OFERTÓRIO-DOR poema de jb vidal

a dor que ofereço não foi provocada

nem   apacentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os aneis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior  que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

do livro OFERTÓRIO a ser lançado em setembro de 2mil e oito. 

6 Respostas

  1. Caríssimo,

    Que mais poderei dizer, depois de tão ilustres comentadores? Eu, uma iletrada filha das savanas africanas, que nunca apreendi palavras caras, senão aquelas ditadas pelo coração?
    O seu poema maravilhoso, mais não é que a imagem, posta a
    nú, dum ser humano tão simples, que ainda consegue sentir na alma, as dores do mundo. Que consegue trilhar os caminhos das vias-sacras. Por isso, muitas vezes os seus pés devem sangrar nas pedras que pisa. Este é um poema que surgiu num desses percursos difíceis em que você caminhou, sangrando por tortuosos caminhos. Mas é na dor que nasce a inspiração mais bela. A sua. A dor, nem sempre vem em vão.
    Há dores que valem a pena. Esta foi uma dor gloriosa.
    Um grande abraço.
    Da sua amiga de sempre
    Vera Lucia

  2. Devo estar mesmo cego, atingido pelos vaticínios de Saramago, com o seu Ensaio Sobre a Cegueira. De fato, meu Caro Vidal, passei batido, desbengalado, e tropecei no vazio, quando a beleza estava aqui ao lado em seu Ofertório-Dor.

    Permita-me somar algumas palavras às palavras da Zuleika, da Marilda, do Altair e à narrativa contundente, e afiadíssima qual navalha de barbeiro, do incansável e indescritível João do Lago.

    Ofertório-dor é de fato obra rara. Certa feita, em uma raríssima oportunidade, num almoço em sua casa, quando ainda em Curitiba, você dizia que ao poeta basta apenas um poema para ser lembrado, declamado, e se fazer presente na memória dos seus pares e do povo em geral. Todo o poeta deve trabalhar num poema para servir-lhe de cartão de visita, daqueles para os quais nem a terra, nem os dentes das minhocas, nem dentes de qualquer verme poderão apagar.

    Ofertório-Dor é seu poema chave. É de fato seu poema-cartão de visita, de permanência, de lucidez e de loucura ao mesmo tempo. Sua contribuição universal ao mundo da poesia. Ao mesmo tempo Dante, ao mesmo tempo Bukoviski, em certo sentido Dostoieviski, numa alto flagelação, numa sofreguidão, numa ânsia de entrega, capaz de causar inveja a Cruz e Souza se saltasse da tumba e viesse aqui nos visitar.

    Vou discordar, mas somente um pouco. Vou maldizer, mas somente um pouco. Vou mentir, mas somente um pouco. Vou contrariar, mas somente um nada, do João do Lago. Este não é um poema de ocorrência de 10 mil anos, não. Bobagem. A eternidade não se escreve em anos. Para além de 10 mil anos todos serão esquecidos, inclusive Cristo, Nero, Cléopatra e todos os impérios. Nossa eternidade está na lembrança dos últimos súditos, às vezes nem com eles perdura, pára nos amigos. Nossa eternidade está na obra, que pode durar um, dois ou três mil anos. Ou simples horas. Quem saberá dizer?

    O seu poema Ofertório/Dor é eterno porque vive em mim e sinto sua fragância me dominando, pairando para além dos meus dias, dos dias do João, da Marilda, do Altair e da Zuleika. Esta última tem razão quando afirma ser o verso “Ofereço a dor da ânsia divina de morrer” como um dos grandes versos já vistos por nós. Mas também é divino o ponto e o contraponto do tiroteio que lhe precede

    “…da partida sem adeus
    da saudade sem sentir
    da espera inquietante
    do futuro irrelevante
    da ânsia divina de morrer”

    E veja que quando Zuleika falou do último verso, associou a ele a metade do primeio verso da estrofe, recriando o poema. Ou seja, um poema que permite visitação pode ser considerado um poema-instalação.

    Você conseguiu, Vidal.
    Este é um transatlântico com rota, destino e perdição.
    Quanto tempo perdi eu em não ter embarcado alguns portos antes para navegá-lo por mais tempo.

    O João, a Marilda, a Zuleika me trouxeram de volta ao poema. Quanta cegueira na minha e na sua dor.

