peripknestsinder OUTRA VEZ POETAS BRASILEIROS CONTEMPORÂNEOS – por jairo pereira

Outra vez Hermes Lucas Perê e outra vez poetas brasileiros contemporâneos. Onde foram parar aqueles guris, acho q. da USP, q. apareceram uma vez na Veja falando de poesia & experimentos de linguagens?! Isso, faz mais ou menos dezessete anos. Lembro q. a repórter (ou o) ouviu Hilda Hilst e Leminski, poesia em camiseta e contrariedade entre os poetas. Promessas poéticas descumpridas. É sempre aquela questão do querer e o poder fazer. Há muito poeta bom por aí, mas fraco de obra. Tem q. produzir mais. Coisa de megalômano, a aventura com os signos e a materialização dessa aventura em obras. Muitas obras. Os velhos já nos resistem, ante pilhas de papéis sujos do nosso dizer. Imagine, salpicando um poeminha aqui outro acolá. E ficando só nisso. O mundo é dos loucos convictos na criação. Os loucos q. ante toda torpeza expandem o dito e arremessam petardos ao deus dará. Tá vendo. Por isso, tô cada vez pior de trabalho e financeiramente. Depois da última abdução, ainda mais misantropo. Firmeza, convicção, acreditamento no produto do seu espíritho, isso é o q. mais falta. Me chama atenção a força da poesia de Neuza Pinheiro, inédita em livro individual. Ninguém, ou quase-ninguém a menciona, quando o assunto é poesia hoje. Ainda não conseguiu um editor interessado na publicação do seu livro. Fico pasmo. Tanta coisinha ruim sendo publicada por aí, e essa enorme poeta, potentada dominadora dos signos ainda inédita. Pra quem não a conhece: Neuza, é também cantora e compositora, tendo atuado na Banda Sabor de Veneno, com Arrigo Barnabé, e participado de festivais de canção da extinta tv Tupi. Tudo é tão pouco quando se fala dessa grande e injustiçada artista brasileira. Um dia ainda tomaremos os meios de produção. Gosto de brincar sobre isso com alguns raros amigos poetas. Uma gráfica para cada dez e estamos felizes. Alguns navios também e grandes carretas, pra distribuir os livros, nesse imenso continente brasilis.

O Douglas Diegues, na fronteira Brasil/Paraguai, está cada vez melhor, espero me mande em breve o seu novo livro de poemas, q. diz ter título retirado de ensaio sobre sua poesia q. fiz certa vez: Una flor na solapa de la miséria. O livro foi editado em Buenos Aires. Douglas manja tudo e sabe do q. estou falando, e q. tem q. por mais esperma e pus nesse processo do criar poeticamente, e do reconhecimento de talentos poéticos no Brasil. Os velhos resistem, covardemente, irreconhecendo a produção contemporânea brasileira, de jovens poetas. Alguém já viu ou ouviu o Ferreira Gullar, alguma vez mencionar o nome de um ou dois ou três poetas das novas gerações, reconhecendo seus talentos? Ou o crítico Wilson Martins, levantar a varinha mágica e revelar um talento atual. O Augusto de Campos –esse- não fala, portanto não vamos ouvir nunca algo sair de sua santa boca. A essas alturas, treme o computher, em ideogramas e compostos puramente visuais. O Haroldo de Campos, mais parlapatão e seguro de si, abria o coração e alarmava gente (poetas jovens) pra todo lado. Raramente, uma alma consagrada, abre caminho na noite veloz, pros bons e jovens cavalos. Há um ódio de gerações, q. perpassa a razão e a emoção. É fria, muito fria, se é q. dá pra se chamar assim, essa dolorida sucessão. Não gosto de ver poetas pedintes, submissos às velhas ratazanas. Poeta q. é poeta sabe disso: meu verso meu guia, minha senda, meu destino sobre todos os destinos. Me alarma, saber do ódio de gerações e a indiferença dos medíocres (alguns até consagrados), às gerações sucessoras. Vais dizer q. não há sucessão dos corpos, das mentes, das linguagens, e q. o q. se institui é imutável e perene?! Na cosmodinâmica, q. imagino tudo é vão e passageiro, e os acentos desocupam e são ocupados novamente em saudável variação. Nunca tive e não tenho esse problema (irreconhecer outro talento). Pelo contrário, gosto de alardear a energia vital, do estreante, do jovem q. descobre a força do signo e constrói veredas da criação, jamais imaginadas por autores veteranos. Esse o grande milagre da criação. Ela –a criação- nunca esgotar-se em si mesma. Contra toda corrente de destruição e morte, as hastes verdoengas ressuscitando sob os cascos dos velhos cavalos. Parafraseando ou repetindo Caetano, isso é lindo. Importa saber q. a noite é grande e extensa a estrada em meio à floresta dos signos. 

