Arquivos Diários: 29 julho, 2008

AQUÁRIO poema de manoel de andrade

 

 Silente e impassível
o mar
navega sua beleza
em  preguiçosas caudas
e barbatanas velozes,
ilumina-se em translúcidas medusas
e na cromática simetria das escamas.

Refrata a luz e a vida
no remanso submerso das águas,
em seus relicários de pérolas
e no  balé  itinerante dos cardumes.

Mar, ó mar…
escondeste teus íntimos mistérios
na pressão insuportável dos abismos
nessas paisagens indevassáveis da vida
onde transitam  feições primordiais jamais iluminadas.

Abres, contudo, as pálpebras da aurora
e o sol emerge do teu ventre  qual fornalha ardente
e na superfície das águas
ilumina tua face absoluta
nesta horizontal extensão do azul
nesta planície sulcada de quilhas e naufrágios
onde se agitam as caudas gigantescas das jubartes
e as asas serenas do albatroz.

Teus brancos litorais abraçam a Terra
desde sempre marejados pelo teu íntimo palpitar.
Tuas marés redesenham os cinturões de areia
e delimitam teu espaço inconquistável.
Os manguezais invadidos retratam teus domínios.
Contra teu furor levantam-se falésias
fiordes verticais e punhais de granito.
Edificas tua linha de recifes,
teus castelos de corais,
cultivas teus jardins de algas e sargaços
onde mandíbulas poderosas,
venenos e descargas fulminantes,
ditam teu código submerso.

Mar, ó mar
transparente  beleza de flores e de frutos
território enigmático de vidas e silêncio
abismo onde flutuam os sobreviventes
sudário de todos os náufragos.

Mar azul
chamo-te água absoluta
porque absoluta é a tua sedução
a tua irresistível espuma
a mobilidade do teu ritmo
tua incessante sinfonia
teu eloqüente silêncio.

E contudo…
diante do etérico oceano…
diante dessas deslumbrantes ilhas estelares…
tu és apenas um úmido ponto no infinito
um aquoso respingo
minúsculo aquário
um minuto ondulante na eternidade
há bilhões de anos se espraiando
nessa gota salgada suspensa no universo.
                                 

 

Curitiba, março de 2004
Este poema consta do livro “Cantares”, editado por Escrituras

A CENTRAL DE GOLPES por walmor marcellino

Há só três pontos de vista sobre os acontecimentos no mundo: 1) o da liberdade, do progresso econômico-social-político e autodeterminação dos povos, 2) o do capitalismo-imperialismo, com sua dominação política e produção-destrutiva dos recursos e bens naturais, e 3) o de Vargas Lhosa, Arthur Virgílio-Fernando‑Henrique Cardoso‑Roberto Freire e outros imbecis de vários matizes. Essa redução aqui da espécie humana a simples paradigmas, entretanto, soará sectária ou “radical”, porém não há outra forma de exposição sucinta de temas mais complexos sobre os quais a Rede de Intrigas CNN‑Globo (et caterva) ensinam o gentio e os idiotas a pensar ciberneticamente.
Para quem pensa que vou fazer algum ensaio, desilusão. Cito apenas o jornal “El País” (de “centro-direita”) na sua edição de “viernes, 4 de julho de 2008), que mancheteia: “A operação Jaque começou em janeiro”, e subtitula: “Um grupo de coronéis treinados em Israel e Estados Unidos desenhou o plano de resgate”. Agora, vocês podem ler e escolher uma das informações (que se interpenetram): a minha já passada a vocês pela internet tachada de marxista delirante e a do jornal, que goza de um conceito de “independente”.
A CIA, a DEA, o Moussade (Israel) e até o M-16 foram os autores, os três primeiros planejando a ação-corrupção de resgate e o outro sócio-“informado” como aliado na grande cruzada da Internacional Negra. Claro que era preciso ter projetos táticos aperfeiçoados: nas práticas da CIA e de seus paramilitares colombianos, nos infiltrados na guerrrilha e sua caixinha de “até 100 milhões de dollares” para este caso no aliciamento dos “voluntários”, nos “narcocorrompidos” e no “pay-cash” dos “amigos dirigentes colombianos”. O ensaio do Equador não servira de advertência para os governos da região, de que se trata de um planillo dentro do grande plano estratégico: o governo satélite Uribe como relembrança de que as canhoneiras farão “a sombra política” da determinação imperialista da renascida “Doutrina Monroe”: o México neocolonizado vai infiltrar-se nos demais convidados “G” (China, Índia, Brasil, África do Sul e México) no G-8; a Colômbia vai sinalizando o modelo de cooperação neocolonial-neoliberal, juntamente com o Chile, o Peru e o vacilante Uruguai.
Bem, voltemos: as ações da CIA (como exemplo, nos genocídios políticos praticados pelos militares tipo Castelo Branco-Costa e Silva-Medici-João Figeiredo-Pinochet-Vidella-et fezes) são sabidas embora pouco conhecidas; a canalha oligárquica, institucional e burocrático-militar em nossos países é vista por nós com “seriedade democrática”, as campanhas contra “o narcotráfico” orientadas pela DEA e CIA recebem apoio de todos os idiotas e corruptos: moralistas, políticos e juristas, como pretexto para asfixiar as classes “desobedientes”; o Mossade se associou ao gangsterismo político globalizado para garantir-se “as informações de dentro” da internacional negra do imperialismo e manter o apoio das forças repressivas internacionais; atua em toda parte como “serial killer” bem treinado em matar árabes e palestinos. Continuamos bem.

