Arquivos Diários: 21 julho, 2008

COPACABANA, NUA e CRUA! (l) conto de jb vidal

todas rodoviárias são iguais, têm um cheiro característico. ruim. 
              a de Porto Alegre, cidade onde  morávamos, óbvio, não era diferente. 
              ali estava eu. eu e José Luiz, o amigo que teve a idéia de fazermos esta viagem para o Rio de Janeiro.
              mês de julho. 1966. ditadura. férias. pouco dinheiro. contamos o que tínhamos. dava para curtir uma semana. ficaríamos numa pensãozinha. uma refeição por dia e sanduíches. pronto. vamos. o nosso negócio era praia e mulheres!
                                      
              tirando o cheiro de chulés e outros, a viagem foi normal.

              chegamos às quinze horas de um sábado. um tumulto. gente  pra caralho. aquele cheiro novamente. inacreditável que houvesse um mil e quinhentos quilômetros entre uma e outra.

              como moscas tontas andamos, de um lado para outro, a fim de obter informações, em local oficial, pois não estávamos dispostos a virar presas fáceis de qualquer má intenção.
                                    
              aceitamos a indicação da moça do setor turístico e fomos para uma pensão na rua do Resende em Botafogo. diária e café da manhã compatível com nossos recursos. o local estava próximo a Copacabana, nosso objetivo permanente. praia, mulheres e cervejas. talvez não nessa ordem.

              Madalena, a dona – também de uma bela bunda – mostrou-nos o quarto e o banheiro no final do corredor. casa antiga, confortável.
              tomamos banho e rua.
              dezoito horas, e lá estávamos andando na av. Atlântica. os olhos atentos buscavam todas as mulheres. lembrei da dona da pensão.
              escolhemos, estrategicamente, uma das mesas do calçadão no Bar e Restaurante OK, junto à praça do Lido. sabia que ali, após as dezenove horas, muitas apareceriam para um chope, comer ou serem comidas. 
              “cerveja garçom!” gritou o Zé Luiz, com uma empáfia que me fez rir e pensar “afinal estamos no Rio, para o que der e vier!”
              tínhamos que ganhar as minas que topassem nos levar para a casa delas, pois Madalena havia alertado para a proibição. isto dificultava as coisas.
              “mais uma!” e as mesas lotaram.
              
              uma noite quente abraçou Copacabana e o frenesi dos carros que iam e vinham com suas luzes cintilavam nos copos e garrafas criando um ballet de sombras e brilhos destacando o anonimato das pessoas e cada qual assumia sua identidade hipnoalcoólica condição para chegar à madrugada onde só a euforia seria a companheira de Baco.
             
              retornava do banheiro quando uma jovem tesuda, com quem já havia trocado sorrisos, sedutoramente vestida, pega minha mão e diz “vem comigo”.
              levou-me para o centro da praça. encostou-me numa árvore e passou a me beijar como se estivesse apaixonada. beijava, mordia, pegava no pau, na bunda “é hoje! estou com sorte!” pensei, enquanto amassava aquelas tetinhas e chupava o pescoço com gosto de banho recente.

“voei para o bondinho do Pão de Açúcar, subi pelo cabo pé ante pé, olhei a praia do Flamengo, linda, com a orla iluminada naquela noite quente, virei-me e vi o Cristo Redentor, noturnamente maravilhoso, mas, achei que ele piscou para mim e fez um olhar de advertência, para não encara-lo, olhei rapidamente a baia da Guanabara, a vi como um escuro infinito e senti-me engolido por aquele buraco negro.”       
                                        
              “vamos voltar minha amiga pode se preocupar.” eu era um fogo só.    
             antes de sair da praça dei uns tapas no pau para amolecê-lo. “você é daqui?” perguntou, “não” “eu sabia!”.
                                         
              “viu?” “vi, e a outra? vai dar pé? elas têm onde levar a gente?” “calma! eu nem falei com ela, não deu tempo, deixa eu  tomar fôlego, uns goles e vamos pra mesa delas.”
             