Outra questão: o poema social (participativo). Numa época de morte nathural das ideologias, cada vez mais, poetas insistem em cultivar temas exclusivamente intimistas, alheios à realidade social. Intimismos à parte, ninguém vive em asteróide, fora de órbita terrena, (quer dizer eu apenas posso fazer isso porque abduzido). Tal fato, faz refletir o social, no poema. A mesma água do mesmo córrego sujo, q. vai pra planta, q. vai pro pão, q. vai pro bicho beber, q. vai pra fazer o arroz e o feijão, a mesma água q. bebemos e nos banhamos, traz a realidade pra dentro da gente. Cada vez q. o poeta fala em realidade, um frio percorre a espinha. Realidade é objeto jornalístico. Objeto sociológico. Objeto antropológico, philosóphico até, mas nunca poético. Creio q. é tudo isso ao mesmo tempo e mais ainda: fator determinante da melhor poesia, quando a infância com seus arquétipos prensados na alma, conduz o ver & o sentir nas construções do alto espíritho. Lembro do meu amigo Marcos Macedo, assistindo o filme Gringo Velho e chorando. O Marcos só na sala, embebido daquela história. Meu pai mal no hospital, eu no quarto de hóspedes e o Marcos na sala chorando e assistindo aquele filme. Irrelevante ou não, nunca mais pude esquecer aquela cena. Uma liderança, um ideal, uma vida doada a um povo, opressão e luta, e o choro quieto do Marcos. Choro chorado pra dentro. O Marcos é um homem político e idealista per nathura. Não sei porque lembrei disso agora, e se tem algo a ver com o tempo & poesia… Poesia realmente está no emissor dos signos e também no receptor. Não existe a obra sem o outro. A interação dos elementos q. compõem a relação é q. fazem o bom (ou bem) da arte. Esse é Hermes Lucas Perê, repentista de microidéias e quem quiser q. faça outro, mais culto ou sábio. Protonathuralmente é q. tomo decisões e precipito ditos sobre o fazer dos outros. Um instinto de indeterminação (acaso e acidente) conduz meus passos no transfinito mundo das idéias. Poesia melhor q. a de Batista de Pilar, o poeta errante de Curitiba, é rara, em vida e espontâneidade. Quantas vezes o vi –seminu- embaixo do viaduto, ou na Galeria do TUC, com os papéis sujos às mãos, a declamar versos improperiais. Do sujo, do morto, do letargido, da miséria –dessa flor na lapela- difícil de se ver e sentir, é q. nasce as vezes a melhor poesia. Poesia desinteressada, nos fins formais e mesmo de conteúdo. Inaugurações do eu, nathuralmente em estado de graça. Já vi tudo e nada vi ainda pra meu sustento. A vida ensina vida a vida. Cada qual com seu destino, sua luz tênue de poeta. É duro, mas não tenho mais nada a dizer. De repente, não foi a hora certa. Ensaio uns versos só por prazer & escárnio: Vinte anos esperei o bom judeu/q. me editaria/olhava os aviões no céu interiorano/e nada/revoada de andorinhas ao redor da casa/falsos os sinais/quando, quando, o escolhido virá/a colocar-me na rica estante dos consagrados??!! Depois por mero acidente, não sei, resolvi fazer mais uns só pra engrossar este texto: sou um civil/investido de soldado/mas não quero morrer nesta guerra/morrer nesta luta inglória/por um tirano fedendo a bosta/mil vezes morrer/por um poema na lapela da miséria/estou com Douglas Diegues e não abro/uma duas três belas vaginas/pra meu recusado caralho/amor amor amor/& mis vaginas prum tímido e pobre soldado/rico esteta & poeta desesperançado… Não gostou é?! Ínspio o vício lipsio. E por aí vai como vou. Meus filhos crescem livres/ao redor da casa/para o futuro/as hastem progridem belas/nada perdi e tudo ganhei/na loteria dos signos. Aqui graças aos meus deliberados de última hora, quem manda, seu grande filho da putha, soy dio, author, editor, livreiro e marqueteiro, e ninguém (ningum phuto) bota mirgúncias nos meus ditos transfusiados. Os ruídos vão se chegando, as vespas límias, os besouros metálicos, cerzuras de fios invisíveis, comprimindo, enlaçando, os corpos, as almas nos pântanos do consciente e inconsciente. O baralho espiritophânico dá as cartas do meu destino. O galo canta e o cão ladra, o novo dia. Os cavalos estalam os cascos, torneados em acrílico, na estrada asfáltica da grande e velocíssima noite. Uma lua como uma concha um búzio partido conquista cardumes de peixes no meu mar azul alucinógeno. Fragmento-me entre insetos lemptos. Um sapo gordo vem e me engole aos poucos. É a última noite. É a noite do fim dos tempos. Em peripknestsinder, uma língua q. inventei dia desses, composta quase-só de adjetivos, poesia é nandhertesinpher (solitude), perdhiphásilec’s (pensar), arratzhisins (ação) na linha do espíritho q. procura e nunca encontra o sol dos pequeninos.

