Arquivos Diários: 14 julho, 2008

JAYME OVALLE por claudio leal

 

Mire só: um homem de monóculo enamora-se por uma pomba, cria um macaco em seu apartamento londrino, deseja reescrever a Bíblia, conversa com Deus, oferece uma batida ao Anjo Gabriel, mas este, relata, não quis sequer um uisquinho; o citado senhor sustenta que já esteve no céu e, quando deseja fazer prevalecer sua opinião, ameaça ao amigo: “Quer que eu chore?”.

No mundo do leitor, Jayme Ovalle (1894-1955), esse cavalheiro de monóculo – poeta, músico e místico – já teria caído na malha médica ou vestido outra malha ainda mais fina, a camisa-de-força. Na primeira metade do século 20, porém, as improváveis loucuras de Ovalle inspiravam afrescos literários de Manuel Bandeira, Mario de Andrade, Dante Milano, Vinicius de Moraes, Augusto Frederico Schmidt, Olegário Mariano, Murilo Mendes, Fernando Sabino, Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade, para ficarmos nos escritores. Um músico? Villa-Lobos.

Esse espírito indecifrável renasce em vísceras na biografia O Santo Sujo – A vida de Jayme Ovalle (Ed. CosacNaify), do jornalista Humberto Werneck. Não há apenas a reunião dos cacos da personalidade ovalliana. Com êxito idêntico ao de seu livro O desatino da rapaziada: jornalistas e escritores em Minas Gerais, o biógrafo descortina o elenco da vida boêmia, o sangue e o vinho derramados nos bares, o vasto universo de ovalles em torno do Ovalle mais candente. Antes que a história corra, registre-se o poder narrativo de Werneck, pleno de iluminações e com português bom à beça.

A influência de Ovalle em escritores canonizados é marcada por estranhezas. Nascido em Belém do Pará, chegado ao Rio em 1911, “o místico” teve uma formação cultural precária e desordenada, deficiência patente nos garranchos de sua caligrafia e na dificuldade de expressar, em linguagem escrita, a poesia exalada na oralidade. Traço de alma identificado por Mário de Andrade ainda em 1926, em carta a Manuel Bandeira: “A incapacidade de criação dele é fantástica”.

Ovalle deixou duas obras, ambas não-publicadas em vida: Poemas ingleses e The Foolish Bird – este último reescrito em inglês pela esposa, a romancista americana Virginia Peckham. Duas obras germinadas na Inglaterra, onde trabalhou por quatro anos, na década de 30. A última, ditada a uma secretária inglesa, com os óbvios conflitos de entendimento. “Artista praticamente sem obra, é espantoso que Jayme Ovalle tenha deixado marca tão funda e tão reconhecível na criação de outros (…) não só pelos achados poéticos e espirituosos que cravejavam sua conversação, como por simplestemente existir, extraordinário personagem que era”, analisa o biógrafo.

 

Casamento de Jayme Ovalle: da esquerda para a direita, Murilo Mendes, Anibal Machado, Ovalle, Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt

Para se ter um gosto do espírito puro e desarmado dos amigos diante de Ovalle, vale citar o techo de uma carta de Bandeira ao “místico”, posteriormente rasgada pela viúva. Ao falar de suas novas amantes, conta Werneck, o autor de Libertinagem bradou em caixa alta: “Tenho fodido muito, que felicidade!”. Esse companheirismo deixou um monumento poético à simplicidade. Uma dia Ovalle chorou à farta ao ver que Bandeira preparava o próprio café. Ali estava o mote do Poema só para Jayme Ovalle:

“Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
– Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.”

NOVA GNOMONIA

De 1991 a 2000, Humberto Werneck caçou rastros de Ovalle no Rio de Janeiro, Londres, Paris e Nova Iorque (onde o músico também residiu, a trabalho). Tarefa inglória, às vezes interrompida. Funcionário exemplar da Alfândega, Ovalle embaralhava seu passado e deixava ser reinventado nas rodas dos bares e nos rodapés da imprensa. Compositor de Azulão, clássico da música brasileira, circulava nos mais estranhos meios, todos desejosos de retê-lo. Um dos valores de O Santo Sujo está na recomposição da fauna de personagens secundários, renascidos em diálogos e pelejas das noites do Rio.

