Arquivos Diários: 30 julho, 2008

PROJETO NORDESTE FÉRTIL – por ana maria maruggi

 

Conta que o presidente Luiz Horácio e sua comitiva visitavam o sertão nordestino para aferir o sucesso do Programa Nordeste Fértil.

 

Nesse Projeto foram construídas muitas cisternas espalhadas pelos municípios e a água era conduzida por meio de tubos de ferro fundido para quase todo o sertão nordestino.  Com essa medida o solo estaria mais apropriado para as diversas culturas da região e a fome começaria a ser erradicada do nordeste.

 

Saíram da capital do país em  Boing presidencial ultra moderno aterrizando numa próspera capital nordestina. Lá o presidente deparou com  um Programa que  ia de vento em popa. O que lhe parecia normal.

 

Mas havia queixas de que nos cafundós do Estado a coisa ia de mal a pior. Incrédulo, o homem ordenou que  embarcassem para um distrito pouco assistido para que ele soubesse com  era o “ir de mal a pior”.

 

As notícias começaram a ficar ruins naquele mesmo instante, pois não poderiam viajar de avião para   distritos que não tivessem aeroportos. É claro!

 

Isso lá era verdade, pensou o presidente com seus bufões. Iriam de carro então. E lá foram até Esperancinha, cidade pequena com pouco mais de 2500 habitantes, poeirenta, com algumas lojinhas de alimentos toscos e uma mercearia onde se servia refeição em prato-feito. No armazém, sentaram e comeram arroz, feijão com toucinho, mandioca cozida com alecrim, e galinha de panela. Não se tratava de um banquete, mas a comida era boa. Não fossem aqueles mosquitos, a sujeira acumulada nas mesas, a louça quebrada nas beiradas, os talheres entortados, o sol escaldante sobre as cabeças,  teria sido um bom almoço. Salvo pela cerveja gelada que foi oferecida gratuitamente para comitiva. Uma única latinha para cada um.

 

Eu estava sentada numa outra mesa  e vi a cara de desolação da comitiva quando lhes foi negada a segunda latinha sob alegação de que faria falta para o freguês que chegasse depois deles.

 

Curioso o presidente tomou a frente e perguntou ao proprietário se o Projeto Nordeste Fértil tinha beneficiado Esperancinha, no que a resposta foi afirmativa devido a proximidade com a Capital.

 

Mas o Chefe do país ainda queria visitar um lugarejo que não tivesse nada além parcas casinhas de pau-a-pique, e seguiram em pau-de-arara até a desconhecida Jaicosa.

 

Movida pelo impulso patriota, juntei-me a eles nesse trecho da viagem. A estrada que nos levava à cidade escolhida era quase intransponível. Sinceramente não saberia dizer o que havia mais: buracos ou poeira. Nenhuma vegetação à beira da estradinha. Ninguém cruzou nosso caminho em mais de duas horas. Mas, finalmente, lá estava Jaicosa! Cidade ausente do mapa do Estado, mas lá estava ela com suas, quase dezoito casinhas. Quase porque uma delas estava em construção há mais de cinco anos e seus proprietários haviam morrido de doença ruim. O esqueleto de construção, num caso como esse, era abandonado à própria sorte. Era aquela a cidade que o presidente queria conhecer!

 

Meu corpo doía em todos os músculos e ossos. O calor nos castigava. Nossas vestes não eram apropriadas e nossa última bebida tinha sido aquela única latinha de cerveja lá em Esperancinha. Desci com dificuldade do pau-de-arara, mas estava tão curiosa em saber que tipo de gente habitava aquele lugar inóspito que nem liguei para minhas dores. Embolei-me no meio da comitiva de mais de 20 pessoas e me esgueirei para frente do grupo, pois não queria perder nem uma ceninha do acontecimento histórico que  estávamos vivendo. Eu, e Jaicosa.

 

O presidente Luiz Horácio protegido pelos seguranças pediu ao assessor que batesse à porta da casa mais próxima. Saiu de lá uma mulher barriguda, despenteada, cheirava mal a pobre coitada, com vivos sinais de sujeira por todo o corpo. A boca sem dentes nem sorria. Não demonstrou nenhum espanto ao ver aquele bando de estranhos  à sua porta, apenas perguntou o que queriamos. O assessor sorriu brandamente diante da falta de curiosidade da moradora e pediu água para beber. Ela nem titubeou, fechou a portinha e manteve o grupo do lado de fora.

 

O assessor sem entender olhou para o Presidente que disse “insista, ela não entendeu o que você disse”. Ele bateu de novo. A porta que não estava trancada, foi abrindo lentamente e lá vem a mulher desajeitada, mancando e coçando a cabeleira.

 

Ele diz: “Boa tarde. Somos da comitiva do Presidente  e queremos saber se o Programa Nordeste Fértil chegou por aqui”.