               eufórico, pedi uma dose de Trigo Velho para acompanhar a cerveja, ficar mais “alto”. agora, a iniciativa era minha.

               o Rio, na minha época de garoto, era o que se chama “sonho de consumo,” as praias maravilhosas, o relevo da cidade nada monótono. Copacabana! a sedutora de todos os boêmios, onde encontrei no “Beco das Garrafas” tom Jobim, Maísa, Antonio Maria, Vinicius, Elis ….. o Rio inspirava poetas e cantadores com perucas loiras da corte, com bailes na Ilha Fiscal ao mesmo tempo em que viam negras esbeltas subindo os morros da cidade, selvagens ainda, para onde correram os escravos recém libertos. e a paixão da nobreza era aquela negra com uma lata d’água na cabeça, feliz, cantarolando sua canção africana revestida de banzo, sonhos e desejos.
                                          
              “cadê as mina Rodrigo?” perguntou o Zé Luiz. olhei em direção à mesa onde deveriam estar. ninguém. procuramos. nada.
              debaixo de acusações mútuas, buscamos o culpado pelo descuido.    
              nenhuma conclusão. óbvio.
              andamos por outros bares e boates. sem sucesso. nem elas nem outras. as que topavam queriam grana. nem pensar.
              o Zé pagou o táxi e fomos dormir desenxavidos.

              “que domingo lindo! que sol! essa mulherada pelada! Copacabana é realmente a melhor praia do mundo!” disse o Zé tentando me animar.
              sem toalha, sentado naquela areia escaldada pelo sol das treze horas, meus colhões cozinhavam. levantei e fui ao mar. nadei com raiva e voltei.
              “vamos bicho! se anime! qualé? em vez de ficarmos uma semana, serão quatro dias! tá bom!”. 
              “que habilidade! ah! se encontro aquela puta! vai devolver todo o dinheiro e vou encher de porrada! ladra, vagabunda!”.
              o resto do domingo transcorreu nesse clima, pra baixo. 
             
              a gente sofre quando as coisas não saem como planejadas, mesmo as pequenas.
                                          
              fui salvo por um porre que apareceu no inicio da noite e me jogou na madrugada.
                                           
              segunda-feira. tarde. o Zé salta da cama e tenta me acordar.     
              desiste e sai. despertei quando era noite com Madalena batendo na porta.  queria saber se estava bem ou necessitava de algo “não, obrigado”. fiquei mais puto comigo, poderia ter fingido alguma coisa ela entrava e quem sabe…
                                      
              toquei uma punheta pensando nela.
                                      
              ainda estava de pau duro e com a porra na mão, quando o Zé entra no quarto aos safanões dados por dois milicos da PM. um deles, apontando o fuzil, manda que me levante com as mãos na cabeça.
              como havia dias que não transava nem me masturbava e somando à excitação com a puta-ladra no Lido, era muita porra, que, ao levantar as mãos escorreu para os cabelos, rosto e peito.
              “porco de merda! não gosta de mulher!?” gritou, encostando o fuzil no estômago e pressionando contra a parede. doeu muito.
              o Zé, que tinha saído sem os malditos documentos, caíra numa blites para carros e pedestres na saída do túnel da av. Princesa Isabel. agora, apresentava todos, com mãos que mal podiam segurá-los. mostrei os meus. reviraram tudo. toda a casa; pois logo após os dois, entraram mais cinco. não encontraram nada que comprometesse alguém.
                                      
              me pegaram pra cristo. com os demais hóspedes encostados nas paredes do corredor e Madalena, histérica, dizendo que era amiga de um tal coronel do exército, me tiraram do quarto, nu e com as mãos na cabeça, obrigaram-me andar alguns passos “este porco não gosta de mulher! flagramos o filho da puta tocando punheta! ele é bichona!”
             
              desde que me conheço por gente, fui assim, diante de uma situação de enfrentamento primeiro surge o medo e a seguir uma raiva crescente. o cérebro, dá a impressão que incha e a mente entra num torvelinho de espiral ascendente buscando uma saída para a orgia de pensamentos, confusos, cinzas, inexatos e velozes. a razão vai pro caralho.
corri pra cima do milico “bicha é tu filho da puta!” que me esperou com uma coronhada de fuzil no estômago. estatelei-me desmaiado.  
              queriam me levar. por desacato e atentado ao pudor. todos argumentaram. Madalena pediu, implorou. foram-se.
              
