Arquivos Mensais: agosto \31\UTC 2008

A LA COMUNIDAD INTERNACIONAL – À COMUNIDADE INTERNACIONAL – pela editoria

 

 

            Denunciamos el reciente ataque del gobierno de Daniel Ortega contra el sacerdote y poeta Ernesto Cardenal.

El Padre Cardenal había sido acusado en 2005 por injurias a raíz de una carta que publicó en defensa propia, y recibió una sentencia absolviéndolo de estos cargos y declarándolo inocente, tan absurda era la acusación.  

Ahora, un juez obediente a Ortega ha revocado esa sentencia declarándolo culpable. Esta acción es totalmente ilegal. La legislación nicaragüense considera que una sentencia sólo puede ser apelada en los seis meses siguientes, de lo contrario se considera cosa juzgada, y no puede cambiarse. Pero el sistema judicial responde a la voluntad política de Daniel Ortega.

Todo aparece como una clara represalia por la permanente actitud crítica del padre Cardenal contra los abusos del gobierno de Ortega. Casualmente, esta sentencia fue dictada a su regreso de la toma de posesión del Presidente Lugo en Paraguay, a la que fue invitado de honor y a la que Daniel Ortega se vio impedido de asistir por el rechazo de las organizaciones feministas a su presencia, dada la acusación de abuso sexual  que le hiciera su hijastra, Zoilamérica Narváez. En Paraguay, como en otros lugares, Cardenal dijo lo que piensa de Ortega.

La integridad de Ernesto Cardenal y sus credenciales como persona que ha dedicado su vida a la causa de la justicia, confieren enorme autoridad a sus críticas, tanto dentro como fuera de Nicaragua.  Esto resulta intolerable para Daniel Ortega y es la razón por la cual Ernesto Cardenal ha sido condenado en un fallo judicial injusto y vengativo, y por tanto escandaloso.

Ernesto Cardenal es la más reciente víctima del acoso sistemático orquestado en contra de todos aquellos que han levantado sus voces para denunciar la falta de transparencia, el estilo autoritario y el comportamiento inescrupuloso y la falta de ética de Daniel Ortega en su retorno al poder.

Llamamos a los escritores y amigos de Nicaragua en el mundo a denunciar esta persecución política, a demandar el cese de estas acusaciones ilegales e infundadas y a expresar su solidaridad con Ernesto Cardenal y con el derecho del pueblo nicaragüense a vivir libre de miedo y represión.

 

FIRMAS:

 

1. Héctor Abad Faciolince (Colombia)

2. Hugo Achugar (Uruguay)

3. Luis Fernando Afanador (Colombia)

4. Héctor Aguilar Camín (México)

5. Sergio Aguayo (México)

6. Sealtiel Alatriste (México)

7. Eliseo Alberto (Cuba)

8. Felipe Aljure (Colombia)

9. Nuria Amat (España)

10. Jotamario Arbeláez (Colombia)

11. Raúl Arias Lobillo (Rector Universidad Veracruzana, México)

12. Edda Armas (Presidenta Pen Club de Venezuela)

13. Ricardo Bada (España)

14. Mario Benedetti (Uruguay)

15. Jorge Boccanera (Argentina)

16. Juan Carlos Botero (Colombia)

17. Javier Bozalongo (España)

18. Rosa María Britton (Panamá)

19. Chico Buarque de Holanda (Brasil)

20. Javier Campos (Chile)

21. Marco Antonio Campos (México)

22. Horacio Castellanos Moya (El Salvador)

23. Victoria de Estefano (Venezuela)

24. Luis Antonio de Villena (España)

25. Joaquín Estefanía (España)

26. Festival de Poesía de Granada (España)

27. Julio Figueroa (México)

28. Ramón Fonseca M. (Panamá)

29. Eduardo Galeano (Uruguay)

30. Eduardo García Aguilar (Colombia)

31. Francisco Goldman (Estados Unidos/Guatemala).

32. Gloria Guardia (Panamá)

33. Jorge F. Hernández (México)

34. Miguel Huezo Mixco (El Salvador)

35. Bianca Jagger (Inglaterra)

36. Darío Jaramillo (Colombia)

37. Noe Jitrik (Argentina)

38. Alicia Kozameh (Argentina)

39. Ana Istarú (Costa Rica)

40. Patricia Lara (Colombia)

41. Walter Lingán (Perú)

42. Luce López-Baralt (Puerto Rico)

43. Ángeles Mastretta (México)

44. Oscar Marcano (Venezuela)

45. Salvador Medina Barahona (Panamá)

46. Mario Mendoza (Colombia)

47. Seymour Menton (Estados Unidos)

48. Tulio Mora (Presidente Pen Club del Perú)

49. Marysa Navarro (España/Estados Unidos)

50. Eric Nepomuceno (Brasil)

51. Julio Ortega (Perú)

52. José Miguel Oviedo (Perú)

53. Cristina Pacheco (México)

54. José Emilio Pacheco (México)

55. José María Pérez Gay (México)

56. Nélida Piñón (Brasil)

57. Vicente Quirarte (México)

58. Josué Ramírez Velázquez (México)

59. Abelardo Rodríguez Macías (México)

60. Daniel Rodríguez Moya (España)

61. Margaret Randall (Estados Unidos)

62. Rosa Regás (España)

63. Laura Restrepo (Colombia)

64. Juan Manuel Roca (Colombia)

65. Miguel Rojas Mix (Chile)

66. Carmen Ruiz-Barrionuevo (España)

67. José Carlos Rosales (España)

68. Alejandro Sánchez-Aizcorbe (Perú)

69. Julio Eutiquio Sarabia (México)

70. Stacey Alba Scar (Estados Unidos)

71. Federico Schopf (Chile)

72. Ricardo Silva Romero (Colombia)

73. Antonio Skarmeta (Chile)

74. Saúl Sosnowski (Argentina)

75. David Unger (Estados Unidos)

76. Marcela Valencia Tsuchiya (Perú)

77. Fernando Valverde (España)

78. Mario Vargas Llosa (Perú)

79. Juan Gabriel Vásquez (Colombia)

80. Minerva Margarita Villarreal (México)

81. José Javier Villarreal (México)

82. Juan Villoro (México)

83. José Félix Zavala (México)

84. Jonathan Cohen (USA)

 

José Saramago escribió:

 

La primera precaución consistirá en no confundir nunca la ley con la justicia. A Ernesto Cardenal no le ha servido a ley porque la administra una justicia que se dejó corromper por los rencores y las envidias del poder. Ernesto Cardenal, uno de los mas extraordinarios hombres que el sol calienta, ha sido victima de la mala conciencia de un Daniel Ortega indigno de su propio pasado, incapaz ahora de reconocer la grandeza de alguien a quien hasta un papa, en vano, intentó humillar. A Daniel Ortega le pido que se mire en un espejo y me diga qué es lo que encontrará en él. Si le da vergüenza, al menos que tenga la valentía de pedir perdón. Si no lo pide, si no levanta la voz para clamar, él mismo, contra la condena de Ernesto Cardenal, sabremos que sus méritos humanos y políticos han caído a cero. Una vez más una revolución ha sido traicionada desde dentro.

 

José Saramago

 

NOSSA GRANDE CULPA por alceu sperança

 

O pessoal fala muito que o chato, incômodo Hobbes cunhou a expressão “o homem é o lobo do homem”, mas esse conceito já havia sido exposto bem antes, pelo dramaturgo latino Titus Maccius Plautus (254–184 a.C.). Thomas Hobbes (1588–1679), talvez tenha sido o mais famoso dentre os que acham que o homem não tem jeito, que as coisas são assim mesmo e nunca vão mudar, cunhando sua máxima de que “a condição do homem (…) é a da guerra de todos contra todos”. Ou seja, com seus semelhantes e sobras para a natureza.

Para contrariar essa coisa horrível, vem em nosso providencial socorro o velho/jovem Marx com um conceito bem superior e mais alvissareiro: “A sociedade atual, muito longe de ser um cristal sólido, é um organismo susceptível de mudança e em permanente processo de transformação” (prefácio à primeira edição de O Capital, 1867).

Será que vamos nos render aos muito-vivos de gravata e colarinho engomado que assaltam os cofres públicos e aos mortos-vivos maltrapilhos que roubam nossos varais por terem sido excluídos das riquezas pelos muito-vivos? Acreditar que a corrupção do alto coturno e o desespero famélico dos excluídos são condições naturais, próprias da natureza humana, e que não há mais nada a fazer senão atirar em quem chegar perto e também tirar uma casquinha do bolo aprontando alguma contra nosso semelhante não é algo que possa durar sem que um alto preço um dia venha a ser pago por essa burrice toda. Um preço que talvez não seja pago por nós, mas por nossos filhos ou no máximo netos. Cabe refletir sobre se esta é uma herança justa e honrada para deixar a eles.

O antropólogo Marshall Sahlins tem demonstrado com especial esmero que nós podemos escolher entre a visão hobbesiana do homem (que seria o “lobo” de seu semelhante) ou agir no sentido marxiano de que a sociedade não é um cristal sólido, mas um processo sujeito a mudanças. Para Sahlins, a cultura é algo historicamente reproduzido na ação, que você pode repetir, canibalizar (recorde-se o Manifesto Antropofágico da Semana de Arte Moderna de 1922) ou melhorar. Recebo pelo nosso e-correio um interessante apanhado sobre a vida em sociedade em gerações anteriores. Alguns trechos:

1) As pessoas sendo abanadas, que vemos em filmes, tem como explicação o mau cheiro que exalavam por debaixo das saias, feitas para conter o odor das partes íntimas, que não tinham como ser higienizadas devidamente e associadas ao costume de não tomar banho devido ao frio. O cheiro era camuflado pelo abanador, que também espalhava o bodum do corpo e o mau hálito para espantar os insetos.

