênio dissolvido; além disso, a faixa de temperatura de sobrevivência de peixes e muitos microorganismos é bastante estreita e, ainda, alguns vegetais têm sua proliferação acentuada com o aumento de temperatura.

A Poluição por Tensoativos – Os sabões influenciam para desequilibrar a tensão superficial vital para espécies de animais que dela dependem para sobreviver; como exemplo a flutuação das aves aquáticas, as bolhas de ar do besouro d’água etc.

A Poluição por Potencial Hidrogeniônico – A acidez ou basicidade acentuada, fora da normalidade das águas, podem levar a mortandade de peixes, muito comum junto a despejos de usinas de açúcar de cana.

A Poluição por Valor Osmótico – O fenômeno da passagem de líquidos através de membranas semipermeáveis, na direção do menos saturado para o mais saturado, aplica-se à vida de animais acostumados ou à água doce ou à água salgada. Dessa forma, o lançamento de grande quantidade de sais em água doce é uma forma de poluição e, paradoxalmente, o lançamento de águas doces e límpidas no mar é, também, forma de poluição.

Bem, leitor, vou parar por aqui, mas queria que ficasse registrado que o assunto “saúde de um rio” é muito mais complexo do que se pensa.

Hoje, como temos assistido, a preocupação recai quase que exclusivamente nas indústrias. É mais fácil forçá-las a não poluir, porque os recursos para tal não saem de verbas públicas e as tecnologias não precisam ser pensadas por organismos públicos para que descubram aquelas de maior benefício a menor custo etc.

Com isso, apenas um dos enormes tentáculos do polvo vem sendo cuidado: a poluição devido às indústrias.

Este artigo tem a finalidade de chamar a atenção para a abrangência do assunto e se refere às formas de poluição.

Quanto à despoluição, a certeza é que, deixar de poluir é uma forma de despoluição pois, os cursos d’água são notavelmente auto-renováveis, bastando que se diminuam as causas de sua degradação para que eles se recuperem paulatinamente.

poluição no TIETÊ. sem crédito. ilustração do site.

DECURSO de PRAZO – por walmor marcellino

O que acontece quando a liberdade de falar se faz o discurso da negação social, porque assume o arbítrio e dispõe a imposição como doutrina da razão? De onde surge essa voga do maniqueísmo de estreiteza cultural e política que quer ser pensamento e conduta para todos? Das seitas políticas, civis, religiosas; de autoritários cansados, dos neófitos abismados com o corredor vazio à sua passagem?

Aos tempos da boa justa pelo necessário, em causas reconhecidas pela adversidade, sucederia por perempção o gesto desorientado, nesse destoar do grito “às armas”, “ao combate”? E, então, os espetáculos sem grandeza, as misérias pelos palcos, a embriaguez de valentias e as paródias da cavalaria ocupam as ruas, as praças, os salões e… os estapafúrdios éditos provincianos.

Entretanto, a era da resistência política, da desobediência civil para afirmação dos direitos fundamentais não passou. As causas pedem voluntários. Por que então em vez de uma boa causa um bom combatente, algumas pessoas gritam a sua inutilidade?

Sabemos que as lutas sociais vão acontecendo replicadas nas retaliações e seus paradoxos. Porém como se tornou mais difícil alertar, chamar, convocar grupos, profissões, classes, porque a sociedade do espetáculo substituiu a comunicação de massa, as lideranças de esquerda mal-cuidam de seus noviços e agregados. Daí essa turba à solta, batendo bumbo, fazendo zoadas; para pedir atenção a seu cursilho, para assumir capatazia social.

Sempre existiu: o socialismo sem integração com as massas é a sua negação; o socialismo de grupo tende ao fascismo; e mesmo as fanfarras na rua ou os repetitivos discursos na mídia eletrônica podem ser ritos de auto-complacência política e autoritarismo ideológico. Por que as causas sociais passaram a ser vigiadas, censuradas e combatidas?

O socialismo voltou ao cenário. Mas, à falta do exercício da consciente prática produtiva, social, política e cultural, certos grupamentos fazem reuniões de autodefesa sem definir do quê. E o socialismo se torna fascismo, porque o grupo é toda a linha de combate: fascio de combattimento. O social-fascismo está ocupando espaços públicos, repartições, escolas… e tenta substituir os meios de persuasão do neoliberalismo antinacional. Todavia, a inteligência o rejeitará, como a massa recusará essa nova tutela obscurantista.

O socialismo de fachada vai-se tornando agora inimigo dos avanços sociais.

ACABEI de VIRAR VEGETARIANO por luiz felipe leprevost

 

Não podei as garras da fraqueza quando pude, agora fui agarrado. 

            Desisti de olhar no relógio, toda vez me deparava com a certeza de que não uso relógio.