Parte das famosas improvisações verbais de Jayme Ovalle foi salva graças às dificuldades financeiras do poeta Vinicius de Moraes, num entreato de sua vida diplomática, no Brasil. Disposto a amealhar alguns níqueis, propôs uma entrevista com o compositor ao suplemento Flan, do jornal Última Hora, em 1953 – ao lado do parceiro Otto Lara Resende. Amostras:

P – Por que Deus fez as mulheres feias?
R – As normalmente feias Deus fez para casar com homens bonitos. Quanto às irremediavelmente feias, foram feitas por Deus para povoar as igrejas de madrugada, para usarem grandes rosários e serem beatas.

P – Qual a posição política do demônio?
R – É da natureza do Demônio mudar de política conforme os acontecimentos. (…)

P – Você, como católico, aceita o ato sexual independentemente do sentimento da procriação?
R – Eu sou contra qualquer burocracia. (…)

P- Haverá sempre pobres no mundo?
R – Acho que sim… porque senão quem vai dar esmola aos ricos?

Os entrevistadores eram entusiastas da Nova Gnomonia, teoria de classificação da humanidade arquitetada pelo “místico”, ajudado por sopros do arrebatado Augusto Frederico Schmidt. Cada categoria tinha seu anjo padroeiro. Para Vinicius, a Gnomonia “constitui a grande contribuição do Brasil à filosofia do conhecimento do universo”. Essa extraordinária filosofia ganhou registro de Manuel Bandeira, em crônica de 1931. Desde então influenciou platônicos, socráticos, kantianos, marxistas… À suma filosófica:

Exército do Pará
Abre aspas para Werneck: “O tal do Exército do Pará, explicou Ovalle ao poeta (Bandeira), era formado por ‘esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República’ (…) a categoria é território de sujeitos ‘habilíssimos, audaciosos, dinâmicos’ que visam, ‘primeiro que tudo, o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Abusando do diminutivo – outra inflência de Ovalle -, cabe a pergunta: “jesus cristinho”, será do Exército do Pará o ex-presidente da República e acadêmico José Sarney?

Dantas (anjo: o diplomata San Thiago Dantas)
Bandeira: “homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso na vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor”. Exemplos: o Barão de Itararé e São Francisco de Assis. O ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, não é “dantas”.

Kernianos (anjo: o jornalista Ari Kerner Veiga de Castro)
“Indivíduos de bom coração”, explica Bandeira, “capazes de grandes sacrifícios pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera”. Kernianos: D. Pedro I e o poeta Byron.

Morzalescos (anjo: o escritor cearense Francisco Mozart do Rego Monteiro)
Diz-nos Bandeira: “São pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo de suas palavras ou de suas ações.” Morzalescos rondam as bancas universitárias.

Onésimos (anjo: o advogado Onésimo Coelho)
“O drama íntimo dos onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida”. Em situações de responsabilidade, porém, atuam “com o mais inflexível senso de dever”. São onésimos Gilberto Freyre e Heine.

Filosofia nada ortodoxa, a Gnomonia admite a transição de uma categoria para outra. Com traumas.

Em foto publicada no Flan, o poeta Vinicius de Moraes acende o cigarro do “místico” Jayme Ovalle. Ao centro, o escritor Otto Lara Resende.

MUNDO DE OVALLES

Dentre os milagres de Jayme Ovalle, está o amor por uma pomba. “Nada platônico, Ovalle mobilizou seu arsenal de sedução na corte à alada visitante que, todos os dias, ao longo de meses, freqüentou pontualmente sua janela no Palace Hotel”, descreve Werneck. Recebia milho das mãos do Don Juan. De outra feita, apaixonou-se por um manequim da rua Gonçalves Dias, no Rio. Coração leviano.

Essa constância de amor, misticismo e surpresa, de um poeta de versos represados, assume ainda hoje um caráter libertador. Sobre os amigos que sobreviveram à sua morte – pouco generosos com sua viúva -, Ovalle pairou como uma esfinge ou um fantasma anti-convencional. “Que intuição prodigiosa tinha de tudo!”, escreveu Bandeira a Vinicius de Moraes. “Vai fazer muita falta a vocês que ainda viverão muito”. Distante do féretro, Vinicius fixou em poema “a última viagem de Jayme Ovalle”:

“Ovalle não queria a Morte
Mas era dele tão querida
Que o amor da Morte foi mais forte
Que o amor de Ovalle à vida.