2) A maioria dos casamentos ocorria no mês de junho (no hemisfério Norte, o início do verão). A razão é simples: o primeiro banho do ano era tomado em maio; assim, em junho, o cheiro das pessoas ainda estava tolerável. Entretanto, como alguns odores já começavam a ser exalados, as noivas carregavam buquês de flores junto ao corpo, para disfarçar o mau cheiro. Daí porque maio é o “mês das noivas” e sabemos a razão da noiva carregar aquele buquê.

3) Os mortos, para não serem enterrados vivos, tinham amarrada uma tira no pulso, que passava por um buraco no caixão e ficava amarrada num sino. Após o enterro, alguém ficava de plantão ao lado do túmulo durante uns dias. Se o indivíduo acordasse, o movimento de seu braço faria o sino tocar. E ele seria assim “salvo pelo gongo”, expressão usada até os dias atuais.

São algumas curiosidades com a intenção de mostrar que a sociedade evolui e não fica mantendo maus hábitos eternamente. Por isso, a corrupção que tem como evidências mais aparentes o nepotismo e o inchaço da máquina pública dos muito-vivos, que dão o exemplo para a roubalheira que invade nossos quintais através dos mortos-vivos da cachaça e do crack, não estão destinados por alguma diabólica divindade a se eternizar. Podemos reagir contra isso ou deixar essa herança vergonhosa para nossos filhos e netos. A escolha é nossa. Já dizia o sábio Darwin: “Se a miséria de nossos pobres não é causada pelas leis da natureza, mas por nossas instituições, grande é a nossa culpa”.

ATIRADOR MATA CÃES DE COMPANHIA E ATINGE VEÍCULOS QUE PASSAM NA RUA (a pedido de leitores do site)

Moradores da rua Marechal Hermes (Centro Cívico), distante três quadras do Palácio Iguaçu (governo), estão alarmados e preocupados com o “matador de cachorros, com donos, e atirador com espingarda de chumbo nas residências vizinhas” como definem o que vem ocorrendo naquela quadra em frente ao nº 1299. Dois vizinhos tiveram seus cães de companhia mortos por veneno e outro morador está com seu cão ferido gravemente em razão dos tiros. As paredes e as grades da residência atestam a ação do livre atirador urbano que eles qualificam como “psicopata” como se vê na faixa-SOS. A polícia já foi acionada e está investigando. Algumas ONGs protetoras dos animais estão mobilizadas. Moradores afirmam que o atirador passou a atingir os veículos que passam pela rua, provocando quebra de vidros e furos na lataria. Então pessoal evitem a rua Marechal Hermes no trecho que compreende as quadras entre as ruas João Bonn e Celeste Santi em Curitiba e caso tenha alguma informação DENUNCIE.

 

 

aqui morreu um cão de companhia envenenado.

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as marcas dos tiros de chumbo estão por toda parte da residência.

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este é o prédio no qual os vizinhos desconfiam que more o matador e atirador. os moradores do edifício estão muito preocupados com a sua segurança.

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evite este trecho, entre João Bonn e Celeste Santi, na Marechal Hermes.

Rumorejando (03 medalhas de ouro para o Brasil, constatando). por josé zokner (juca)

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (De uma quadrinha aparentemente matemática).

A resolução

Daquela equação

Das brigas do casal

Acabou no hospital.*

*Foi uma briga administrativa. Eles eram irmãos e os donos e gestores do hospital. Também Rumorejando pensou que era um casal, constituído por marido e mulher que teriam se desentendido onde haveria rolado agressões mutuas. Ainda bem!

Constatação II

Surrupiaram o dinheiro da Ong

Com a maior naturalidade

Como numa disputa de pingue-pongue

Como se fosse o jogo da amizade.

Constatação III (Altos e baixos da nobreza).

Por logaritmo,

Tanto decimal,

Como neperiano,

Também por algoritmo

O conde, grande matemático,

Chegou ao resultado

Que nunca mais

Seria amado

Como fora no primeiro ano

Do seu relacionamento matrimonial,

Quando depois de um dia tumultuado,

Estressante e problemático

Ele chegou em casa cansado

Mas ansiado por um antológico,

Nada escatológico,

Evento sexual,

E sem esquecer o dialógico

Cheio de ais

Como jamais.

Ele não havia atinado

Por uma dor de cabeça,

Não necessariamente eventual,

E, sim uma constante opcional

Da senhora condessa.

Coitado!

Constatação IV (Meio repetitiva).

E como finalizava suas elucubrações aquele técnico, precisamente antes da preleção final, no final do alongamento: “Eu preciso dizer para os meus atacantes que é preciso ser preciso nas finalizações”.

Constatação V

Era um cara comedido. Depois de comer 2 pizzas, das grandes, acompanhadas de cervejas, pedia, pra contrabalançar, adoçante no cafezinho.

Constatação VI

E como apregoava filosófica e didaticamente o obcecado: “A gente tem que ser favorável à mudança de posição. Afinal, não adianta querer repetir as inesquecíveis emoções anteriores porque elas nunca se repetem”.

Constatação VII

Preencher uma lacuna é, nas eleições, votar em branco, ou estragar o voto, a fim de que fique bem delineado o repúdio aos candidatos, de modo que a soma dos votos em branco e nulo ultrapassem os demais?

Constatação VIII

E já que falamos no assunto, a vantagem de ser septuagenário é que não se é mais obrigado a votar. Claro que o fato se refere às eleições, jamais à opinião em casa que, essa, já tem dono, quer dizer dona…

Constatação IX

E já que falamos nesse outro assunto, uma das vantagens de ser septuagenário é que a gente, igualmente às grávidas, por exemplo, recebe determinadas atenções. Isso não quer dizer que elas, as atenções, sejam necessariamente àquelas que se almeja…

Constatação X

E como vivia se justificando o pinguço, citando a frase de um autor anônimo, querendo, inclusive, mostrar erudição: “A abstinência é uma boa coisa, desde que praticada com moderação”.

Constatação XI

Rico faz cruzeiros pelo mundo; pobre, tá perdido no mundo.

Constatação XII

Rico emigra para investir numa filial no exterior; pobre, em busca de oportunidade de trabalho.

Constatação XIII

O STJ vetou a aposentadoria

Dos deputados no Paraná

Era o que o povo queria

Salário? Ora, um caraminguá.

Constatação XIV

Defenestrado

Das suas relações,

O renitente obcecado,

Um poço de bravata

E convencimento,

Sentiu-se totalmente

Desiludido

Um falido

Aristocrata

Ao ficar sem as suas funções

E se sentiu completamente

Fu, digo, perdido,

Tão-somente.

Coitado!

Constatação XV

Rico come finas iguarias; pobre, gororoba.

Constatação XVI (Ah, esse nosso vernáculo).

Eu sabia que eu sabia quem é esse tal de Marcos que escrevi o seu telefone nesse papel. Eu só não sabia que não sabia que ia me esquecer tão facilmente.

Constatação XVII

Tirou a prova dos nove

Do seu parco salário:

O patrão não demove

De ficar milionário.

Constatação XVIII

E como dizia aquele deputado adepto da Teoria da Relatividade: “É muito melhor ter desvio de conduta do que desvio de status”.

Constatação XIX

Rico apara a barba e o bigode; pobre, junta apara de papel.

Constatação XX

Rico é perseverante; pobre, hesitante.

Constatação XXI

E como poetava a popozuda”

“Numa casca de banana

Escorreguei

Foi a terceira na semana

E não me machuquei.

A poupança que alguém abana

É de boa madeira-de-lei”.

Constatação XXII

Depois de tomar um daiquiri

Andei fabulando por aí

Que o Paraná será o campeão

Voltando pra primeira divisão.

Constatação XXIII (Epitáfio).

Aqui jaz um destemido

Que nunca dobrou a coluna

Nem num jogo onde havia perdido

Toda sua imensa fortuna.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

                             foto livre. ilustração do site.

 

 

 

A HERANÇA DOS JOGOS DE PEQUIM por marcelo barros

Os jogos olímpicos desviaram a atenção dos bilhões de telespectadores da vida real e dos grandes desafios sociais e políticos que a humanidade enfrenta

Os Jogos Olímpicos em Pequim chegaram ao fim. Grande parte da humanidade se pergunta que herança para o futuro da humanidade deixa esta Olimpíada. Durante dias e dias, os jogos ocuparam nossas televisões e jornais. Órgãos da imprensa que, no começo pareciam apoiar um boicote à China, por causa do desrespeito aos direitos humanos, se renderam ao lucro que lhes era proposto. Os apoteóticos espetáculos oferecidos na inauguração e no encerramento dos jogos mostravam um mundo aparentemente unido. Parecia que as guerras deram lugar às competições esportivas. A humanidade inteira se tornava criança ou adolescente que vibra e torce por seus atletas.

 Por trás dos palcos e das arenas, a realidade é mais complexa. A China mostrou uma força que vai muito além dos estádios. Governos e empresas se puseram de acordo em proporcionar pão e circo às massas e, assim, dissimular a realidade cruel que, nos mais diversos países, infesta a vida cotidiana das pessoas, no campo e na cidade.

 Jogo do faz de conta

Os jogos olímpicos desviaram a atenção dos bilhões de telespectadores, da vida real e dos grandes desafios sociais e políticos que a humanidade enfrenta nestes dias. Mesmo durante os jogos, no dia 8 de agosto, as forças armadas da Geórgia, apoiadas e financiadas pelos Estados Unidos, atacaram a província da Ossétia do Sul, que ficou sob o protetorado russo. Imediatamente, a Rússia atacou por terra, ar e mar, o território da Geórgia, que não contou como o apoio esperado de Bush e, hoje, chora pelo menos dois mil mortos e vinte mil desabrigados. Os analistas internacionais estão convencidos de que é iminente um ataque de Israel contra o Irã e o revide dos países árabes contra Israel e contra os Estados Unidos que o patrocinam. Na Europa, o Parlamento aprova uma lei racista e cruel contra os migrantes. E durante os jogos olímpicos, todo mundo faz de conta que nada disso existe.

