PAPEL HIGIÊNICO LITERÁRIO – por jaime leitão

Os puristas e conservadores entortarão o nariz para essa idéia no mínimo original e exótica. Uma empresa lançou há pouco tempo na Espanha um produto que está fazendo o maior sucesso: o papel higiênico literário. Isso mesmo: papéis higiênicos, com papel e tinta especiais, trazendo obras de escritores clássicos: Cervantes, Shakespeare, Unamuno e outros grandes nomes da literatura espanhola e mundial.As vendas têm sido muito boas. O dono da empresa, Raúl Camarero, justifica a sua ousadia com o seguinte argumento: “Hemingway dizia que clássico é o livro que todo mundo respeita e ninguém lê. O que estamos fazendo é levar o livro aos banheiros, aproximando a literatura dos homens”. Completa: “E surge aí um conflito interessante: limpar o traseiro com uma bela obra e o dilema moral que isso representa”. Da Bíblia foram colocados trechos do “Apocalipse”, dos “Provérbios” e do “Cântico dos Cânticos”, três livros extraordinários. Do budismo, os escolhidos foram o “Sutra do Lótus” e “O Livro Tibetano dos Mortos”. Um dos sócios quis colocar trechos do “Corão”, livro sagrado dos muçulmanos, mas os outros recuaram com medo de represália.

A idéia surgiu quando Camarero, que é diretor e autor teatral, escreveu uma peça sobre uma empresa que havia criado os tais papéis higiênicos literários. A peça ganhou um prêmio no Festival de Sevilha, fazendo com que Camarero propusesse a alguns amigos sociedade no empreendimento. O nome da peça é “Empreendedores”, da empresa também. A realidade extraiu da ficção o produto, o que torna ainda mais interessante o projeto.

 

O autor mais solicitado pelos “leitores de banheiro” tem sido o genial poeta espanhol Federico García Lorca. Eu sou defensor ardoroso do livro e do jornal, mas não posso ser contra essa idéia que, de uma maneira ou de outra, estimula a leitura e pode fazer com que aqueles que não lêem livro passem a se interessar por eles depois dessa leitura feita na intimidade de um banheiro.Ler é fundamental. Temos que buscar os mais variados suportes para que a leitura seja incentivada. Se uma empresa aqui no Brasil me procurasse e me propusesse publicar os meus microcontos em versão papel higiênico, eu toparia. Antes da higiene corporal, por que não fazer uma higiene mental, lendo trechos de uma obra? É claro que um romance não é uma boa idéia, mas frases, haicais, textos de humor e microcontos se dariam muito bem nesses rolos literários.

O preço não é para qualquer bolso. Um rolo de papel higiênico-literário na Espanha custa 3,70 euros, cerca de R$9,80. O comprador-leitor pode escolher a cor e a obra. As letras são grandes, com grande espaço entre elas, para facilitar a leitura. Os donos da empresa vêm sendo convidados para entrevistas em diversos canais de televisão da Espanha, prova que estão agradando.
                         sem crédito. ilustração do site.
                                                                                        

3 Respostas

  1. Nem, sei como cheguei ate aqui sem cometer erros, já que tomei alguns cálices de vinhos.

    Mas esqueçam. Esta idéia, que até parece original, já foi cunhada em 1986, portanto há 22 anos, pelo poeta Geraldo Magela, funcionário público dos Correios, quando a empresa era inteiramente estatal.

    Ele publicou poemas escritos em papel higiênico por mais de cinco semanas, na Feira do Poeta do Paraná, no Largo da Ordem, em Curitiba, aos domingos, quando existia o Varal da Poesia e o Reinoldo Atem era o funcionário público encarregado dos rumos da arte e da cultrura aos domingos naquele local.

    Isto há vinte anos. Não se aborreçam, por favor, com esta desmitificação da novidade. Mas a novidade sempre é relativa. É como dizer que os maiores apreciadores de carne em todos os tempos são os gaúchos, quando nada se sabe sobre os dinossauros de antes. Talvez os maiores apaixonados por carnes. Mas apenas não sabiam cultuá-las em restaurantes: comiam-nas ao ar livre, de forma sangrenta mesma. Churrasqueiros de primeira.

  2. É mais do que original o referido produto. Afinal, transformar a prosa literária e a poesia, “inutensílios”quiçá mais úteis que a filosofia, as ciências e as religiões para a expressão do pensamento e das emoções mais autênticas da espécie, em limpadores de traseiros de alto poder aquisitivo e “emergentes” da literatura, é tarefa altamente louvável e merece prêmio internacional. Urge também um outro procedimento para a preservação de tais nichos de cultura, após a eclosão da barbárie absoluta: o tombamento imediato destes banheiros-biblioteca.

  3. Limpar a bunda com literatura! No mínimo estranho, mas será que não há outras formas de incentivar a leitura? Onde está aquele velho costume de ler para os filhos uma história na cama? Começa com Pequeno Príncipe e assim vai até os mais complicados quando o filho terá seus 16/17 anos…

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