Arquivos Diários: 22 julho, 2008

ESTA É DENÚNCIA DO SITE: “FLORES ROUBADAS do JARDIM ALHEIO” – por ivo barroso

“As Flores do Mal” – Charles Baudelaire – texto integral – Tr. Pietro Nassetti – Editora Martin Claret (São Paulo, 2001) – 192 págs. R$19,00

 

Já tivemos aqui a oportunidade de mostrar como algumas obras literárias estão sendo criminosamente “apropriadas” por editores inescrupulosos e reeditadas sob o nome de falsos tradutores. No caso anterior, vimos como a tradução genial do “Cyrano de Bergerac”, de Edmond Rostand, devida ao falecido professor pernambucano Carlos Porto Carreiro, foi simplesmente “clonada” e atribuída a um desconhecido Sr. Fábio M. Alberti, que já devia ficar contente se seu nome aparecesse como autor das notas de pé de página que figuram na edição. Nelas há esclarecimentos sobre personagens e fatos um tanto ou quanto incomuns, pelo menos para a classe de leitores desses livros ditos “populares”, vendidos em bancas de jornal. Apressamo-nos em esclarecer que nada temos conta esse tipo de venda e achamos mesmo que se trata de um serviço prestado ao leitor médio, que pode assim adquirir livros de grandes autores a preços inegavelmente convidativos. O que não nos parece ético é o escamoteio e a usurpação do nome dos tradutores originais desses livros, seja pela prática da sua atribuição a outrem, seja pelo artifício vergonhoso do plágio disfarçado.

Nessa última categoria podemos incluir, consistentemente, a edição de “As Flores do Mal”, o clássico livro de poemas de Charles Baudelaire, lançada “no verão de 2001” pela Martin Claret, de S. Paulo, em tradução ali atribuída a Pietro Nassetti, que, não se tratando de um pseudônimo de Jamil Almansur Haddad, responde certamente pelo nome de seu plagiário indecoroso, tal a maneira inequívoca com que se apropria da obra alheia.

É sabido que temos no Brasil pelo menos duas edições integrais de “As Flores do Mal”. A mais conhecida e, a nosso ver, a mais bem realizada, a de Ivan Junqueira, foi editada pela Nova Fronteira, sendo de 1985 a última reimpressão, com o texto original de face à tradução. Foi essa a escolhida para figurar no volume “Charles Baudelaire – Poesia e Prosa”, que organizamos para a Editora Nova Aguilar e que foi editado em 1995, em papel bíblia, reunindo em português praticamente toda a obra do Poeta. A outra, mais antiga, de 1958, editada pela Difusão Européia do Livro na coleção Clássicos Garnier, é de Jamil Almansur Haddad, poeta paulista, autor de “A lua do remorso” (1951), que além de Baudelaire traduziu também “As Líricas”, de Safo, “O Cântico dos cânticos”, de Salomão, o “Rubaiyat”, de Omar Khayyam, o “Cancioneiro” de Petrarca, o “Decamerão” de Boccaccio e as “Odes” de Anacreonte. O leitor, ainda que não versado no assunto, pode bem imaginar o que representa de tempo e esforço a tarefa de traduzir poesia, principalmente no caso de um autor como Haddad que respeita a métrica e a rima existentes no original. Mas hoje parece estar se generalizando a prática certamente recriminável de se tomar um texto preexistente e maquiá-lo, mudando aqui uma palavra mais difícil, ali uma construção mais arrevesada, e, passando por cima dos ditames métricos e rímicos, apresentá-lo ao leitor numa “nova” edição popular, supostamente feita por outro tradutor.

