SEGUNDO MANUSCRITO SOBRE F.K. – por jorge lescano

Como se conta uma viagem da alma, a essência, não a seqüência do sonho?

A história da literatura informa que F.K. teria pedido ao seu amigo M.B. – o caso foi contado por este – que queimasse seus manuscritos depois de sua morte porque eu, por meu lado, não tenho forças para destruir esses testemunhos de minha solidão. M.B. se recusa a cumprir o pedido e registra a recusa em nota à primeira edição do romance O Processo. Com louvável dedicação assume a tarefa de publicar a obra do morto.
 Esta a versão tradicional, imposta pelo testamenteiro, sem dúvidas a maior autoridade no assunto, e aceita pela maioria dos leitores. Consumado o fato, as interpretações variam. Vejamos três delas.
 Quis o caos de minha biblioteca, ao qual chamo Destino, que os três leitores convocados para testemunhar tenham origem argentina. A seqüência das citações é cronológica e não expressa nenhum juízo de valores.

No caso de Kafka, sabemos muito pouco. Sabemos apenas que ele estava muito insatisfeito com o seu próprio trabalho. É claro, quando ele disse ao seu amigo Max Brod que queria que seus manuscritos fossem queimados, como fez Virgílio, suponho que ele soubesse que seu amigo não faria isso. Se um homem quer destruir seu próprio trabalho, ele o joga no fogo, e lá se vai. Quando diz a um amigo íntimo: “Quero que todos os manuscritos sejam destruídos”, ele sabe que o amigo jamais fará isso, e o amigo sabe que ele sabe e que ele sabe que o outro sabe que ele sabe, e assim por diante.*

A interpretação parece plausível, até provável. Em todo caso não é absurda. Contudo, existe a notícia de que Dora Dymant chegou a queimar alguns originais e M.B. menciona quatro cadernos dos quais encontrou apenas as capas, todas as folhas haviam sido destruídas.

Para os sufis, todos os homens que executam uma determinada tarefa, são o mesmo homem. Transferindo-se tal concepção para a história da literatura, poder-se-ia concluir que o que importa a esta é a obra, não seu autor. Assim, não seria um despropósito afirmar que a obra supera a vontade do autor. Seguindo suas próprias leis de sobrevivência, sacrifica homens e outras circunstâncias. Neste caso, a vontade de F.K. é apenas uma digressão.
 Ricardo Piglia, o segundo leitor, expressa seu parecer no romance Nome Falso:

A grande tentação de Max Brod não consistiu em publicar os textos ou queimá-los. No jogo dessa dupla obediência, talvez tenha pensado que a resposta do enigma estava na própria ordem: se Kafka realmente tivesse querido destruir seus manuscritos, ele mesmo os teria queimado. Tampouco é muito atrevimento pensar que outra dúvida assaltou Max Brod em algum momento. A dúvida foi (deve ter sido) a seguinte: “Ninguém – a não ser eu, a não ser Kafka, que morreu – sabe da existência  desses escritos. Então: publicá-los sob o nome de Kafka ou assiná-los e publicá-los como sendo de minha autoria? Esses textos não são de mais ninguém: não são de seu autor, que não os quis. Não são de ninguém”. A imortalidade, a fama, ou o simples papel de testamenteiro, de suave  e  humilde ajudante que dedica sua vida à maior glória de um escritor querido mas desconhecido? Oposto de Eróstrato (que fascinava Kafka), a opção de Max Brod enobrece-o mas ao mesmo tempo – por um estranho paradoxo, mais uma vez típico de Kafka – aniquilá-o  Não teria sido mais agradável (não podemos pensar que era isso o que ele desejava?), para o gênio distante e perverso de Franz Kafka, um Max Brod que usurpa a fama do defunto e que na hora de morrer revela a alguém (a outro testamenteiro serviçal, a outro Max Brod) a secreta autoria daqueles textos?*
Dúvida, secura, silêncio, é assim que tudo se passará.
Entre as considerações do porque da negativa, e nas notas sobre o manuscrito, diz M.B.:
Entre os escritos que deixou, não se encontrou testamento. Na sua escrivaninha, no meio dos papéis, descobriu-se um bilhete escrito a tinta e já dobrado, endereçado a mim. Esse bilhete dizia:
Querido Max,
Este é meu último pedido: tudo o que se pode encontrar no que deixo depois de mim (ou seja, na minha biblioteca, no meu armário, na minha escrivaninha, em casa e no escritório, ou no lugar que for), tudo o que deixo em termos de cadernos, manuscritos, cartas pessoais ou não, etc., deve ser queimado sem  restrição e sem ser lido, assim como todos os escritos ou notas minhas que você possua; outras pessoas também os têm, você os reclamará a elas. Se houver cartas que não ;he queiram devolver, será preciso, pelo menos, que se comprometam a queimá-las.
Seu, de todo o coração
 Franz Kafka.*