              ficou claro que a dona da bela bunda interferiu, não por mim, mas para resguardar a moral da sua pensão, que certamente seria escrachada na imprensa de aluguel por abrigar subversivos políticos, razão alegada naqueles tempos para qualquer arbitrariedade. ordenou que deixasse-mos a pensão imediatamente. cumpriu-se o pensamento do bar OK “estamos no Rio para o que der e vier”.

não esperava tanto.    

                   sem crédito. ilustração do site.

DAS LESMICES DITAS LÍRICAS poema de joão batista do lago


O que é a lírica feita apenas de lírica?
– um montinho de imagens que fedem estética – merda pura! –
um jeitinho bonitinho de arrumar palavras sobre palavras
castelos de areia que não agüentam a primeira maré

essa tua poesia feito peido de gabinete
que circula nos ares nobres de salões engalanados
sacramenta a idiotia das modernas gentes
que relincham como adestrados ginetes

sim! cansei das lesmices ditas líricas
feitas ao sabor do cântico factótum
donde te pensas deus-de-américas
contudo regurgitas tão-somente teu verso póstumo

pede meu verso que te peça perdão
– ele não canta ilusões… ele não tem qualquer paixão
meu verso é víscera que transcende o amor
ele é apenas verso de fome, sede e dor

ÚLTIMO ALMOÇO poema de marilda confortin

Já não há mais nada de interessante

nas paredes desse restaurante

para consumir nosso tempo

Os  velhos marujos de gesso

nos conhecem pelo avesso.

A coleção de nós de corda de navio

orna com nossos laços, frios.

Não vai chover,

nem esquentar,

nem esfriar.

Não há mais tempo

nem assunto.

O silêncio incomoda.

O garçom some.

Quem paga a conta

dessa falta de fome

que nos consome?

 

 

Escritores e críticos analisam literatura brasileira em Parati

Paul Auster, Martin Amis, Ian McEwan e Margaret Atwood. OK. Mas e nós? Aproveitando o dia mais brasileiro da Festa Literária Internacional de Parati, que terá de manhã Ferréz, pela tarde o trio Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar e Luis Fernando Verissimo e Chico Buarque na entrada da noite, a Folha ouviu escritores, críticos, agentes literários para bater uma chapa da ficção que fica aqui depois que o circo da Flip for desmontado. Qual a situação da literatura brasileira hoje?
O caçula do festival, Daniel Galera, 25, dá o mote da toada. “É impossível definir como é a ficção feita hoje no país. É tudo muito variado, cada um seguindo sua viagem.” Escritor e dono da microeditora Livros do Mal, ele é inimigo ferrenho de “geração 90”, “geração 00” e outras estampas que pregam nas costas dos autores que se consolidam agora.

A ânsia de classificar o que está sendo feito agora, opina Augusto Massi, é sinal da falta de “espírito crítico”. Ator, diretor e contra-regra, ou seja, editor, ensaísta, professor e poeta, ele acredita que o problema não está na produção literária nacional nem naqueles que a imprimem. “Quando ninguém consegue se localizar montam-se logo antologias. São coletâneas feitas por gerações, gêneros ou ‘os cem melhores’. Mas essas listas são pouco confiáveis.” Massi acredita que faltam críticos novos, que possam organizar um mercado que dá espaço “para todo mundo: do cara dos poemas pornôs ao best-seller”.

Raimundo Carrero, 14 romances nas costas, discorda. “Faltam é leitores.” E a oferta nacional das novíssimas gerações (“nova geração sou eu também, não morri”), segundo ele, é das mais generosas possíveis. “Vivemos a perplexidade de um novo milênio. A literatura brasileira vive o que Alejo Carpentier chamou de terceiro estilo, que é a falta de um estilo”, aponta o autor pernambucano.