  3. Tocante, tão profundamente tocante que não encontro palavra a dizer diante deste Ofertório-Dor. Caríssimo Vidal:você desceu fundo demais pelas raízes do humano e subiu fundo demais às inferas dos sacro-ofícios .”Ofereço a dor da ânsia divina de morrer”, um dos mais belos versos que já li, verso de uma beleza e de um alcance indizíveis.
    Zuleika.

  4. Nessas horas, entendo quando você diz que ainda não estamos escrevendo o que realmente sentimos… não podemos deixar passar…quando tudo morre e só a dor sobrevive é preciso escrever sobre essa dor por mais dolorido que seja. É preciso escrever sobre o amor enquanto se está amando por mais tolo que parece ser. É Vidal, é preciso escrever como realmente sentimos… quando eu crescer, quero ser como você.
    Beijo e boa semana

  5. Taí uma poesia que muito muito me toca. Este poeta Vidal é contundente, inquietante e não escreve mesmo por acaso!
    Enfrentar-lhe os poemas é ousar cair em si. É tentar erguer os olhos a partir de nossa precariedade humana, da nossa sensibilidade arcáica, das nossas heranças escondidas ou ostentadas. Incrível, mas a poesia desse cara me faz sentir precisar de consertos se acaso um dia eu queira soar como concerto… Muito muito bom que o poeta tenha, enfim, se decidido nos presentear com a publicação deste “Ofertório”! Quando setembro vier a poesia estará mais orgulhosa disto!

    Altair de Oliveira.

  6. O (A)PARTO DO POETA

    Ofertório-dor é um desses escritos que só ocorrem de 10 mil em 10 mil
    anos. É uma parto de dor apartado de si. É um parto de tanta dor, que
    dói na alma de qualquer vivente que dele venha tomar conhecimento… e
    lê-lo… e senti-lo… e deixar-se conduzir num parto apartado do ser
    que se pretende por alguma via encontrar o centro do divino.

    Esta poesia de JB Vidal é um levante contra o ser e o não-ser.
    Paradoxal inferição que me ocorre, pois, logo ele, que se pretende para
    além de si, grita seu inferno dantesco de forma tão pungente que se nos
    revela a oikós onde se “instalou nessa podridão”, ou seja, neste espaço
    tempo de nossas existências, que na síntese é a presencialidade do ser
    no poeta que tenta se organizar no interno centro do divino do seu
    exílio caótico.

    Já nesta primeira estrofe ele se nos oferece a dor após rasgar com
    violência anti-humana o seu centro do divino, isto é, arromba com
    violência o seu útero eterno sem pai e sem mãe e deblatera o mais
    recôndito do seu inferno existencial, como se quisesse ampliar neste
    nascer-se as vozes de Nietzsche e Kierkegaard.

    Mas o mais genial desta poesia são as duas estrofes centrais, onde o
    autor se nos revela todos os tecidos e fibras que fazem parte do
    corpo-útero, espermas e óvulos, símbolos e sons, discursos e
    proselitismo retórico, forma e conteúdo, deste poema que deixa de ser
    fala para se transformar em linguagem, onde atinge, aí sim, o centro do
    divino e se faz sujeito… e se constrói, aliás, se reconstrói num
    lamento em sujeito-sujeito, uma espécie de deus ou lúcifer, que grita o
    tempo inteiro para dizer: “eu existo; eu sou… e só eu sou”. De certa
    maneira há aqui um kantianismo infantil, mas exuberante porque nos faz,
    de fato, pensar. E pensar não é coisa de humano, mas de anti-humano ou
    de antideus ou antidemônio. Permita-me, o poeta, repetir aqui esses
    belíssimos versos:

    soube então da dor de parir
    e parido fui,
    da dor da fome e fome senti
    da dor do sangue e o sangue correu
    em minha’lma gnóstica
    a dor assumiu e sobreviveu

    quero então oferecer
    esta dor maior que o corpo
    mais que desprezo e humilhação
    mais que guerras e exploração
    mais que almas aleijadas
    mais que humanos em farrapas degradação

    Já o ofertório-dor propriamente dito, ou seja, a última estrofe, aos
    meus olhos, é uma construção inconclusa. Mas penso que aí reside a
    maldade-bondade da oferta deste poeta deus-demônio de si, que tem a
    coragem de si rasgar e de si parir como o caos que faz e constrói
    sujeitos do ser. Ei-la:

    ofereço a dor do amor que amei
    da partida sem adeus
    da saudade sem sentir
    da espera inquietante
    do futuro irrelevante
    da ânsia divina de morrer

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