ATRASO por lélia almeida

Era uma vez um país onde muitos acocaram na boquinha da garrafa, adoraram a Eguinha Pocotó e dançaram o créu com a Mulher Melancia. E na semana em que este país aprovou a pesquisa com as células-tronco e deu um passo definitivo à civilidade, nesta mesma semana e neste mesmo país, Carlão e Bernardinho se casaram, mas não puderam beijar na boca! O beijo foi censurado!
Atraso e hipocrisia no país mais galinha do mundo! Ou devo dizer, no país mais careta e moralista do mundo?
Sábado à noite as comportadas famílias brasileiras puderam assistir ao último capítulo da novela Duas Caras de Aguinaldo Silva. Um casamento coletivo foi realizado e, como é de praxe, todo mundo casou e foi feliz para sempre.
Durante os meses de novela a discussão sobre o politicamente correto e sobre algumas políticas governamentais estiveram na ordem do dia. Bem ou mal, falou-se sobre quotas na universidade, sobre inclusão, sobre racismo e sobre paternidade homoerótica (juro que não fui eu que inventei este termo). Dondocas descobriram que a vida com o povão na favela podia ser uma farra e alguns bandidos se reabilitaram, como foi o caso do inescrupuloso Carlão, que explorou o pobre Bernardinho à farta.
No país que cria uma ficção, em plena novela das oito, onde uma criança pode, legalmente, ter dois pais e uma mãe, e onde um dos pais pode casar com outro homem, acontece o inusitado: casar pode, mas não pode dar beijo na boca!
Assim caminha a humanidade e assim caminha a sociedade global brasileira: um passo a frente, dez para trás. Atraso, minha gente, o nome disso é atraso. Talvez quando tivermos os resultados das primeiras pesquisas com as células-tronco, dentro de alguns anos, Carlão e Bernardinho, quem sabe, depois de assinar a união estável na frente de um juiz, poderão pegar na mão e dar um virginal beijo no rosto. Espantoso!
Porque na vida real a coisa é outra. Na vida real, a coisa é gay. O mundo está gay. As relações são gays, a estética é gay, a moda é gay, e o fashion é ser gay. O cenário obrigatório é queer eye for the straight gay. Confesso que estou exausta com a coisa gay. Estou exaurida com a moda gay. Estou de saco cheio da caricatura. Estou cheia da histeria da ditadura gay para quem tudo é homofóbico, e estou farta da assepsia do politicamente correto e da punheta virtual também. E do feminismo que só discute, na academia e nos movimentos sociais, relações parentais homoeróticas, técnicas reprodutivas para casais homossexuais, quando a discussão sobre gênero, na atualidade, tem um único e último objetivo que é a discussão sobre a coisa gay.
Eu mesma, depois deste desabafo, serei, muito provavelmente, espinafrada por estas poucas linhas, denunciada como preconceituosa e homofóbica. Mas eu realmente estou de saco cheio destes tempos muito sem graça em que estamos vivendo.
Particularmente, tenho saudades da sacanagem e do deboche, sinto falta do tempo em que os homens gostavam de foder com as mulheres e as mulheres se derretiam para dar a bichana. Sinto falta dos tempos em que homens e mulheres podiam se esfregar e assediar e amassar sem que isso fosse um sintoma, uma doença, um desvio, uma ameaça, tenho saudades dos tempos em que era considerado relativamente saudável, – para dizê-lo em bom português, e para que não esqueçamos os nomes das coisas – homens e mulheres gostarem de namorar, transar, trepar ou foder. Estou quase saudosa de pérolas pré-históricas como a coçada no saco, a boa e velha pegada, um peito cabeludo e um mundo de homens sem brincos.
Estou cansada com o exagero da coisa gay, mesmo sabendo que o exagero é necessário para que algumas demandas venham a público. Assim como foi absolutamente necessário que as feministas queimassem sutiãs, há muitos anos atrás, e assim como foram necessários gestos definitivos e exagerados para que reivindicações e novas condutas se estabelecessem.
E mesmo cansada da moda e da patrulha gay que assola a contemporaneidade, digo que o que vi sábado à noite me fez ter medo de um retrocesso à obscuridade da noite dos tempos. Foi patético, Bernardinho e Carlão ali, lado a lado, dando um passo sério e definitivo, em direção a formas afetivas mais livres e menos preconceituosas.

Mas sem beijo na boca! Com beijo na boca censurado!
Atraso, o nome disso é atraso.

4 Respostas

  1. Leio com atenção este texto, pensando se é mesmo de minha ex-professora de literatura Lélia Almeida. Parece que sim, pois como todos outros textos seus, este tambem impõe-se como um texto que se lê inteiro, sem pausa, sem esforço, pois a cada avanço na leitura encontramos o reflexo de nossas consciencias.
    Saudades
    Liege Vogt Barden

  2. Lélia Ameida,

    O seu texto é um beliscão nos hipócritas, nos que, cegos, não querem fazer a deliciosa cirurgia da emoção, da educação e da clareza mental e do crescimento cultural!
    Sejamos felizes com arranhões, pois suas cicatrizes nos farão relembrar e compreendermos melhor o ser humano, o irmão, o próximo.

    Quero continuar nos meus sessenta anos a abrir-me sempre que surgir uma oportunidade.
    Parabéns! Adorei o texto. Uma grande abraço. Miriam Catão

  3. lélia almeida…gostaríamos tanto que você estivesse ficcionando…exagerando ou mesmo delirando…porém sua luc idez nos exibe a cara do brasil como ele é…como se costuma dizer popularmente:”sem tirar nem pôr”…em uma palavra:aff!

  4. Concordo plenamente com você, declaração que talvez não agrade a alguns dos meus tantos amigos gays. Bem, Lênin (creio que tenha sido ele, se não me falha a memória) afirmou que, quando uma vara está inteira voltada para um dos extremos, para que ela fique reta é preciso, antes, vergá-la toda para o lado oposto. Serve também o exemplo de uma folha de papel, enrolada. Para torná-la reta é preciso, antes, desenrolá-la e enrolá-la toda para o lado oposto. Talvez isso pareça obscuro. De modo menos tortuoso: Quando nasceu o movimento feminista, também houve exageros de toda espécie, para compensar a “invisibilidade” ancestral das mulheres; o mesmo acontece agora com o movimento gay, agravado pela apropriação dele pela mídia até um limite quase insuportável para nós, pobres heteros quase envergonhados por sê-lo. Não é, para mim, uma atitude de preconceito de nossa parte – embora muitos heteros sejam efetivamente preconceituosos – mas uma reação natural ao império da temática gay, com o qual – diga-se, a bem da verdade – nem todos os gays são coniventes. Concordo também quando você se refere à hipocrisia da nossa sociedade e ao risco que corremos, todo o tempo, de volta a um obscurantismo moralista, este sim, o grande e mais perigoso dos riscos.

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