DA TERRA AO CAOS – conto de leonardo meimes

A terra ainda era menina demais, pois esta história remonta aos longínquos anos em que os homens ainda se dedicavam à vida pacata. O mundo humano se resumia a uma família e a porção de terra conhecida ainda era reconfortante, muito parecida com o paraíso. Na vila, única, se via apenas uma grande casa cercada por pequenas construções de um cômodo e de campos abertos, onde todos cuidavam do ofício de serem pastores ou de plantar hortaliças. Eles não foram sempre pastores, a tradição começou quando o irmão mais novo decidiu criar, cuidar e finalmente usufruir a vida animal, então todos o seguiram. Dantes fora ainda mais pacata suas vidas, resumidas as sombras das florestas de onde retiravam seu sustento comendo frutas suculentas e delícias que afloravam com a terra. Agora ali os animais eram, sim, pastoreados, as ovelhas e os pequenos borregos caminhavam tranqüilamente, sem perceber as intenções de seus criadores, que não deixavam de ser boas. Apenas o necessário era utilizado, pouca mata havia sido avariada, sendo as poucas casas feitas de barro e alguns fragmentos de madeira encontrados já ao chão. O campo não era dividido em áreas, toda área era comum, porém os animais obedeciam apenas a seus pastores. As famílias provenientes do mesmo pai e mãe conviviam em paz, aliás, desdenhas ainda não haviam sido criadas entre os viventes, só entre os viventes e os criadores.

O primeiro filho nascido nesta terra, um grande homem, de barbas espessas ruivas e um apetite voraz por tudo que da terra provinha, foi também o primeiro agricultor. Tinha um nome da terra e se chamava Mica. Arou os campos e refez a terra de modo que tudo o que plantasse, crescia. Ao término de alguns anos, na família santa havia mais de dez filhos, cada um com sua família e criação. Porém à Mica, o velho, não foi dada a graça de uma esposa fértil. Cada um dos irmãos a seu jeito ajudava a crescer a espécie humana, porém Mica e o mais novo, Balé, ainda não tinham plantado raiz nesta terra. Balé era magro, bem frágil e por muitas vezes pensativo, foi quem descobriu a arte de lidar com os animais, de alimentá-los e, mais por necessidade do que por perversidade, de os sacrificar para fartura das famílias. Este irmão, porém, ainda era novo e havia a pouco se casado com uma de suas irmãs, também muito nova, apesar de mais velha do que ele, e planejavam viver sem constituir família, ajudando e trabalhando para o bem de todos os outros moradores da vila.

O irrequieto e voraz Mica decidiu então pedir a deus que este lhe fizesse a graça de lhe conceder um filho. Recolheu as mais bonitas frutas, fez ramos de trigo e pediu que sua mulher fizesse doces e especiarias para que fossem oferecidas a deus num apelo. Armou um templo com estas gostosuras da terra que nem ele, acostumado a ver tanta fartura, recusaria qualquer desejo que lhe fosse pedido. Porém deus, ao contemplá-lo em tal fervorosidade, respondeu que ele seria o último dos irmãos a ter uma progênie, pois seu trabalho como agricultor era um dos mais importantes dentre os que eram desenvolvidos entre os irmãos e não podia ser incomodado. Ficou assim enraivecido o brutal Mica, suas veias saltaram e ele num feroz balbucio despejou desvairadas injurias a tudo e todos. Essas se dirigiam principalmente ao irmão menor, Balé, que não tinha em mente a constituição de uma família, impossibilitando assim que o mais velho pudesse procriar.

