Arquivos Diários: 16 julho, 2008

DELIRIUM GINICOLÓGICUS poema de marilda confortim

 

Um estado febril me abate

O corpo dolorido, reclama

Passo os dias em meu catre

Presa em minha pobre cama.

 

É gripe, dizem os otimistas.

Tome um chá que logo passa.

Uma aspirina, talvez um uisqui.

Guaco, limão, mel e cachaça.

 

Talvez seja a menopausa…

Faço exames, reviro tudo.

“Não querida, não é essa a causa!”

Me diz o doutor voz de veludo.

 

Então é aids, estou morrendo?

Eu mato aquele desgraçado!

Deus me livre! Eu me arrependo!

Juro! Nunca mais cometo pecado.

 

E o médico ri, às gargalhadas

“Veja lá com quem estás saindo”

Fico vermelha, encabulada,

Pego a roupa e vou vestindo.

 

“Fique tranqüila. Deu negativo

E tire essa roupa de uma vez”

Doutor, não faça isso comigo…

Eu volto daqui a um mês.

 

Examina o termômetro: 36.

Puxo assunto:  será que chove?

“Respire fundo e diga 33”

Doutor, pode ser sessenta e nove?

 

Nem ri da piada e apalpa meus seios.

Pensa que sou de ferro, o rapaz.

“Tem um carocinho, aqui no meio”

Só um? Procure bem, que tem mais.

 

Ele não dá bola pra minha fantasia

e metódico inicia o papanicolau.

Sádico, pega o bico de pato e enfia

aquele especulo frio no canal vaginal.

 

Com se eu fosse uma melancia 

recolhe amostras do meu interior.

Pensa que sou um vegetal, fria…

É um insensível, esse doutor !

 

“Pronto. Pode se vestir, Dona Maria.

Está tudo bem, é só uma gripe.

Traga-me o resultado da mamografia

e trate de controlar seu apetite“

 

Filho da ….  que alívio doutor!

Eu estava tão preocupada.

Pensava que fosse um tumor.

Já me sentia desenganada.

 

“Não brinque com coisas sérias. 

Doença não é assunto pra poesia.

Tome um analgésico, tire férias

E cuidado com a hipocondria”.

 

Cabeça de mulher é complicada

É um trem barulhento, confuso

Tem que manter bem lubrificadas

As idéias, porcas e parafusos.

ENSAIO PARA UM POEMA de philomena gebran

Empilhei minhas palavras

Arrumei todas as frases

Pondo todos os pingos nos is.

Cuidei de todas as vírgulas

Dei especial atenção

As crases e aos fraseados

Enfileirei reticências

Coloquei exclamações

Ordenei os pontos e vírgulas

O til os acentos graves

Não esqueci o circunflexo

Nem tão pouco o agudo

Compus bem a concordância

Exclui a interrogação

Pra que ninguém duvidasse

Do cuidado que tomei

No preparo do discurso.

E tem mais

Palavras não repetidas

Pronomes verbos certinhos

Sem desprezar advérbios

Artigos e tudo o mais

Adjetivos escassos

Pra não cansar o leitor.

Apenas o necessário

Cabível dentro do texto

E pronto!

Tudo bem arrumadinho

Pra começar a escrever

Posso escolher com cuidado

Está tudo a minha frente.

Mas…. o que é mesmo

Que eu tinha a dizer?

MARÍTIMO poema de manoel de andrade

 

 

 

Quando a vida te exilou num cais de pedra,                                                                       

teus vinte anos desabaram numa tarde do mundo…

e tu ficaste…

ficaste tão somente com o sal das tuas lágrimas,

preso à magia dos teus barcos de papel

e ao feitiço sonoro dos grandes caramujos

que te embalaram a infância com a sinfonia íntima dos mares.

Tuas lágrimas nunca molharam a tua face

mas transformaram tua alma numa laguna imensa.

Teu olhar… translúcido de pérola e verde

restou… sem a tatuagem dos oceanos.

Teu barco,

atrelado à fantasia,

soçobrou nas brechas das calçadas.

Teu canto, sem proa e sem rumo,

silenciou nos abismos do teu ser.

 

E tu… ficaste

impotente…

atado ao mistério do destino.