No presente caso a contrafação é tão explícita que chega a ser vergonhosa. Tomemos por exemplo o poema “Hino à Beleza”, dos mais característicos do estilo baudelairiano, com seus termos específicos e construções originais. As três primeiras quadras são iguais, ipsis litteris, coincidência que seria impossível de obter-se mesmo no caso de uma prova de tradução à qual se habilitassem centenas de candidatos. “Infernal et divin” é traduzido por ambos como “celestial e daninho”; “le couchant et l´aurore” por “matutina e noturna” e o verso “Qui font le héros lâche et l´enfant courageux” é impressionantemente resolvido da mesma forma: “Se à criança dão valor, tornam o herói covarde”. E naquele que encerra o terceiro quarteto: “Et tu gouvernes tout et ne réponds de rien” – o copiador chegou a incidir no mesmo erro de interpretação do seu modelo, traduzindo “réponds” por “respondes”, quando a construção francesa “réponds de rien” equivale a “submeter-se a nada”. “Bénissons ce flambeau!” é “Bendito lampadário” em ambos e “tombeau” (túmulo) é transformado também por ambos em “sudário”. Há momentos, no entanto, em que o copiador servil resolve “melhorar” (como talvez pense) o texto saqueado. Em geral isso ocorre diante de palavras que ele julga “difíceis” ou pouco atuais. Assim, onde Jamil escreveu “O amoroso anelante a pender sobre a bela”, o tradutor-xerox reescreve: “O namorado ofegante a pender sobre a bela”, não se importando com isso de sacrificar a métrica do verso. Neste mesmo poema há inúmeros exemplos dessa espécie: “Pisando mortos vais, com ar de desacato” (Jamil) e “Caminhas sobre os mortos, com ar de desacato” ( pseudo tradutor). O “papel carbono” parece ter achado que o “vão” (adjetivo) de “Sobre teu ventre vão dança amorosamente” poderia ser entendido pelos seus leitores como verbo e “conserta” para “Sobre teu ventre orgulhoso dança amorosamente”, conseguindo o fenômeno de um alexandrino de 14 versos. Outro: “Beleza! monstro ingênuo e de feição adunca!” lhe soa muito precioso e ele emenda para: “Beleza! monstro ingênuo, assustador e horrendo!” Mas pasmem que temos no início da quinta quadra o que se poderia chamar de dupla coincidência: No verso “Uma efêmera vai ao teu encontro, ó vela”, tanto na tradução de Jamil quanto na de seu “vampiro” Pietro Nassetti há uma nota de pé de página dizendo exatamente o mesmo: “Efêmera: substantivo comum, espécie de inseto”, que, se não fosse cópia servil seria um caso de duplicidade até na indigência definidora. Estender a amostragem seria recair ad infinitum na certeza que desde já se patenteia de que os poemas apresentados nesta edição de “As Flores do mal” foram subtraídos do berço alheio e criados por pais adotivos em proveito próprio.

Essa prática inescrupulosa da apropriação de traduções alheias – pela cópia deslavada ou enganosa maquiagem – parece estar se ampliando junto a editores de livros em série ou coleções ditas populares. Há muitos títulos de obras clássicas que circulam por aí que, se examinados com cuidado, revelariam – como um triste palimpsesto – o nome apagado e explorado do tradutor original.

UMA PENA – poema de jorge barbosa filho

 

 

uma pena, deve ser

um olhar de índio

em teu coração aflito.

deve ser.

 

seja a canção

uma pena,

deve ser.

eu pago a pena

qualquer preço.

deve ser.

fico parado

no incêndio

e as penas voando.

voando.

 

tento entender

porque queimar plumagens

quando seríamos

o pássaro

e voarmos

no justo instante

que você me dissesse

sim.

 

ah! tô muito a fim

pra qualquer bobagem

que te falasse

em pleno vôo, 

fingindo minha própria rapina.

 

desisti, meu amor

do índio que havia em mim   

e faleço em pleno sonho.

 

fiquei só

do tamanho de um dó

e não percebi.

que me quis

uma música.

uma nota, sol.

um beijo.

 

 

 

a tarde ardia

num lusco-fusco desesperado.

mas mesmo assim

faço dos meus dias

uma lágrima escorrida,

um desenho, em si,

um oceano,

na qual te via

o meu rosto insano.

 

ah! já deixei de ser

tudo aquilo que queria:

tudo aquilo que sumia

pelas minhas mãos

de pianista.