Os “novíssimos” apontam a internet como multiplicadora desses modos tão variados de prosear. “A palavra é jogo. Nós jogamos os textos na internet e estamos jogando literariamente para encontrar nossos caminhos, nossos estilos”, opina Emílio Fraia, 22, paulistano.

Essa “busca de caminhos” o trouxe às Veredas da Literatura. Esse é o nome de um projeto literário da Flip que reuniu de quinta a hoje uma trupe de 50 autores inéditos ou nos primeiros passos para uma oficina com o romancista e professor Milton Hatoum.

Vindos de diversas cidades, e agrupados “woodstockianamente” em uma pousada, eles terão um mês a contar de hoje para apresentarem projetos de livros. Dois deles serão brindados pela Vivo, patrocinadora do projeto, com R$ 12 mil (oito de R$ 1.500) para concluírem os escritos.

Os “novíssimos” farão “vanguardismos”? Não necessariamente. Antonia Pellegrino, 24, carioca, fala sem meias palavras. “Caguei para a vanguarda. Escrever uma boa história já é ótimo. Se quer fazer vanguarda, tem que ser gênio. Ficar no meio do caminho não dá”, diz a neta do poeta e psicanalista Helio Pellegrino.

Um dos principais contistas brasileiros, Sérgio Sant’Anna, safra 1941, não pensa assim. “A palavra ‘vanguarda’ envelheceu, mas o desejo de inovar não. Quem prega que o que importa é só o enredo, e não a linguagem, são setores conservadores, um pouco reacionários”, diz o escritor, que pôs o tema na roda ontem em encontro com Luiz Vilela.

Carrero, Marcelino Freire, Ivana Arruda Leite e Daniel Galera, reunidos em frente à Igreja da Matriz, rezam nessa cartilha. Em conversa com a Folha, dizem eles que a ficção brasileira tem muita gente experimentado bem a linguagem, sim. Mas não acreditam que esse (ou qualquer outro traço) possa ser amarrado nas novas escrituras brasileiras.

“Tentar definir o que está acontecendo é como abrir o liqüidificador enquanto a vitamina está sendo feita. Voa abacate para todo lado”, diz o poeta, prosador e editor Joca Reiners Terron. Sem receio dos “abacates”, Augusto Sales, editor da revista literária “Paralelos” e um dos organizadores da Veredas da Literatura, arrisca um retrato de corpo inteiro.

“Os autores cariocas trabalham mais a partir da memória afetiva. São pequenas obsessões, crises existenciais e o incômodo com a superficialidade do mundo contemporâneo. Já São Paulo é mais ‘faca no bucho’, fala mais da violência urbana. Tem influência de Rubem Fonseca e do cinema. No Sul, vejo mais elementos fantásticos. Mas, em comum, têm a concisão, o apreço pelos minicontos, o que é influência da internet.”

Contam-se em dedos minguados os jovens autores que não trabalham com a “rede”, a julgar pela amostragem da oficina Veredas. Uma delas vem do interior paulista. Fabíola Moura, 31, é o nome da “avis rara”. “Sou uma exceção aqui, porque não tenho blog. Sou autora do século passado. O que acho ótimo nos novos autores é a desmistificação da escrita. A busca de comunicação direta pela net possibilita isso.”

Outra “desmistificação” é a de que não é possível exportar nossa literatura. Lucia Riff, principal agente literária brasileira, diz que não passa nenhum mês sem negociar autores brasileiros com o exterior. “Tenho recebido pedidos de países que nunca publicaram nossa literatura. Anos atrás o desconhecimento da literatura brasileira chegava a ser constrangedor. Agora estamos na moda.”

Mas ainda falta. Com a palavra o enviado do jornal espanhol “El País”, José Andrés Rojo: “O leque da literatura brasileira é imenso, com obras de variedade surpreendente. É literatura ainda praticamente desconhecida, que precisa ser posta em órbita”.

 

 

 

Por: CASSIANO ELEK MACHADO e
LUIZ FERNANDO VIANNA

de conrado maestro. ilustração do site.

