Arquivos Diários: 15 julho, 2008

A MORTE DE UM CAVALHEIRO por josé alexandre saraiva

Movido pelas mais fortes razões, diante da possibilidade de risco grave à saúde de ente querido, eis que me encontro, recentemente, no pronto socorro do Hospital Cajuru no meio da noite de um sábado. Felizmente, logo veio a notícia animadora, saindo da boca do eminente Dr. Carlos A. Parreira Goulart, aliviaria todos. O súbito atropelamento por moto fora grave, mas não deixaria lesões preocupantes. Uma bênção de Deus. Apenas algumas horas a mais, por mera precaução inerente ao zelo médico, e tudo não passaria, como de resto não passou, de um grande susto. 

À parte do acontecido, julguei oportuno o interstício da cautela preventiva hospitalar – agora levado por simples instinto jornalístico – para captar particularidades típicas de um pronto socorro para onde acodem enfermos acometidos dos mais distintos infortúnios, a exigir imediata atenção. Pude registrar, desde a madrugada de sábado para domingo, a chegada desesperada de baleados, esfaqueados, atropelados e acidentados, alguns com os últimos lampejos de vida.

            O fato mais emocionalmente e impactante para mim ocorreu por volta das dezenove horas do domingo. Os gritos aflitos de uma senhora que acabava de receber a notícia da morte de seu irmão, ali internado desde sexta-feira, chamavam a atenção de todos. Ela exclamava sem parar: “Meu irmão, não!” Punhos fechados, diante de justa revolta e compreensível irresignação, por instantes sequer acolheu as tentativas de consolo dos próprios familiares. “Meu irmão não, ninguém, senão Deus, tem o direito de tirar a vida dele. Diga para mim que ele não morreu. Diga…” Em seguida, desmaiou e caiu no chão.    

             Socorrida, com o auxílio de dois PMs, deitaram-na em um banco de madeira, onde posteriormente recobrou os sentidos e foi acalmada.

             Pude perceber nos familiares tratar-se de gente humilde. Aproximei-me e indaguei a um deles o que tinha acontecido. O rapaz, trinta e poucos anos,  lançou sua mão direita sobre o meu ombro como se fôssemos irmãos, desejoso de um desabafo. Suas lágrimas contidas logo foram surgindo e escorrendo na face talhada pelas lutas da vida.

             Seu irmão, Gilson Cavalheiro, tinha apenas 21 anos, era digitador no Mercadorama e, no mês de setembro, adquirira um Corsa, mediante financiamento. O valor da entrada, 2 mil reais, foi tudo quanto tinha juntado, graças à vida regrada que levava. Na sexta-feira, início da noite, foi buscar a namorada para uma confraternização. Em frente ao portão da casa, quatro bandidos o assaltaram, chutaram-lhe a cabeça, desferiram-lhe coronhadas fatais e roubaram o corsa. A moça conseguiu fugir e chamou a polícia. O Siate conduziu Cavalheiro ainda com vida para o hospital. Infelizmente, não resistiu.

            “Acharam o Corsa ontem, todo depenado, na Represa do Capivari, mas a gente nem foi lá ver…”  

              Em prantos, mais um irmão se aproximou. Eles se abraçaram e eu abracei os dois, partilhando a dor.                

LIÇÕES DE MARKETING PARA UM TERRORISTA poema de solivan brugnara

Mustafá,

os aviões que balearam

o estômago das torres gêmeas

e fizeram ambas morrerem,

gritando como um pterodáctilo

sangrando fumaça e fogo.

 

Ou bombas que fazem desmoronar

esses castelos de areia

cimento e cal da ONU.

 

E também

explosões em bares

onde pessoas estavam pacificamente,

sendo amamentadas com cerveja.

 

São exemplos da covardia do fraco contra o forte

 

Seus métodos só fazem

uma mulher morta

se transformar em abelha rainha

em torno da qual

as opiniões formam uma enorme e perigosa

colméia de unanimidades.

 

Fazem uma gravata

ou um cartão de crédito ensangüentado

tornarem-se ícones.

 

E mesmo se matar com sua bomba aleatória,

um lobo com pele de cordeiro

é a pele de cordeiro que receberá

as homenagens do estado,

já o lobo será levado para a tinturaria

para ser lavado e vendido num brechó.

 

Escolha sempre as peças brancas do tabuleiro.

Apenas o alvo diferencia

o herói do fanático.

Põe seu corpo na frente de uma manada

de tanques,

mas se recuse a explodir um ônibus.

 

E os papiros

lidos em amenos cafés da manhã

ou os pergaminhos eletrônicos

e talvez, a história

tenderão a ser favoráveis a sua causa.

 

Não Mustafá,

elogios da mídia não garantirão sua vitória,

mas despetalar pernas e braços de civis também não.

Além do mais,

terá mais chances se ferir

com um espinho a pata de um exército

que a inócua idéia de matar

coelhos alvos amontoados em metrôs e aeroportos.