 

amor, não fuja de mim,

tenho os vôos nos olhos

e as chamas, e as chamas

de quem te chama.

penas

de quem te ama

te ama.

 

ACROBATA DA DOR poema de cruz e souza

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta…Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d’aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

 

 

————

 

o poeta.

SEQUENCIAL PARA UMA CONTEMPLAÇÃO ABSTRATA poema de altair de oliveira

 

Pressinto a festa que infesta os olhos

que bebem saias que sugerem vôos

de flores tintas que animam cores

de aves raras com motivos vivos

que giram loucos nesta dança rouca

e tomam a tarde feito revoada

inesperada de alegrados risos

de nove noivas soltas na calçada.

 

Мэр Костромы подала в отставку. Эксперты прогнозируют борьбу за региональный центр – por Ирина Переверзева

 

время публикации: 22 июля 2008 г., 17:24
последнее обновление: 22 июля 2008 г., 18:32

 

 

 

 

 

Мэр Костромы Ирина Переверзева завершит работу на посту главы города 29 июля, сообщили “Интерфаксу” во вторник в пресс-службе горадминистрации.

“Ирина Переверзева подписала постановление о сложении полномочий главы города Костромы 29 июля текущего года в связи с отставкой по собственному желанию”, – рассказал собеседник агентства.

В пресс-службе добавили, что постановление об отставке до конца дня будет направлено в Костромскую гордуму.

Заявление о готовности досрочно сложить с себя полномочия главы Костромы Ирина Переверзева сделала 27 июня на заседании городской Думы сразу после отчета о работе в 2007 году, пишет Regions.ru. В коротком докладе, она, в частности, призналась, что многие из предвыборных обещаний остались не выполнены. “Продолжать работу на посту главы города с учетом требований настоящего момента я не могу”, – сказала Переверзева, предоставив продолжать заседание своему заместителю Александру Кудрявцеву.

Как сообщается на сайте Центра политической конъюнктуры России, в смене руководства мэрии Костромы было заинтересовано большинство влиятельных игроков, так что за контроль над региональным центром развернется нешуточная борьба. По мнению эксперта Центра Оксаны Гончаренко, победа (или избрание лояльного кандидата) на мэрских выборах может стать рычагом влияния на решения областной администрации. В числе “заинтересованных лиц” от “Единой России” – депутат Госдумы прошлого созыва и крупный региональный бизнесмен Евгений Трепов и депутат областной думы Алексей Ситников. Последний проиграл Переверзевой мэрские выборы-2003 во втором туре и может быть особенно заинтересован в том, чтобы взять “реванш”.

Возможно и выдвижение на пост мэра “губернаторской” кандидатуры, которая получит преимущественные шансы на победу за счет использования административного ресурса региональной власти.

Гончаренко также не исключает и возможность изменения процедуры формирования мэрии Костромы: избрание мэра из числа депутатов гордумы или же привлечение к управлению сити-менеджера, работающего по контракту.

На введении должности сити-менеджера, в частности, настаивал костромской губернатор Игорь Слюняев. Он занял свой пост в октябре 2007 года, а к апрелю 2008-го стало ясно, что губернатор и мэр вместе работать не смогут, пишет журнал “Эксперт”.

Еще в конце июня губернатор Костромской области Игорь Слюняев заявил, что градоначальница должна уйти в отставку. Губернатор нередко публично критиковал состояние городского хозяйства и состояние костромских дорог.

Согласно нынешнему уставу Костромы, в случае досрочного прекращения полномочий мэра его полномочия до вступления в должность вновь избранного главы города временно исполняет один из заместителей. Кандидатуру должна определить дума.

Выборы мэра проводятся по мажоритарной системе абсолютного большинства по единому избирательному округу, составляющему всю территорию Костромы. В случае, если баллотируется три и более кандидата и ни один из них не получает более 50% голосов избирателей, проводится повторное голосование по двум кандидатам, получившим наибольшее число голосов.

Тогда результаты определяются на основе относительного большинства. Решение о назначении досрочных выборов также принимает дума города.

