REQUIEM para A.W. por jorge lescano

 

Não há balas perdidas. Existe um número preciso de disparos sem o qual a guerra não se realiza plenamente. A este número, imensurável porém limitado e apenas conhecido pelo contador sobre-humano, corresponde um número proporcional de vítimas.

            A 15 de setembro de 1945, faltava que uma bala fosse disparada para completar a ação total da guerra. Esta bala estava na arma de um açougueiro norte-americano, soldado ocasional. À bala faltava-lhe a vítima. A guerra havia acabado, portanto, a vítima deveria ir ao encontro da bala. Nem a vítima nem o soldado conheciam seu desígnio, porém, ambos estavam vinculados a um ato que completaria o ritual.

             Era necessário que o atirador e o alvo ignorassem a identidade do outro. O enredo exigia que a vítima fosse um civil para evitar qualquer noção de rivalidade. A ordem era de que nenhum interesse pessoal interferisse no cumprimento da cerimônia. Somente assim o fato se revelaria ato não humano, circunstância pura.

            Em Salzburgo é pouco mais de vinte e duas horas de uma agradável noite de fim de verão.

            O músico vai para a rua depois do jantar. Na outra calçada, sombra nas sombras, um vulto pronuncia algumas palavras em inglês, que o austríaco, provavelmente, não compreende. Com um gesto familiar àqueles que o conhecem, o civil leva a mão a um bolso do paletó, à procura de um charuto.

            Então, o tiro. Único no silêncio da noite; e outra vez o silêncio.

            Este eco da guerra, quando todos os estrondos se haviam esgotado, procurava um ouvido capaz de dar-lhe significado? O certo é que ele será o réquiem e o epitáfio do artista. O silêncio não deveria ser o mesmo depois daquele disparo. Agora seria um vazio povoado de ausências, a moldura de sutilíssimos sons, quase nada, que não mais seriam modulados.

Não fosse a vítima Anton von Webern e o tiro passaria despercebido. E não teríamos a revelação do mecanismo do ritual, sem que pretendamos com isto compreender-lhe a razão.  Esta continuará acaçapada por trás do acaso, da coincidência, fatalidade, azar, mal entendido.

Talvez, no momento do disparo, as funções do soldado e do músico foram trocadas, sem que se alterassem a ação ou as identidades das personagens: uma oferenda, Baal, uma bala. Talvez os dois homens fossem meros suportes, acidentes no tempo e no espaço. No entanto, ambos foram necessários para consumar o sacrifício à deidade corporificada no projétil.

 

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