COPACABANA, NUA e CRUA! (l) conto de jb vidal

todas rodoviárias são iguais, têm um cheiro característico. ruim. 
              a de Porto Alegre, cidade onde  morávamos, óbvio, não era diferente. 
              ali estava eu. eu e José Luiz, o amigo que teve a idéia de fazermos esta viagem para o Rio de Janeiro.
              mês de julho. 1966. ditadura. férias. pouco dinheiro. contamos o que tínhamos. dava para curtir uma semana. ficaríamos numa pensãozinha. uma refeição por dia e sanduíches. pronto. vamos. o nosso negócio era praia e mulheres!
                                      
              tirando o cheiro de chulés e outros, a viagem foi normal.

              chegamos às quinze horas de um sábado. um tumulto. gente  pra caralho. aquele cheiro novamente. inacreditável que houvesse um mil e quinhentos quilômetros entre uma e outra.

              como moscas tontas andamos, de um lado para outro, a fim de obter informações, em local oficial, pois não estávamos dispostos a virar presas fáceis de qualquer má intenção.
                                    
              aceitamos a indicação da moça do setor turístico e fomos para uma pensão na rua do Resende em Botafogo. diária e café da manhã compatível com nossos recursos. o local estava próximo a Copacabana, nosso objetivo permanente. praia, mulheres e cervejas. talvez não nessa ordem.

              Madalena, a dona – também de uma bela bunda – mostrou-nos o quarto e o banheiro no final do corredor. casa antiga, confortável.
              tomamos banho e rua.
              dezoito horas, e lá estávamos andando na av. Atlântica. os olhos atentos buscavam todas as mulheres. lembrei da dona da pensão.
              escolhemos, estrategicamente, uma das mesas do calçadão no Bar e Restaurante OK, junto à praça do Lido. sabia que ali, após as dezenove horas, muitas apareceriam para um chope, comer ou serem comidas. 
              “cerveja garçom!” gritou o Zé Luiz, com uma empáfia que me fez rir e pensar “afinal estamos no Rio, para o que der e vier!”
              tínhamos que ganhar as minas que topassem nos levar para a casa delas, pois Madalena havia alertado para a proibição. isto dificultava as coisas.
              “mais uma!” e as mesas lotaram.
              
              uma noite quente abraçou Copacabana e o frenesi dos carros que iam e vinham com suas luzes cintilavam nos copos e garrafas criando um ballet de sombras e brilhos destacando o anonimato das pessoas e cada qual assumia sua identidade hipnoalcoólica condição para chegar à madrugada onde só a euforia seria a companheira de Baco.
             
              retornava do banheiro quando uma jovem tesuda, com quem já havia trocado sorrisos, sedutoramente vestida, pega minha mão e diz “vem comigo”.
              levou-me para o centro da praça. encostou-me numa árvore e passou a me beijar como se estivesse apaixonada. beijava, mordia, pegava no pau, na bunda “é hoje! estou com sorte!” pensei, enquanto amassava aquelas tetinhas e chupava o pescoço com gosto de banho recente.

“voei para o bondinho do Pão de Açúcar, subi pelo cabo pé ante pé, olhei a praia do Flamengo, linda, com a orla iluminada naquela noite quente, virei-me e vi o Cristo Redentor, noturnamente maravilhoso, mas, achei que ele piscou para mim e fez um olhar de advertência, para não encara-lo, olhei rapidamente a baia da Guanabara, a vi como um escuro infinito e senti-me engolido por aquele buraco negro.”       
                                        
              “vamos voltar minha amiga pode se preocupar.” eu era um fogo só.    
             antes de sair da praça dei uns tapas no pau para amolecê-lo. “você é daqui?” perguntou, “não” “eu sabia!”.
                                         
              “viu?” “vi, e a outra? vai dar pé? elas têm onde levar a gente?” “calma! eu nem falei com ela, não deu tempo, deixa eu  tomar fôlego, uns goles e vamos pra mesa delas.”
             
               eufórico, pedi uma dose de Trigo Velho para acompanhar a cerveja, ficar mais “alto”. agora, a iniciativa era minha.

               o Rio, na minha época de garoto, era o que se chama “sonho de consumo,” as praias maravilhosas, o relevo da cidade nada monótono. Copacabana! a sedutora de todos os boêmios, onde encontrei no “Beco das Garrafas” tom Jobim, Maísa, Antonio Maria, Vinicius, Elis ….. o Rio inspirava poetas e cantadores com perucas loiras da corte, com bailes na Ilha Fiscal ao mesmo tempo em que viam negras esbeltas subindo os morros da cidade, selvagens ainda, para onde correram os escravos recém libertos. e a paixão da nobreza era aquela negra com uma lata d’água na cabeça, feliz, cantarolando sua canção africana revestida de banzo, sonhos e desejos.
                                          
              “cadê as mina Rodrigo?” perguntou o Zé Luiz. olhei em direção à mesa onde deveriam estar. ninguém. procuramos. nada.
              debaixo de acusações mútuas, buscamos o culpado pelo descuido.    
              nenhuma conclusão. óbvio.
              andamos por outros bares e boates. sem sucesso. nem elas nem outras. as que topavam queriam grana. nem pensar.
              o Zé pagou o táxi e fomos dormir desenxavidos.

