MPB – UMA EXPRESSÃO AMBÍGUA (II) – por alberto moby

Na mensagem anterior afirmei que, ao utilizarmos as expressões “música popular brasileira” e “MPB” não estamos falando do mesmo objeto, pelo menos se o período a ser analisado for o do regime militar. Para ajudar a sustentar essa afirmação vou fazer aqui uma breve análise da reação de alguns compositores dos anos 70 frente ao rigor da censura nos chamados “anos duros” da ditadura – o período compreendido entre a edição do Ato Institucional n.º 5 e o término do governo do general Emílio Médici. Eram esses compositores (ou a maior parte deles) que eram chamados pelo público e por parte da mídia como MPB.

Numa entrevista de 1974, para o jornal Opinião, não publicada por ter sido proibida pela Censura, Chico Buarque de dialogava com a jornalista Ana Maria Bahiana:

– Quer dizer que até o fim do ano você não pretende mexer com nada de música?

– Ah, isso é pacífico. Tem aí umas idéias – mas não tem nada marcado – de um dia fazer um disco com músicas de outros autores, mais tarde um disco de retrospectiva, porque pra esse ano não vai dar, mesmo.[1]

Na mesma entrevista, Chico Buarque comentava o LP Chico canta, do ano anterior, contendo as canções da peça teatral Calabar – o elogio da traição, dele e de Ruy Guerra:

– Bem, eu estive pensando, no final das contas, olhando bem, não é um bom disco, entende? Quer dizer, é um disco cuidado, com arranjos lindos do Edu [Lobo], mas quem vai comprar um disco que metade das músicas não tem letra? Vale como documento, mas você não pode obrigar as pessoas, ninguém está informado de nada. Não estão informa¬das, como é que vão comprar um disco de capa toda branca? O título do disco é CHICO CANTA, quer dizer, não tem nada a ver, é a capa que não é capa. Uma porção de músicas sem letra e, aí sim, muito mais presas a uma peça que não houve. Quer dizer… todas as músicas de CALABAR se ressentem da au¬sência da peça, porque estão muito mais vinculadas a ela.[2]

Como a peça, vetada pela Censura, o disco tivera as letras de várias das canções a ela vinculadas também censuradas. Além disso, foi proibida a capa do disco, com a palavra Calabar pichada num muro[3]. Na canção Fado tropical (proibida para o show Tempo e contratempo, de 1974, com Chico e o conjunto MPB-4) foi proibida a frase “além da sífilis, é claro” (uma das heranças lusitanas no sangue brasileiro, segundo o personagem Mathias), parte de um texto declamado por Ruy Guerra, co-autor também das músicas. Anna de Amsterdã teve toda a letra proibida, assim como Vence na vida quem diz sim, só sendo permitido incluí-las no disco em versão instrumental. Na canção Bárbara, foi cortada a palavra “duas”, que sugeria um relacionamento homossexual entre as personagens Anna de Amsterdã e Bárbara, viúva de Calabar. Anna de Amsterdã e Bárbara sofreriam os mesmos cortes, substituídos por palmas, no LP Caetano e Chico juntos e ao vivo, gravado naquele mesmo ano durante um show no Teatro Castro Alves de Salvador. Além dessas duas canções, a música Partido alto, interpretada por Caetano no show, só fora permitida com alterações na letra, onde foram substituídas as palavras “brasileiro” (por “batuqueiro”) e “pouca titica” (por “pobre coisica”).

A violência da Censura contra o disco Calabar, no entanto, já era o resultado do aumento sistemático da violência contra o trabalho de Chico Buarque, que continuaria ainda por muito tempo. Angustiado, Chico declararia a Ana Maria Bahiana: “… eu espero que daqui a um ano eu possa fazer música de novo, no momento me considero um ex-compositor”[4]. Mas, mais adiante, o próprio Chico relativizava essa declaração, talvez na tentativa de se proteger de um tipo de acusação que até hoje o persegue – a de que se fazia de vítima da ditadura para conquistar o público e vender:

– Também não quero usar isso como álibi, é preciso saber até que ponto eu pego no violão e não tenho vontade de compor porque acho que não vale a pena, que não vai passar. Não é autocensura, é um cansaço de se empolgar com um troço bonito e perdê-lo. Então você antes disse: já não vai fazer pra não ter o desgosto. Agora também não posso dizer que é só por causa disso, primeiro porque eu não quero dar esse gosto a ninguém […]. É uma crise. Tem umas gotinhas vindas de fora, uma pressão; mas não é só isso”.[5]

A angústia e a tensão entre a luta contra a Censura e uma (im)provável falta de criatividade acabam levando Chico Buarque a concluir: “Não dá pra fazer show de capa branca, com metade das músicas sem cantar”[6]. Além do mais, acrescenta: “é muito chato isso das pessoas te pararem na rua e perguntarem pela censura, e não pelo meu trabalho. Como artista eu quero ser julgado pelo meu trabalho. Foi um ano perdido”[7].

