Arquivos Diários: 26 julho, 2008

OFERTÓRIO-DOR poema de jb vidal

a dor que ofereço não foi provocada

nem   apacentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os aneis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior  que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

do livro OFERTÓRIO a ser lançado em setembro de 2mil e oito. 

MORS-AMOR poema de antero de quental

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: “Eu sou a morte!
“Responde o cavaleiro: “Eu sou o Amor!”

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o poeta.

SÚPLICA poema de florbela espanca

Olha pra mim, amor, olha pra mim;
Meus olhos andam doidos por te olhar!
Cega-me com o brilho de teus olhos
Que cega ando eu há muito por te amar.

O meu colo é arrninho imaculado
Duma brancura casta que entontece;
Tua linda cabeça loira e bela
Deita em meu colo, deita e adormece!

Tenho um manto real de negras trevas
Feito de fios brilhantes d’astros belos
Pisa o manto real de negras trevas
Faz alcatifa, oh faz, de meus cabelos!

Os meus braços são brancos como o linho
Quando os cerro de leve, docemente…
Oh! Deixa-me prender-te e enlear-te
Nessa cadeia assim eternamente! …

Vem para mim,amor…Ai não desprezes
A minha adoração de escrava louca!
Só te peço que deixes exalar
Meu último suspiro na tua boca!…

 

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a poeta.

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Biografia

Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

 

 

 

FARO FINO e AMNÉSIA – mini contos de raimundo rolim

 

Faro-fino

        

Acordou com uma leve impressão de que aquele dia seria diferente! Intuição pura! Farejou o ar assim que abriu os olhos. Despejou imenso, ruidoso e tamanho bocejo que fez desabar a casa em cima de tudo; e da própria boca que bocejava. Uau!!!

 

Amnésia

 

Tudo pronto! Só que o leão estava velho, quase senil e não haviam ainda se dado conta desse fato. A fidelidade da rotina a que estavam sujeitos naquele mundo de espetáculo circense não permitia especulações, nem divagações! E o “bichanão” saiu da jaula e deu umas quantas voltas pelo picadeiro. O admirável público em pé, preparava-se para algo que estava no ar. Alguns suavam frio, outros agarravam os filhos para protegê-los do que parecia não ir bem. Ao menos, ao que se supunha, o negócio havia escapado ao controle do homem que em vão gritava palavras em código e chicoteava o chão com mais e mais força, enquanto ele, o leão, se insurgia contra as ordens, fera magoada. Num salto preciso – treinado em muitos e intermináveis anos extra-selva, – conseguiu finalmente alcançar aquele que o fizera pular por todas as rodas de fogo, e mostrar as garras inúteis por centenas de cidades ao longo da carreira. Desta vez, saiu-se a exibir o amigo, seu exclusivo amo-domador, que imobilizado, suspenso e seguro pelo meio da cintura, ficara preso na enorme e poderosa mandíbula, trespassado por caninos igualmente majestosos. Saíram assim, fera e domador, desse jeito, a caminhar pelo meio da platéia. O chicote despencou-lhe bestamente da mão que sem destino, despenhou-se inerte e pálida, enganchando-se ao carrinho de pipoca do lado de fora da lona, sob olhares de quantos ainda, ingressos à mão, não acreditavam naquele “novo número” que o circo, talvez por um lapso, esquecera de anunciar: “O SAFARI DO REI DOS ANIMAIS LEVANDO A REBOQUE O SEU FIEL DOMADOR”.

 

sem crédito. ilustração do site.

NOSSO ÚLTIMO CONTATO – por ana maria maruggi

Homem de aparência rude, olhos cansados. A pele maltratada pelo sol intenso da roça já carregava  rugas profundas aos 42 anos.

 

Honorato, de pouca fala e poucos gestos. Olhar manso, e desinteressado.

Pai de cinco filhos. Homem cuidadoso, de poucas carícias, e de muita firmeza. Trabalhador exemplar.

 

Esposou Dona Julieta quando ela tinha apenas dezesseis anos. Foi um pedido do pai da moça, que ele aceitou com prazer, pois era a filha mais bonita do Seu Lucindo. Tornou-se um marido zeloso, de muita atenção e respeito.