 

 

EDU HOFFMANN e seus HAICAIS (ll)

cirandar

 

 

     amor que prende

 

     amor que solta

 

   amor que me leva

 

   e me traz de volta

 

 

   =

 

 

                              noite alta

 

                     criança risonha sonha  

 

 

                          estrelas azuis

 

 

=

 

 

 

                rã saltando

 

 

         enche minha boca

 

                  d’água

 

 

=

 

                       no alto galho

 

 

                pensava estar vendo o sol

 

 

                       era um caqui

 

 

               =

 

 

assim que se escreve

 

 

 

 

                      procuro e não tem

 

 

                           meu Deus

 

 

                  sem caneta sou ninguém

 

 

=

 

 

                    Clínica Freudulenta

 

 

                          no recreio

 

 

                 servia bolachas reichiadas

 

SÍNDROME POR UMA CAMA DECENTE por darlan cunha

Durmo num sofá, e isso requer paciência, porque é como vestir roupa que não seja nossa, e assim é que se está sempre sob desconforto de dores e insônia.

Com os pés e a cabeça mais elevados, a gente fica como um longo “U” a noite toda, madrugada inteira, e se levanta corcunda, cheio de tristeza, empapuçado o olhar, sensação de amor mal-feito e, de verdade, nem feito nem sonhado.

Durmo num sofá, só eu e minhas (in)consequências já muito duradouras, e sei que devo dar logo um jeito definitivo nisso de viver com dores no lombo quanto nos quadris e nos ombros, carregando uma placa na testa onde se lê “Insônia”.

SEDE DE AMAR poema de bárbara lia

A mulher dobra o arco-íris
e o esconde sob a mortalha.
Colhe a estrela matutina
e a aninha, ainda quente,
entre as rosas mortuárias.
A pedra pequena recolhida
nos trilhos da rua do amado
coloca em seu ouvido
como concha
para levar na eternidade
o eco dos passos dele.
Ela está morrendo
e seu amor não sabe.
Bebe o último copo d’água
sabendo
que a sede mais intensa
nunca foi saciada.

A LEI DO TURISTA-CIDADÃO/ por alceu sperança

Por falta de capacidade (ou vontade) de resolver os problemas reais que as pessoas vivem, nas campanhas eleitorais surgem, como sempre, propostas absolutamente irrelevantes, como a criação de guardas municipais a pretexto de combater a criminalidade.

Outra proposta que não muda o valor do dólar ou do euro nem reduz a buraqueira que o crack faz nos cérebros das crianças é o debate sexo-angelical sobre se o setor de turismo deve fazer parte da Secretaria Municipal da Cultura ou da Indústria e Comércio? Partindo dessa dúvida absolutamente bestial, como diriam os “patrícios”, poderíamos embutir nessa questão outras perguntas. Por que o turismo não faz parte da Educação, já que é necessário educar toda a população para bem receber os turistas? Sem educação, como trataremos bem os gringos e seus dólares/euros?

Vamos em frente: como tratar bem os turistas se continuamos atropelando gente e fazendo roleta-paulista por aí? Não seria, então, o caso de atrelar o turismo ao Detran? Em Cascavel, um burocrata da Prefeitura tentou dar um pouco de educação (sempre ela) ao pessoal que lida com o tráfego e foi chamado de maluco por pretender transformar o serviço de táxi numa espécie de organizado Yellow Cab americano. A crítica mais habitual é “aqui não funciona”.

Mas o turismo talvez pudesse ser reivindicado pela Secretaria do Planejamento, pois a cidade não está preparada nem para o convívio dos cidadãos “aborígines” – por que cargas d’água estaria para os estranjas? Claro que a Secretaria de Assuntos Comunitários também poderia reclamar o turismo, na medida em que depois de dar cidadania e civilidade aos “agentes ecológicos” (catadores de papel) pode também transformar os “flanelinhas” em “recepcionistas turísticos”, inclusive com noções de gringuês.