 Exemplo de paz

De fato, desde o começo de sua história, a vocação dos jogos olímpicos é servir à relação entre os povos e contribuir para a convivência amiga entre a juventude dos mais diversos países. A chama olímpica que percorre a terra inteira apela para a paz e para o diálogo entre as diferentes culturas e raças. No colorido das bandeiras, na pluralidade dos hinos nacionais e no brilhantismo dos homens e mulheres que se consagram aos mais variados esportes, transparece um olhar positivo e amigo para toda a humanidade. A herança mais profunda destes jogos deveria ser a de que os conflitos internacionais e regionais podem sempre ser resolvidos como se acertam as regras e se dão as partidas amigáveis entre as diversas equipes de atletas.

 Grande negócio

Infelizmente, a mistura entre esporte e comércio, assim como entre esporte e políticas governamentais é cada vez mais tenebrosa. As equipes precisam de patrocínio e as empresas as apóiam. Os governos querem se identificar com os seus países e seus atletas. O problema é que, além de fazerem dos jogos vitrines dos seus produtos, incentivam nos esportes um aspecto que este já continha, mas não tão exacerbado como agora: o espírito de competição e de concorrência. É quase inevitável que os jogos tenham incentivado mais ainda o culto ao corpo sarado, ao ser humano máquina. Nos mais diversos esportes, acabaram, de alguma forma sugerindo ou inculcando o ideal do mais forte, mais ágil, mais capaz e mais bem sucedido.

 Em seu famoso livro Educação após Auschwitz, o filósofo alemão Theodor Adorno destaca a necessidade de se evitar na formação cultural dos jovens a promoção à virilidade, ao “ser duro” e à indiferença à dor do outro, elementos comuns em vários esportes de competição. “Quem é rigoroso consigo mesmo não tem dificuldade de sê-lo com os outros, dando continuidade ao ciclo da violência”. Ele recorda como na Alemanha nazista o ideal do homem ariano, belo e forte, culminou no extermínio de milhares de deficientes físicos, deficientes mentais e idosos.

 Por seu caráter internacional e sua história tão rica, os jogos olímpicos não mereceriam esta crítica. Se, no passado, eles foram usados por regimes ditatoriais, (em 1936 na Alemanha nazista, em 1980 em Moscou, como em 1968 na Argentina da ditadura militar), compete a todos nós que eles sejam resgatados. Sua herança deve ser a da convivência plural e do internacionalismo e não a competição e o elitismo corporal. É preciso que eles nos apontem para a vida e não para a ilusão.

Na carta aos coríntios, Paulo alude aos jogos, ao lembrar que todos correm, mas um só ganha a taça. Nós, espirituais, devemos correr de forma que todos ganhemos, não uma taça corruptível, mas a coroa imperecível da vitória divina (1 Cor 10).

 

Marcelo Barros é monge beneditino e autor de 30 livros, dos quais: Dom Helder Câmara, Profeta para o nosso Tempo. Ed. Rede da Paz, 2006  – Brasil de Fato.

                              foto livre. ilustração do site.

LIVROS SOBRE HIROSHIMA e NAGASAKI poema de solivan brugnara

                                  

                        

 Quero livros                           

 Que deixe quem ler bêbado,

                   e  que viciem

        e sejam cheios de propagandas  subliminares.

  Quero livros vasodilatadores,

            que causem priapismo, 

e se picotar suas páginas de para fazer um cigarro de maconha.

Quero livros que dividam o mundo.

 Livros que sejam excomungados,

 que matem Deus

e que Deus e revide escrevendo seu terceiro livro.

 Livros com sabor de carne

 para serem devorados por leões.

Livros que entrem como fantasmas dentro dos computadores.

 Livros sobre Hiroshima e Nagasaki.

 Livros nasçam em pés da marula e macieira

e que os livros vermelhos floresçam nas papoulas.

Livros que tenham cheiro de cio e cartões de crédito.

Que façam as mulheres se masturbarem.

   Livros venham em formato de falo

  vibrem e que suas letras façam vezes de espermatozóides e fecundem

 úteros.

 Livros que gritem, que se aumente o volume das letras

 até elas deixarem os olhos surdos.

 Quero livros que alucinem quem se atrever a lamber suas páginas.

Que seja pego no antidoping pela substâncias deixadas pela leitura no sangue.

 Livros pretos que voem com urubus.

 Livros que explodam quando aberto.

 Quero livros cheios de veneno,

 e só passar a ponta do dardo na capa, pegar a zarabatana

 e sair para matar macacos na selva da Venezuela.

Livros que possam ser transplantados no lugar dos corações e rins,

 e que se coma suas letras amargas com arroz.

AO REVÉS poema de delinar pedrinho matuczak

 

Combinado amor e sentimento de abandono

 

Surge uma grande confusão no âmago, na razão e na relação a dois

 

Uma declaração as avessas, um reclame de amores rejeitados

 

(Se eu não estivesse com ela sua amiga beijaria você agora)

 

É,  mais apesar do desamparo momentâneo e eterno da Monaliza, eu a tenho com devotamento irrepreensível

 

Desamparar desamparou

 

Entender não entendeu

Quis você…, de pronto não veio

 

Concebes por acaso que fui contrario as suas expectativas

 

Divertido isso, tive a mesma impressão

 

Proponho uma saída, assumamos cada um nosso quinhão de irresponsabilidade

 

Não acertei onde almejei

 

Puno-me agora, autoflagelo-me

 

Será que não te chegas

 

Ou só te contentaras a ver a alma deste ser fora de seu invólucro que se encontra presentemente

 

Soube da queixa e não cogitou outra questão a não ser a fugidia traição

 

Neste trialogo só um alguém pode se sentir em desalento

 

Me senti primeiro

 

 

DISTÂNCIAS poema de altair de oliveira

 

 

Pudesse, eu seria doce

e, se desse, desde o começo

de sede, eu viesse cedo

relendo o seu endereço.

 

E fosse avesso do avesso,

azul do tanto que houvesse

ousasse um gesto de gesso

num beijo gosto de festa.

 

E  nunca mais me esquecesse

feliz em todas as espécies…

Por mais que a vida nos perca

e a morte esperta nos pesque.

 

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

 

CLICHÊ poema de deborah o’lins de barros

 

Eu queria ser aquela

metamorfose ambulante…

…mas estou presa eternamente

no paradigma de uma geração

quase interessante.

 

carioca

coca-cola

chiclete

pipoca e guaraná

RG, CPF, CLT, GLS

cigarro depois do almoço

esquerdismo aguado

internet banda larga

orkut…

faculdade trancada

(por falta de capitalismo suficiente)

comédia romântica norte-americana

…entediante

ainda não entendo filmes

inteligentes…

 

Me dê alguns anos e me transformo

na borboleta filosófica de Raul,

ou num kafkiano inseto alucinante.

Queria ser aquela metamorfose,

Mas não passo de um mero

clichê ambulante…

 

 

 

VOCÊ JÁ ERROU ALGUMA VEZ NA VIDA? por jairo busich

 

Provavelmente você disse que sim. É o que achamos graças a tudo que nos foi dito durante anos, começando por nossos pais. E graças a esta “formação” que tivemos, nos dias de hoje, é comum entrarmos em uma sensação de culpa, por achar que algo que fizemos é errado ou foi errado. Culpamo-nos então, quando olhamos para trás e percebemos que “erramos” – ‘meu Deus, eu deveria ter feito aquilo de forma diferente!’ ou então ‘como eu pude fazer aquilo?’.

Às vezes, pode ser que tenhamos orgulho de nós mesmos, por acreditar que fizemos algo certo e isso nos faz bem, nos faz sentir bem.

Na verdade o que é certo e o que é errado? Algo que seja certo para alguém pode não ser para mim nem para você, ou, quem sabe, algo que pode ser errado para esta mesma pessoa pode não ser para nós dois.

Nós não damos conta de que o tempo passou. Vivemos outras experiências, aprendemos e evoluímos. Hoje, nós olhamos para o passado e descobrimos, graças a este aprendizado, que poderíamos ter feito de maneira diferente. Somente isto, poderíamos ter feito de um modo diferente.

Agora podemos nos perguntar: naquele instante, poderíamos ter feito de forma diferente? A resposta, tanto para mim quanto para você, deveria ser não. Deveria! Não poderíamos ter feito de forma diferente, pois naquele momento, era justamente o que nós sabíamos ou queríamos fazer. Mas como é comum acontecer, não pensamos assim, e insistimos em nos culpar. ‘Nós erramos’ continua sendo a frase principal.

Culpa tem como fonte ou causa o julgamento. O julgamento de nós mesmos. Agredimo-nos, punimo-nos, pois nós “erramos”. Merecemos ser castigados. O “errado” não existe. Dizer que algo é errado, seria como entrar na casa de Deus e dizer a ele: “O Senhor errou”.

Supondo que uma pessoa entre numa estação do metrô em São Paulo e comece a urinar na plataforma. Algumas hipóteses podem ocorrer. Ela pode apanhar de algum marido mais atento, ser linchada ou ainda presa e acusada de atentado ao pudor. Nós temos o conhecimento e por isso vamos contra nossa sensação. Por isso, a vida não nos protege.

Uma opção para que esqueçamos o julgamento em geral e, principalmente, de nós mesmos é tirar a sensação de culpa.

Vamos substituir o certo e o errado por gosto e não gosto. Desta forma a vida sempre nos protegerá, pois assim saímos do julgamento e vamos para o discernimento, e isto não é dizer que DEUS errou.