E foi assim que a Morte, um dia
Levou-o em bela carruagem
A viajar – ah, que alegria!
Ovalle sempre adora viagem!

Foram por montes e por vales
E tanto a Morte se aprazia
Que fosse o mundo só de Ovalles
E nunca mais ninguém morria (…)”

 

O ANTI-HUMANO por joão batista do lago

Relutei, e mesmo evitei, por muitos anos, grafar os meus pensamentos. Achava-os, por um tempo, fora de moda. Por outro, sentia e percebia que eles estavam dentro da moda do momento. Ora, era tudo que eu abominava: está fora ou dentro. Ao mesmo tempo ficava atônito ao vê-los, de alguma maneira, revelados em artigos, ensaios, poesias… Mas aí eles já estavam totalmente elaborados pela minha racionalidade (ou irracionalidade!). E o pior de tudo: em espaços tão diferentes. Resolvi então não mais lê-los depois que os publicava. E assim nem sei exatamente o que há publicado por aí com a minha assinatura. Realmente não sei. Mas pouco interessa sabê-lo. Eles já não mais são meus e sequer são os mesmos. Foram “apropriado” por um sem-número de almas e espíritos humanos – essas bestas racionais que pensam que Pensa – decadentes, que perambulam pelas ruas e casas das cidades. Tolos viventes. Horripilantes. Mesquinhos. Falsos. Imbecis e analfabetos. Ladrões e assassinos. Vermes, nada mais que isso. O pior é que faço parte desta espécie. Isso me deixa ainda mais indignado: saber que pertenço à raça humana, essa coisa nojenta que diz que ama, mas mata… que diz que quer a paz, mas faz a guerra… que quer a diversidade, mas não aceita o outro… que não deseja a fome, mas produz o alimento caro… que quer a sabedoria, mas sustenta o analfabetismo… que reclama do desemprego, mas cria um exercito de desempregados… Esse é o imbecil humano. Por quê eu tenho que ser esse verme. Não. Absolutamente não. Não aceito essa condição. Não importa o que pensem. Nem mesmo o que eu penso. O que penso é que não aceito essa condição miserável de humano, de humanidade e de humanismo… Pensar…
Ora direis: Pensar!
Quem, em sã consciência, acredita que o humano pensa. Essa espécie racional é a mais irracional no seu comportamento e nas suas relações. Queres uma prova do que estou dizendo? Pára e observa o comportamento dos chamados animais irracionais. Compara-o agora com o comportamento do humano. O que vês?

 Outro dia caminhava a ermo pela cidade quando, de repente, uma cena despertou minha atenção… Um desses humanos trogloditas, puro encavernado da pós-modernidade, batia num cachorro, desses “pirento” que andam por aí, soltos e abandonados pelo próprio humano, faminto… O indivíduo parecia ser dono do restaurante. A cada porrada que dava no cão estufava o peito e olhava para a sua clientela, como se dissesse: “Vocês tão vendo como trato bem o meu estabelecimento…”. Mas o aplauso não vinha… e aí mais porrada no irracional amigo do humano. Na lateral do restaurante, sentados e recostados à parede, uma meia dúzia de mendigos encachaçados. Apenas esses aplaudiam a truculência daquele humano. Mais tarde receberiam o troco: resto da comida e pé na bunda…

 A sociedade é um monte de humanos que se junta para exercer a falsidade constituída. Ora… ora… ora… O que dizer então da família? Não está nesta a origem da sociedade. Conclusão: a família é, por excelência, o espaço fantástico da falsidade…

 Meu filho insiste em ser missionário. Meu sobrinho evangélico… Estão certos? Penso que sim. Se eu concordo? Pouco importa, a vida é deles. Se aceito? Não me compete aceitar ou não. Só espero que não sejam “papagaios”, como tantos que por aí desfilam sua “sabedoria de latrina das igrejas”, e tendo como única fonte do saber essas bíblias de suvaco. Alea Jacta Est!

 O suicídio me é cada vez mais a opção viável. Minha dúvida é sobre o consciente e o inconsciente do suicida. Também o ambiente, a forma e o conteúdo preocupam-me…

 Quando eu começo a pensar começo a entrar num tipo de desespero meta-existencial. É neste momento que me reconheço anti-humano. O humano não pensa. E aqueles poucos que pensam não raciocinam. E se raciocinam não criticam…

 A “besta” católica critica o consumismo! Ah, se o povo conhecesse a real história do catolicismo.