 

EU DISSE DE MANHÃS poema de lilian reinhardt

               (líricas de um evangelho insano)

Eu disse de outros caminhos do jardim,
eu disse o que ontem não escrevi, 
mas, deixei escrito lá sobre a 
imprecisão do ossário da lousa.
Eu disse que da lavra do arco-íris
sangram furnas de pólens, 
chafurdam rosais negros,
bocados de palhas, riscos de calhas,
e um vago rumor de cordas,
de sobrevivências, de víveres,
entre escorioses e pruridas ilhas…
eu disse que há guardado no caminho do agora,
uma eternidade de pássaros,
para em te bebendo no aguadouro de sal,
te cinzelar dentro do cal da retina
dos meus olhos, indefinidamente…
e assim como disse, esqueci de dizer
sobre os canteiros
e acabei por recortar picotes dos tinteiros
e tenho que redizer do sêmen do absoluto inominado,
aquele que atravessa o vento parado, os Zéfiros de campos minados,
e como dizem as línguas das manhãs em hortelã, em pó e Zeus…
antes que a lâmina do sol se ponha,
bebe-te o líquen,  óh vida,  no obituário, do  teu veneno!…

LEI SECA, TRÁFICO, GRIPE, PSIQUIATRA, INFAME – carta de jb vidal a ánton passaredo

caro ánton,
sua carta me alcançou em um momento muito confuso da vida nacional. aliás o nosso país desde o início sempre foi muito confuso. por quê? não sei, tenho apenas algumas desconfianças. afinal sou do povo, não sou da corte. mas a corte, dizem, quer o bem do povo e governa para ele…se for assim, qual a diferença em morar num aterro sanitário? estou exagerando? talvez. o odor da semana foi terrível. prendem e soltam os magnatas (que pertencem à corte). a TV Globo arma o circo; acho que ela mudou para o Ministério da Justiça. tem informação privilegiada. o que é isso? sei que eu não posso ter sob pena de ser preso por formação de quadrilha caso faça uso dela em meu próprio benefício. ela usa. não acontece nada. eu sou povo ela é corte. e daí? sempre foi assim, estou malhando em ferro frio. também não é verdade que a Justiça solta só os ricos. todos os dias vemos que foram presos marginais favelados e que daí alguns dias estão cometendo seus crimes nas ruas. não vou discorrer aqui sobre prisão temporária, prisão preventiva e prisão condenatória. iria aborrecê-lo com isso. mas o espetáculo durou a semana toda.

como vai a família? espero que encontres todos bem quando chegares de viagem.

outro assunto que tomou a semana foi a discussão sobre a LEI SECA. como tudo no país discute-se depois, nunca antes. ou melhor, para justificar a medida a corte discute en petit comité, com “especialistas” que servem aos interesses da corte.
seria eu contra a medida? claro que não. mas contra a “parafernália” da lei. como assim? bastava criminalizar o motorista que “contivesse” álcool no sangue, APÓS o acidente.
crime sem fiança, com pena de 05 a 20 anos, dependendo da gravidade. o cidadão decide se bebe ou não e dirige. o direito de decidir, a liberdade de optar.
prevenir a ingestão de álcool nas ruas é provocar “aquilo” do que vive a corte: CORRUPÇÃO. a mordida para você que foi almoçar com a família e consumiu uma cerveja não será mais o famoso “cinquentinha” vai depender do modelo do teu carro (carro velho vai preso para entrar na estatística, carro e motorista). quanto um cidadão irá pagar ao “corrupto” insinuante para não ter a carteira presa por um ano, multa de $975,00, o veículo recolhido e dependendo do caso, preso? ahn? pois é. e a cadeia da corrupção que irá se formar com a tal “prevenção” entre os policiais, “guardadores” de carros, garçons, porteiros de bares, restaurantes e até de moradias, comunicando, por celular quem está saindo e que consumiu alguma quantidade de etanol? estarão na próxima esquina com a mão indicando o meio fio.
já pensastes nisso? não? “eles” já. e está em formação a rede. você não fará mais aquele programinha de levar a família almoçar em restaurante aos domingos e tomar sua cerveja ou seu vinho predileto. não. poderá ser muito aborrecido voltar de táxi ou metrô, ou não voltar para casa. a menos que você acompanhe seu camarão à paulista com um refrigerante diet.
a corte muda a cultura numa penada. ainda bem que eles são sábios e honestos.
o grande chefe e seus áulicos, agora, vão degustar seus “churrasquinhos”, na granja do Torto, com coca zero e direito a sair no FANTÁSTICO com discurso e tudo. sem contar que eles têm motorista da vez 24 horas. valha-me Deus.

