DA TERRA AO CAOS – conto de leonardo meimes

A terra ainda era menina demais, pois esta história remonta aos longínquos anos em que os homens ainda se dedicavam à vida pacata. O mundo humano se resumia a uma família e a porção de terra conhecida ainda era reconfortante, muito parecida com o paraíso. Na vila, única, se via apenas uma grande casa cercada por pequenas construções de um cômodo e de campos abertos, onde todos cuidavam do ofício de serem pastores ou de plantar hortaliças. Eles não foram sempre pastores, a tradição começou quando o irmão mais novo decidiu criar, cuidar e finalmente usufruir a vida animal, então todos o seguiram. Dantes fora ainda mais pacata suas vidas, resumidas as sombras das florestas de onde retiravam seu sustento comendo frutas suculentas e delícias que afloravam com a terra. Agora ali os animais eram, sim, pastoreados, as ovelhas e os pequenos borregos caminhavam tranqüilamente, sem perceber as intenções de seus criadores, que não deixavam de ser boas. Apenas o necessário era utilizado, pouca mata havia sido avariada, sendo as poucas casas feitas de barro e alguns fragmentos de madeira encontrados já ao chão. O campo não era dividido em áreas, toda área era comum, porém os animais obedeciam apenas a seus pastores. As famílias provenientes do mesmo pai e mãe conviviam em paz, aliás, desdenhas ainda não haviam sido criadas entre os viventes, só entre os viventes e os criadores.

O primeiro filho nascido nesta terra, um grande homem, de barbas espessas ruivas e um apetite voraz por tudo que da terra provinha, foi também o primeiro agricultor. Tinha um nome da terra e se chamava Mica. Arou os campos e refez a terra de modo que tudo o que plantasse, crescia. Ao término de alguns anos, na família santa havia mais de dez filhos, cada um com sua família e criação. Porém à Mica, o velho, não foi dada a graça de uma esposa fértil. Cada um dos irmãos a seu jeito ajudava a crescer a espécie humana, porém Mica e o mais novo, Balé, ainda não tinham plantado raiz nesta terra. Balé era magro, bem frágil e por muitas vezes pensativo, foi quem descobriu a arte de lidar com os animais, de alimentá-los e, mais por necessidade do que por perversidade, de os sacrificar para fartura das famílias. Este irmão, porém, ainda era novo e havia a pouco se casado com uma de suas irmãs, também muito nova, apesar de mais velha do que ele, e planejavam viver sem constituir família, ajudando e trabalhando para o bem de todos os outros moradores da vila.

O irrequieto e voraz Mica decidiu então pedir a deus que este lhe fizesse a graça de lhe conceder um filho. Recolheu as mais bonitas frutas, fez ramos de trigo e pediu que sua mulher fizesse doces e especiarias para que fossem oferecidas a deus num apelo. Armou um templo com estas gostosuras da terra que nem ele, acostumado a ver tanta fartura, recusaria qualquer desejo que lhe fosse pedido. Porém deus, ao contemplá-lo em tal fervorosidade, respondeu que ele seria o último dos irmãos a ter uma progênie, pois seu trabalho como agricultor era um dos mais importantes dentre os que eram desenvolvidos entre os irmãos e não podia ser incomodado. Ficou assim enraivecido o brutal Mica, suas veias saltaram e ele num feroz balbucio despejou desvairadas injurias a tudo e todos. Essas se dirigiam principalmente ao irmão menor, Balé, que não tinha em mente a constituição de uma família, impossibilitando assim que o mais velho pudesse procriar.