 O muro de Berlim não teria caído. Melhor: nem teria existido…

 O vento e o tempo são siameses. Ninguém sabe onde existem. Como existem. Nem quando passam. Já passaram…

 Não tenho absolutamente nada contra as pessoas que praticam qualquer tipo de fé religiosa ou não-religiosa. Entretanto, sou absolutamente contra as religiões por entendê-las fontes geradoras de alienação. O dogmatismo e o sectarismo das religiões mastigam a consciência dos humanos transformando-os em perfeitos bonecos. Há muito já se disse que a religião é um ópio. Acho muito pouco. O ópio, por algum motivo, além do puramente narcótico, transforma o humano, ainda que por pouco tempo, num sujeito dionisíaco. Já as religiões transformam o humano num tipo de alimento que sustenta e dá suporte a projetos, pessoais e coletivos, de tipologia autoritária e ditatorial, sem deixar ou dar oportunidade a essa massa de indivíduos que, dificilmente, alcançarão a condição de “Sujeito”. Enfim, as religiões matam.

 O conceito de religião que se tem é muito estreito. E isso, de certa forma, cria um desequilíbrio para o entendimento desse termo. Por isso é importante que o conceito de religião seja ampliado, ao máximo possível, mesmo que se considere isso uma exageração espetaculosa. A religião não é, pura e tão-somente, aquilo que prega o catolicismo, o cristianismo, o budismo… A religião, ou seja, o ato ou ação de dominação da consciência do ser, a forma de dominar o humano, de torná-lo um nada, de nadificá-lo, é um exercício e uma prática comum em muitas outras atividades. Por exemplo: encontramos religião na Política, na Economia, nas Ciências, nas Artes, nos Esportes… O certo é que o conceito que temos de religião é muitíssimo restrito. Tomemos um exemplo: a Literatura. Quantos bons e excelentes autores estão fora do mercado literário? Aqui e alhures! Muitos, por certo. Agora, quantos autores medíocres são publicados, quase que diariamente, por essa indústria cultural que é, em si, a religião de um processo de dominação da mente humana? Muitos, por certo. Certamente em sua cidade deve ter um grande escritor, mas ele jamais aparecerá porque não faz parte dessa religiosidade que, ao criar o “santo”, se lhe arranca literalmente a alma. Com isso somos condenados ao consumo de uma literatura circular e circulatória da pior espécie possível. E quando alguém, por algum motivo, mesmo que não seja eticamente correto, dá sinais de contrariedade, é triturado, moído mesmo, por esse sistema, melhor dizendo, por essa tipologia de religião da subcultura do humano. Mas aqui ocorre um paradoxo que é preciso ser analisado. Da mesma forma que ocorre com a subcultura, podemos, por assim dizer, que também ocorre com a boa literatura. Explicando melhor: um grande autor é tomado como referência e a partir daí só se publica o que a ele está relacionado. Cria-se, neste caso, uma tipologia de religiosidade a partir do excesso de qualidade. A partir deste exemplo você, caro leitor, pode imaginar o que ocorre em todos os campos da atividade humana. Então, é preciso repensar o conceito de religião.

 Não seria o Capitalismo religião? Claro que sim. Em qual igreja se processa essa religião. Na igreja denominada de Mercado. Qual o deus dessa igreja: o Dinheiro. Qual o principal dogma dessa igreja? Fazer com que você acredite que tudo na vida é ordenado e metodizado pelo mercado livre. Quem é o papa dessa igreja? O Capitalista. Quem é o fiel miserável? Você. Quem é o tolo e inconsciente consumidor dessa droga? Você. Mas aqui também ocorre um tipo de paradoxo. Não seria também o Socialismo uma religião? Claro que sim. Há uma identidade entre esses dois regimes? Claro que sim. Ambos são autoritários e têm como fim em si mesmos a dominação e a alienação do humano. Dominação total e geral. Dominação da mente. Dominação do pensar, aliás, melhor dizendo do não-pensar. Esta é a matéria-prima de ambos.

