Arquivos Diários: 13 julho, 2008

ROCHEDO poema de zuleika dos reis

                                              

 

Tecido esgarçado

réstia de sol

pedaço de lua

rochedo

algo a ser arrancado do corpo

algo não lhe pertencido.

 

Ar que entra

que sai

pensamento expulso

moscas

tudo sobre suspeita.

 

Véu desta idéia:

tua vida.

Face obscura:

tua vida.

 

Pólo sul.

Pólo norte.

A lua não sabe

nunca saberá.

Não apontes para a lua.

 

Dedos de corte arredondado

conformes aos portos conhecidos.

Sonda o invisível.

Sonda o visível.

Caminha sentindo o que for nascendo.

Ama os fragmentos sílabas vestígios

de um pássaro rápido demais.

 

Do que terá sido este tremor nas mãos?

 

Cala o que sentes

do que ainda te pertence:

o quase nada da brisa.

 

Esta árvore

esta quase saudade esgueirada súbita

lagartixa

palavra que se repete imóvel

pedra.

 

Deixa girar o mundo vertigem

rochedo a ser arrancado do corpo

mundo verde

onde todas as vidas vivem

sobretudo as incompreensíveis.

 

O amor sem manual de instruções.

Continua jogando sem parceiro.

 

Consola-te:

Em algum tempo do mundo

alguém sonha sonho igual.

Consola-te:

Em nenhum tempo do mundo

ninguém sonha sonho igual.

 

Tudo o mesmo

se não,

algo é acrescentado…suprimido?

Um rochedo a ser arrancado do corpo

um rochedo que não te pertence.

 

Teus parceiros invisíveis

teus parceiros visíveis

todos deuses

sem Escrituras nem garantias.

 

No entanto houve uma Voz…

No entanto ouve uma Voz…

 

Carrega, impassível,

os segredos dos teus parceiros.

 

Os Numes não têm nome

número

data de nascimento

carteira de identidade.

Os Numes não estão nas estatísticas.

 

O sabor deste momento não te sabe.

Há Eras desconheces as ciências.

Que oração te devolve o Ser?

 

A pedra despenca

no fundo do lago.

A fogueira arde

no centro da noite.

As máscaras não convencem.

 

Caminhas pelos emaranhados das árvores

as doenças da tua identidade.

 

Um rochedo a ser arrancado do corpo.

Água que não houve

e se houve não persiste

e se persiste

não sabes onde.

 

Os parques de dentro, encarquilhados.

 

No momento em que nasceste

começaste a usurpar teu trono próprio.

 

O rochedo arrancado do corpo

bolhas de sabão do pensamento

segundo da Voz

tão nítido!

Círculos na água: a pedra afunda.

Amor? Ah…amor…

VATE poema de erly welton

 

essa língua minha

linha que sempre esqueço

é a única que desconheço

 

essa minha língua estranha

só fala mesmo o que minto

pois quando meu verbo assanha

não consegue dizer o que sinto

 

não é viva a minha língua

nem morta ou moribunda

ela volta sempre que digo siga

arreia as calças e mostra a funda

 

teimosa em confundir a rima

essa minha língua vagabunda

de impronunciáveis dialetos

áreas amplas, vales profundos

 

signo-língua minha

de consoantes no papel

são vogais de muitas tribos

onde a palavra ainda morreu

 

ruas violentas, arquivos secretos

se insiste e exige a verdade

o resultado é sempre sangrento

ou vate

 

Vate

substantivo de dois gêneros
1    indivíduo que faz vaticínio, predição; profeta, vidente
2    aquele que cria ou escreve poesia; poeta
Etimologia
lat. vátes ou vátis,is ‘adivinho, oráculo; agoureiro; profeta, vidente; poeta, vate; mestre (em uma arte)’; ver vat(i)-