Arquivos Diários: 11 julho, 2008

ARTE de BOTEQUIM – por thomás levy

Como um poeta sem produção pôde influenciar uma geração? Em conversas de bar!

 

 

Em um clima de descontração, Humberto Werneck, Xico Sá e Paulo Roberto Pires se sentaram no palco principal da Flip. O nome da mesa era sugestivo: conversa de botequim. “Não tem whiskey?”, indagou Xico Sá, desapontado com a liberdade que tomaram com o termo “botequim”. Regados à água, o assunto da mesa logo foi definido: Jayme Ovalle.

Um poeta, músico e escritor que influenciou grandes nomes da literatura brasileira, entre os quais estão Mario de Andrade e Manuel Bandeira. Isso nos faz imaginar que ele é um autor de extensas obras, que deixou uma tradição técnica admirável. Humberto Werneck escreveu um livro sobre este homem, e logo quebra essa errônea concepção.

Tive acesso a um baú com seus escritos. Cerca de 40 poemas, ruins, um livro escrito em um inglês macarrônico e 33 partituras de músicas curtíssimas.” Como então ele pôde ser tão importante?

Ele era um grande artista sem educação formal. Era dono de uma capacidade narrativa ímpar, mas não tinha como externar sua arte. Usava então a mesa de bar para contar suas anedotas, e assim influenciou uma geração de escritores que ouvia o que ele tinha a dizer e se deixaram moldar por suas palavras.”

 

Ainda sim, suas anedotas decoraram muito da literatura brasileira. Sem escrever, ele se tornou um personagem que, com muitos amores, muitos problemas e muitas loucuras deu uma cara nova à personalidade brasileira.

Conversa de bar é arte? Se bem usada, sim! Xico Sá aproveitou esse tema para criticar A Folha de São Paulo pela matéria que publicou no dia da abertura da Flip, na qual afirmou que esse evento não era tão bom quanto os outros por carecer de autores premiados.

Se formos acreditar n’A Folha, nem estamos aqui. Não temos ganhadores de pulitzers ou nobels nessa mesa, então não existimos (risos). É ridículo tentar existir à base de prêmios, tentar julgar a literatura com coisas como essa.”

O livro de Werneck se chama “O Santo Sujo”, e foi lançado pela CosacNaify.

 

TAJ MAHAL, A MARAVILHA – pela editoria

 

Umas das 7 maravilhas do mundo, praticamente todos já o viram em inúmeras fotografias, mas o que poucos sabem, é a história que está por detraz deste inigualável monumento. O Taj Mahal, é não mais do que uma ode ao amor e representa toda a eloquência que este sentimento pode ser. Durante séculos, o Taj Mahal inspirou poetas, pintores e músicos que tentaram capturar a sua magia em palavras, cores e música. Viajantes cruzaram continentes inteiros para ver esta esplendorosa beleza, sendo poucos os que lhe ficaram indiferentes.

Como todas as histórias, esta também começa da mesma maneira… Era uma vez um príncipe chamado Kurram que se enamorou por uma princesa aos 15 anos de idade. Reza a história que se cruzaram acidentalmente mas seus destinos ficaram unidos para todo o sempre. Após uma espera de 5 anos, durante os quais não se puderam ver uma única vez, a cerimónia do casamento teve lugar do ano de 1612, na qual o imperador a rebaptizou de Mumtaz Mahal ou “A eleita do palácio”. O Príncipe, foi coroado em 1628 com o nome Shah Jahan, “O Rei do mundo” e governou em paz.

Quis o destino que Mumtaz não fosse rainha por muito tempo. Ao dar à luz o 14º filho de Shah Jahan, morreu aos 39 anos em 1631. O Imperador ficou tremendamente desgostoso e inconsolável e, segundo crónicas posteriores, toda a corte chorou a morte da rainha durante 2 anos. Durante esse período, não houve música, festas ou celebrações de espécie alguma em todo o reino.

Shah Jahan ordenou então que fosse construído um monumento sem igual, para que o mundo jamais pudesse esquecer. Não se sabe ao certo quem foi o arquitecto, mas reuniram-se em Agra as maiores riquezas do mundo. O mármore fino e branco das pedreiras locais, Jade e cristal da China, Turquesa do Tibet, Lapis Lazulis do Afeganistão, Ágatas do Yemen, Safiras do Ceilão, Ametistas da Pérsia, Corais da Arábia Saudita, Quartzo dos Himalaias, Ambar do Oceano Índico.

