ADILSON, O Jabá – por josé alexandre saraiva

 

De todos os bêbados convictos que conheci, Adilson, o Jabá (ou Xarope, como era chamado pelos colegas do ofício), foi o mais feliz e fiel executor da arte de beber. Ninguém sorriu tanto na vida, diante de uma cachacinha da boa, como o inesquecível Adilson.

      Para cada gole, principalmente quando alguém pagava, já que era desempregado e pobre, logo se via o maior sorriso do mundo derretendo em contentamento suas rugas, em nada lhe inibindo a falta dos dois incisivos superiores.

O polaco bebia com o mesmo entusiasmo com que criança come chocolate e com a satisfação de quem, num só instante, saboreava, a cada copo, todos os prazeres e delícias que dizem existir no mundo. Dava a impressão de que sufocava, também, as feridas da alma. E as amarguras que já tinha sofrido, ao longo de seus quarenta e tantos anos de deliciados sorvos da “branquinha”.

Eis que, no sábado passado, Jabá, cujo único defeito era torcer ferrenhamente para o “Coxa” (mas quem é que não tem seus pecadinhos?), acordou às onze, ajudou um vizinho protestante que trocava um pneu do carro e foi ao “Bar Estrela Dalva” para beber o que quis e como quis. Bebeu, bebeu, bebeu … Depois, às sete da noite, com auxílio dos colegas (todos bêbados, evidentemente), foi-se para o barraco de madeira que erguera no quintal da casa onde morou com ex-esposa. Dela estava separado por ser ateu e amante da saborosa cachaça. A sós, na plenitude de sua feliz solidão, completamente encachaçado, morreu de morte morrida.

A notícia correu a Vila Maria Antonieta. Ninguém se conformava. “Era sujeito bom demais … Como pôde ter morrido assim, sem mais nem menos… Gostava tanto das crianças… Sempre tinha sorrisos para todos… Até os cachorros do Zé Piúdo respeitavam a careca do Xarope, para quem latiam sorrindo… Ele sempre colaborou com a “Igreja da Salvação…”

Em meio a uma dúzia de velas e poucas flores campestres colhidas na redondeza, lá estavam, dia seguinte, os companheiros do “Jabá”, enterrando o caixão azul e roxo na cova nº 5840 do cemitério de Piraraquara. Nenhum discurso, nenhum lamento exagerado, como ocorre nas sepulturas de defuntos ricos, famosos. O silêncio. Apenas o silêncio dos sentimentos e as discretas lágrimas não contidas do irmão mais velho, que viajara de Chapecó, solavancos de horas cansadas. Foi ele prontamente consolado pelos perspicazes colegas do Jabá, na certeza de um patrocínio iminente para desafogar a tristeza. Afinal, eles não tinham participado do velório realizado na casa da ex-sogra do falecido, apesar do caloroso protesto da CAC – Comunidade Alcoólatra Convicta, fundada por Jabá, sem qualquer estatuto ou registro.

Saltitando no topo de árvore desfolhada, a mais elegante das figuras marcava presença:

— “Bem-te-vi … Bem-te-vi …”

Nem mais um só eco de emoção naquela tarde fria.

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                         sem crédito. ilustração do site.

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