A Secretaria da Saúde, por sua vez, reclamaria o turismo alegando que alguém poderia vir do exterior trazendo a gripe aviária, sendo necessário criar, talvez junto com a tal Guarda Municipal, um cadeião todo almofadado, tipo cinco estrelas, decorado com retratos de mulatas seminuas e motivos paisagísticos tropicais, para que os gringos visitantes ficassem de quarentena até que o risco de transmitir a perigosa doença fosse contornado.

A Secretaria do Meio Ambiente poderia com justa razão reivindicar o turismo para motivar a visitação aos velhos e aos novos parques temáticos de preservação das fontes e dos fundos de vale. A Secretaria das Finanças poderia baratear o custo do desassoreamento dos lagos entulhados cobrando de cada turista um pedágio adicional: um caminhonaço de lodo tirado do lago lhe valeria o título de Cidadão Honorário Sanepariano do Município.

Temos secretarias demais, departamentos demais, gastos demais com caciques e pouca esperteza na articulação entre as instâncias da administração, que deveriam jogar juntas, como as peças de uma equipe – digamos o insopitável Coxa – que pretende ganhar uma competição.

O turismo é uma grande fonte de renda. Será nosso grande negócio se soubermos lidar com ele. Mas não é preciso criar nenhum departamento de Turismo nem na Cultura, nem na Indústria e Comércio, nem em qualquer outro lugar: basta cumprir uma pequenina lei, a exemplo das Três Leis da Robótica, de Isaac Asimov, com apenas três artigos:

“Art. 1° – Em Curitiba, Estado do Paraná, toda pessoa residente no perímetro municipal será tratada como turista, com todos os seus direitos de cidadão, mordomias e salamaleques assegurados;

“Art. 2° – Todo visitante e turista será, para todos os efeitos, tratado como o é todo cidadão curitibano.

“Art. 3° – Revoguem-se as disposições (e as patetadas) em contrário.”

Não sei se essa “lei”, tecnicamente, tem fundamento, pois leis não podem embutir ironias nem, talvez, uma proposta mal disfarçada de revolução final contra a opressão capitalista. Mas deveria começar a vigorar imediatamente, ao menos em nosso coração.

 

sem crédito. ilustração do site.

MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (II) – por alberto moby

Na mensagem anterior afirmei que, ao utilizarmos as expressões “música popular brasileira” e “MPB” não estamos falando do mesmo objeto, pelo menos se o período a ser analisado for o do regime militar. Para ajudar a sustentar essa afirmação vou fazer aqui uma breve análise da reação de alguns compositores dos anos 70 frente ao rigor da censura nos chamados “anos duros” da ditadura – o período compreendido entre a edição do Ato Institucional n.º 5 e o término do governo do general Emílio Médici. Eram esses compositores (ou a maior parte deles) que eram chamados pelo público e por parte da mídia como MPB.

Numa entrevista de 1974, para o jornal Opinião, não publicada por ter sido proibida pela Censura, Chico Buarque de dialogava com a jornalista Ana Maria Bahiana:

– Quer dizer que até o fim do ano você não pretende mexer com nada de música?

– Ah, isso é pacífico. Tem aí umas idéias – mas não tem nada marcado – de um dia fazer um disco com músicas de outros autores, mais tarde um disco de retrospectiva, porque pra esse ano não vai dar, mesmo.[1]

Na mesma entrevista, Chico Buarque comentava o LP Chico canta, do ano anterior, contendo as canções da peça teatral Calabar – o elogio da traição, dele e de Ruy Guerra:

– Bem, eu estive pensando, no final das contas, olhando bem, não é um bom disco, entende? Quer dizer, é um disco cuidado, com arranjos lindos do Edu [Lobo], mas quem vai comprar um disco que metade das músicas não tem letra? Vale como documento, mas você não pode obrigar as pessoas, ninguém está informado de nada. Não estão informa¬das, como é que vão comprar um disco de capa toda branca? O título do disco é CHICO CANTA, quer dizer, não tem nada a ver, é a capa que não é capa. Uma porção de músicas sem letra e, aí sim, muito mais presas a uma peça que não houve. Quer dizer… todas as músicas de CALABAR se ressentem da au¬sência da peça, porque estão muito mais vinculadas a ela.[2]