              “que domingo lindo! que sol! essa mulherada pelada! Copacabana é realmente a melhor praia do mundo!” disse o Zé tentando me animar.
              sem toalha, sentado naquela areia escaldada pelo sol das treze horas, meus colhões cozinhavam. levantei e fui ao mar. nadei com raiva e voltei.
              “vamos bicho! se anime! qualé? em vez de ficarmos uma semana, serão quatro dias! tá bom!”. 
              “que habilidade! ah! se encontro aquela puta! vai devolver todo o dinheiro e vou encher de porrada! ladra, vagabunda!”.
              o resto do domingo transcorreu nesse clima, pra baixo. 
             
              a gente sofre quando as coisas não saem como planejadas, mesmo as pequenas.
                                          
              fui salvo por um porre que apareceu no inicio da noite e me jogou na madrugada.
                                           
              segunda-feira. tarde. o Zé salta da cama e tenta me acordar.     
              desiste e sai. despertei quando era noite com Madalena batendo na porta.  queria saber se estava bem ou necessitava de algo “não, obrigado”. fiquei mais puto comigo, poderia ter fingido alguma coisa ela entrava e quem sabe…
                                      
              toquei uma punheta pensando nela.
                                      
              ainda estava de pau duro e com a porra na mão, quando o Zé entra no quarto aos safanões dados por dois milicos da PM. um deles, apontando o fuzil, manda que me levante com as mãos na cabeça.
              como havia dias que não transava nem me masturbava e somando à excitação com a puta-ladra no Lido, era muita porra, que, ao levantar as mãos escorreu para os cabelos, rosto e peito.
              “porco de merda! não gosta de mulher!?” gritou, encostando o fuzil no estômago e pressionando contra a parede. doeu muito.
              o Zé, que tinha saído sem os malditos documentos, caíra numa blites para carros e pedestres na saída do túnel da av. Princesa Isabel. agora, apresentava todos, com mãos que mal podiam segurá-los. mostrei os meus. reviraram tudo. toda a casa; pois logo após os dois, entraram mais cinco. não encontraram nada que comprometesse alguém.
                                      
              me pegaram pra cristo. com os demais hóspedes encostados nas paredes do corredor e Madalena, histérica, dizendo que era amiga de um tal coronel do exército, me tiraram do quarto, nu e com as mãos na cabeça, obrigaram-me andar alguns passos “este porco não gosta de mulher! flagramos o filho da puta tocando punheta! ele é bichona!”
             
              desde que me conheço por gente, fui assim, diante de uma situação de enfrentamento primeiro surge o medo e a seguir uma raiva crescente. o cérebro, dá a impressão que incha e a mente entra num torvelinho de espiral ascendente buscando uma saída para a orgia de pensamentos, confusos, cinzas, inexatos e velozes. a razão vai pro caralho.
corri pra cima do milico “bicha é tu filho da puta!” que me esperou com uma coronhada de fuzil no estômago. estatelei-me desmaiado.  
              queriam me levar. por desacato e atentado ao pudor. todos argumentaram. Madalena pediu, implorou. foram-se.
              
              ficou claro que a dona da bela bunda interferiu, não por mim, mas para resguardar a moral da sua pensão, que certamente seria escrachada na imprensa de aluguel por abrigar subversivos políticos, razão alegada naqueles tempos para qualquer arbitrariedade. ordenou que deixasse-mos a pensão imediatamente. cumpriu-se o pensamento do bar OK “estamos no Rio para o que der e vier”.

não esperava tanto.    

                   sem crédito. ilustração do site.

Uma resposta

  1. Putz Vidal,

    Esta “tu matou” ao pau.
    (gaúcho jamais falaria “tu mataste”)

    Este conto, biografia, crônica, sei lá que nome queres dar, está pra lá de Bukowiski. É o teu lado Henry Muller entrando em ação. Até parece que é um capítulo extraído do livro Sexus do escritor maldito do Século XX.
    Que desventura braba, irmão.

    A narrativa é crua e nua,
    como tu (perdão pela rima) no chão frio da pensão.

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