 De novo vem-me à mente a questão que considero de importância fundamental e que estabelece, isto é, delimita, ou seja, colocam em campos opostos o Humano e o Antihumano. Você deve está tirando por conclusão que eu sou louco. Pois saiba que você acertou: sou louco ao pensar assim… Somente aos loucos é dada a real capacidade dos pensares. Portanto, “os pensares” não é coisa de humano, de indivíduos… Os pensares só ocorrem no sujeito Anti-humano. O Humano é (como foi e será) construído – desde sempre – para não pensar como sujeito, mas para, apenas, agir como indivíduo. O indivíduo Humano não passa de mero repetidor ou imitador do humano-não-humano. O ser humano não pensa… Pense nisso.

 
Insisto na minha afirmação sobre o indivíduo humano: muitos, poucos ou mesmo nem todos, admitirão minhas palavras como estrutura para o processo (veja bem: processo) dessa subversão estética desse humano que devemos ou deveríamos estruturar para aniquilar com essa “sociedade do espetáculo” imbricada no Estado Terrorista. E nem mesmo esta é a questão fundamental, isto é, pouco importa se crêem ou não naquilo que digo… pouco importa se concordam ou não… Pouco importa se este meu pensamento está certo ou errado… Pouco importa se no futuro eu não acreditar mais em nada do que aqui acredito… Muito pelo contrário: é preciso ter coragem anti-humana para dizê-las sem esperar que elas se transformem num tipo de religião do pensamento burguês, que ao menor contato com a realidade dita, imediatamente põe-se em defesa frenética, por medo que algum “louco” ou “revoltado” venha desvendar ou descortinar o véu que encobre o vitupério que os “senhores” donos do mundo impõem a toda nação, aprofundando a cada raiar de sol a tragédia humana. Da mesma maneira é preciso dizê-las, sem nenhuma pretensão de amá-las como verdade absoluta. (Se porventura isso ocorrer não terá valido a pena o meu esforço em dizê-las, inversamente à tradição do otimismo e do realismo concreto da burguesa racionalidade institucional e institucionalizada).
É exatamente aqui que faço a diferença: não pretendo explicar a tragédia humana, meu intuito é transformá-la pela incitação do próprio “coro” dessa mesma tragédia, transformar este “coro” de mero espectador em protagonista da tragédia, fazer com que este “coro” entenda que esses “deuses” são carismáticos, portanto, têm pés de barro. Portanto, devem ser dessacralizados. Portanto, devem ser mortos. Literalmente mortos! Assim sendo é preciso chutar o andor para derrubar essas imagens deificadas pela história dos falsos titãs vencedores. Mas o mais dramático ainda nesta tragédia é perceber os “coriféus” e um séqüito de “coreutas” que papagueiam a ideologia de uma democracia niilista, uma igualdade desigual no bordel de uma filosofia da inclusão que exclui, que aliena, que guetiza a nação em estamentos de generais da miséria comum, deserdados da sorte, condenados à morte, instados a nada possuírem – sequer sua identidade – porque  os senhores donos do mundo, enclausurados nos seus palácios, com os “cus” bem postados nos seus sofás, conformados com suas “burrinhas” cheias, obra da burguesa ladronice nacional,  “peidam” para o povo que é obrigado a respirar a fedentina que vem dos seus sistemas. Por acaso não é isso conformismo? O que fazer então contra este conformismo hedonista da tragédia humana? Ser-se-si movimento. Movimento contínuo. Movimento persistente. Movimento consciente. Movimento revolucionário. Movimento plástico-estético do Anti-humano. Só neste movimento poder-se-á “idealizar” o contínuo estético deste Anti-humano, que deverá desde logo – e desde sempre – esquivar-se da moral cristã estilizada e fetichizada pelos senhores donos do mundo, introjetada pela cultura modérnica ou pós-modérnica, desde os tempos das velhas histórias que se repetem repetitivamente na alma e no espírito do humano.
A pintura deste quadro, isto é, do Anti-humano, portanto, não poderá e não deverá ser pintado com as cores do capitalismo ou do socialismo, pois, ambos, só podem oferecer os “prazeres mórbidos” de Hades. E no hades da tragédia político-social encontram-se morfinados pela ideologia das facilidades do poder e da dominação os ditirâmbicos ocidênticos vestidos de intelectuais e não-intelectuais, filósofos e não-filósofos, cristãos e não-cristãos, ateus e não-ateus, democratas e não-democratas, liberais ou não-liberais, ditadores ou não-ditadores, libertários ou não-libertários, igualitaristas ou não-igualitaristas, esteticistas ou não-esteticistas. Porventura todas essas espécies não vestem a mesma pele? É claro que sim. Tudo isso é humano, por demais humano.