Como vai o trabalho? evoluindo bem?

lembrei de uma nota publicada nestes dias das companhias de seguros afirmando que agora vão querer BO dos acidentes, se algum envolvido tiver 0,1mg (uma colher de xarope expectorante) de álcool acusada no bafômetro, elas não mais pagarão os danos materiais e/ou pessoais. veja só os absurdos que decorrerão dessa “prevenção”, você está retornando de seu almoço, em restaurante ou em casa de amigos e tomou uma cerveja, em um cruzamento alguém avança o sinal e acaba com seu carro e fere seus acompanhantes, o que você tem de fazer? fugir cara! fugir! você tem razão no episódio, você é inocente e tem que fugir! mesmo todo mundo sabendo que uma cerveja durante a refeição não altera os sentidos, inclusive “os especialistas.” é meu amigo, sinais…sinais…quando você tem razão, é inocente e tem de fugir da Lei, são os sinais…sinais…a lei passou a proteger o infrator! e se levar seus feridos a um hospital você será pego pelo policial de plantão! e o infrator ainda irá cobrar de você os danos causados! o Estado apodreceu, os legisladores (sic) bah! dizer o que dessa corja? um congresso…

espero que tenhas melhorado da gripe ou era uma alergia?

para encerrar, meu caro, vou tocar no pior. é o crime organizado dominando o Estado, um pouco mais do que já faz. não me venha dizer que estou possuído pela teoria da conspiração. te conheço, um pouco, não pensaria isso. acho que não.
pois é, o TRÁFICO AGRADECE! como assim? explico, os nossos jovens que antes iam para a balada e tomavam suas cervejas seus uísques mas transpiravam ao som do “bate-estacas”, como fazer agora? taí o bafômetro! “limpeza cara! guaraná e cocaína ou guaraná e ácido!”. é meu amigo, a rapaziada para “fazer a cabeça” vai pra droga química (ecxtasi, patetinha, letrinha, lsd e etc) que não acusa no bafômetro e vai sair da balada muito mais louco do que saia com a cerveja. vai aumentar a gravidade dos acidentes! O TRÁFICO AGRADECE! se por um lado vai gerar o desemprego de maitres, garçons, cozinheiros, porteiros, por outro, irão aumentar os empregos de traficantes, “aviões”, mulas, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras no atendimento para a quantidade de clínicas de tratamento de dependentes químicos que serão inauguradas por esse brasilzão a fora. a destruição do jovem e da família.
há quem afirme, que teria havido uma queda de braço entre as industrias de bebidas alcoólicas e o tráfico de drogas e que este levou a melhor. a lei passou rápido! temos projetos de leis que se arrastam décadas para serem aprovadas, esta não, zas-tras, em vigor!
é, acho que teremos novos impostos pela frente. a arrecadação com impostos de bebidas é altíssima, VAI CAIR, e como o TRÁFICO não paga imposto o que vai acontecer? claro.
o assunto requeria mais atenção, mas agora já era, vamos aguardar que além dos dados de diminuição de acidentes por bebida alcoólica a corte publique, também, os dados de crescimento do uso de drogas, só para matar a curiosidade desse pobre e infame povo.
Jb Vidal

14/07/0 oito

p.s. nosso vinho com ostras na praça do Casal Nu, aos sábados, SECOU. a banca vai fechar.

 

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vou acrescentar, aqui, a título de ilustração, esta notícia de 21/07/2008 da rpc. on-line:

Acidentes de trânsito caem 20% no primeiro mês da Lei Seca

21/07/2008 | 20:23 | Gladson Angeli

O número de acidentes no trânsito de Curitiba caiu 20% no primeiro mês de aplicação da Lei Seca, em relação aos trinta dias anteriores. Os acidentes, no entanto, ficaram mais violentos, pois a quantidade de mortes aumentou de nove para 11. Segundo dados do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran), no período em que a nova legislação está em vigor 130 pessoas foram notificadas por dirigirem depois de consumir álcool e 115 pessoas acabaram na delegacia.

 PUBLICAÇÃO DE 01-9-08 (observem que a carta foi publicada em 15-7-08):

 

Motoristas embriagados não terão direito a usar seguro, diz STJ

Embriaguez passa a ser um agravante no risco do seguro. Decisão da 3ª Turma foi tomada após o julgamento de um caso de SP

01/09/2008 | 12:46 | G1/Globo.com

Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que os motoristas que dirigirem sob o efeito de álcool não terão direito a utilizar o seguro do carro, em caso de acidentes. O entendimento dos ministros da 3ª Turma do STJ foi tomado após julgarem um processo em que interpretaram que a embriaguez passa a ser um agravante no risco do seguro.

No julgamento em questão, os magistrados analisaram um recurso especial contra uma decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo, que havia excluído o prêmio de um segurado que, segundo laudos oficiais, tinha em seu organismo uma dosagem de álcool acima da permitida por lei.

A 3ª Turma arquivou o processo, sob a alegação de que “a seguradora não pode suportar riscos de fato ou situações que agravam o seguro, ainda mais quando o segurado não cumpriu com o dever de lealdade”.

O relator do caso no STJ, ministro Ari Pargendler, alterou decisão da 2ª Turma do mesmo tribunal, que havia fixado uma jurisprudência para o assunto. Pelo entendimento anterior, o consumo de bebida alcoólica antes de dirigir não tirava o direito de o segurado acionar o seguro em casos de acidentes de trânsito.

Ari Pargendler disse que agora a regra é muito clara. “Se beber, não dirija”, ressaltou. Ele se baseou no Código Civil, que fixa que segurado e segurador são obrigados a guardar no contrato a mais estreita boa-fé e veracidade. Sua posição foi seguida pelos demais membros da 3ª Turma. A decisão foi tomada na última terça-feira (26), mas tornada pública só nesta segunda (1º).