        Vivamos o agora sem medo e em acordo com nossa sensação interior de bem-estar. Sem mentir para nós mesmos, pois desta forma estaremos protegidos. Esta sugestão vai ser útil, desde que toque dentro de você. Ao olhar para trás, agora, vamos nos questionar e responder somente a verdade: VOCÊ JÁ ERROU ALGUMA VEZ NA VIDA?

ACHO QUE NÃO!

QUE BOM!

NEM EU.

CLETO DE ASSIS comenta em “QUE FAZER DE MARCEL DUCHAMP?” (de affonso romano de sant’anna)

CLETO DE ASSIS

 

Comentário:

Oportuníssima a crítica de Affonso Romano de Sant’anna! Além de corajosa, pois se opõe aos cânones acadêmicos que se estruturam em torno da arte contemporânea (ou da modernocontemporaneidade, como ele bem coloca). Há pouca gente se detendo no exame do que aconteceu no início do Séc. XX, quando muitos artistas – não só Duchamp – trataram de dessacralizar a arte a níveis rasteiros, depois do Séc. XIX ter deixado rastros de genialidade e de uma nova visão da luz, das cores e dos sentidos, principalmente com o olhar dos impressionistas e, em seguida, dos expressionistas. A fotografia, que vinha de um pouco antes, passou a se mexer e deu origem ao cinema, trtasnformado até em arma das revoluções sociais daquela época. As artes plásticas deixavam de ser meros retratos da realidade aparente para interiorizar o homem, assim como fazia a psicologia também nascente.

 

É preciso atentar que grande parte dos jovens artistas que faziam arte de protesto, nos anos iniciais do século passado, eram também vítimas das contradições políticas e sociais, flagelados de guerras e, muito possivelmente, foram atingidos por um pessimismo vivencial que os levava a atos de non-sens. E a melhor arma que tinham às mãos para extravasar sua sensibilidade era a arte, mesmo que as ações fossem contra ela.

 

Duchamp era (é) arte? Convém resguardar uma verdade, pelo menos: o que ele fazia se enquadrava nos conceitos da estética. Afinal, um penico de porcelana ou uma roda de bicicleta são esteticamente desenhados, mesmo que sirvam para panfletear contra a estética contemporânea.

leia o tema: AQUI

A POETA ZULEIKA DOS REIS comenta em ATRASO (de lélia almeida)

  1. Zuleika dos Reis

Concordo plenamente com você, declaração que talvez não agrade a alguns dos meus tantos amigos gays. Bem, Lênin (creio que tenha sido ele, se não me falha a memória) afirmou que, quando uma vara está inteira voltada para um dos extremos, para que ela fique reta é preciso, antes, vergá-la toda para o lado oposto. Serve também o exemplo de uma folha de papel, enrolada. Para torná-la reta é preciso, antes, desenrolá-la e enrolá-la toda para o lado oposto. Talvez isso pareça obscuro. De modo menos tortuoso: Quando nasceu o movimento feminista, também houve exageros de toda espécie, para compensar a “invisibilidade” ancestral das mulheres; o mesmo acontece agora com o movimento gay, agravado pela apropriação dele pela mídia até um limite quase insuportável para nós, pobres heteros quase envergonhados por sê-lo. Não é, para mim, uma atitude de preconceito de nossa parte – embora muitos heteros sejam efetivamente preconceituosos – mas uma reação natural ao império da temática gay, com o qual – diga-se, a bem da verdade – nem todos os gays são coniventes. Concordo também quando você se refere à hipocrisia da nossa sociedade e ao risco que corremos, todo o tempo, de volta a um obscurantismo moralista, este sim, o grande e mais perigoso dos riscos.


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O POETA JOÃO BATISTA DO LAGO comenta em IF (poema de jb vidal)

Comentário:
Há alguns dias alguém escreveu neste PALAVRAS TODAS PALAVRAS que a poesia atualmente não faz sentido porque estaria desprovida de sentimento… de alma… de espírito… de sensação… (mais ou menos isto, segundo se me deu observar).
Certamente o autor daquelas palavras não leu esta poesia de J.B. Vidal que, para além do quadro intimista que ele pinta com tintas carregadas de um lirismo clariciano, vê-se maresias tormentosas de apaixonante emocionalidade.
São versos que traduzem e retraduzem um oceano de emoção comovente e cativante pelo canto-grito como ondas que batem nas rochas e retornam ao leito da imensidão do próprio oceano. São versos que clamam, por exemplo, a desconstrução das guerras, das misérias, das fomes, dos flagelos e, sobremodo, de indivíduos que já não têm consciência pois nada mais são que excrementos de um pós-modernismo tardio que não os deixam transparecer no Homem (homem/mulher) o “Sujeito” que há intrínseco na espécie humana.
Não é à-toa, portanto, que o seu grito reverbera no mais profundo cósmico de si. E de lá retorna cada vez mais audacioso e voraz dizendo a todos nós que a imagem que se desvanece no horizonte de um mar revolto e revoltado de emoções – ainda que ambiguas – não se desvanece pura e tão somente no olhar esmo, pois, ela ficará para sempre retida na mais profunda retina da alma humana.

Parabéns, meu caro Vidal e obrigado por me dar a conhecer esta belíssima pérola poética.

João Batista do Lago.

 

 

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LAURITA MARTEL encontra, ou não, GARCIA DE GARCIA

Garcia de Garcia, meu querido,

Me pergunto se você será o mesmo que conheci a tantos anos atrás, naquela fria e distante fronteira que foi a nossa casa e a nossa ponte para outros mundos. Não vou me alongar, no caso de que você não seja você. Mas saiba que, mesmo passados muitos anos, ainda lembro com carinho de tudo. E com saudades também. Dos bailes, dos namoros, dos livros lidos juntos, dos amigos que se perderam, daquela vida que era só intensidade e que se foi assim, tanto tempo, e tão rápido. E daquela noite inesquecível quando você me salvou do pior de mim. Uma noite fria apesar de ser fevereiro, e de ser sábado de carnaval. Enquanto eu era coroada a rainha do carnaval, uma cigana de lantejoulas vermelhas e douradas, e vi o meu amor, o meu grande amor, grudado numa enfermeira atrás de uma coluna, vestido de zorro, o cretino. Tudo naquele momento deixou de ter sentido, a brincadeira, o meu reinado, os meus planos de fugir com aquele canalha para a capital e deixar pra sempre aquela vida ordinária de interior. Ele, que era o meu salto para o mundo. Desci a escadaria de mármore, as lantejoulas voando, como insetos brilhantes e perversos a me perseguir, o pesado manto vermelho comido pelas traças de outros reinados e sumi. Cetro em riste, sumi do baile, do clube e do centro da cidade. Não fui muito longe não. Você estava sentado no banco da praça e me amparou como se nos conhecêssemos de toda a vida. Nossa vida em comum começou assim, uma crush e a metade de um cachorro quente pra curar a ressaca. E você que não entendia nada, me disse que eu mais parecia uma vadia com aquela roupa, eu disse que era de cigana e você disse que era de cigana vadia então, e começamos a rir os dois. Eu nem lembrava mais desta história, lembrei dos detalhes agora, o gosto da laranja da crush, as suas mãos grandes repartindo o manjar comigo. Tudo voltou agora, enquanto preparo esta mensagem para atirá-la ao mar, numa garrafa incerta e ir em direção a você que não sei se é você. Você me levou para passear pela cidade naquela madrugada fria e me mostrou algumas portas de casas antigas, pé direito muito alto e as mãozinhas de bronze no lugar da campainha.  Você me salvou de mim e das minhas piores ilusões de menina do interior, você guarneceu a minha alma. E quando tirei a fantasia de cigana, foram tantas as coisas que ficaram para trás. Será que você é você? Quando vi o seu nome navegando pelas mesmas águas que eu, agora, passados tantos anos, um estremecimento me arrebatou. Fui tomada de uma saudade estranha, devo dizer. E de uma culpa que nunca me abandonou.

 

Sua Laurita Martel.

 

 

nota do editor: a leitora laurita martel pensa ter encontrado garcia de garcia, depois de muitos anos, através de seu poema FILOSOFIA postado neste site. laurita escreveu esta carta e solicitou que fosse publicada. o editor atendeu considerando o tempo e o reencontro (?).

MUSEU DESAFIA PAPA E MANTÉM ESCULTURA de SAPO CRUCIFICADO

Sapo verde crucificado “fere os sentimentos religiosos de muitas pessoas”, diz Vaticano

Um museu italiano desafiou o papa Bento 16 e se recusou a remover uma escultura de arte contemporânea que mostra um sapo verde crucificado, segurando nas mãos uma caneca de cerveja e um ovo. O Vaticano considerou a peça uma blasfêmia.

A maioria dos membros do conselho do museu Museion, na cidade de Bolzano, decidiu que o sapo é uma obra de arte e continuará na exposição.

Chamada de “Zuerst die Fuesse” (primeiro os pés), o sapo usa um pano verde na área da cintura e está pregado pelas mãos e pelos pés como Jesus Cristo. Uma língua verde pende para fora de sua boca.

O trabalho do artista alemão Martin Kippenberger, morto em 1997, foi exposto na Tate Modern e na Galeria Saatchi, em Londres, e na Bienal de Veneza. Retrospectivas da obra do artista estão programadas para Los Angeles e Nova York.

Autoridades do museu localizado na região ao norte de Alto Ádige disseram que o artista considerava a peça uma ilustração do medo sentido pelos seres humanos.

O papa, que nasceu na Alemanha e recentemente passou suas férias em um lugar perto de Bolzano, obviamente não concorda.

Em nome do papa, o Vaticano escreveu uma carta de apoio a Franz Pahl, líder do governo daquela região e uma das vozes contrárias à escultura.