 

Ela foi imediatamente dizendo: “Aqui não chegou ninguém não sinhô. Faiz mais de seis anos que não vem ninguém aqui. O derradêro foi o Doto Lino, meu cumpadre. Veio e me feiz um fio, o Luiz, e dispois num vortô mais. Nunca mais.”.

 

O grupo não pode evitar  um risinho aqui e outro ali. De repente estavam todos rindo alto. Inclusive a dona da casa. Quando todos já conseguiam falar o assessor  se apressou em pedir água para beber. E ela não demorou em atende-lo. “Luiz Horááááácio, vem cá meu fío. Vai lá na tina buscar água pro moço bebê que ele chegô agora de viaji e tá aguniado”.

 

Ao ouvir que ela dera seu nome ao filho, o presidente adiantou-se e, com um sorriso incomum, perguntou: “- A senhora deu o nome de Luiz Horácio ao seu filho em homenagem a alguém?”

 

A mulher não reconhecendo o presidente foi logo dizendo: “- Ahn, qui nada seu moço! O nome dele é Eufrázio Lino. O mesmo nome do pai, do avô e de um montão di genti aqui de Jaicosa. Mas dizem qui ele se parece muito com um tar de Luiz Horácio, intão o povo chama ele assim”.

 

E o presidente emendou: “Ele ainda poderá ser famoso, senhora. Poderá ser até chegar a  Presidente do Brasil”.

 

E a mulher se benzendo: “Arre qui não, seu moço,  é que farta um dedinho na mão dele , i é purisso que o povo daqui chama ele assim.

 

                   cangaceiros corisco e pancada.  ilustração do site.

ADILSON, O Jabá – por josé alexandre saraiva

 

De todos os bêbados convictos que conheci, Adilson, o Jabá (ou Xarope, como era chamado pelos colegas do ofício), foi o mais feliz e fiel executor da arte de beber. Ninguém sorriu tanto na vida, diante de uma cachacinha da boa, como o inesquecível Adilson.

      Para cada gole, principalmente quando alguém pagava, já que era desempregado e pobre, logo se via o maior sorriso do mundo derretendo em contentamento suas rugas, em nada lhe inibindo a falta dos dois incisivos superiores.

O polaco bebia com o mesmo entusiasmo com que criança come chocolate e com a satisfação de quem, num só instante, saboreava, a cada copo, todos os prazeres e delícias que dizem existir no mundo. Dava a impressão de que sufocava, também, as feridas da alma. E as amarguras que já tinha sofrido, ao longo de seus quarenta e tantos anos de deliciados sorvos da “branquinha”.

Eis que, no sábado passado, Jabá, cujo único defeito era torcer ferrenhamente para o “Coxa” (mas quem é que não tem seus pecadinhos?), acordou às onze, ajudou um vizinho protestante que trocava um pneu do carro e foi ao “Bar Estrela Dalva” para beber o que quis e como quis. Bebeu, bebeu, bebeu … Depois, às sete da noite, com auxílio dos colegas (todos bêbados, evidentemente), foi-se para o barraco de madeira que erguera no quintal da casa onde morou com ex-esposa. Dela estava separado por ser ateu e amante da saborosa cachaça. A sós, na plenitude de sua feliz solidão, completamente encachaçado, morreu de morte morrida.

A notícia correu a Vila Maria Antonieta. Ninguém se conformava. “Era sujeito bom demais … Como pôde ter morrido assim, sem mais nem menos… Gostava tanto das crianças… Sempre tinha sorrisos para todos… Até os cachorros do Zé Piúdo respeitavam a careca do Xarope, para quem latiam sorrindo… Ele sempre colaborou com a “Igreja da Salvação…”

Em meio a uma dúzia de velas e poucas flores campestres colhidas na redondeza, lá estavam, dia seguinte, os companheiros do “Jabá”, enterrando o caixão azul e roxo na cova nº 5840 do cemitério de Piraraquara. Nenhum discurso, nenhum lamento exagerado, como ocorre nas sepulturas de defuntos ricos, famosos. O silêncio. Apenas o silêncio dos sentimentos e as discretas lágrimas não contidas do irmão mais velho, que viajara de Chapecó, solavancos de horas cansadas. Foi ele prontamente consolado pelos perspicazes colegas do Jabá, na certeza de um patrocínio iminente para desafogar a tristeza. Afinal, eles não tinham participado do velório realizado na casa da ex-sogra do falecido, apesar do caloroso protesto da CAC – Comunidade Alcoólatra Convicta, fundada por Jabá, sem qualquer estatuto ou registro.

Saltitando no topo de árvore desfolhada, a mais elegante das figuras marcava presença:

— “Bem-te-vi … Bem-te-vi …”

Nem mais um só eco de emoção naquela tarde fria.

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                         sem crédito. ilustração do site.