Досье

Ирина Переверзева возглавила Кострому в декабре 2003 года и стала единственным в России женщиной-мэром областного центра, сообщает “Эксперт”.

 sem crédito.  ilustração do site.

SEGUNDO MANUSCRITO SOBRE F.K. – por jorge lescano

Como se conta uma viagem da alma, a essência, não a seqüência do sonho?

A história da literatura informa que F.K. teria pedido ao seu amigo M.B. – o caso foi contado por este – que queimasse seus manuscritos depois de sua morte porque eu, por meu lado, não tenho forças para destruir esses testemunhos de minha solidão. M.B. se recusa a cumprir o pedido e registra a recusa em nota à primeira edição do romance O Processo. Com louvável dedicação assume a tarefa de publicar a obra do morto.
 Esta a versão tradicional, imposta pelo testamenteiro, sem dúvidas a maior autoridade no assunto, e aceita pela maioria dos leitores. Consumado o fato, as interpretações variam. Vejamos três delas.
 Quis o caos de minha biblioteca, ao qual chamo Destino, que os três leitores convocados para testemunhar tenham origem argentina. A seqüência das citações é cronológica e não expressa nenhum juízo de valores.

No caso de Kafka, sabemos muito pouco. Sabemos apenas que ele estava muito insatisfeito com o seu próprio trabalho. É claro, quando ele disse ao seu amigo Max Brod que queria que seus manuscritos fossem queimados, como fez Virgílio, suponho que ele soubesse que seu amigo não faria isso. Se um homem quer destruir seu próprio trabalho, ele o joga no fogo, e lá se vai. Quando diz a um amigo íntimo: “Quero que todos os manuscritos sejam destruídos”, ele sabe que o amigo jamais fará isso, e o amigo sabe que ele sabe e que ele sabe que o outro sabe que ele sabe, e assim por diante.*

A interpretação parece plausível, até provável. Em todo caso não é absurda. Contudo, existe a notícia de que Dora Dymant chegou a queimar alguns originais e M.B. menciona quatro cadernos dos quais encontrou apenas as capas, todas as folhas haviam sido destruídas.

Para os sufis, todos os homens que executam uma determinada tarefa, são o mesmo homem. Transferindo-se tal concepção para a história da literatura, poder-se-ia concluir que o que importa a esta é a obra, não seu autor. Assim, não seria um despropósito afirmar que a obra supera a vontade do autor. Seguindo suas próprias leis de sobrevivência, sacrifica homens e outras circunstâncias. Neste caso, a vontade de F.K. é apenas uma digressão.
 Ricardo Piglia, o segundo leitor, expressa seu parecer no romance Nome Falso:

A grande tentação de Max Brod não consistiu em publicar os textos ou queimá-los. No jogo dessa dupla obediência, talvez tenha pensado que a resposta do enigma estava na própria ordem: se Kafka realmente tivesse querido destruir seus manuscritos, ele mesmo os teria queimado. Tampouco é muito atrevimento pensar que outra dúvida assaltou Max Brod em algum momento. A dúvida foi (deve ter sido) a seguinte: “Ninguém – a não ser eu, a não ser Kafka, que morreu – sabe da existência  desses escritos. Então: publicá-los sob o nome de Kafka ou assiná-los e publicá-los como sendo de minha autoria? Esses textos não são de mais ninguém: não são de seu autor, que não os quis. Não são de ninguém”. A imortalidade, a fama, ou o simples papel de testamenteiro, de suave  e  humilde ajudante que dedica sua vida à maior glória de um escritor querido mas desconhecido? Oposto de Eróstrato (que fascinava Kafka), a opção de Max Brod enobrece-o mas ao mesmo tempo – por um estranho paradoxo, mais uma vez típico de Kafka – aniquilá-o  Não teria sido mais agradável (não podemos pensar que era isso o que ele desejava?), para o gênio distante e perverso de Franz Kafka, um Max Brod que usurpa a fama do defunto e que na hora de morrer revela a alguém (a outro testamenteiro serviçal, a outro Max Brod) a secreta autoria daqueles textos?*
Dúvida, secura, silêncio, é assim que tudo se passará.
Entre as considerações do porque da negativa, e nas notas sobre o manuscrito, diz M.B.:
Entre os escritos que deixou, não se encontrou testamento. Na sua escrivaninha, no meio dos papéis, descobriu-se um bilhete escrito a tinta e já dobrado, endereçado a mim. Esse bilhete dizia:
Querido Max,
Este é meu último pedido: tudo o que se pode encontrar no que deixo depois de mim (ou seja, na minha biblioteca, no meu armário, na minha escrivaninha, em casa e no escritório, ou no lugar que for), tudo o que deixo em termos de cadernos, manuscritos, cartas pessoais ou não, etc., deve ser queimado sem  restrição e sem ser lido, assim como todos os escritos ou notas minhas que você possua; outras pessoas também os têm, você os reclamará a elas. Se houver cartas que não ;he queiram devolver, será preciso, pelo menos, que se comprometam a queimá-las.
Seu, de todo o coração
 Franz Kafka.*