 

 

hErMes lUcAs pErê, do transpoético

Autor de Anemoria (poesia) e

Arroz, feijão e philosophia (multiprosa)

a serem publicados por editora do Asteróide

AZPHIZ’S 555, da Órbita Savagé no ano 2010.

 

2 Respostas

  1. Olá..

    Quero fazer uma reclação..pois eu não consigo copiar as coisas que se tratam no texto acima..por issu peço que voceis tomem providencias

    Atenciosamente:

    Daniela

  2. O que mais dizer, Jairo?
    Você deixou-me estupefato, estúpido, quase um fato.

    Texto denso, ao mesmo tempo suave, carnal, animal,
    poeira do interior, poeira dos tempos, um redemoinho de signos e circunlóquios (ahghhh!! – que palavra estranha, mas parece uma aranha) de pensamentos.

    O seu texto é tão bom que me fez sentir culpado por ter estado tão romântico a descrever minhas emoções idiossincráticas nos poemeus escritos e publicados pelo Vidal de quando em vez.

    Sobre a edição, embora concorde que sempre escrevemos para o outro, não existindo literatura sem o olhar do cúmplice, tenho preferido ficar longe das editoras. Penso que a mim já valem muito o olhar dos próximos, como o seu e de outros amigos comuns. Se amanhã por força de um gesto tresloucado alguém quiser reunir os escritos dos palavreiros e publicar meus poema, que assim seja. Se alguma fortuna eles gerarem, deixo-a inteira para o financiamento dos novos autores ou para a manutenção do Batista de Pilar, que concordo é um puta poeta.

    Muitos de nós somente por algum breve momento o sobreviveu. E o melhor dele – por incrível que pareça, foi na sua fase mais cáustica, quando trôpego, desfiapado pelas intempéries do capital, se agitava de sarjeta em sarjeta, mas nos brindava com poemas de altíssima humanidade e porrada.

    Mas Jairo, a sua prosa é fantástica. Está vendo, queria escrever pouco e acabei me delongando, mais do que esticando-me. Mas a sua prosa, meu Caro Jairo, mais do que lucidez tem momentos poéticos geniais. Versos muitas vezes não encontrados no interior de um poema: “inaugurações do eu”; ” os cavalos estalam os cascos, torneados em acrílico, na estrada asfáltica da grande e velocíssima noite”.

    Retorno à frase do início.
    O que mais dizer, Jairo?
    Apenas dizer Bom dia, Jairo!
    Porque a simples leitura do seu texto diz que o meu dia será muito bom. Seu texto me encheu de esperança e vida, companheiro.

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