Em um encontro, mais do que desnecessário, Mica rogou ao piedoso Balé que fosse junto dele pedir a deus que fosse permitida a cria, que Balé explicasse ao onipotente que não tinha planos de ter filhos e que não podia desta forma o seu destino estar entrelaçado ao do irmão ou o mais velho nunca os teria. Improvisaram um altar, com fogo e ervas essenciais, que espalharam um cheiro que qualquer um cederia. Balé procurou o bezerro mais bonito dentre suas criações, pediu-lhe encarecidamente que participasse do sacrifício e não sendo respondido pelo animal julgou que tudo ia bem. Mica recolheu mais frutas e verdes diversos do que antes e produziu um belo arranjo para a oferenda. Ao amanhecer eles começaram a oferenda e o sacrifício, chamando deus que lhes ouvisse. Este mais uma vez disse que a intenção era boa, porém o destino dos dois estava mais entrelaçado do que o de qualquer dos outros irmãos e que fruto de tal destino haveria de se cumprir para que o mundo fosse completo. Mica enraivecido outra vez perguntou a deus de punhos cerrados e num suplicante gorgolejo se havia meio de sua vontade ser atendida de alguma forma. Deus lhe disse que só com o maior ato de amor e devoção à sua pessoa o destino poderia ser mudado.

Mica olhou ara seu irmão ali ao seu lado ajoelhado e bradou a deus, “Ó deus, lhe ofereço a vida de meu irmão e cometo uma grande ofensa para provar que faço tudo por minha vontade”. Agarrou Balé pelos ombros e desferiu mortal golpe em seu irmão. Balé ali jazia e a voz de deus não foi mais ouvida por Mica.

Mica explicou aos outros irmãos que Balé havia se sacrificado para que deus lhe concedesse a graça da prole e que em nove meses nasceria uma criança. Porém tais meses foram de incrível solidão para Mica, que não tinha coragem de olhar para o rosto dos irmãos e já tinha perdido a vontade de plantar e colher, aderindo ao hábito de andar a sós à noite, o que antes lhe causava repulsa, mas agora era muito reconfortante. Sua mulher foi cada vez mais apresentando os sinais da gravidez. Em três meses já tinha uma barriga e mal podia se mover. Outros fatos estranhos tomaram vez. Havia uma espécie de pássaros que ajudava os homens no laboro com a terra, plantando e espalhando sementes, estes já não eram mais vistos, assim como mais cinco outras espécies, incluindo roedores, peixes, e miúdos. No quarto mês as pragas começaram. Atacando as lavouras foram seis pragas ao todo uma em cada mês que a criança crescia. Ao término dos nove meses, o irmão poeta já havia escrito seis tragédias ali ocorridas, em lindas métricas por ele inventadas. Então, a criança nasceu, em uma caverna onde Mica decidira se instalar. O leito era de pedra sem nada para confortar o bebê. A esposa não teve coragem de chamar os outros irmãos para ver sua criança. Este era um menino, de bom peso e boa aparência, porém eles estavam com dúvidas na escolha do nome. A criança depois de horas sem um nome começou a chorar. De grande altura foi o choro e os animais notaram que uma nova vida havia surgido, curiosos vieram visitar.

Vieram vários animais, cada um ao seu ritmo e ofereceram ajuda a Mica na escolha do nome. Mica expressou seu desejo por um nome animal, pois queria que seu filho tivesse intimidade no lido com estes. Talvez numa homenagem a seu irmão morto escolheu o nome Cordeiro. Olhou para os lados procurando entre os animais um cordeiro para pedir-lhe permissão e como não havia ali um desses foi escolhido o nome. Os animais ali concordaram, pois cada um tinha seu motivo em não dar seu nome a criança que havia desencadeado tal desordem, mesmo antes de nascer. Cordeiro de imediato começou a chorar mais alto. A criança se contraia e corava como se o estivessem torturando. Então Mica retirou-lhe o nome e tudo voltou ao normal, a criança olhava para os lados com uma feição indagativa. Não se fez consenso sobre o nome que o menino receberia e nem haveria tempo para tal, pois três homens chegaram à caverna, cada um montado em seu animal.

Mica não reconheceu nenhum deles como um de seus irmãos e perguntou-lhes de onde vinham. Os três se aproximaram e em rima e verso responderam:

 

 

 

 

O primeiro:

“Sou o rei do alto ocidente!