Sim, tu ficaste

tu… o grande marítimo

e teu coração afogou-se na vazante

e a vida te partiu em dois pedaços

e tiveste que sobreviver entre as lembranças indeléveis do teu sonho

e a súbita consciência de um dever a ser cumprido.

 

E tu… ficaste

na penumbra

na desfigurada penumbra das margens

sem a passagem do Gibraltar

sem cruzar o Helesponto

sem o farol na noite,  sem a terra à vista

sem a visão do iceberg solitário.

Tu ficaste sem a aurora  e  o crepúsculo perfeitos

sem o vôo do  albatroz e a dança das baleias

sem as monções, sem os alísios

sem o marulho e a calmaria.                                                                                                   

Tu herdaste apenas  uma onda solitária

apagando sempre os teus passos na areia

                                                                                                                                                          

Sim… tu ficaste!

algemado à pesada âncora do sonho                                                                    

escamoteando os teus suspiros

e a tua inconfessável angústia.

De todos os navios,

de todas as tripulações,

restou apenas

a tua efígie de grumete

como um clandestino escondido no sacrário do teu ser,

a banhar-se agora nas marés e no orvalho da poesia…

refrigério

ressurreição

alaúde soluçante.

 

Já não ousas sonhar com a fascinante travessia dos fiordes

com a paisagem insular da Polinésia

com a visão das ilhas distantes

quais manchas cinzentas recortadas no azul

miragens impassíveis flutuando na linha do horizonte.

Já não sonhas com a marinha imensidão marinha

com a brisa aromática dos golfos

e as sonâmbulas gaivotas

e contudo… sentes,

pressentes que sempre haverá um norte,

haverá sempre um porto à tua espera

que haverá outros navios como o Granma

transportando oitenta e dois heróis e o sonho imenso de um povo

e eis que agora te ilumina o farol ofuscante desta Ilha

e eis que o fogo dessa pira acesa no Caribe

será a forja que acenderá  nova utopia

iluminando os caminhos de outras Sierras

e o rumo dos novos navegantes.

                                                              

Com essa luz recriarás teu canto

anunciando a saga dos novos comandantes

e teu verso cuspirá na face indisfarçável dos verdugos

e beijará o rosto deslumbrante da esperança

e tu cantarás um sol atrás dessa penumbra

porque além dessa  insuportável sombra sobre a pátria

seremos sempre um povo navegando

porque haverá outros veleiros como o Mayflower

transportando os patriarcas de uma nova raça

navegando  na própria Via Láctea

navegando sob o signo do Cruzeiro

ao sul do Continente

no roteiro de um destino luminoso.

 

Tu ficaste…                                                                                                                                

e contudo… no âmago da alma,

impassível,                                                                                                                  

ontem, hoje, amanhã…sempre,

como um enigma.

restará o mar…

o mar que se espraia em tua vida

o mar que salga os teus pés e lava a tua alma

o mar onde teu sonho desde sempre singra os mares

navegando nas trirremes e nas galeras  do Mar Egeu

nos galeões de todas as bandeiras

no convés movimentado dos paquetes

na proa das chalupas na costa americana do Pacífico

nos grandes vapores oceânicos que riscaram os mares no século passado

na navegação de cabotagem

e no longo curso dos modernos navios mercantes.

 

Ah… o mar… 

o mar onde teu olhar navega em tudo que flutua

o mar onde um dia teu sonho buscou um capitão                                                                                                                      

o mar que ainda te espera

o mar…

sempre o mar

 

                                                              

o mar de sempre   

o mar de todos os tempos

os cálidos mares primordiais

o mar sem navegantes

o mar da solidão perfeita

o berço da vida

o laboratório milenar das espécies                                                                                                                           

o mar mitológico dos argonautas

o mar homérico nos mares adversos de Ulisses

o mar dos navegadores micênicos

o mar dos gregos e fenícios

talassa, talassa, o mar dos dez mil retirantes

talassa, talassa…

enfim… o mar, o mar… diz Xenofonte.                                                                                                    

 

O Mare Nostrum…

o berço do Ocidente

o mar dos romanos e cartagineses

dos venezianos e genoveses

a rota marítima dos grandes navegantes

o mar da Coroa Espanhola

o mar Mediterrâneo de Filipe II.