Surge assim o Taj Mahal. O seu nome é uma variação curta de Mumtaz Mahal.. o nome da mulher cuja a memória preserva. O nome “Taj”, é de origem Persa, que significa Coroa. “Mahal” é arábico e significa lugar. Devidamente enquadrado num jardim simétrico, tipicamente muçulmano, dividido em quadrados iguais cruzado por um canal ladeado de ciprestes onde se reflecte a sua imagem mais imponente. Por dentro, o mausoléu é também impressionante e deslumbrante. Na penumbra, a câmara mortuária está rodeada por finas paredes de mármore incrustado com pedras preciosas que forma uma cortina de milhares de cores. A sonoridade do interior, amplo e elevado é triste e misterioso, como um eco que soa e ressoa sem nunca se deter.

Sobre o edifício surge uma cúpula esplendorosa, que é a coroa do Taj Mahal. Esta é rodeada por quatro cúpulas mais pequenas, e nos extremos da plataforma sobressaem quatro torres que foram construídas com uma pequena inclinação, para que em caso de desabamento, nunca caiam sobre o edifício principal.

Os arabescos exteriores são desenhos muçulmanos de pedras semi preciosas incrustadas no mármore branco, segundo uma técnica Italiana utilizada pelos artesãos hindus. Estas incrustações eram feitas com tamanha precisão que as juntas somente se distinguem à lupa. Uma flor de apenas sete centímetros quadrados, pode ter até 60 incrustações distintas. O rendilhado das janelas foi trabalhado a partir de blocos de mármore maciço.

Diz-se que o imperador Shah Jahan queria construir também o seu próprio mausoléu. Este seria do outro lado do rio. Muito mais deslumbrante, muito mais caro, todo em mármore preto, que seria posteriormente unido com o Taj Mahal através de uma ponte de ouro. Tal empreendimento nunca chegou a ser levado a cabo. Após perder o poder, o imperador foi encarcerado no seu palácio e, a partir dos seus alojamentos, contemplou a sua grande obra até à morte. O Taj Mahal foi, por fim, o refúgio eterno de Shah Jahan e Mumtaz Mahal. Posteriormente, o imperador foi sepultado ao lado da sua esposa, sendo esta a única quebra na perfeita simetria de todo o complexo do Taj Mahal.

Após quase quatro séculos, milhões de visitantes continuam a reter a sua aura romântica… o Taj Mahal, será para todo o sempre uma lágrima solitária no tempo.

O EDUCADOR e IDÉIA DE CÃO – mini contos de raimundo rolim

O educador

 

O acinte era evidente! O homem estava mesmo disposto a criar o caos. Não conseguia ouvir uma única frase inteira e já revidava em seguida. E o que era para ser pensado, temperado, medido e sopesado, postergava-se para uma possível outra ação. E gritava ele com os punhos cerrados, que a bancarrota espreitava cada movimento ali presente e que certamente, nenhum elétron se manifestaria por um descuido de inconsistência química. Que seguiria, por conseguinte, as ondulações sonoras de cada vogal pronunciada com veemência e sem objetivo real próximo; nem que fosse por alguns instantes. Consoantes, nem pensar! Estas seriam duras demais para o tenro momento. Ufa! disse o homem. A discussão teve de ser finalmente suspensa com a chegada do corpo de bombeiros, polícia, batalhão de choque e um sem número de repórteres que vieram acudir e cobrir o Primeiro Simpósio da Educação Moderna e Inteligente dos Humanos que Restavam Após o Centésimo Nono Encontro Depois da Puta Que o Pariu. Era uma sigla grande, quase portentosa. O desentendimento foi absolutamente descabido.  Foi o escambau.

 

Idéia de cão

 

O cachorro latiu três vezes e esperou que seu dono aparecesse. Faltava ao cão, o prato de comida matinal, composto de ração farta e dieteticamente equilibrada. Latiu de novo e mais uma vez. Aí achou que deveria ficar latindo, pois nada mudava no cenário. O sol já ia alto e nada. O estúpido animal bem que pensou que seu dono tivesse morrido de indigestão, por ter ele mesmo ingerido a comida que lhe preparava todos os bons e santificados dias. E foi o que aconteceu ou quase! O homem acordara muito bem disposto, além de otimamente humorado, só que com idéias caninas! Mas, faltou-lhe suco gástrico suficiente para digerir o enorme osso que, distraído, enfiara goela adentro, entalando-se. O seu melhor amigo que também estava inspirado e muito, muito famélico, veio rápido em seu encalço. Socorreu-o tomando-lhe da boca esgarçada o osso que ficara com uma ponta para fora. Meteu o focinho por debaixo das arcadas dentárias e puxou forte. Salvara a ambos de morte certa.