E acrescenta outro bilhete provavelmente mais antigo e escrito a lápis, no qual F.K. é mais explícito:
Só se devem conservar os seguintes títulos: Urteil, Heizer, Verwadlung, Strafkolonie, Landarzt, e a novela Hungerkünstler. (Os poucos exemplares da Betrachtung  podem ficar, não quero dar a ninguém o trabalho de destruir a edição, mas não se deve reimprimi-la.) Quando digo que só se conservem esses cinco livros e essa novela, isso não significa que eu deseje que sejam reimpressos para serem transmitidos à posteridade; pelo contrário, se desaparecerem completamente, o acontecimento terá correspondido a meus desejos. Mas como já existem, se alguém quiser guardá-los, não o impedirei.
 Em compensação, todos os meus outros escritos (tudo o que pode ter saído em revistas, todos os manuscritos, todas as cartas), tudo o que você puder encontrar ou pedir de volta aos possuidores (você os conhece quase todos, trata-se principalmente de N.N., e não se esqueça sobretudo de alguns cadernos que estão em poder de N.), tudo isso deve ser queimado sem nenhum tipo de exceção, e de preferência sem ser lido (não o impeço de dar uma olhada, mas preferiria que não o fizesse; em todo caso, ninguém mais tem o direito de olhar), e peço-lhe que proceda a essa operação o mais breve possível.
Franz.*
 Se o pedido de F.K. é uma invenção de M.B. – é este quem garante a autenticidade das notas transcritas – o leitor  – você – terá o encargo de descobrir ou imaginar o móvel dessa atitude. Descartam-se propositadamente os interesses do mercado livreiro. Está-se num tempo –aquele onde transcorre a ação – em que o livro, a obra literária, ainda não é um produto a mercê da ditadura do consumo.
Analisado do ponto de vista literário, o meu destino é muito simples. O talento que eu possuo para passar a limpo a minha vida íntima, vida que está aparentada ao sonho, fez com que todo o resto caísse no acessório. Ora, a força de que posso dispor para realizar essa narração é totalmente imprevisível. Estou, portanto, flutuante, lanço-me sem descanso para o topo da montanha, porém somente com dificuldade ali posso estar um momento. Outros estão flutuantes também, porém em regiões mais baixas e com mais energia.

Alberto Manguel, nosso terceiro leitor, em seu livro Uma História da Leitura, diz:

É famosa a história segundo a qual Kafka pediu ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos depois de sua morte: sabidamente, Brod desobedeceu. O pedido de Kafka foi considerado um gesto autodepreciativo, o obrigatório “eu não mereço” do escritor que espera que a Fama lhe responda: “Mas como não? É claro que merece”. Talvez haja outra explicação. Como Kafka percebia que, para um leitor, cada texto precisa ser inacabado (ou abandonado, como sugeriu Paul Valéry),  que na verdade um texto pode ser lido somente porque  é inacabado, deixando assim espaço para o trabalho do leitor, talvez quisesse para seus escritos a imortalidade que gerações de leitores concederam aos volumes queimados na biblioteca de Alexandria.
Como para confirmar sua tese, na página seguinte cita:
Ernst Pawel, no final de sua lúcida biografia de Kafka, escrita em 1984, nota que “a literatura que trata de Kafka e sua obra compreende atualmente cerca de 15 mil títulos, na maioria das principais línguas do mundo”.*