O vigor com que a Censura se abateu sobre Chico Buarque não seria “privilégio” dele, nem tampouco novidade em 1973. Só para citar mais alguns exemplos, o LP Paulinho da Viola, de 1971, teve as canções Chico Britto, de Wilson Batista e de Afonso Teixeira (música composta em 1949), e Um barato, meu sapato, de Paulinho da Viola e Milton Nascimento, proibidas[8], por destacarem o “clima marginal do samba”[9]. Em 1972, Jards Macalé teria que reescrever sete vezes a letra de Revendo amigos (LP Movimento dos barcos). Em 1973, Raul Seixas teria 18 composições vetadas pela Censura, Luís Melodia, em seu disco de estréia, teve várias palavras podadas de suas canções, além de várias músicas vetadas na íntegra.

Mas o disco que faria par com Calabar, em 1973, seria o álbum (um LP e um compacto simples) Milagre dos peixes, de Milton Nascimento. Apesar de ter contado com participações especiais, como Radamés Gnatalli como arranjador, Clementina de Jesus e Gonzaguinha, entre outros, a Censura não se intimidaria, vetando as canções Hoje é dia d’El Rey, Cadê e Escravos de Jó, impedindo a participação no LP de Dorival Caymmi, que deveria cantar uma das faixas mutiladas. Além disso, outras canções teriam as letras parcialmente proibidas, como é o caso de Diálogo entre pai e filho, cuja única frase permitida dizia: “Meu filho”!. Conformado, Milton Nascimento decidiu gravar apenas as melodias das canções vetadas.

Ainda naquele ano, a revista Veja[10] revelava que o LP Luiz Gonzaga Jr., contendo dez faixas, era o sobrevivente dos cortes de quinze músicas pela Censura. Isso sem contar que a canção Comportamento geral, gravada nesse LP, fora proibida de ser executada nos meios de comunicação.
A onda de repressão à música popular dos primeiros anos da década de 1970 faria o crítico musical Tárik de Souza mostrar-se “surpreso”, em meados de 1974, com a “calmaria excessiva e perigosa, sujeita a discos técnicos e performances de discreta estética comportada”[11] que se abatia sobre o mercado musical brasileiro. Ironicamente, Tárik de Souza concluía seu raciocínio, refazendo-se do “susto”:

Evidentemente que quem quisesse acompanhar ainda com maior profundidade as oscilações da linha de frente da música brasileira deveria munir-se de um sismógrafo resistente. Muitos fatores contribuem para os efeitos de luzes e sombras que tingem os rostos dos espectadores. A estes muitas vezes será preciso ainda informar que tudo pode acontecer pelos costumeiros – e sempre insondáveis – motivos de ordem técnica. Perdão, leitores.[12]

Na próxima mensagem vou tentar comentar as formas que a MPB encontrou para resistir ao rigor da Censura.


PS: Este post é uma versão adaptada das p. 146-150 do meu livro Sinal Fechado: a música popular sob censura (1937-45/1969-78, publicado no ano passado pela editora Apicuri, do Rio de Janeiro (www.apicuri.com.br).

[1] BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes: MPB nos anos 70. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980, p. 36. Sobre os discos de que fala Chico Buarque, o primeiro deles, com músicas de outros autores, foi realmente produzido: trata-se do LP Sinal Fechado (Philips, 6349122), de 1974, onde apenas a canção Acorda, amor, assinada com os pseudônimos de Leonel Paiva e Julinho de Adelaide, inventados por Chico, era dele. Quanto ao disco de retrospectiva de sua carreira, não chegou a ser realizado.
[2] Idem, p. 37.

[3] A capa foi proibida “pois os censores enxergaram um significado subversivo. Chico reagiu lançando o mesmo disco com capa totalmente branca e sem título. O seu Álbum branco, digamos assim. Manteve, entretanto, a ficha técnica da capa anterior, com os nomes dos fotógrafos (eram três), evidenciando, assim, mais uma vez, a ação da Censura. O curioso é que esta capa também acabou sendo recolhida, mas não por ordem da repressão. A decisão foi da própria gravadora. É que o disco simplesmente não vendeu, e o departamento comercial da Philips identificou na capa branca a causa do fracasso comercial. Semanas depois, o LP foi relançado com nova capa, mais simples, mais normal, apenas com uma foto do artista, de perfil, com o título Chico canta.” (MARTINS, Lula Branco. “Chico Buarque e a imagem do artista: como se deu a construção de um símbolo nacional”. JB online, 13/JUN/2004. Disponível em http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2004/06/12/jorcab20040612013.html. Acesso em 13/04/2008.)

[4] BAHIANA, Ana Maria. Nada será como antes…, cit., p. 37.

[5] Idem, p. 39.

[6] Ibidem.

[7] Idem, p. 40.

[8] Chico Britto só seria regravada em 1979, no LP Zumbido, e Um barato, meu sapato, provavelmente modificada, com novo nome, Meu novo sapato, e sem a parceria com Milton Nascimento, sairia no LP Memórias cantando, de 1976.

[9] “Um caso à parte”. Veja, 10/11/1971, p. 90.

[10] “Bem inspirado”. Veja, 25/07/1973, p. 98.

[11] SOUZA, Tárik de. “Música popular: interferências empresariais e outras”. Opinião, (78):23, 06/05/1974.

[12] Ibidem.

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