Então que se me dá querer continuar sendo humano? O dia não é somente aquilo que se nos é mostrado pela modernice comodista. É preciso varar o mais profundo da noite; conhecer o céu da noite. Sim! O céu da noite, posto que, até agora, só nos mostraram o inferno notúrnico. Ora, se não conhecemos as profundezas, na sua mais agudeza profundidade nortúrnica, como querer entender o dia que, por si só já é um calmante alienativo? “Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama: como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?” (Nietzsche – Assim falou Zaratustra).
Então, que se me dá querer continuar sendo humano? Nada. Absolutamente nada me faz desejar continuar sendo humano. Mas esta resposta, per si, está impregnada de metafísica. Em si todos os fenômenos que possam ser especulados a esse respeito, se já não o foram estão em vias de o serem, agora e desde sempre, explicados à luz da Filosofia, da Sociologia, da Psicologia e da Semiologia, entre outros campos científicos. Portanto, não me deterei neste campo. Mas, paradoxalmente, quando afirmo que nada me faz desejar continuar sendo humano, em verdade estou a enunciar um contradito hipotético: desejo ser o Anti-humano. Mas isto por si só também não passa de pura metafísica, de retórica sofística. E meu propósito não é, pois, apenas, ficar no campo da dialética socrática ou hegeliana, ou ainda, da dialética engel-marxiana, mas construir o discurso da Dialética Serial (codinome que me identifica), própria da natureza do Anti-humano, segundo o meu sentimento.
Dito isto, é-me, pois, necessário explicar quais são, em tese, as principais características desse sujeito Anti-humano. Para começar penso ser indispensável construí-lo a partir do fenômeno nólico, isto é, da não-verdade, ou seja, da negação, mais precisamente: do “não”. Negação de tudo que aí está posto, desde sempre, como pensamento, idéia, ideologia e práxis da dominação e do absolutismo da microfísica do poder humano. Penso que essa minha práxis política facilitará o meu discurso, além de torná-lo mais compreensível aos sentimentos dos não-enquadrados.
O sujeito Anti-humano é não-teológico; é não-metafísico; é não-pragmático. Com isso quero afirmar que a teologia, a metafísica e o pragmatismo são características imanentes do sujeito humano. Mas, antes de tudo, é preciso assegurar que a teologia, a metafísica e o pragmatismo são elementos cognoscíveis que constituem o ser cogitativo do Anti-humano no devir, e somente para o devir, como construção do mundo futuro possível, plenamente organizado e sistematizado cosmologicamente pelas esferas do concreto, do real, do racional, do positivo, do lógico e, finalmente, do científico. Sei que isto pode parecer um tanto quanto confuso, mas espero poder explicar no futuro todo este meu raciocinar.
Ouso afirmar que somente assim entendido, pleno de antagonismo, será possível construir a morte (antes, como agora e posteriormente, o vocábulo “morte” tem sido por mim utilizado para antagonizar os dois sujeitos: Humano “versus” Anti-humano, diferentemente do conceito simplista ou minimalista de assassínio. No presente caso a morte significa a não-construção do discurso do humano, em prol da construção do discurso do anti-humano) do humano. Esta não é uma tarefa fácil, não é uma ação individual, individualizante ou individualizada. Não é um pensamento fim em si, de si e para si, mas um pensamento meio. Não é jamais uma verdade secularizada e absoluta. Ela é e será, agora como sempre, uma ponte para a consciência do Anti-humano. Ela sugere em sua essencialidade uma tipologia sociocrática, uma explosão conscienciatória num eterno movimento de si em direção ao novo Humano, isto é, ao Anti-humano, de acordo com o seu sêxtuplo caráter de natureza, acima mencionado, que constitui no individual a sua “alma” e no coletivo o seu “espírito”.
O que até aqui tenho examinado não passa de uma tese que venho desenvolvendo. E, em verdade, esses meus apontamentos, aqui, são um chamamento para o imiscuir-se de outras mentes inconformadas com o nanismo dolente dos pensares do status quo. E assim espero que ocorra. Dito isto, penso haver delimitado (muitíssimo reduzidamente e superficialíssimamente) a massa corpórea do Anti-humano que não se deseja um eterno interno deste hospital geral que promove a reclusão do humano em saberes médicos divínicos, mitológicos e no fetichizamento dessas estruturas organizacionais. O Anti-humano é, assim, caracterizado pelo concreto, pelo real, pelo racional, pelo positivo, pelo lógico e, finalmente, pelo científico. O Anti-humano não prescinde, como jamais prescindirá, de quaisquer dessas características essencialísticas. Uma é todas. Todas são uma. Portanto, o Anti-humano só se dará na sua completude mediante tais características de organicidade.