 

O Mar do Norte

o mar cortado pela proa alta dos vikings

o mar dos navegadores noruegueses                                                                            

dos batedores marítimos do primeiro milênio

o mar cantado nos versos imortais de Heine.

 

O mar quinhentista, o mar da Escola de Sagres

os mares remotos sonhados por Dom Henrique, o Infante, o Navegador,

o mar das caravelas

o mar que descobriu o Novo Mundo                                                                                      

que trouxe a espada de Cortez, de Pizarro e Alvarado

que trouxe o evangelho de Nóbrega e Anchieta

o mar que trouxe a sensibilidade de Maurício de Nassau.

 

Ah… o mar…

o mar em todos os mares

o mar dos grandes navegantes

o mar de Bartolomeu  Dias e Colombo

o mar de Cabral e de Fernão de Magalhães

o mar de James Cook e de Bering.

Os mares do sul e dos remotos navegantes polinésios

velejando pelas águas profundas do Grande Oceano

em busca de um berço de sol e do poente

o mar na origem do homem americano

na história misteriosa contada por uma balsa de juncos

o mar da expedição Kon Tiki

 

Ah… o mar…

o mar maculado pelo sangue das grandes batalhas

Salamina, Áccio, Lepanto…

o mar que afundou a Invencível Armada

o mar de Francis Drake

o Mar das Antilhas

o másculo mar dos piratas e bucaneiros

o domínio inquestionável de Henry Morgan

o mar do Almirante Nelson, o mar de Trafalgar

o mar da Coroa Inglesa

o mar nos mares sangrentos                                                                                               

onde navegaram as fragatas e as canhoneiras da dominação ocidental.

 

Ah… o mar…

o mar abençoado pela bandeira da ciência

o mar na longa viagem do Beagle, o mar de Galápagos

o mar de Piccard

revelando os mistérios do abismo

o mar da Grande Travessia

da sonhada Passagem do Noroeste

o mar que uniu dois oceanos na  aventura gloriosa de Amundsen.

 

Ah… o mar…                                                                                                                     

o mar que seduz o coração dos homens

o mar de Jacques Cousteau, o admirável Comandante

cruzando, a bordo do Calypso, as águas de todos os oceanos

para revelar ao mundo a beleza dos mares e da vida…

 

Ah… o mar…

o teu mar

o mar do leste

atlântico 

litorâneo

o teu mar brasileiro

o mar dos jangadeiros

o mar  dos canoeiros 

o doce mar cantado por Caymi.

                                                             

O mar…

o mar que tu também cantas

o mar dos pescadores do sul

o teu mar de menino

o mar ainda dos remos e das velas

o mar dos espinhéis e das puçás

o mar das redes e das tarrafas

dos imensos cardumes de tainhas

caminhando como manchas inquietas sob as águas

o mar do vento-sul e do terral

o mar que assusta e que encanta.

 

Ah… o mar…

teu relicário

útero imensurável da vida

o ventre deslumbrante da aurora

o doce mar da tua infância

teu litoral de luz

o mar que inunda a tua poesia

o mar… sempre o mar                                                                                                  

a  navegar palpitante em teu lirismo.

………………………………………………………………………..

 

Eis aí o inventário de tua alma

a herança de um sonho acalentado desde sempre.

Para ti, poeta

ou marujo ou companheiro

restou apenas um fragmento da tua mais legítima fantasia…                                             

daqueles  barcos de papel que navegaram em tua infância.                                                                                                          

Restou uma imagem que somente a poesia te concede,

uma paisagem mágica que se impõe à revelia do tempo:

 

…numa praia do sul, salpicada de canoas, vai um barco sobre o mar…

é um veleiro deixando a baía  numa manhã de sol                                                        

é o teu sonho navegando no rumo do horizonte…

                                              .                         

………………………………………………………………………..