Como a peça, vetada pela Censura, o disco tivera as letras de várias das canções a ela vinculadas também censuradas. Além disso, foi proibida a capa do disco, com a palavra Calabar pichada num muro[3]. Na canção Fado tropical (proibida para o show Tempo e contratempo, de 1974, com Chico e o conjunto MPB-4) foi proibida a frase “além da sífilis, é claro” (uma das heranças lusitanas no sangue brasileiro, segundo o personagem Mathias), parte de um texto declamado por Ruy Guerra, co-autor também das músicas. Anna de Amsterdã teve toda a letra proibida, assim como Vence na vida quem diz sim, só sendo permitido incluí-las no disco em versão instrumental. Na canção Bárbara, foi cortada a palavra “duas”, que sugeria um relacionamento homossexual entre as personagens Anna de Amsterdã e Bárbara, viúva de Calabar. Anna de Amsterdã e Bárbara sofreriam os mesmos cortes, substituídos por palmas, no LP Caetano e Chico juntos e ao vivo, gravado naquele mesmo ano durante um show no Teatro Castro Alves de Salvador. Além dessas duas canções, a música Partido alto, interpretada por Caetano no show, só fora permitida com alterações na letra, onde foram substituídas as palavras “brasileiro” (por “batuqueiro”) e “pouca titica” (por “pobre coisica”).

A violência da Censura contra o disco Calabar, no entanto, já era o resultado do aumento sistemático da violência contra o trabalho de Chico Buarque, que continuaria ainda por muito tempo. Angustiado, Chico declararia a Ana Maria Bahiana: “… eu espero que daqui a um ano eu possa fazer música de novo, no momento me considero um ex-compositor”[4]. Mas, mais adiante, o próprio Chico relativizava essa declaração, talvez na tentativa de se proteger de um tipo de acusação que até hoje o persegue – a de que se fazia de vítima da ditadura para conquistar o público e vender:

– Também não quero usar isso como álibi, é preciso saber até que ponto eu pego no violão e não tenho vontade de compor porque acho que não vale a pena, que não vai passar. Não é autocensura, é um cansaço de se empolgar com um troço bonito e perdê-lo. Então você antes disse: já não vai fazer pra não ter o desgosto. Agora também não posso dizer que é só por causa disso, primeiro porque eu não quero dar esse gosto a ninguém […]. É uma crise. Tem umas gotinhas vindas de fora, uma pressão; mas não é só isso”.[5]

A angústia e a tensão entre a luta contra a Censura e uma (im)provável falta de criatividade acabam levando Chico Buarque a concluir: “Não dá pra fazer show de capa branca, com metade das músicas sem cantar”[6]. Além do mais, acrescenta: “é muito chato isso das pessoas te pararem na rua e perguntarem pela censura, e não pelo meu trabalho. Como artista eu quero ser julgado pelo meu trabalho. Foi um ano perdido”[7].

O vigor com que a Censura se abateu sobre Chico Buarque não seria “privilégio” dele, nem tampouco novidade em 1973. Só para citar mais alguns exemplos, o LP Paulinho da Viola, de 1971, teve as canções Chico Britto, de Wilson Batista e de Afonso Teixeira (música composta em 1949), e Um barato, meu sapato, de Paulinho da Viola e Milton Nascimento, proibidas[8], por destacarem o “clima marginal do samba”[9]. Em 1972, Jards Macalé teria que reescrever sete vezes a letra de Revendo amigos (LP Movimento dos barcos). Em 1973, Raul Seixas teria 18 composições vetadas pela Censura, Luís Melodia, em seu disco de estréia, teve várias palavras podadas de suas canções, além de várias músicas vetadas na íntegra.

Mas o disco que faria par com Calabar, em 1973, seria o álbum (um LP e um compacto simples) Milagre dos peixes, de Milton Nascimento. Apesar de ter contado com participações especiais, como Radamés Gnatalli como arranjador, Clementina de Jesus e Gonzaguinha, entre outros, a Censura não se intimidaria, vetando as canções Hoje é dia d’El Rey, Cadê e Escravos de Jó, impedindo a participação no LP de Dorival Caymmi, que deveria cantar uma das faixas mutiladas. Além disso, outras canções teriam as letras parcialmente proibidas, como é o caso de Diálogo entre pai e filho, cuja única frase permitida dizia: “Meu filho”!. Conformado, Milton Nascimento decidiu gravar apenas as melodias das canções vetadas.