 Esta minha reflexão conduz-me a pensar a formação de um “sujeito”. Mas o que é isto, o Sujeito? A resposta que condensa toda a conceitualidade do Sujeito é: o não-humano, ou seja, o indivíduo animal da espécie humana; isto que conhecemos simplesmente por homem ou mulher. Pensado por esta hipótese, o Sujeito, é a antítese do indivíduo humano.

 

 

 

                                  sem crédito. ilustração do site.

EDUCAÇÃO, ESCOLA e FAMILIA – por sonia oliveira silva

A qualidade da Educação Infantil depende, cada vez mais, da parceria entre a escola e a família. Abrir canais de comunicação, respeitar e acolher os saberes dos pais e ajudar-se mutuamente. Eis algumas ações em que as únicas beneficiadas são as nossas crianças pequenas. (Carraro, 2006)Em seu lar a criança experimenta o primeiro contato social de sua vida, convivendo com sua família e os entes queridos. As pessoas que cuidam das crianças, em suas casas, naturalmente possuem laços afetivos e obrigações específicas, bem como diversas das obrigações dos educadores nas escolas. Porém, esses dois aspectos se complementam na formação do caráter e na educação de nossas crianças.
A participação dos pais na educação dos filhos deve ser constante e consciente. A vida familiar e escolar se completa.
Torna-se necessária a parceria de todos para o bem-estar do educando. Cuidar e educar envolve estudo, dedicação, cooperação, cumplicidade e, principalmente, amor de todos os responsáveis pelo processo, que é dinâmico e está sempre em evolução.
Os pais e educadores não podem perder de vista que, apesar das transformações pelas quais passa a família, esta continua sendo a primeira fonte de influência no comportamento, nas emoções e na ética da criança.
É fato que família e escola representam pontos de apoio e sustentação ao ser humano e marcam a sua existência. A parceria família e escola precisa ser cada vez maior, pois quanto melhor for a parceria entre ambas, mais positivos serão os resultados na formação do sujeito.
A parceria com a família e os demais profissionais que se relacionam de forma direta ou indireta com a criança é que vai ser o diferencial na formação desse educando.
A vida nessa instituição deve funcionar com base na tríade pais – educadores – crianças, como destaca Bonomi (1998). O bom relacionamento entre esses três personagens, (dois dos quais são protagonistas na escola – educadores e crianças) é fundamental durante o processo de inserção da criança na vida escolar, além de representar a ação conjunta rumo à consolidação de uma pedagogia voltada para a infância.
A Professora Di Santo (2007) lembra que a fundamentação para a relação educação/escola/família como um dever da última para com o processo de escolarização e importância de sua presença no contexto escolar é publicamente amparada pela legislação nacional e diretrizes do MEC, aprovadas no decorrer dos anos 90.
Podemos citar: Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8069/90), nos artigos 4º e 55; Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei 9394/96), artigos 1º, 2º, 6º e 12; Plano Nacional de Educação (aprovado pela Lei nº 10172/2007), que define como uma de suas diretrizes a implantação de conselhos escolares e outras formas de participação da comunidade escolar (composta também pela família) e local na melhoria do funcionamento das instituições de educação e no enriquecimento das oportunidades educativas e dos recursos pedagógicos. Citamos ainda, a Política Nacional de Educação Especial, que tem como uma de suas diretrizes gerais: adotar mecanismos que oportunizem a participação efetiva da família no desenvolvimento global do aluno.