 

 

VOLÚPIA poema de florbela espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frêmito vibrante de ansiedade,
Dou-te meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A nuvem que arrastou o vento norte…
– Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…

Ou te amo ou sou covarde ou demente – poema de tonicato miranda

Preciso te amar desesperadamente

do mesmo jeito como a gripe precisa do inverno

Preciso te amar como quem vai para o inferno

Desejo tuas mãos, teu corpo, tua pele, quero te ter com febre e arder

Preciso te amar como um demente

 

Desejo te amar e dizer bobagens tolas

rir da nossa imagem refletida nos espelhos

sentar-te tranqüila e nua sobre meus joelhos

Desejo tuas mãos, teu corpo, quero te comer com pimenta e arder

Preciso das minhas mãos loucas

 

Quero passear minhas mãos sobre tuas curvas

da mesma forma como passeio com minha bicicleta

deslizando sem preocupação com a rota mais certa

Tu pedalando dentro de mim e ao meu lado, minh’alma a arder

Nossas pedaladas a caminho de cavernas e furnas

 

Mas nossas mãos estão distantes

nossos olhares e mares barrados por um continente

Ah meu Deus, quanta terra, pra quê?

Pra quê tanto céu e mar, para quê?

Queria a memória dos elefantes

jamais esquecer dos caminhos

das curvas do teu corpo, das lágrimas do teu olhar

sempre chorando, mesmo quando estão sorrindo.

 

Preciso te amar desesperadamente

Em meio às Águas de Julho que anunciam tempos de frios

Preciso me abrigar no teu colo e tremer meus brios

Desejo tuas mãos, teu corpo, tua pele, quero ter febre e com ela arder

para espantar estes ares gelados que vem de terras mais ao sul

 

Teu corpo está distante daqui

tremendo, temo experimentar tua noite, aportar na tua enseada

deixar meu barco marejar e balançar, balançar

no vai e vem do teu olhar e do teu corpo, a balançar

sem saber o que tua boca fala ou me diz

caminhar sobre tua paisagem de dunas

jogar sobre tua barriga um jogo de runas

descobrir um tempo único que já veio e logo irá para nunca mais

 

Preciso te amar desesperadamente

Por uma única e vitoriosa vez neste inverno

alimentando fogueiras do meu próprio inferno

Desejo teus fluídos, teus murmúrios e os marulhos em meus ouvidos, a arder

Para não levar além vida a tristeza de não saber se te amei realmente, fui covarde ou demente

 

…e dá-se que de novo lê-se Ulisses – por ivo barroso

O much ado que se vem fazendo a propósito de uma nova tradução do Ulisses suscita de imediato a pergunta: é melhor que a anterior? ou — mais categoricamente — vale a pena fazer-se uma nova tradução do Ulisses?

Quanto à última, a resposta será sempre positiva: toda grande obra merece ser retraduzida de tempos em tempos, atendendo-se à própria evolução da língua, à modernização do entendimento do tradutor em face dos novos estudos e análises que surgem entre uma e outra tentativa. Em benefício do leitor, sonha-se que a nova tradução deva ser sempre melhor, superior à antecedente, por um motivo ou outro. Tal é a expectativa que vem ocorrendo em relação ao trabalho de Bernardina da Silveira Pinheiro, que a Objetiva acaba de lançar em comemoração do 101º aniversário do Bloomsday.

A tradução anterior do Ulisses, feita por Antônio Houaiss, deveu-se a uma série de circunstâncias que se conjugaram: a um gesto mecênico de Ênio da Silveira, que procurou assegurar ao tradutor num momento difícil um estipêndio condigno (Houaiss tinha sido cassado do Itamaraty e passava por problemas de saúde na família); ao fato de ser este, na ocasião, o único escritor com uma “linguagem adequada” para a transposição do texto joyciano; e à necessidade editorial de se lançar no Brasil um livro reconhecidamente fundamental para todas as literaturas e que nos chegava com um atraso de 43 anos.

