W3 – de tonicato miranda

(anos plúmbeos e “aliás”)

W-3

em qual mês,

minha primeira vez?

Lembro de você, serpente

deitada desde o poente

até os limites da Torre de TV

W-3

todo mês

fez menino fez / fez menina fez

minha rua / minha tez /

W-3 / W-tez / toda sua / toda minha / um de cada vez

passo lento / passa vento / passa passa – W-3

W-3

era bom lhe ver

passear você e a cidade não ver

passar nas suas vitrines a ver

primeiras e últimas novidades

tentação feminina, limiar do querer

W-3

BiBaBo, Mocambo, Casebre 13,

lojas guardadas na sua rica caixa

uma delas Casa da Borracha, onde está

nos guardados não mais se acha?

queimou –se, virou fogueira, virou acha

W-3

centro comprido, reta pura

loja depois de loja, confundindo a procura

lugar de encontros e cursos de costura

escolas de datilografia; casas de fotografia

3×4, 5×8; dentistas com dentaduras na polia

W-3

cruzava-a todos os dias sem lhe partir

No rumo do CASEB e do Elefante Branco

Elefante que não solapava seus barrancos

Elefante Branco, Branco, Branco, Branco

distante um pouco dos seus muitos bancos

W-3

não tenho saudade de você avenida

nem das suas praças de cimento

pois ainda está aí, com todas suas feridas

no seu canteiro já teve retornos e carros

muito mais árvores, algumas muito floridas

W-3

querem agora lhe dar bonde moderno

pensam lhe remoçar como nova noiva

para a visita dos homens de terno

queira não, chama o povo a um beijo terno

diga que lhe apraz o céu mais do que o inferno

W-3

em qual mês,

minha primeira vez?

Lembro de você, serpente

deitada desde o poente

até os limites da Torre de TV

W-3

todo mês

fez menino fez / fez menina fez

minha rua / minha tez /

W-3 / W-tez / toda sua / toda minha / um de cada vez

passo lento / passa vento / passa passa – W-3

 

Brasília, 20/07/2008

Uma resposta

  1. ROMPENDO A GEOMETRIA
    DO CONCRETO
    FRIO, DISTANTE E VAZIO

    © DE João Batista do Lago

    O caráter de desfossilização implicitada na poesia W3, de Tonicato Miranda, retraduz a leitura de uma cidade concreta traçada pela geometria mágica dos desenhos-poemas de Oscar Niemeyer. O poeta, apascentado de algum canto da cidade conseguiu, a partir de uma espécie de onirismo do estar-ai ou ser-ai heideggerianos, ou seja, de ser a própria cidade prenhe de dialética do sonho interno e externo que o fez transgredir as linhas euclidianas que fechavam a cidade numa tipologia de visão não-[ex]tensiva. Ele, o poeta, nos faz pensar que o resultado da “sua” W3, não contém em si apenas e tão-somente uma outra paralela, mas que pode ser entendida [ex]tensivamente para além do quinto euclidiano. Não. Tonicato Miranda amplia nosso olhar sobre Brasília e, em especial, sobre a W3 para inferir que aquele é (também!) espaço onde há contornos e contornicidades; presenças e presencialidades, que, por força das linhas rígidas, muitas vezes – ou quase todas as vezes! -, que por lá passamos não nos deixamos encantar pela dialética dessas simetrias-assimétricas que se implicam no interno-externo da W3 sonhada pelo autor.

    É interessante notar que o poeta constrói a poesia como se estivesse cantando em serenata para sua amada, numa noite lúgubre e fria. Assim, não é a toa que ele cria e finda este cântico imagético com estrofes que poderiam mesmo serem consideradas estribilhos refratários de “uma” (assinalo “uma” porque poderiam ou podem ser várias, dependendo dos olhares que se lhe alcancem) canção. E aqui vale destacar como ele sugere essa realidade mais-que-real, ou seja, ele se imagina corpo-alma-espírito amalgamado umbilicalmente nessa planície que o prega ou o gruda ao chão; planície que traz consigo a imagem geofísica de um pássaro… De um pássaro metálico criado pela cosmovisão do seu criador: o avião. Ora, um avião tem asas… Portanto, um avião é um pássaro. Metáfora evidente. Contudo, o sujeito da poesia… O ser da poesia não se desgruda do chão… Não cria asas porque se insere na geofísica das suas (do poeta) imagens geográficas como uma serpente que tudo vê: desde o poente ao nascente de uma torre de TV onde, metaforicamente, temos todos os olhares do mundo. Serpente que, lentamente, e durante todo o tempo das imagens que se nos provoca o autor, vai se mimetizando na construção ou criação de novos atores-imagens: mês, menino, menina, rua, tez, passo, vento… (Porventura, não seria a serpente o outro olhar da mitologia do divino?)
    Vejamos:

    W-3
    em qual mês,
    minha primeira vez?
    Lembro de você, serpente
    deitada desde o poente
    até os limites da Torre de TV
    W-3
    todo mês
    fez menino fez / fez menina fez
    minha rua / minha tez /
    W-3 / W-tez / toda sua / toda minha / um de cada vez
    passo lento / passa vento / passa passa – W-3

    Já no corpo do poema (propriamente dito), o autor de W3 entrega-se à rigidez de um tipo de serpenteamento antinômico, desregrado mesmo, mas nos revela imagens serpenteadas de agonia, dor e sofrimento… belíssimas!, entre pinceladas de alguma felicidade e de prazeres inconfessos da sua dialética interno-externo, o que lhe confere o fetiche de criador-criatura: entre a palavra do poeta, a fala dos discursos e a linguagem das imagens realiza-se um ato sexual assexuado e insubmisso. Mas, mais que isso, ao grafar explicitamente “casas de fotografia”, o autor temporaliza para todo o sempre, o esquartejamento da geometria concreta da cidade que deu à luz a W3, campo dialético da criação de Tonicato Miranda, onde ele infere a dialética do sim e do não, como diria Gaston Bachelard: “Fazemos dela, sem percebermos, uma base de imagens que comandam todos os pensamentos do positivo e do negativo. Os lógicos traçam círculos que se superpõem ou se excluem, e logo todas as suas regras se tornam claras. O filósofo, com o interior e o exterior, pensa o ser e o não-ser. (…) O aquém e o além repetem surdamente a dialética do interior e do exterior: tudo se desenha, mesmo o infinito”.

    Porventura não foram esses desenhos que se nos pintou em suas imagens oníricas o poeta Tonicato Miranda?

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