A importância da família na vida da criança

O primeiro grupo de pessoas com quem a criança, ao nascer, tem contato é a família. É interessante que logo a criança já demonstra suas preferências, seus gostos e suas diferenças individuais. Também a família tem seus hábitos, suas regras, enfim, seu modo de viver. É desse modo que a criança começará a aprender a agir, a se comportar, a demonstrar seus interesses e tentará se comunicar com esta família.
Está aí, neste círculo de pessoas que rodeiam a criança, a fonte original da identidade da criança.
Desde cedo, os pais precisam transmitir à criança os seus valores, como, ética, cidadania, solidariedade, respeito ao próximo, auto-estima, respeito ao meio ambiente, enfim, pensamentos que leve essa criança a ser um adulto flexível, que saiba resolver problemas, que esteja aberto ao diálogo, às mudanças, às novas tecnologias.
A criança já aprende desde pequena o que a mãe não gosta, o que é perigoso, o que pode e o que não pode fazer. Percebe-se, então, a importância da orientação dos pais.
À família cabe entender que a criança precisa de liberdade, mas por si só não tem condições de avaliar o que é melhor ou pior para ela mesma. A família é o suporte que toda criança precisa e, infelizmente, nem todas têm. É o sustentáculo que vai ajudar a criança a desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, ética, estética, de inter-relação pessoal e de inserção social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania;

 

Sobre a Autora:
Professora, Empresária, Especialista em Educação Infantil pela UFJF e também Pós Graduada em Mídia e Deficiência pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Mg.

O AZAR de ISADORA – por petrucio chalegre


A famosa bailarina Isadora Duncan foi perseguida toda sua vida por inacreditáveis azares. Morreu enforcada por uma echarpe muito longa com a qual entrou em um carro conversível. A ponta, com metros esvoaçando ao vento, enrolou-se na roda traseira do veículo e quebrou-lhe o pescoço. Cultivou amores que pareciam escolhidos para darem errado. Caiu certa vez em um buraco no convés de um navio ferindo-se seriamente. Resolveu ensinar dança em Moscou em uma época extremamente difícil e passou privações.Examinando com cuidado os azares de Isadora, veremos que sua má sorte foi grandemente influenciada por suas imprudências, por um temperamento impulsivo não dado a examinar as possíveis conseqüências de suas opções. Max Gunther escreveu um interessante livro sobre os favores dos deuses, em que examina os fatores determinantes do que chamamos sorte. Analisando casos de notórios azarados, como Isadora, ao lado de bem sucedidos favorecidos pelo acaso, chegou a conclusão de que nossos destinos são definidos por um processo de escolhas e atitudes característicos. Um dos fatores importantes é a atitude de previdência, fosse Isadora uma pessoa de sorte, pelo padrão de Gunther, ao embarcar no conversível teria cogitado do perigo de sua comprida echarpe tremulando ao vento.Países e pessoas costumam atribuir os acontecimentos a fatores externos, ora é o capital internacional que deseja nos explorar, ora é uma globalização para a qual nunca estamos preparados, ora são conspirações ardilosamente urdidas com o fito de nos amarrar permanentemente à dependência. É mais fácil pensar assim, na verdade muitos parecem professar uma religião diferente daquela que proclamam, a grande fé fatalista é a islamita, islã significa submissão, submissão à vontade divina. Se tudo está escrito nosso destino é inelutável. Tudo viria de fora e seríamos impotentes para modificar os desígnios do grande livro. Maktub! Estava escrito! Como nos livros de Mahlba Tahan. No entanto a grande tradição ocidental é a do livre arbítrio. Significa que somos donos de nossos caminhos, que optamos continuamente em encruzilhadas traçando simultaneamente os acontecimentos subseqüentes.

Jogamos uma grande partida, infelizmente sem direito a ensaio. A lei da causalidade interfere continuamente alterando o resultado final. Nosso país no entanto tem longa tradição de oportunidades perdidas, escolhas insensatas são a origem de cada uma das dificuldades que enfrentamos. Basta pensar se estaríamos enfrentando o déficit de população preparada hoje se tivéssemos tomado esta providência décadas atrás, quem sabe em 1868 como o Japão. Se teríamos os problemas de segurança críticos de agora se houvéssemos acabado com a impunidade endêmica 30 anos atrás. Mil considerações políticas podem ser feitas a respeito das dificuldades de fazer passar medidas que trazem restrições imediatas e cujos resultados benfazejos só surgirão com o tempo. Porém os azares de Isadora também tinham esta característica, suas escolhas tendiam ao prazer imediato: o vento no rosto, o gosto da velocidade no carro aberto, o pano drapejando ao vento… súbito o resultado da imprevidência: um aperto seco e mortal.

 

 

               arte digital. de grendel. ilustração do site.