Em um encontro, mais do que desnecessário, Mica rogou ao piedoso Balé que fosse junto dele pedir a deus que fosse permitida a cria, que Balé explicasse ao onipotente que não tinha planos de ter filhos e que não podia desta forma o seu destino estar entrelaçado ao do irmão ou o mais velho nunca os teria. Improvisaram um altar, com fogo e ervas essenciais, que espalharam um cheiro que qualquer um cederia. Balé procurou o bezerro mais bonito dentre suas criações, pediu-lhe encarecidamente que participasse do sacrifício e não sendo respondido pelo animal julgou que tudo ia bem. Mica recolheu mais frutas e verdes diversos do que antes e produziu um belo arranjo para a oferenda. Ao amanhecer eles começaram a oferenda e o sacrifício, chamando deus que lhes ouvisse. Este mais uma vez disse que a intenção era boa, porém o destino dos dois estava mais entrelaçado do que o de qualquer dos outros irmãos e que fruto de tal destino haveria de se cumprir para que o mundo fosse completo. Mica enraivecido outra vez perguntou a deus de punhos cerrados e num suplicante gorgolejo se havia meio de sua vontade ser atendida de alguma forma. Deus lhe disse que só com o maior ato de amor e devoção à sua pessoa o destino poderia ser mudado.

Mica olhou ara seu irmão ali ao seu lado ajoelhado e bradou a deus, “Ó deus, lhe ofereço a vida de meu irmão e cometo uma grande ofensa para provar que faço tudo por minha vontade”. Agarrou Balé pelos ombros e desferiu mortal golpe em seu irmão. Balé ali jazia e a voz de deus não foi mais ouvida por Mica.

Mica explicou aos outros irmãos que Balé havia se sacrificado para que deus lhe concedesse a graça da prole e que em nove meses nasceria uma criança. Porém tais meses foram de incrível solidão para Mica, que não tinha coragem de olhar para o rosto dos irmãos e já tinha perdido a vontade de plantar e colher, aderindo ao hábito de andar a sós à noite, o que antes lhe causava repulsa, mas agora era muito reconfortante. Sua mulher foi cada vez mais apresentando os sinais da gravidez. Em três meses já tinha uma barriga e mal podia se mover. Outros fatos estranhos tomaram vez. Havia uma espécie de pássaros que ajudava os homens no laboro com a terra, plantando e espalhando sementes, estes já não eram mais vistos, assim como mais cinco outras espécies, incluindo roedores, peixes, e miúdos. No quarto mês as pragas começaram. Atacando as lavouras foram seis pragas ao todo uma em cada mês que a criança crescia. Ao término dos nove meses, o irmão poeta já havia escrito seis tragédias ali ocorridas, em lindas métricas por ele inventadas. Então, a criança nasceu, em uma caverna onde Mica decidira se instalar. O leito era de pedra sem nada para confortar o bebê. A esposa não teve coragem de chamar os outros irmãos para ver sua criança. Este era um menino, de bom peso e boa aparência, porém eles estavam com dúvidas na escolha do nome. A criança depois de horas sem um nome começou a chorar. De grande altura foi o choro e os animais notaram que uma nova vida havia surgido, curiosos vieram visitar.

Vieram vários animais, cada um ao seu ritmo e ofereceram ajuda a Mica na escolha do nome. Mica expressou seu desejo por um nome animal, pois queria que seu filho tivesse intimidade no lido com estes. Talvez numa homenagem a seu irmão morto escolheu o nome Cordeiro. Olhou para os lados procurando entre os animais um cordeiro para pedir-lhe permissão e como não havia ali um desses foi escolhido o nome. Os animais ali concordaram, pois cada um tinha seu motivo em não dar seu nome a criança que havia desencadeado tal desordem, mesmo antes de nascer. Cordeiro de imediato começou a chorar mais alto. A criança se contraia e corava como se o estivessem torturando. Então Mica retirou-lhe o nome e tudo voltou ao normal, a criança olhava para os lados com uma feição indagativa. Não se fez consenso sobre o nome que o menino receberia e nem haveria tempo para tal, pois três homens chegaram à caverna, cada um montado em seu animal.

Mica não reconheceu nenhum deles como um de seus irmãos e perguntou-lhes de onde vinham. Os três se aproximaram e em rima e verso responderam:

 

 

 

 

O primeiro:

“Sou o rei do alto ocidente!