 

Nada poderia ser dito em desabono ao Senhor Honorato Oliveira. Proprietário de pequena porção de terra nos cafundós de Guaxupé, que pagou com sacrifício e muito suor.  Neste espaço montou roça de milho e feijão, construiu sua casinha e constituiu família. 

 

Viveu  sempre discretamente sem muitos amparos, e sem nenhum luxo. Suas roupas velhas e puídas pareciam ser as mesmas há anos.

 

Conheci esse sitiante, por acaso:

 

Era um novembro calorento. Eu estava em viagem  pelo interior de Minas Gerais, quando meu carro sofreu uma pane. Lugarzinho inóspito, e poeirento. Estava faminta, cansada, e sem nenhuma perspectiva de socorro naquele fim de mundo. Foi quando apareceu esse homem simples, montando um velho e caquético cavalo marrom, de raça desconhecida.   Ele estancou diante de mim, me olhou como se eu fosse um ser de outro planeta, fez uma reverência  com a cabeça enquanto tirava o chapéu em forma de respeito, e balbuciou um cumprimento quase inaudível.

Tomando conhecimento do meu problema,  propôs-se prontamente a buscar ajuda.  Disse, e saiu.

 

Não acreditei que alguma ajuda viria por intermédio dele, mas só tinha isso.

 

Esperar era a única saída.

 

Já estava começando a escurecer, e os insetos tomavam conta do silêncio, quando pude ouvir ao longe o ruído de um motor.

 

Fiquei eufórica!

 

Era O Nando, o mecânico da cidade. E junto com ele, o Seu Honorato em sua montaria me trazendo uma garrafa de água e uns sequilhos.

 

Meu veículo foi guinchado para a oficina, e dentro dele, eu.

E o incansável Honorato ao lado do guincho.

 

O carro ficou com o Nando para consertar. E eu ganhei uma simpática hospedagem na casinha do Seu Honorato e sua família.

 

Embora cansada, fiquei até muito tarde tagarelando com eles. Contei como eu vivia e o que eu fazia para ganhar a vida.   Lembrei algumas piadas e rimos muito. Os meninos tinham muitas histórias engraçadas. Comemos uma  saborosa galinhada, cozida com mandioca e cravos da índia, preparada por Dona Julieta que, muito prestativa, fez questão de cozinhar um arroz fresco colorido com açafrão, feijão com miúdos de frango, e salada de alface. Orgulhavam-se em contar que tudo que comíamos ali era fruto do trabalho deles.

 

Quando o Nando veio trazer meu carro, senti uma pontinha de tristeza em sair de lá. Nos despedimos, trocamos endereços e deixei meu telefone para contato.

 

Parti imaginando que nunca mais nos veríamos, e isso me incomodava.  Mas me sentia realizada por ter conhecido pessoas tão verdadeiras.

Fiquei três dias com a família e pude aprender muito sobre como viver bem com o que se tem.

 

No Natal, enviei-lhes um cartão  e uma carta de sincero agradecimento.

 

Não esperava que me escrevessem, pois nem gostavam muito de falar.

 

Depois de alguns cartões e cartas contando a minha volta e a venda do meu carro, dona Julieta me escreveu umas linhazinhas tortas, mas com muito sentimento e pureza. Ela contou que o Fernando, filho mais velho, ia se casar em breve, e que Seu Honorato mandava lembrança. E revelou que ele não sabia ler e escrever.

 

Fiquei feliz por ter recebido notícias.

 

Voltei lá alguns meses depois para o casamento do filho, e levei muitos presentes para todos.

 

Seu Honorato vestiu seu velho e bonito paletó de linho azul-marinho, que há muito guardara como símbolo de sua juventude vaidosa. E dona Julieta usou o vestido novo que eu lhe presenteei.

 

Deixei a casa deles no domingo, e de novo com a triste impressão de que não mais os veria.

 

Talvez eu estivesse enganada. Talvez eu os visitasse no Natal seguinte.

 

Mandei carta de agradecimento, e não sei se receberam.

 

Mandei mais um cartão no Natal do ano seguinte, mas não recebi nenhuma linha.

 

Sei que eles estão lá naquele sitiozinho pobre,  cheio de vida e carinho.

Eles sabem que estou aqui em São Paulo em labuta constante, e que penso neles.

 

A distância nos calou, truncou nossas falas, e nos separou pelo resto de nossas vidas.

 

ilustração do site. ovelhas. de raphael.