 

            Você não vai acreditar, eu tô por essas bandas tem quase um século. Ajudei a fundar essa cidade. Nem sei como foi que a gente inventou até cimento capaz de agarrar na neblina.

             É correta a tua reclamação, o pessoal reclama mesmo, diz que conversar comigo é coisa pra descerebrado, que ninguém entende lhufas da minha linha de raciocínio, mas você acompanha, fique calmo, vou dando esses saltos porque com a idade que tenho se eu fico apegado a detalhes a coisa não anda, é óbvio que eu poderia narrar, por exemplo, as sutilezas de um único ser humano, ou de uma única casa, mas aí… 

 

Se eu te dizer que justo essa era uma dúvida que assombrava um par de simbolistas, você não vai me acreditar, mas ninguém lhes tirava da cabeça que o Emílio de Menezes na verdade era o leão marinho Leôncio.

            Eu tô dizendo, piá, era um tempo aquele em que as línguas dançavam geadas.

            Sempre que alguém entrava no elevador vinha aquela frase preciso de um amor que me aborreça.

            Nalgum momento, nalguma daquelas ruas de paralelepípedos os cidadãos poderiam presenciar o famoso Bloco Carnavalesco Crueldade Social passando. 

            Eu tava te contando, iam já os meus 83 anos e resolvi treinar jiu-jitsu, foi então que se me deu a revelação: apenas 1% dos praticantes tem cérebro, os restantes são cartilagem e inchaço.

            Umas coisas que dá ganas na gente de vomitar, pois que o alimento vomitado é a escultura da necessidade, já que é suja e fétida, esterco nossa alma.

 

Ôô do balcão, mais dois risoles aqui, e duas Fanta Laranja, pra mim e pra esse bom-papo que tá comigo.

            Uma coisa é pouco discutível, a coisa de que sem dor o homem acaba, é onda que quebra pra fora de si mesma.

            Devo me animar? Disseram que parece que o Banco Geral de Gélida tá com um bom plano pra pedintes, mas só os que tem limite superior a três mil no cheque especial.

 

            Veja bem, mocinho, eu sou professor de formação, lecionei minha vida toda, catedrático da Universidade e tudo, mesmo assim posso afirmar que só sei aquilo que sei. E só eu sei aquilo que eu não sei.

            Nossa mãe do céu, eu fico pensando em tanta coisa que nem sei. Você tem namorada? Não…? Mas um moço assim tão vistoso que nem você, tinha que ter uns rabinho de saia…

            Olha, e vou te dizer uma coisa, na minha opinião, amor não correspondido é doença psicossomática.

            Aliás, permita-me reformular: na minha opinião, amor não correspondido não é amor.

            Ou até, pensando melhor, acho que só é amor quando a realidade perde a insignificância, entende?

            Engraçado, o amor tem ouvido absoluto, mas é surdo a certos chamados.

            Agora se me confundiu tudo, ai ai ai, preciso pensar.

            Perdoe-me ter chegado ao ponto de até parar pra pensar. Perdoe isso também de colocar a mão no queixo assim igual O Pensador, perdoe, são os velhos hábitos. Perdoe, mas é que tô quebrando a cachola aqui com um questionamento: E se o amor for uma pedra maciça com um oco por dentro?

            Eu sei, eu sei, mas a questão é: você pode amar muito alguém hoje e noutro dia amar muito outra pessoa, na mesma intensidade, entende?, e não precisa ser necessariamente o teu cachorro.

            Quer comer alguma coisa?, o amor, digo, papo sobre essas coisas, aliás, papo a respeito de qualquer coisa dá fome. Quer um risoles? Não. Eu quero: Ôô do balcão, você mesmo aí de branco tentando enganar que é enfermeiro, traz pra mim outra Fanta Laranja e um risoles, dessa vez de queijo, que eu acabei de virar vegetariano.

 

Você é vegetariano? Não. Eu tava começando a querer ser, mas você não sendo, então eu desisto também.

            Parece que o pessoal votou uma lei aí em relação ao gado. Deve tá dando o maior pepino, porque claro que os deputados que querem aprovar não tem fazenda de gado, e os que não querem aprovar têm fazenda de gado, então como é que fica, né?

            Agora que a gente vai ver quantas cabeças de gado existe na fazenda do Governador.

            Não sou muito de falar de política, mas você é piá novo, sabe quem é o Prefeito de Gélida? Sabe? E o Governador do Estado? Claro que sabe.

            Péssimo III é o nosso Prefeito, e é inimigo de morte de Péssimo II, que é o Governador, que era inimigo de morte de Péssimo I.

             Alguns acharam uma lástima que Péssimo I tivesse morrido, é que naquele ano ele tava cotado pro Prêmio Nobel da Corrupção.