E acrescenta outro bilhete provavelmente mais antigo e escrito a lápis, no qual F.K. é mais explícito:
Só se devem conservar os seguintes títulos: Urteil, Heizer, Verwadlung, Strafkolonie, Landarzt, e a novela Hungerkünstler. (Os poucos exemplares da Betrachtung  podem ficar, não quero dar a ninguém o trabalho de destruir a edição, mas não se deve reimprimi-la.) Quando digo que só se conservem esses cinco livros e essa novela, isso não significa que eu deseje que sejam reimpressos para serem transmitidos à posteridade; pelo contrário, se desaparecerem completamente, o acontecimento terá correspondido a meus desejos. Mas como já existem, se alguém quiser guardá-los, não o impedirei.
 Em compensação, todos os meus outros escritos (tudo o que pode ter saído em revistas, todos os manuscritos, todas as cartas), tudo o que você puder encontrar ou pedir de volta aos possuidores (você os conhece quase todos, trata-se principalmente de N.N., e não se esqueça sobretudo de alguns cadernos que estão em poder de N.), tudo isso deve ser queimado sem nenhum tipo de exceção, e de preferência sem ser lido (não o impeço de dar uma olhada, mas preferiria que não o fizesse; em todo caso, ninguém mais tem o direito de olhar), e peço-lhe que proceda a essa operação o mais breve possível.
Franz.*
 Se o pedido de F.K. é uma invenção de M.B. – é este quem garante a autenticidade das notas transcritas – o leitor  – você – terá o encargo de descobrir ou imaginar o móvel dessa atitude. Descartam-se propositadamente os interesses do mercado livreiro. Está-se num tempo –aquele onde transcorre a ação – em que o livro, a obra literária, ainda não é um produto a mercê da ditadura do consumo.
Analisado do ponto de vista literário, o meu destino é muito simples. O talento que eu possuo para passar a limpo a minha vida íntima, vida que está aparentada ao sonho, fez com que todo o resto caísse no acessório. Ora, a força de que posso dispor para realizar essa narração é totalmente imprevisível. Estou, portanto, flutuante, lanço-me sem descanso para o topo da montanha, porém somente com dificuldade ali posso estar um momento. Outros estão flutuantes também, porém em regiões mais baixas e com mais energia.

Alberto Manguel, nosso terceiro leitor, em seu livro Uma História da Leitura, diz:

É famosa a história segundo a qual Kafka pediu ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos depois de sua morte: sabidamente, Brod desobedeceu. O pedido de Kafka foi considerado um gesto autodepreciativo, o obrigatório “eu não mereço” do escritor que espera que a Fama lhe responda: “Mas como não? É claro que merece”. Talvez haja outra explicação. Como Kafka percebia que, para um leitor, cada texto precisa ser inacabado (ou abandonado, como sugeriu Paul Valéry),  que na verdade um texto pode ser lido somente porque  é inacabado, deixando assim espaço para o trabalho do leitor, talvez quisesse para seus escritos a imortalidade que gerações de leitores concederam aos volumes queimados na biblioteca de Alexandria.
Como para confirmar sua tese, na página seguinte cita:
Ernst Pawel, no final de sua lúcida biografia de Kafka, escrita em 1984, nota que “a literatura que trata de Kafka e sua obra compreende atualmente cerca de 15 mil títulos, na maioria das principais línguas do mundo”.*