 As obras mais conhecidas de M.B. são: Os Falsários, drama, uma biografia de F.K., e preservar do fogo e publicar os escritos do seu biografado. Não se deseja insinuar que ele salvasse a obra apenas para ter a oportunidade de escrever sua biografia. Tampouco que lhe usurpasse o nome – F.K. era praticamente desconhecido à época de sua morte, digo: era menos conhecido que M.B.
 Não seria arbitrário acreditar que este, por um salto da imaginação, decidisse criar um alter-ego, com o qual pudesse homenagear seu amigo. Nesta hipótese, os livros que conhecemos como sendo de F.K. são, na realidade, apócrifos, seu verdadeiro autor é M.B. e F.K. por favor, considere-me um sonho, seria um personagem “kafkiano” criado por seu mentor, e então K., o agrimensor, e Joseph K., poderiam ser indicações e, ao mesmo tempo, uma pueril maneira de ocultar a verdadeira identidade do seu “modelo”  não me falta nada, apenas me falto a mim mesmo.
 Talvez esta interpretação necessite uma justificativa. Tratando-se de uma obra religiosa não creio que sejamos um naufrágio radical de Deus; simplesmente um dos seus aborrecimentos, um mau dia – tal é a visão de M.B. -, é conveniente que seja anônima ou de um profeta já morto.*  Esta circunstância, ignoro por que, dá mais crédito à palavra divulgada por seus apóstolos. Assim, ao ceder sua obra, M.B. satisfaz este requisito e transfere para o alter-ego seu destino atroz: a fama e a incompreensão perdoa-me porque eu não me perdôo.
 À semelhança de Sócrates, alguém já havia cogitado sobre a não existência de F.K. sem, contudo, fornecer argumento. Nessa ordem de idéias, não faltou quem conjeturasse se tratar da criação de um sionista ou rabino de Praga, cidade maneirista, como se sabe, ponto de encontro da alquimia, da cabala e da lingüística.
 Não pretendo estabelecer meras especulações no lugar da verdade histórica. Todavia, suspeito que estas não desagradariam aos protagonistas do caso,** a algum poeta português ou dramaturgo italiano e, com certeza, não seriam desprezadas por um mestre taoísta, para quem as borboletas podem sonhar que são homens.

 
* Quase a totalidade dos críticos insiste em diminuir a importância desta afirmação do único biógrafo que conviveu com F.K… Para eles, provavelmente, o teto da Capela Sixtina perde interesse artístico pelo fato de estar destinado à veneração dos fiéis – de alguns fiéis. E que quê dizer, então, da obra de Johann Sebastian Bach? De nossa parte, sabemos que toda obra significativa supera a intenção do artista. A obstinação destes estudiosos os torna suspeitos de – para dizer o menos –preconceito cultural. (N. do C.).

** Vale lembrar  “A Primeira Longa Viagem de Trem ou Richard e Samuel – Viagem Curta pelas Regiões da Europa Central”, texto inconcluso, no qual F.K. e M.B. se atribuíram a personalidade do outro. (N. do A ).

* Jorge Luís Borges, entrevista concedida em julho de 1966 à Paris Review, em: Os Escritores; Companhia das Letras, S.P., 1988, pág. 209 (N..A). 

* Ricardo Piglia: Nome Falso-Homenagem a Roberto Arlt , Iluminuras; S.P, 1988, pág. 49-50 (N.A).

 **Max Brod: Notas a O Processo; Círculo do Livro; S.P., s.d., pág. 266 (N.A).
* Max Brod; op. Cit., pág. 267

Alberto Manguel: Uma História da Leitura; Companhia das Letras; S.P., 1997; pág. 112-113