            Não, eu não, nunca fui político, não me interessava ser, e nem hoje me interessa. Mas certa ocasião oportunizou-se a mim a feitura de um discurso bem no meio da Praça Nomeiodonada, não sei bem por quais feitos, ocorreu que subi à tribuna e comecei (falando de mim na terceira pessoa como gostam os políticos): Agradecemos com sinceros votos de grata gratidão 1º os nossos filhos da puta, depois os vossos filhos da puta. Nem bem iniciara a explanação, sei lá porque cargas d´água, os seguranças me chutaram palanque à baixo.

 

Mas não vamos falar de mim. Você por acaso é bombeiro, meu rapaz?, não? Por nada, é que as vezes me vem ao pensamento isso de achar que nós humanos como deveríamos vir com aquelas portas antipânico dentro da gente.

           Por algum acaso você, assim, não trabalha na televisão? Não, né. Suspeite. É que te achei parecido com sujeitinho lá do canal 667.

            É mesmo, você está acobertado de razão, trabalhar na televisão é uma coisa ingrata. Quem é que lembra do pintinho amarelinho do Gugu?

 

Por outro lado, a televisão enriqueceu muita gente, menos a maioria dos atores.

            Agora, nós que não éramos atores nem maioria… era impressionante, eles vinham e te esfregavam dólares na cara.

            Aqueles que diziam sim, eu gosto de dinheiro!, esses com certeza ficaram mais ricos que muitos outros que pareciam incapazes de dizer sentença tão simples. 

            Ganhei tanto dinheiro que chegou um momento da minha vida que notas e moedas jorravam da palma da minha mão, era assim, eu abria a mão e dinheiro, mais ou menos como acontece com o homem-aranha, mas comigo era dinheiro.

 

Um belo dia, aliás, num péssimo dia, a fonte secou, mas restou essa mancha aqui, lembrança de tempos do quando fui alguém, só essa marca, com a qual sou obrigado a conviver.

            No começo não era assim, eu esfregava, esfregava, arranhava, rasgava e a mancha não saia.

            O fato é que, graças a essa desgraça aqui, transformei-me a mim num belo hipocondríaco.

            Eu tava acabado, mesmo, sem dinheiro e sem amor, sozinho e mal- acompanhado.

             Foi quando soube que às vezes cresce lágrimas no nosso rosto no lugar da barba.

             Eu achava que tinha todas as enfermidades da humanidade, ficava muito nervoso, gritava frases que não me diziam respeito: Que adianta ser dono duma mansão de frente pro mar estando na fila de transplante de fígado?

             E, no entanto, apesar de acabado, sem dinheiro e sem amor, sozinho e mal-acompanhado, hipocondríaco, achando que guardava todas as penúrias humanas, nervoso etc, ao bem da verdade, devo admitir, jamais tive doença que não fosse uma mera gripe passageira. 

 

A questão primordial, meu rapaz, é: como viver num lugar sem portas? Não tem idéia, né? Pois deixe que eu responda: sozinho.

            Uma coisa que me parece imperdoável no ser humana é isso de se acreditar triste, de modo que passa a enxergar nos outros a sua tristeza, e chega a ficar ofendido se não identificam-lhe o mesmo.

 

E essa bonitinha aí, quem é? Sua amiga? Aposto que é a sensação da Rua dos Pingüins Tristonhos. Ela parece ser dessas que passa e a piazada não consegue movimentar um miligrama de pálpebras, que é pra não desgrudar os olhos. 

            Seja bem-vinda, lindinha. Que tal um risoles com Fanta Laranja?

 

“governo medíocre de Brasilia” CAÇA poemas publicados – pela editoria

poetas de Brasília protestaram, ontem, contra a retirada de poemas que se encontravam em pontos de ônibus, gravados em placas de aço. a idéia era que a população pudesse ler poesia enquanto esperasse o seu transporte, nada poético. entretanto, o governo daquele “senhor” que “cassou” o gerúndio da lingua falada na capital, lembram? que ficou assim: de “estamos roubando”  para “já roubamos“, resolveu agora retirar os poemas. Brasília é um outro mundo, diferente daquele em que vivem a totalidade dos brasileiros. lá a farra do boi, da pizza, da champanhota, dos bacanais, dos dólares nas cuecas e calcinhas, dólares em armários, da orgia, são permanentes. lá,  não há nada mais a fazer, segundo o governo daquele “senhor” que foi cassado pelo senado (sic) por “falta de decôro”, a não ser eliminar o gerúndio e retirar os poemas das ruas. está aberta a temporada de adivinhação para a próxima medida do brilhante governo, eu começo achando  que será a troca do sofá-cama do gabinete!

 

recebam poetas brasiliensis a SOLIDARIEDADE PLENA dos PALAVREIROS da HORA e deste site pela ação imediata que tomaram de cimentar poemas nas calçadas. o povo brasileiro, pelos sofrimentos que passa, merece caminhar sobre a poesia feita pela sua gente.