 As obras mais conhecidas de M.B. são: Os Falsários, drama, uma biografia de F.K., e preservar do fogo e publicar os escritos do seu biografado. Não se deseja insinuar que ele salvasse a obra apenas para ter a oportunidade de escrever sua biografia. Tampouco que lhe usurpasse o nome – F.K. era praticamente desconhecido à época de sua morte, digo: era menos conhecido que M.B.
 Não seria arbitrário acreditar que este, por um salto da imaginação, decidisse criar um alter-ego, com o qual pudesse homenagear seu amigo. Nesta hipótese, os livros que conhecemos como sendo de F.K. são, na realidade, apócrifos, seu verdadeiro autor é M.B. e F.K. por favor, considere-me um sonho, seria um personagem “kafkiano” criado por seu mentor, e então K., o agrimensor, e Joseph K., poderiam ser indicações e, ao mesmo tempo, uma pueril maneira de ocultar a verdadeira identidade do seu “modelo”  não me falta nada, apenas me falto a mim mesmo.
 Talvez esta interpretação necessite uma justificativa. Tratando-se de uma obra religiosa não creio que sejamos um naufrágio radical de Deus; simplesmente um dos seus aborrecimentos, um mau dia – tal é a visão de M.B. -, é conveniente que seja anônima ou de um profeta já morto.*  Esta circunstância, ignoro por que, dá mais crédito à palavra divulgada por seus apóstolos. Assim, ao ceder sua obra, M.B. satisfaz este requisito e transfere para o alter-ego seu destino atroz: a fama e a incompreensão perdoa-me porque eu não me perdôo.
 À semelhança de Sócrates, alguém já havia cogitado sobre a não existência de F.K. sem, contudo, fornecer argumento. Nessa ordem de idéias, não faltou quem conjeturasse se tratar da criação de um sionista ou rabino de Praga, cidade maneirista, como se sabe, ponto de encontro da alquimia, da cabala e da lingüística.
 Não pretendo estabelecer meras especulações no lugar da verdade histórica. Todavia, suspeito que estas não desagradariam aos protagonistas do caso,** a algum poeta português ou dramaturgo italiano e, com certeza, não seriam desprezadas por um mestre taoísta, para quem as borboletas podem sonhar que são homens.

 
* Quase a totalidade dos críticos insiste em diminuir a importância desta afirmação do único biógrafo que conviveu com F.K… Para eles, provavelmente, o teto da Capela Sixtina perde interesse artístico pelo fato de estar destinado à veneração dos fiéis – de alguns fiéis. E que quê dizer, então, da obra de Johann Sebastian Bach? De nossa parte, sabemos que toda obra significativa supera a intenção do artista. A obstinação destes estudiosos os torna suspeitos de – para dizer o menos –preconceito cultural. (N. do C.).

** Vale lembrar  “A Primeira Longa Viagem de Trem ou Richard e Samuel – Viagem Curta pelas Regiões da Europa Central”, texto inconcluso, no qual F.K. e M.B. se atribuíram a personalidade do outro. (N. do A ).

* Jorge Luís Borges, entrevista concedida em julho de 1966 à Paris Review, em: Os Escritores; Companhia das Letras, S.P., 1988, pág. 209 (N..A). 

* Ricardo Piglia: Nome Falso-Homenagem a Roberto Arlt , Iluminuras; S.P, 1988, pág. 49-50 (N.A).

 **Max Brod: Notas a O Processo; Círculo do Livro; S.P., s.d., pág. 266 (N.A).
* Max Brod; op. Cit., pág. 267

Alberto Manguel: Uma História da Leitura; Companhia das Letras; S.P., 1997; pág. 112-113

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