Venho aqui presentear a criança com ouro.

Ó mestre, que nasceu para reinar valente

Sobre toda a vida existente!”

 

Este estava montado sobre um lindo mustangue e usava roupas vermelhas e azuis.

“serás, ó Rei, o mais temido entre os homens!”

 

O segundo:

“Sou o rei do alto oriente!

Venho lhe presentear com negra especiaria,

Que a sede com a fome sacia!

Ó grão mestre, que nasceu para o que devia!”

 

Desceu de seu camelo, pôs seu turbante ao lado do garoto e ajudou o pequeno a beber o viscoso liquido negro.

“serás o mais temido entre os homens, ó Rei!”

 

O terceiro:

“Sou o rei do sul do mundo!

Venho lhe trazer minha influência.

Pois sei que de norte a sul do mundo,

Todos lhe deverão obediência!

 

Desceu de seu jegue, pegou a criança e lhe deu um beijo.

“serás entre os homens o mais temido, ó Rei!”

 

E sorrateiramente guardou o ouro debaixo de seu casaco.

Tais gloriosos reis seguiram seu caminho terminando o maior ato de reverência a um mortal já feito até aquele momento em toda história. Mica estava abismado com o destino que deus havia dado à sua criança. Uma dúvida agora pairava na mente de todos os animais, que nome haveria de ter tão grande rei? Os animais estavam ansiosos e cada um queria agora que seu nome fosse dado à criança, entusiasmados pelas previsões dos reis. Começaram a declamar.

O Cão:

“Serás Cão!

Pois sua voz soará como um rosnar assustador

À quem se atrever a atrapalhar seu destino!”

 

O Bode:

“Serás Bode!

Pois terá a sabedoria que um líder precisa para

Acabar com seus rivais!”

 

Um Morcego ali alojado:

“Serás Príncipe das Trevas!

Pois não terá medo de infligir a escuridão,

Que seus inimigos tanto temem, como um morcego faz!”

O Lobo:

“Serás Besta!

Pois terá a fúria e a impiedade que só os lobos tem!”

 

O Porco:

“Serás Sujo!

Pois assim manterá longe qualquer indesejado rival,

como fazem os porcos!”

 

Seguiram falando depois o Gato-preto, a Serpente, a Mariposa, o Dragão, o Escorpião e a Aranha. Travaram os animais uma discussão na qual decidiram chamar o menino de Mestre. Só que as conseqüências daquela noite acabaram por irritar o garoto. Após tantos nomes serem dados, a criança se contraiu em um gesto e com um lamento ainda mais alto que o primeiro amaldiçoou a todos. A terra tremeu aos pés dos homens, rachou e se dividiu em várias porções enormes de terra à deriva. Na vila, situada em uma destas porções, as pessoas sentiram uma forte dor em seus ouvidos e ao cessar do lamento já não conseguiam se entender em palavras. Cada um dos irmãos e suas famílias começaram a se desentender, suas vozes eram de um absurdo total e foi necessário que cada família fosse para um canto do mundo para que não brigassem. Levaram consigo, sua forma de falar, suas especialidades, suas crenças e cada um seu nome diferente para o ser que havia perturbado uma paz que reinava há anos. Os animais também passaram pelo mesmo processo e ao término do lamento não se entendiam mais. As vacas em vez de falar a língua dos homens mugiam, os lobos uivavam e todos tentaram desesperadamente dialogar, mas já não era possível.

Mica deitou e chorou. Sua mulher não resistiu ao parto. A criança, soluçando ao fim do lamento, foi então alçada em vôo por um abutre que a levou para longe. A terra se curou, abasteceu-se de novas vidas já abundantes e prosperou, porém nunca mais se livrou da sombra causada pelo garoto. O abutre muito velho e perspicaz criou o menino, alimentou-o e ajudou a crescer quem nós chamamos hoje por vários nomes, todos semelhantes pelo ar sombrio e pesaroso.

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ilustração do site. foto do telescópio hubble. nebulosa da Águia.

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