Momento estelar na história da tradução brasileira, o Ulisses foi um trabalho pioneiro em que o erudito professor Antônio Houaiss desbastou, ao longo de um ano, a “pedreira joyciana”, criando em português uma linguagem-padrão, equivalente às ousadias semânticas do original. Quando de sua publicação, o crítico e tradutor paulista Augusto de Campos — seguramente uma das maiores autoridades na obra de Joyce no Brasil — escreveu uma série de artigos, posteriormente reunidos no livro Panaroma do Finnegans Wake (editora Perspectiva, 1971) em que analisava minuciosamente as soluções apresentadas por Houaiss, apontando passagens ou palavras para as quais sugeria outras soluções. O trabalho de Augusto de Campos vinha reforçar a assertiva de que a única maneira honesta de se criticar uma tradução é mostrando como se faria no caso específico. Houaiss, de bom grado, incorporou várias de suas sugestões em edições posteriores da obra. Também o tradutor Millor Fernandes contestou, em especial, a tradução da palavra final do monólogo de Molly (yes), que Houaiss traduzira por “sins”, no plural, e que para Millor deveria ser algo como “É!” ou “Eu vou!”, por entender que a palavra ali representava um grito de orgasmo.

Sobre a importância da obra há quase unanimidade nos meios intelectuais; chega-se mesmo a considerá-la um divisor de águas, a conquista de um patamar inultrapassável na técnica narrativa, o modelo-princeps a que estaria submetida toda a produção ficcional que viesse depois. Em 1956, a 34 anos de seu aparecimento inicial na França, surge no Brasil um fenômeno estilístico semelhante: João Guimarães Rosa, que já surpreendera a crítica em 1937 com a coleção de contos intitulada Sagarana, lança o romance Grande sertão: veredas que parecia, em termos nacionais, destinado a marcar, como Ulisses, o modelo absoluto da prosa vindoura. Mas a verdade é que, passado o efeito devastador da tsunami joiciana (bem como o da pororoca vimaranense), as populações ribeirinhas da literatura mundial (e nacional) voltaram a construir seus enredos com os destroços do mesmo material que haviam herdado das literaturas clássicas, não-revolucionárias. E hoje, em parte alguma do mundo (ou do Brasil) pode-se encontrar quem esteja escrevendo à Joyce ou à Rosa, não obstante a contribuição de ambos para a renovação dos estilos literários.

Quanto à adequação do trabalho transpositivo de Houaiss, não obstante ter sido considerado o right man para um feito daquela envergadura, houve certa ironia subjacente por parte de alguns que já se arrepiavam com seu “estilo cipó”, vendo no texto em português uma extrapolação das dificuldades do original. É certo que Houaiss, após dominar a técnica joyciana da “palavra-amálgama”, aplicou-a em muitos trechos em que ela não aparecia em inglês, mas que se prestavam para aquele tipo de “sanfonamento” em nosso idioma, lançando mão de uma técnica compensatória de que se valem não raro os bons tradutores, talvez para enfatizar o “stil nuovo” joyciano. Seu Ulisses foi bem-vindo por todos os apreciadores de Joyce que não sabiam inglês e chegou mesmo a alcançar uma parte do público acostumado a ler tudo o que está na moda. Tornou-se um “sucesso de estima”, prerrogativa dos “unhappy few”, auto-flagelação dos sísifos literários capazes de carregar esta pedra até a página 846, embora o “leitor da moda”, como é sabido, não tenha conseguido ultrapassar uma trintena delas.

A nova tradução, devida à professora Bernardina da Silveira Pinheiro, a que vinha se dedicando há 9 anos, profunda conhecedora da vida e da obra de James Joyce, de quem já traduzira O Retrato do Artista Quando Jovem — chegou precedida das informações de que ela se divertira muito enquanto executava seu trabalho e nele havia preservado o coloquialismo e a musicalidade que permeia a obra joyciana. A leitura comparada das duas traduções revela, desde o início, que a linguagem de Bernardina é menos erudita, menos rebuscada que a de Houaiss, e seu coloquialismo procura estar a passo com o linguajar atual. Isso não quer dizer que a obra se tenha tornado menos complexa, mais compreensível.

O perigo dessa facilitação seria transformar o texto numa espécie de “livro condensado”, à maneira Digest, com todas as arestas devidamente polidas para atender à ignorância do leitor. Felizmente, isso não acontece, e se, em muitas passagens parece que o texto de Houaiss sofreu apenas um copidesque, com a mudança ocasional de uma palavra arrepiada por outra mais lisa — vê-se em seguida que a tradutora teve o critério de traduzir de costas voltadas para o precedente: as soluções são dela própria, por mais que se possa argüir contra sua propriedade ou funcionamento. No prefácio, há de fato uma insistência quanto à musicalidade da prosa joyciana (não esquecer que ele começou como poeta, num sintomático Música de Câmara). Essa musicalidade dificilmente poderia ser preservada em português na transposição de monossílabos seqüenciais que não temos, aliterações que não podemos fazer, etc. Em alguns trechos é possível dizer-se que Houaiss foi mais feliz em captar essa “música” ao submeter a frase quase a uma contagem métrica. Mas, a nova tradutora também se esforçou para obter efeitos à sua maneira.