Ainda naquele ano, a revista Veja[10] revelava que o LP Luiz Gonzaga Jr., contendo dez faixas, era o sobrevivente dos cortes de quinze músicas pela Censura. Isso sem contar que a canção Comportamento geral, gravada nesse LP, fora proibida de ser executada nos meios de comunicação.
A onda de repressão à música popular dos primeiros anos da década de 1970 faria o crítico musical Tárik de Souza mostrar-se “surpreso”, em meados de 1974, com a “calmaria excessiva e perigosa, sujeita a discos técnicos e performances de discreta estética comportada”[11] que se abatia sobre o mercado musical brasileiro. Ironicamente, Tárik de Souza concluía seu raciocínio, refazendo-se do “susto”:

Evidentemente que quem quisesse acompanhar ainda com maior profundidade as oscilações da linha de frente da música brasileira deveria munir-se de um sismógrafo resistente. Muitos fatores contribuem para os efeitos de luzes e sombras que tingem os rostos dos espectadores. A estes muitas vezes será preciso ainda informar que tudo pode acontecer pelos costumeiros – e sempre insondáveis – motivos de ordem técnica. Perdão, leitores.[12]

Na próxima mensagem vou tentar comentar as formas que a MPB encontrou para resistir ao rigor da Censura.


PS: Este post é uma versão adaptada das p. 146-150 do meu livro Sinal Fechado: a música popular sob censura (1937-45/1969-78, publicado no ano passado pela editora Apicuri, do Rio de Janeiro (www.apicuri.com.br).

[1] BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes: MPB nos anos 70. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 36. Sobre os discos de que fala Chico Buarque, o primeiro deles, com músicas de outros autores, foi realmente produzido: trata-se do LP Sinal Fechado (Philips, 6349122), de 1974, onde apenas a canção Acorda, amor, assinada com os pseudônimos de Leonel Paiva e Julinho de Adelaide, inventados por Chico, era dele. Quanto ao disco de retrospectiva de sua carreira, não chegou a ser realizado.
[2] Idem, p. 37.

[3] A capa foi proibida “pois os censores enxergaram um significado subversivo. Chico reagiu lançando o mesmo disco com capa totalmente branca e sem título. O seu Álbum branco, digamos assim. Manteve, entretanto, a ficha técnica da capa anterior, com os nomes dos fotógrafos (eram três), evidenciando, assim, mais uma vez, a ação da Censura. O curioso é que esta capa também acabou sendo recolhida, mas não por ordem da repressão. A decisão foi da própria gravadora. É que o disco simplesmente não vendeu, e o departamento comercial da Philips identificou na capa branca a causa do fracasso comercial. Semanas depois, o LP foi relançado com nova capa, mais simples, mais normal, apenas com uma foto do artista, de perfil, com o título Chico canta.” (MARTINS, Lula Branco. “Chico Buarque e a imagem do artista: como se deu a construção de um símbolo nacional”. JB online, 13/JUN/2004. Disponível em http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2004/06/12/jorcab20040612013.html. Acesso em 13/04/2008.)

[4] BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes…, cit., p. 37.

[5] Idem, p. 39.

[6] Ibidem.

[7] Idem, p. 40.

[8] Chico Britto só seria regravada em 1979, no LP Zumbido, e Um barato, meu sapato, provavelmente modificada, com novo nome, Meu novo sapato, e sem a parceria com Milton Nascimento, sairia no LP Memórias cantando, de 1976.

[9] “Um caso à parte”. Veja, 10/11/1971, p. 90.

[10] “Bem inspirado”. Veja, 25/07/1973, p. 98.

[11] SOUZA, Tárik de. “Música popular: interferências empresariais e outras”. Opinião, (78):23, 06/05/1974.

[12] Ibidem.