“Claramente, não se trata de uma obra de arte, mas de uma blasfêmia e de um degradante pedaço de lixo que deixou muitas pessoas indignadas”, afirmou Pahl à Reuters, por telefone, enquanto a diretoria do museu realizava sua reunião.

Na carta, o Vaticano disse que a obra “fere os sentimentos religiosos de muitas pessoas que vêem na cruz o símbolo do amor divino”.

Reuters. 

 

MANIFESTO À NAÇÃO: “OAB:Tortura não é crime político.”

Tortura não é crime político: pela verdade e reconciliação!

Manifesto em favor do debate e contra a impunidade e a tentativa de imposição do esquecimento.

Um debate fundamental para a democracia brasileira, há muito tempo sufocado, finalmente se estabelece de forma republicana junto à opinião pública: a questão da responsabilização jurídica dos agentes torturadores durante a ditadura militar.

Causa espécie e estranhamento o fato de que, em plena democracia, tal assunto provoque reações contrárias que rejeitam até mesmo o próprio debate público do assunto. Sob os argumentos de que o tema é inoportuno, intempestivo, e até mesmo que significa “um desfavor para a democracia” ou que “não mais interessa a sociedade’, percebe-se explicitamente um movimento, certamente motivado por interesses específicos mas nem sempre explícitos, que procura abafar as vozes daqueles que há mais de três décadas clamam e esperam por justiça.

O fato concreto é que existem no Brasil mais de 100 associações de ex-perseguidos políticos e familiares de mortos e desaparecidos políticos. Mais de 62 mil brasileiros ingressaram com pedidos de reparação na Comissão de Anistia nos últimos sete anos, restando quase 25 mil por apreciar. A União apreciou mais de 500 processos movidos por famílias que tiveram familiares mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar. Diversos particulares têm ingressado com ações no Poder Judiciário pedindo a responsabilização jurídica de quem os torturou ou levou à morte dos seus familiares. O Ministério Público Federal promove, atualmente, Ação Civil Pública contra agentes públicos que chefiaram o DOI-CODI de São Paulo. Milhares de brasileiros aguardam reparação, centenas aguardam o direito de enterrar seus entes próximos ou de conhecer a verdade histórica sobre seus paradeiros. Não se pode falar em reabrir feridas que nunca se estancaram. Estudos internacionais recentes revelam que a impunidade aos crimes (ressalta-se sempre, atos praticados na ilegalidade do próprio regime ditatorial) é fator de piora dos índices de violência e de abuso aos direitos humanos, servindo como uma forma de legitimação da violência praticada hoje no Brasil. Não há de se falar, portanto, de que se trata de um assunto do passado. É mais do que presente.

O debate que está posto não é a alteração ou revisão da lei de anistia, mas sim o cumprimento da mesma. O debate que está posto não significa afronta às Forças Armadas enquanto instituição nacional, mas sim o prestígio de sua corporação frente àqueles que não respeitaram nem ao menos as regras do próprio regime ditatorial que proibia a prática da tortura e comprometeram a sua imagem. A questão jurídica central é: se a lei de anistia abrangeu ou não os crimes de tortura enquanto como crimes políticos. O certo é que não há manifestação do Poder Judiciário sobre a questão e, por isso, a importância do debate público. Enquanto este momento não ocorrer o debate permanecerá em pauta junto à sociedade civil.

Questões fundamentais ainda não foram respondidas: Se a anistia foi ampla, geral e irrestrita, porque a anistia a Carlos Lamarca foi questionada por setores militares da reserva na Justiça? Existe correlação moral e ética entre aqueles que usurparam da estrutura estatal do monopólio da violência para torturar com aqueles brasileiros que exerceram a resistência contra uma ordem injusta que os perseguia? Que democracia é essa, incapaz de enfrentar o seu passado? A quem interessa que o debate não seja realizado e os fatos não sejam revelados? Os perseguidos foram processados e julgados e hoje são anistiados à luz da Lei n.º 10.559/02, os torturadores nem ao menos reconheceram seus atos. Como anistiar em abstrato crimes que não foram elucidados e julgados?

As organizações da sociedade civil abaixo assinadas vêm por meio desta mensagem apoiar e somar-se às iniciativas do Ministério da Justiça e do Ministério Público Federal em discutir a validade e alcance da Lei de Anistia de 1979 e os caminhos jurídicos para que, sem alteração das leis que permitiram a redemocratização do Brasil, a questão seja apropriadamente tratada no Poder Judiciário. É dever do Estado, no mínimo, promover o debate sobre as garantias fundamentais dos seus cidadãos, entre elas o direito à verdade, à memória e à justiça.

Cremos, em consonância com diversos tribunais internacionais, e com diversas cortes superiores da América Latina, que os crimes contra a humanidade não são prescritíveis, portanto, não passíveis de anistia, e que aqueles que os cometeram, fora da própria legalidade do regime de exceção, devem ser julgados e responsabilizados.

Apenas com o devido processamento e esclarecimento de todos os fatos que envolveram esses crimes é que será efetivamente possível falar em anistia, permitindo que a reconciliação nacional se consolide, desbancando a tese degenerativa da democracia de que a única solução possível para lidar com as abomináveis violações de direitos humanos perpetradas por agentes públicos é a impunidade e a imposição do esquecimento.

Assinam este manifesto:

Maurício Azêdo, RJ, Presidente da ABI
Cezar Britto, DF, Presidente da OAB
Lúcia Stumpf, SP, Presidente da UNE
Emir Sader, RJ, Professor, UERJ
Alberto Manuel Quintana, RS, UFSM
Alexandre Zamboni, PR, Engenheiro Agrônomo, Candidato a Vice-prefeito de Ponta Grossa Paraná
Aluízio Ferreira Palmar, PR, Jornalista e escritor
Alzira Anamaria Lutfi, SP, Dentista
Amir Eduardo Abud Machado, SP
Ana Carolina Guimarães Seffrin, RS, FADISMA
Ana Jose Alves Lopes, MS, Diretora Presidente e Diretoria Executiva, Rede de Mulheres Negras e Fórum Nacional de Mulheres Negras
Ana Maria Wilheim, SP
Ana Monteiro Caldas, RJ
André Pereira Roquete, RJ
Andressa Rissetti Paim, RS, UFSM
Angela Caniato, PR, Universidade Estadual De Maringá
Anita de Moraes Slade, RJ, Programadora Visual, Rio de Janeiro, Fórum de Reparação do Rio de Janeiro
Camila Borges Breda, RS, UCS
Carlos Eduardo Pestana Magalhães, SP, Jornalista e Sociólogo, coligação PT-PCdoB Clara Charf, RJ, ex-perseguida política
Clanricardo Paulino, SP
Daniela Helena
Fernanda Giardini Pogorelsky, RS, Unisinos
Francisco Fernandes Maia, DF, Presidente da Acimar
Geo Britto, RJ, Centro de Teatro do Oprimido – CTO-Rio
Marcia de Almeida, RJ, jornalista
Giselle Megumi Martino Tanaka, DF, Arquiteta e Urbanista
Ivete Caribé da Rocha, SERPAJ BRASIL
João Guilherme Vogado Abrahão, PA, Universidade Federal do Pará
Lawrence Estivalet de Mello, RS,Universidade Federal de Pelotas
Leila Rocha Marques, BA, Instituto Eletrocooperativa
Letícia Garcia Ribeiro Dyniewicz, SC, Universidade Federal de Santa Catarina
Lincoln Secco, SP, Professor, Departamento de história, USP
Manoela Michelli
Marco Aurelio Purini Belém, SP, USP
Marcos Aarão Reis, RJ
Maria Angela Santa Cruz, SP, Psicanalista e analista institucional, Instituto Sedes Sapientiae
Maria Perpétua Guimarães de Castro, BA, Eletrocoopertativa
Mariana Monteiro de Matos, PA, UFPA
Marta Cezária, MS, Rede de Mulheres Negras e Fórum Nacional de Mulheres Negras
Matheus Bandeira Onofre, PB, Diretor de Extensão da UNE, João Pessoa-PB, UFPB
Natalina Ribeiro, SP, Assistente Social
Nathalia Beduhn Schneider, RS, UFRGS
Nélie Sá Pereira, RJ
Og Roberto Doria, SP
Paulo Sergio Alves Barbosa, SP, Técnico em eletrônica e cidadão brasileiro
Raimunda Luzia de Brito, MS, Rede de Mulheres Negras e Fórum Nacional de Mulheres Negras
Reinaldo Pamponet Filho, BA, Instiuto Eletrocooperativa
Rodolfo Porley Corbo, Uruguay, Secretario del Ámbito Proceso Uruguay Entero Sur
Rose Nogueira, SP, Presidente, Grupo Tortura Nunca Mais de São Paulo
Selma Pellizon Teixeira de Camargo, SP
Vera Vital Brasil, RJ, Psicóloga Clínica, Tortura Nunca Mais Rio de Janeiro e membro do Fórum de Reparação do Rio de Janeiro
Viktor Mello Goulart, RS, Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Zilda Cargnin Piovesan, RS, Jornalista
Gilmar de Mello Pereira, SP
Luiz Rodolfo de Barros Correia Viveiros de Castro, RS
Daniel Gerardo Raviolo, CE, Coordenador Geral de Comunicação e Cultura do Ceará
Marília Bandeira, RJ, Programadora Visual
Alexandrina Cristensen de Souza, DF, Presidente da Associação Brasileira de Anistiados Políticos
Ana Gabriella de Souza Andrade, PE, AJUP direito nas ruas, UFPE
André Luiz Barreto Azevedo, PE, NAJUP, Direito nas Ruas, UFPE;
Ariel de Castro Alves, SP, Coordenador da Seção Brasileira da Ação dos Cristãos para a Abolição da Tortura,
Cícero Paiva de Souza, DF, funcionário da Associação Brasileira de Anistiados Políticos
Denise Pereira Silva, DF, funcionária da Associação Brasileira de Anistiados
Fernanda Motta d’Avila, RS, Advogada
Glauco Ludwig Araujo, RS, DCE UFRGS
Jacqueline Sinhoretto, SP, Professora Universitária
Jéssica Elize da Fonseca, SP, Estudante de Direito
João Bosco Da Silva, SP, Tesoureiro-Geral, Sindicato dos Servidores Públicos da Assembléia Legislativa e do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo
Mariana Cavalcante Araujo Costa, SP, Fórum Centro Vivo
Marleide Ferreira Rocha, DF, Advogada, Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares
Vera da Silva Telles, SP, Universidade de São Paulo
Mirnalene Neves da Silva, DF, funcionária da Associação Brasileira de Anistiados Políticos
Nelson Cicone Filho, DF, funcionário da Associação Brasileira de Anistiados
Olivia de Campos Maia Pereira, SP, Arquiteta
Márcia S. Hirata, SP, Fórum Centro Vivo, FAU-USP
Tales de Castro Cassiano, SP, Vice-Presidente da UNE
Ademar Pozzatti Junior, SC, Mestrando, Universidade Federal de Santa Catarina
Reila Márcia Miranda da Silva, SP, Jornal Brasil de Fato
Pedro Ruas, RS, Advogado
Rafael Lemes Vieira da Silva, RS, Estudante de Direito da UFRGS
Rodrigo Marcos de Jesus, MG, professor de filosofia
Secretário Geral do Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo, Membro do Movimento Nacional de Direitos Humanos
Suellen Muniz Coelho, Paris, França
Tarciso Tavares, Presidente, União Nacional de Aeronautas Anistiados