Intraduzíveis são os jogos de palavra, os trocadilhos, as deformações léxicas, que não funcionam quando transpostos à risca ou se alheiam inteiramente do contexto quando substituídos por improváveis equivalências. Desta forma, grande parte do divertimento da tradutora teria que ficar na leitura do original, prática recomendável àqueles que conhecem inglês. Na tentativa de permanecer fiel ao texto, preservando-lhe supostamente todas as nuances, a tradutora chegou a afirmar que em certas passagens errou de propósito na composição da frase em português para corresponder aos intencionais deslizes de Joyce que constavam do original. Contudo, aqui parece que Bernardina incidiu na mesma tentação de Houaiss em criar mais do que lá estava, pois seria pouco provável que Joyce, se escrevesse em português, cometesse frases como “Parado, ele perscrutou”, “Solenemente ele avançou”, “ele se inclinou a ele”, “Ele raspou”, “ele esbravejou” [capítulo inicial], em que o pronome, indispensável em inglês, é de praxe omitido em português, em proveito da elegância da frase, por estar subentendido na flexão verbal. Igualmente, na escolha de certas palavras (como “fazer um banzé”, para traduzir give him a ragging), é de crer que Joyce tivesse usado sinônimos mais em sintonia com o tom da frase (como, por exemplo, “dar um pito” “passar um sabão”), igualmente coloquiais, mas não tão pés-na-cozinha.

Haverá inúmeros trechos, sem dúvida, em que a nova tradutora terá sido mais legível que o antigo mestre, seja pela solução vocabular mais imediata, menos arcaizante, seja buscando uma expressão mais próxima da forma léxica empregada por Joyce e não de suas intenções estilísticas. Também é certo, como já previa Houaiss, que outras traduções venham a surgir depois desta. A de João Palma Ferreira, em Portugal, data de 1989. Sabe-se que o professor Caetano Galindo, da Universidade do Paraná, já tem a sua em adiantado estado de gestação. É possível até mesmo que, na tentativa de popularização do Ulisses, surja mais tarde uma tradução cheia de plebeísmos como “cara”, “eu lhe vi”, “o livro que eu mais gosto”, “essa semana”, etc. Contudo, o problema não está na tradução, mas no livro em si: eis uma obra a ser lida por escritores, não para lhe imitarem o estilo, mas para conhecerem as audácias estilísticas que um autor de gênio pode conceber. Nenhuma publicidade ou facilitação será capaz de transformar Ulisses em um novo Código da Vinci.

ASSÉDIO MORAL NA ESCOLA – por josé dagostim

O assédio moral é a melhor definição para o bullying. A sociedade com o advento da manifestação sombria do patriarcado, alimenta-se do capitalismo, assim, o homem se caracteriza pelo forte antropocentrismo coletivo, baliza para o comportamento individual, uma analogia a neoplasia mórbida.

A escola acha-se fortemente corrompida por um padrão fragmentado que valoriza: quantidade, regra, dogma, padrão e a ciência. Tudo dentro das sombras pragmáticas da receita; uma negação da diversidade. Sonegação da individualidade interior e os diversos padrões que se manifestam nos comportamentos existentes em cada ser humano.

Ao identificar os quatros arquétipos principais e seus sub-arquétipos C.G.Jung nos deixou a base da estrutura profunda da psique humana: visão, pensamento, sensibilidade e sensação. O tipo visionário se caracteriza pela personalidade pioneira e destaca-se pela excentricidade e a bondade, o tipo pensamento se caracteriza pela coragem e decisão tendo como ponto forte a comunicação imparcial, o tipo sensível se caracteriza pela percepção dos acontecimentos; a sabedoria e o tipo sensação pelo pragmatismo; os cinco sentidos e a paixão pela vida.

Dentro de cada estudante encontram-se todos estes padrões, mas, sempre um é que se destaca, enquanto os demais se manifestam inconscientemente. Falta aos educadores sensibilidade (sabedoria) para identificar o padrão de cada estudante e tencionar (trazer para a consciência) a vocação, dentro do padrão predominante e equilibrar os demais padrões.

A escola atual identifica-se com um padrão e marginaliza os demais, ocasionando desequilibro interno e externo. O dano à sociedade se percebe na desestruturação da psique humana e materializa-se no assédio moral (bullying).

Somos parte da unidade que clama!