 

Mar

amado mar

suntuoso mausoléu aberto ao náufrago

tu me negaste a glória

o sal da vida

tu me afogaste

sobre um cais de pedra

                                                                   Curitiba,  janeiro de 65

 

Este poema consta do livro “CANTARES”,  editado por Escrituras

ENSAIO SOBRE A LÁGRIMA por tom coelho

“Chora, Tistu, chora. É preciso.
As pessoas grandes não querem chorar, e fazem mal, porque as lágrimas gelam dentro delas, e o coração fica duro.”
(Maurice Druon, em “O Menino do Dedo Verde”)

Sempre apreciei a expressão “olhos marejados”. É, para mim, de uma beleza plástica incrível. Os olhos, as “janelas da alma”. E o mar, com seu ir e vir das ondas.

Olhos marejados são assim. Lágrimas que pensam em deixar o conforto dos olhos, mas que se retraem como quem diz: “Ainda não é hora” ou “Ainda não posso me desnudar”.

A lágrima revela tudo. Insólita por natureza, carrega consigo dor, tristeza, alegria, emoção. A lágrima marejada se contém em si mesma. Ela é suficiente para cobrir toda a superfície ocular. Faz os olhos brilharem, refletindo a transparência da alma.

Hospitais são locais onde se tratam pessoas doentes. Construções de paredes sólidas e áridas, brancas e gélidas. Uma arquitetura onde o calor naturalmente se dissipa e onde as vozes ecoam assustadoramente – assim como as rodas e rodízios das cadeiras e macas que perambulam pelos corredores.

Acho que um dia alguém metido a “marketeiro” passou por um hospital e percebeu que ali faltava algo. Resolveu, então, colorir as paredes das alas de pediatria, instalar uma capela no térreo e criar um banco de sangue. Tudo isso para humanizar aquele ambiente. Porque o que lhe faltava era vida.

Ao contrário do que se faz supor, hospitais, e aqui excluo as maternidades, são moradas não da saúde, mas da doença. A saúde reside no sorriso maroto de uma criança, nas árvores que florescem na primavera, na conjunção erótica dos amantes. Nos hospitais, habitados pela doença, a morte espreita, vagando livremente, rindo-se sarcasticamente do sofrimento de internos e familiares.

Os profissionais – médicos, enfermeiros e assistentes – aprendem a ser heróis sem coração. Heróis porque lutam contra a engenhosidade ardilosa da doença que busca refúgio nos recônditos da complexidade do corpo humano, procurando dificultar o trabalho de sua descoberta. É um jogo de caça, de esconde-esconde, no qual o bem luta para triunfar enquanto o mal, uma vez instalado, dá-se por vitorioso desde o início, nada tendo a perder.

Entretanto, por atuarem numa batalha tão desigual, muitas vezes patrocinada pelo despreparo, pela desqualificação ou pela desestrutura, estes heróis aprendem a dominar suas emoções. Afinal, são tantos dias, dias após dias, horas e mais horas, enfrentando as adversidades, testemunhando a amargura velada ou silenciosa de seus pacientes, acompanhando o desespero e, por vezes, o destempero de familiares – que transitam com suas faces avermelhadas e seus óculos escuros, e não em decorrência do esplendor do sol –, que tudo aquilo se torna rotineiro. Cena do cotidiano.

Quando seu time de futebol vence uma partida, você fica feliz. Até esfuziante. Cada gol é comemorado como se fosse único. Mas se a equipe se torna imbatível, as conquistas perdem o sabor, porque se tornam previsíveis. A felicidade vira alegria. A alegria vira desdém. Assim ocorre com a maioria dos médicos. A sensibilidade se esvai, por hábito e por dever de ofício. E eu os respeito por isso. Porque não seria capaz de fazê-lo. Por isso tomei como profissão a mente e não o corpo das pessoas. Por isso fiz de um lápis, uma caneta ou um teclado meu próprio bisturi.

Numa manhã fria e cinzenta de novembro, minha mãe nos deixou. Não nos faltou empenho. Não nos faltou solidariedade. Não nos faltou fé. Só nos falta ela.

Os olhos já não estão mais marejados. Porque as lágrimas decidiram que era hora de se despir e ganhar o mundo. Tomaram formatos e feições diversas, algumas discretas como o orvalho da manhã, outras intermitentes como garoa paulistana.

Os céus, em sintonia, harmonia e deferência, também derramaram suas lágrimas, através da chuva que, misturada às lágrimas, anunciava a purificação, a renovação e a mensagem de que a vida segue.

ilustração do site.