Lançamento do Manifesto: Tortura não é crime político: pela verdade e reconciliação!
28 de agosto (quinta-feira)
Largo São Francisco, São Paulo

 

DE CARNE PARA CARNE poema de tonicato miranda

 

para Jairo Pereira

 

 

veredas de poemas a você poeta

lhe dou uma alameda de buritis sagarânicos

à sua triste-e-alegre sina, também uma pedra, um bodoque

para que a atire ao címbalo madrugadino, anunciando

mais de cem mil e duzentos versos satânicos

recitados entre acordes clássicos, com jazz e rock

veredas de buritis e mosquitos a você poeta

e no dizer de Bashô: que ao menos sejam eles pequenos

pois a natureza é mesmo vária, solidária e antropofágica

pior são os gigantes olímpicos de força e de merda, aboiando

em novos coliseus se digladiando – pobres terrenos

lutam pela redução de marcas, mágicos sem mágica

veredas de meias mentiras envio a você poeta

deixa-me vampirar seu sangue quente e revoltoso

rolar em suas espheras estelares qual uma vaca voadora

perplexa com sua própria leveza, no céu flutuando

quem sabe montemos uma plataforma no espaço cosmoso

e nela sentemos com Clark para apreciar a roda 2001 inventora

veredas de nada e porções de nus desejo a você poeta

porque o nu é o todo, sendo o corpo a maior dádiva humana

deste postulado sabem leões, caranguejos e todos que têm carne

onde o rumo não é dado pela ponta do sapato, andando

mas pelo rigor do clima rufando os poros e pêlos, pele que se amaina

na ansiedade do contato de outra pele, que se irmana a outra carne

FILOSOFIA poema de garcia de garcia

 

 

não sirvo-me do pensamento alheio

alimento-me dos meus,

nascidos na história do meu viver,

do meu olhar cósmico,

 

não seria eu se fosse o pensar de outros

seria eles,

 

não sentiria eu, sentiria eles

não veria o mundo, veria como eles

 

não, sou eu próprio

com meu próprio processo,

 

engana-se quem crê no que outros pensaram

apenas reprisam,

anulam-se,

não são,

 

e não sendo

 

[….]

 

nulos!

RELANCE poema de seth báratro

Olímpico e alheio aos olhos impudicos
meu pênis inflado é objeto de gratidão:
nunca se estafa, no maior convencimento
engalanando seus propósitos lúbricos;
pelo mais ao menos não me deixa na mão.
Destarte, assim vai exaltado em tempo.

Destino injusto que me foi traçado
todos reconhecem no caralho o rei
da espécie e boceta apenas o seu fado;
de toda experiência tida apenas sei
que a cada um se reserva conquista:
o homem enfraquece, a mulher lista
sai de uma cama para o dossel ao lado.
Portanto tal homem vazio enfurece,
por desmerecido se não lhe batesse.

Gloriosa a divina boceta da Sílvia
jamais deixou a desejar se excitada
teve homem com a glande esfolada
houve mulher gemendo à recidiva.
E nem tão pouca glória se completa
se uma bela se bastasse na punheta.

VOLÚVEL poema de marilda confortin

 

Tem hora sou da paz.

Quero casa,

casar,  czar,

morar num harém,

ser oásis, caça,

presa, amélia, amém.

 

Outra hora quero guerra,

pena de morte,

porte de arma,

tormenta, fogo,

terremoto, correnteza.

Pura brabeza.

 

Tem hora creio em buraco negro

camada de ozônio, câncer no seio

falta de hormônio, aids, escorbuto

corrupto, degelo, desgraça

apocalipse… Vixe!

 

Noutras acho graça

de tudo que disse

quero viver mais cem anos

fazer planos,

plástica, ginástica

poesia, música

teatro, cinema

amor.

 

Ontem te amei

Hoje não sei.

 

EDU HOFFMANN e seus HAICAIS

poeta nua

 

      no moon

 

        da lua

 

 

=

 

 

                      lado         a         lado

 

                         sobrevoamo-nos

   

                             abismados

 

 

 

=

 

 

                 intacto

 

 

          apenas o coração

 

 

              do cacto

 

 

=

 

 

 

                pequeno acrobata

 

 

                       o tudo

 

 

              num brinquedo de lata

 

 

=

 

 

 

              sombra no jardim

 

             ave chama contente

 

                minúsculos sóis

CANTATA EM SOL MAIOR poema de bárbara lia

Como quem clareia sonhos
com o fogo de deuses desgarrados
fecha-se em silêncio?Na solidão da montanha desenha
a partitura que incendeia
a noite das Bacantes
e os orgasmos das sereias.

Eis o poeta: Alquimista
que filtra a alma da rosa
no bosque dos invisíveis.

E a adormece, à distância,
cantando anil ao celular
uma canção de McCartney:

Day after day
um homem sozinho
em uma montanha.

Day after day
vendo o sol se por
os olhos na memória do mundo.

Day after day
a voz do homem da montanha
tal qual na canção
– uma centena de vozes
falando claramente –

A CORNUCÓPIA OFERECIDA AO POETA – por jairo pereira

Teu cu Senhor dos Precipícios. Pótria cloaca a céu aberto. Deixo o prato cheio pra epistemólogos, semiotas, críticos, exegetas e xeretas em geral. Quando o prato resta cheio, até os santos desconfiam. Mas é o q. deixo deixarei no futuro aos pulhas. Meu prato cheio do melhor alimento do espíritho. Ainda não me leram em vida. Nem lerão os crástimos letargidos. A vida é dos güentadores e güento, os piores espinhos. Num único livro, escrevi e reescrevi trezentas vezes o mesmo poema, só pra encher o saco dos tolos. Nem perceberam a fraude institucionalizada nos fins. Comigo é assim, não deixo pra depois o q. é de se dizer hoje. Meninos, não sabem vós um décimo da reza, quando li as inscrições nas pedras da caverna e depois abduzido, andei por aquelas estrelas cults, cheias de módulos oferecidos aos transnautas como eu. Meninos, vi as espheras em piscas-piscas, reflexos de reflexos sígnicos, tudo assimilei, conformei, desconstrui. Meninos, a poesia é mais do q. almejam os beletristas. Mais do q. sequer imaginam os acadêmicos e diluidores. Mais q. ornamento e prenda. É mais q. linha direcionada a um fim de não ter fim, ser só-linguagem. Linguagem em estado de fonte, matriz, vertente dos contraditos. Quando vi, estava só, sem família, e o poema não tinha o q. comer, beber. Vertigem essa viagem transfulgínia, em busca da linguagem a denotar teu tudo. Quando senti, um cosmos se abriu a minha frente. Um cosmos, um emaranhado de fios invisíveis, com miçangas, ou tipo miçangas, onde era de se colocar sentido, significado, sonâncias… Me abro com o indizível, o imprescrito, o irreversível, de fato sobre fato, matéria sobre matéria, e acelero o ímpeto (renovado) em cada gesto. Poesia brinca com isso, sim Senhor. Adentra searas virgens, contempla despenhadeiros, reconstrói edifícios, só por prazer. Tive medo de enlouquecer naquelas prospecções: a vez q. fiquei no Asteróide ZHUFPHIZT’S 109, e as espheras de significados difusos, ardiam em minhas mãos. Cada esphera um conjunto de significados/significantes, signos rotativos, a refletir linguagens recém-criadas no teto da nave. Outra vez, admirei a fossa imensurável, onde as linguagens eram desovadas, de ciclo em ciclo. Linguagens atiradas fora. O lixão dos signos em desserviço naquele sistema estranho. Olhei os pequenos corpos esphéricos ainda em luminiscências cálidas naquele imenso fosso. Morreram muitas linguagens ali, muitas almas sígnicas, contritas pra sempre no grande canion. O fisgador de espheras apareceu por ali, pálido, superconvicto de q. poesia necessita disso, dos novos signos, como vespas transitoritas, acidentalícias. Fisgo espheras como quem fisga peixes no super-piscoso pantanal. Cada corpo comunicante, daqueles do lixo-espacial, me acrescenta signos novos. Não serei, não posso, ser compreendido. Um ser assim, passado do ponto, em suas razões, fisgador de signos (espheras matriciais) andar a solta na vida. Muitas almas tresenquistas, condenam-me aos infernos e purgatórios de Dante. Selva