Venho aqui presentear a criança com ouro.

Ó mestre, que nasceu para reinar valente

Sobre toda a vida existente!”

 

Este estava montado sobre um lindo mustangue e usava roupas vermelhas e azuis.

“serás, ó Rei, o mais temido entre os homens!”

 

O segundo:

“Sou o rei do alto oriente!

Venho lhe presentear com negra especiaria,

Que a sede com a fome sacia!

Ó grão mestre, que nasceu para o que devia!”

 

Desceu de seu camelo, pôs seu turbante ao lado do garoto e ajudou o pequeno a beber o viscoso liquido negro.

“serás o mais temido entre os homens, ó Rei!”

 

O terceiro:

“Sou o rei do sul do mundo!

Venho lhe trazer minha influência.

Pois sei que de norte a sul do mundo,

Todos lhe deverão obediência!

 

Desceu de seu jegue, pegou a criança e lhe deu um beijo.

“serás entre os homens o mais temido, ó Rei!”

 

E sorrateiramente guardou o ouro debaixo de seu casaco.

Tais gloriosos reis seguiram seu caminho terminando o maior ato de reverência a um mortal já feito até aquele momento em toda história. Mica estava abismado com o destino que deus havia dado à sua criança. Uma dúvida agora pairava na mente de todos os animais, que nome haveria de ter tão grande rei? Os animais estavam ansiosos e cada um queria agora que seu nome fosse dado à criança, entusiasmados pelas previsões dos reis. Começaram a declamar.

O Cão:

“Serás Cão!

Pois sua voz soará como um rosnar assustador

À quem se atrever a atrapalhar seu destino!”

 

O Bode:

“Serás Bode!

Pois terá a sabedoria que um líder precisa para

Acabar com seus rivais!”

 

Um Morcego ali alojado:

“Serás Príncipe das Trevas!

Pois não terá medo de infligir a escuridão,

Que seus inimigos tanto temem, como um morcego faz!”

O Lobo:

“Serás Besta!

Pois terá a fúria e a impiedade que só os lobos tem!”

 

O Porco:

“Serás Sujo!

Pois assim manterá longe qualquer indesejado rival,

como fazem os porcos!”

 

Seguiram falando depois o Gato-preto, a Serpente, a Mariposa, o Dragão, o Escorpião e a Aranha. Travaram os animais uma discussão na qual decidiram chamar o menino de Mestre. Só que as conseqüências daquela noite acabaram por irritar o garoto. Após tantos nomes serem dados, a criança se contraiu em um gesto e com um lamento ainda mais alto que o primeiro amaldiçoou a todos. A terra tremeu aos pés dos homens, rachou e se dividiu em várias porções enormes de terra à deriva. Na vila, situada em uma destas porções, as pessoas sentiram uma forte dor em seus ouvidos e ao cessar do lamento já não conseguiam se entender em palavras. Cada um dos irmãos e suas famílias começaram a se desentender, suas vozes eram de um absurdo total e foi necessário que cada família fosse para um canto do mundo para que não brigassem. Levaram consigo, sua forma de falar, suas especialidades, suas crenças e cada um seu nome diferente para o ser que havia perturbado uma paz que reinava há anos. Os animais também passaram pelo mesmo processo e ao término do lamento não se entendiam mais. As vacas em vez de falar a língua dos homens mugiam, os lobos uivavam e todos tentaram desesperadamente dialogar, mas já não era possível.

Mica deitou e chorou. Sua mulher não resistiu ao parto. A criança, soluçando ao fim do lamento, foi então alçada em vôo por um abutre que a levou para longe. A terra se curou, abasteceu-se de novas vidas já abundantes e prosperou, porém nunca mais se livrou da sombra causada pelo garoto. O abutre muito velho e perspicaz criou o menino, alimentou-o e ajudou a crescer quem nós chamamos hoje por vários nomes, todos semelhantes pelo ar sombrio e pesaroso.

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ilustração do site. foto do telescópio hubble. nebulosa da Águia.

O PIRILAMPO E O SAPO poema de marquesa de alorna

 

Lustroso um astro volante
Rompera as humildes relvas:
Com seu vôo rutilante
Alegrava à noite as selvas.

Mas de vizinho terreno
Saiu de uma cova um sapo,
E despediu-lhe um sopapo
Que o ensopou em veneno.

Ao morrer exclama o triste:
– Que tens tu de que me acuses?
Que crime em meu seio existe?
Respondeu-lhe: – Porque luzes?

 

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a poeta Marquesa de Alorna.