selvagem selvagínia, buceta bucetânia bucetínia, cresci revendo as almas q. significam sem expressar vida. Vivi com meus tormentos, a discernir os códigos inescritos. Meus pais me viram ali, com menos de seis anos, em pesadelos horrendos, visitando esses mundos, onde tudo é des-é, transignifica. A tela no céu de minha convulsa mente, era monocromática no pior amarelo-solar. Amarelo, amarelo… Por isso agora, quando entro pra dentro dos corpos aparentemente gélidos dos signos, e encontro vida ali, vida de força de investimento, nos atos, fatos, pensamentos, entendo q. a missão não fora vã. Um louco com seu cavalo, um louco como um messias protovérbico, espelhado de luz estelar, correndo desertos de almas, pra ver onde a energia mínima se concentra. Dentro do signo, já limpei paredes, tracei projetos, esbocei construções singulares. Dentro do signo, me perdi e me encontrei. Não há morte na vida dentro do signo. Não há morte, não há sofrer, não há ilusão de vida sem sentido. Ali me refugiei com minhas almas-irmãs, minhas almas, meus cães, meus cavalos, meus versos queridos, extraídos de obras de amigos. Ali foi q. inventei de inventar o antilugar, só pra ver no q. ia dar. E deu, se transtornar, se entorpecer, de realidades díspares, transvivências, iluminações, tudo q. é, está, longe do lugar comum, da primeira e segunda nathureza. Inventei de inventar nathurezas transversas nos meus ditos. Um perigo, só correr, desesperar sem motivo. Reflexo no reflexo no reflexo, foda Sr. dos Precipícios, com sua pótria cloaca a céu aberto. Nenhum dinheiro, cala meu canto orfiothermotercial. Nenhum poder e asco, emudece minha voz, transvoz, tubervoz, na veloz empreitada do fazer sem precedentes. Me precederam almas transitas, turboanímoras, de outros orbes. Me precederam com obras erigidas em transmundos. Obras sobre obras, perdidas no vasto universo dos signos. Depois da terceira grande explosão cósmica, muitas obras se perderam no caos. O caos q. organizou-se em caos novamente, e ofereceu-se a vida. Vc físico de aluguel, não entende eu sei, o q. poesia tem a ver com isso. Tudo e nada, é o q. sempre direi, em meus relativismos de inteligência. A poesia, era apenas vento e poeira cósmica quando os mundos se erigiram em matéria consistente. A poesia, errante ser no cosmos. Os transpoetas das estrelas, esqueceram as ferramentas do fazer, e as obras deambulavam os espaços, acidentalmente, como em apoteóticas aparições. Antropomísticas minhas miragens interiores, quando penso nisso, e em tudo quanto foi, fui naquelas imensas clareaduras estelares. Bem q. meu filho poderia estar ali comigo, nossos pobres cavalos, encilhados no básico, visitando estrelas de muito capim. Não tenho jeito pra essas coisas de só-razão nos ditos. Sempre comecei ensaios com razão e terminei em ficção das mais ficta inverdade. Não há grilhões a manear os loucos intuitivos. Um poeta, poetar armadilhas do pensamento. Na philosophia me encontrei, na philosophia, menti e não me penitenciei, na antropologia matei e comi aqueles animais peludos, de príscas eras, na psicologia repeli energias invasoras, íncubos & sucubos, tudo o q. pensei não pensei, disse, desdisse, esteve ali em minha mente, como um tratado só-firmado pro próprio tratadista. Há os loucos investidos nisso, sim, os loucos-bons, como eu, inventores do desinventado, compondo mundos novos no transespaçotempo. Cuidado, vc. q. acha me conheceu, conhece-me. Cuidado, vá com mais calma em suas conclusões. Transei transmundos com minhas invenções e não sei porque parei aqui. Parar aqui, nessa terra de meu deus e de nossa esperança, uma escala pra outra aventura no tempo. Vou pegar os últimos signos do meu tempo, as últimas espheras q. vejo nos grandes fossos do pensamento desutilizado, e criar uma lânguida deusa pra poesia, numa grande escultura trans-semiótica. Ninguém jamais ouviu falar do cara q. fez isso, naquele tempo. Do cara q. de tanto ver a poesia no chão da simplitude, subserviente & solíptica de linguagem, resolveu provocar o quinto big-bang dentro de si. Q. os reflexos reflexos quintessências do mesmo corpo implodido em mim, atinjam no espaço as almas refratárias de linguagens. Muitos corpos-almas, conquistados pro nosso mundo Sr. do Superlux. No superlux me dispersei, imortalizei, alma alucinada com as espheras transignificadas. Divulgo formas nos horizontes crispados de veios subterrâneos. Divulgo estrelas no teto da caverna. Divulgo cenas míticas, centauros gordos nos salões pomposos, unicórnios nas fontes de águas cristalinas. Divulgo mulheres leitosas e nuas, confundidas com esculturas de gelo, nas estepes. Caio em transes repetidos, quando conspurco contra o intelecto. A cornucópia prata está cheia do sangue dos inocentes, do sangue dos poetas recusados. Como um deus de mentirinha, bebo da nova e gloriosa vida da poesia. Bebo três goles do líquido espesso. Três goles e três arrotos, subseqüentes. Avante camaradas! Longe de mim, os q. só agiram para o certo, o determinado, os q. só perseguiram verdades matutinas, quando a noite grande deitava signos como imensas nuvens de gafanhotos negros. Um poeta paranormal, sabe muito bem do q. estou falando, do q. sinto, transmito em minhas sãs preleções. Desconfie, dos q. não amam, dos q. não cantam, não dançam, não emocionam. Soy fantástico, patético e particular, como disse-me um de meus filhos, certa vez. Não há razão onde há só razão. Não há conflito onde há só conflito. Não há dialética onde há só diálogo. Não consumo o produto de tuas oficinas, Sr. dos Precipícios. Roupas, relógios, carros, tvs, calçados, merenda escolar. As  embalagens de cliclet’s condizem com tua ira insana. Na penúltima noite da verdade, menti pra mim mesmo, q. o SOL esse SOL soliníssimo de segunda-feira, vai clarear pra sempre os meus caminhos. Sobre a imensa pedra do deserto, um ser esmerilando signos. A contingente realidade do meu futuro. No amplo deserto da poesia, um ser inglorioso, a esmerilar os signos. Continuo não acreditando, nos monstros dominadores dos signos. Almejo vencer o desvencido: o poder q. nos rouba a energia-matriz da criação. O poder q. desencanta e atormenta o criador. Intenciono, tenho fibra e coragem pra isso. Melhor fazê-lo com poemas, e é o q. farei.

 

jAirO pEreIrA

Autor de O antilugar da poesia,

O abduzido e outros.

 

 

BRASIL GARROTEADO PELA DITADURA por walmor marcellino

DO(S) FUNDAMENTO(S) DA LEI

Qualquer arbitrista pode conseguir impor-se pela força das armas, fazendo-se assim um suposto “jus-agendi”, mas suas decisões não conferirão legitimidade e direitos a seus atos. A desrazão não pode produzir lei positiva. Como uma vaca não entende de leis e uma vaca fardada desconhece o que seja um consensum constitucional, eu (não sendo uma nem outra) quero dizer que farda ou fardão não confere ao engalanado invólucro e à coisa dentro o direito de legislar e jurisprudenciar. Ouço mugidos que repercutem desde o Clube Militar e vejo que remanescem os magarefes políticos, e os coices-de-mula mantêm sua associação conspiratória para o crime.

Se um manipanço chamado Humberto de Alencar Castelo Branco foi alçado ao poder nacional em 1964 por um golpe de traição a serviço de potência interventora, ele e a sua camarilha de fardão e gibão não constituem uma corte de justiça. Partamos desse princípio, para assim argumentar com os nacionais, o povo brasileiro, os contemporâneos a respeito desse dejeto ditatorial chamado “Lei da Anistia”. Em primeiro lugar aquela canalha títere do Departamento de Estado dos EUA promoveu excrescências legalizadas, mas não outorgou a nossa Constituição, seu preâmbulo, artigos e cláusulas; embora seus herdeiros continuem mostrando considerar-se tutores da República e até da Constituição de 1988. Ainda que uma conciliação oportunista os venha querendo sancionar.

A Constituinte de 1988 reorganizou a nação brasileira estilhaçada pelo fascismo de 19641986. A partir do mando nacional restaurado, o Brasil se tornou pátria de cidadania livre e independente, regida por sua própria vontade. Todos os atos e procederes que envergonharam a nação foram de aí proscritos.

Todavia os crimes infames de ofensa aos direitos humanos, entre eles o de tortura, esses não têm prescrição conforme nossa adesão à Carta das Nações Unidas. O direito internacional não confere ex vi a torcionários, escroques e assassinos o direito (ou imposição permanente) de anistiar-se, o direito a salvaguardas como “agentes encarregados de cumprir seus próprios mandamentos” de violência e crimes de toda sorte. Assim, enquanto a vontade nacional não prevalecer sobre os arreganhos fascistas e as ameaças de tutoria não teremos firmado o marco zero da nacionalidade que julgávamos estar claro na redação constitucional de 1988 e seus progressos.

Afinal, quem são esses capitães-de-mato e mercenários a martelo, essa malta que se está opondo ao País? Estão refazendo atos adicionais e leis complementares à Carta Magna? Serão templários, agentes confessionais, que se autoqualificam como “delegados” da lei e da ordem, contra o povo brasileiro?

 

BRENNAND: A CATEDRAL BRASILEIRA – UMA POÉTICA TRIDIMENSIONAL DE FOGO, AR, TERRA E ÁGUA / por flávio calazans

 

“Eu não me envergonho de ter fabricado meus próprios brinquedos.”

Brennand apud Jacob Kintowitz, página 34.

 

Em Pernambuco, minha namorada insistiu em levar-me para conhecer uma fazenda na periferia de Recife,  a “Propriedade São Cosme e Damião”, cerca de uns 20 quilômetros do centro da cidade; Lá fica o atelier do ceramista internacionalmente reconhecido Francisco Brennand.

 

Na verdade, eu já tinha vislumbrado a obra do artista contemporâneo Brennand, como todos os que desembarcam pelo aeroporto de Guararapes, pois lá é impossível não ver o enorme mural de Brennand; vi outro mural dele na Rua Nova, centro de Recife,  um exemplo de muralismo, retratando as duas batalhas de Guararapes, quando expulsamos meus loiros ancestrais holandeses; de quem herdei a memória genética dos olhos claros, misturados aos loiros italianos de Turim no porto de Santos, em São Paulo.

 

Porém, estes murais não podem ser comparados à experiência estética e espiritual que é  andar pessoalmente dentro da obra viva de Brennand, é esta sensação que quero contar, provocando você a visitar e sentir esta arte brasileira tão pouco divulgada.

 

Uma estradinha de terra passa sob um túnel de copas de árvores que juntam-se sobre a estrada, já criando um clima na entrada da fazenda, uma sombra úmida cujo frescor chega aliviando-nos do sol ardente e abrasador de Recife, uma sensação de acolhida, boas vidas, aquela hospitalidade familiar nordestina que nos faz sentir à vontade, como um abraço carinhoso e feminino…talvez esta impressão tenha ficado pela minha percepção estar enevoada por estar apaixonado e com minha namorada dirigindo e trocando carícias e beijos eu sentia-me muito mimado, inebriado, como só uma mulher nordestina sabe fazer para seduzir seu homem.

 

A fazenda parece uma cidade, com vilas de casinhas térreas bem antigas e muito movimento, dois quilômetros depois surgem enormes chaminés erguidas como arranha-céus ou símbolos fálicos fumegantes, são fábricas de azulejos e pastilhas às margens do rio Capibaribe, a família Brennand produz por gerações as cerâmicas comerciais para o setor da construção civil, iniciada em 1917 como fábrica de telhas e tijolos, com galpões imensos, gigantescos depósitos cuja fachada e arquitetura é idêntica aos edifícios ingleses da revolução industrial, ainda existentes em Bristol, com arcos românicos que já evocavam algo de sacro ou medieval; o patriarca Ricardo Brennand fundou a fábrica e colecionava porcelanas, inclusive chinesas, e isto contagiou o filho Francisco Brennand.

 

A entrada do Ateliê tem seguranças e uma loja de souvenirs com duas funcionárias, vendendo catálogos de exposições, livros de e sobre Brennand, vídeos, cds musicais inspirados em suas obras, camisetas, posters e até peças originais com a grife,  assinadas por Brennand, nada ficando a dever a Museus internacionais como Prado, Louvre ou Museus de um autor como o Rodin em Paris.

 

Já no primeiro pátio vem o impacto desta obra em processo, uma praça que demonstra os espaços generosos, a amplitude luxuosa de vazios, os jardins imensos que recordam a arte zen dos e-makimono e pinturas taoístas, gramados infindáveis pontuados por totens vigilantes, estátuas imponentes e severas como as Mori da Ilha da Páscoa no oceano pacífico, como um exército guardião do espaço sagrado em que entramos e que minha namorada percebia como símbolos fálicos, pênis eretos em uma exaltação ao poder masculino, e ele fez-me dar várias voltas no conjunto de estátuas para convencer-me da semelhança com membros viris, que eu só com muito esforço poderia vagamente perceber assim (para mim ainda são soldados que recordam peças de um tabuleiro de Xadrez: Peões com capacete de conquistador espanhol, Bispo e até  um Rei de cartola capitalista, como se parte de um jogo em andamento jogado por Deuses enormes cujo tabuleiro era a grama em que pisávamos), a interpretação de minha namorada partia de um horizonte de perspectiva feminina, aceitei intrigado e com ressalvas, e em muitas das cerca de mil e duzentas obras expostas ela repetia esta perspectiva com a qual eu discordava, mas foi interessante constatar esta visão feminina.

 

Algum tempo depois li na revista VEJA de 18 de agosto de 1999, página 45,  que Brennand estava fazendo um farol ou torre em Recife, um monumento em comemoração aos 500 anos do “descobrimento” do Brasil, e surgiu o escândalo quando o esboço teve seu desenho  alterado para parecer um minarete árabe, ocasionando uma carta aberta de Brennand aos jornais dizendo que “não tenho mais idade para ser censurado”, os jornais descobrem que a obra fora alterada por ordem da Primeira-Dama do município, Jane Magalhães, religiosa, advogada e defensora dos bons costumes que exige ser chamada de “DOUTORA JANE” até mesmo pelo marido, a doutora teria achado a forma do totem muito semelhante a um órgão masculino excitado; a doutora também teria vetado desfiles de moças vestindo biquínis no concurso Rainha de Recife do carnaval; este escândalo confirma que mulheres teriam mesmo a percepção de genitais do sexo masculino nos totens de Brennand.      

 

Mais a frente uma imensa fonte esguicha torres de água jorrando com força e sonoramente, circundando um obelisco ou totem que também é percebido como um falo por minha amada, falo gigante cercado de falos menores, estes do tamanho de uma pessoa adulta de pé.

 

Já no segundo pátio, à direita, são paredes afastadas uma da outra em um pátio que, somente aos poucos, virando muitas vezes a cabeça, perplexos pela magnitude do espaço, percebemos formar um conjunto imenso, delimitando um espaço sagrado, um saguão que vai sendo, camada a camada, sentido como a NAVE de uma imensa e descoberta IGREJA ou TEMPLO a céu aberto…evocando memórias de templos indianos e chineses, de uma outra tradição…ou talvez até de uma Reconstrução do mítico  Templo de Salomão em Jerusalém, aquele desenhado pelo arquiteto Hiran…ou mesmo o mausoléu indiano TAJ MAHAL com seus espelhos de água nos jardins frontais.

 

Neste Saguão ou NAVE é onde passeiam livres três anjos da guarda de plumas negras, três lindos e elegantes cisnes negros nos seguem com um olhar severo e vigilante, como parte viva desta obra única, que poderia ser chamada até de faraônica sem com isso ser pretensiosa, pelo contrário, sua importância passa despercebida, e é aí que reside sua força e verdadeiro poder.

 

Espelhos de água enormes como piscinas  revelam-se como aquários povoados por miríades de CARPAS vivas e coloridas, dançando lenta valsa no lago circundando o ovo da abóboda azul em cuja sombra repousa a TRINDADE de cisnes negros ao sol do meio dia, fazendo do espetáculo arquitetônico um ser vivo e orgânico.

 

As carpas são animais simbólicos, no oriente equivalem ao SALMÃO dos celtas, representam a sabedoria, a alquimia taoísta da tranqüilidade e longevidade, pois ultrapassam os cem anos de idade, nestas lagoas vivem comunidades de carpas, flutuam lentamente tais cardumes de carpas de todas as cores e idades-tamanhos, em um convite à meditação zen, a sair da mente estressada que vive remoendo remorsos e re-escrevendo fantasias do pretérito imperfeito e projeções de um futuro improvável, para ficar no PRESENTE PERMANENTE dos alquimistas e sufis, dos taoístas e zen-budista, o aqui-agora. 

 

Somos suavemente conscientizados de estar DENTRO da obra de Brennand, contemplando um complexo conjunto orquestrado de arquitetura sacra, inacreditavelmente projetado e realizado por um homem sozinho executando um CONCEITO, uma obra hercúlea que nos abriga como um útero, que nos cerca e abraça com ternura e força, sem ser ostensiva e sem que percebamos sua imponência…um espaço que evoca STONEHEGE dos Druidas Celtas e sua harmonia com a floresta, seu culto panteísta da natureza (mais naturalmente e de modo vivenciado e visceral do que a filosofia de Spinoza) com Menires e Dolmens.

 

Este pátio que apresenta-se como uma humilde exposição, secretamente é uma lição de vida, mil mensagens em um livro de pedra e céu aberto, oculta por estar escancaradamente aberta para quem souber relaxar e sentir…um pátio que transcende nomenclaturas e classificações da mente racional, mente que luta por chamar de INSTALAÇÃO por convidar a entrar nela, de RITUAL ARTE por delimitar um espaço com símbolos como as performances ecumênicas de um Alex Grey (“Sacred Mirrors”), de BIO ARTE pela  presença dos cisnes e das carpas…de  ARTE SACRA pela abundância de simbologias,orçando analogias com ESCHER, Willian BLAKE e outros artistas, até que, vencida, a mente consciente relaxa e o inconsciente pode fluir entre o desfile de arquétipos e figuras ancestrais e arcanas.

 

Brennand demontra uma extensa erudição em seus livros e entrevistas, impressionam as citações, por exemplo: em uma parede um mural de lajotas quase tridimensional põe em relevo as letras de uma frase: “The horror, the horror” últimas palavras do Coronel Kurtz no  livro clássico de Joseph Conrad “Coração das Trevas”, livro filmado com John Malkovitz e que inspirou Copola no filme “Apocalipse Now”.

 

“Coração das Trevas” de Conrad é um livro que fala da civilização e do instinto, de um inglês caçando marfin no Congo Belga para uma companhia comercial colonialista; Kurtz é um poeta, pintor e musicista (que toca instrumentos musicais), um militar com vocação de cientista e com hobbies artísticos que imerso na selva encontra o mistério da vida; Assim iluminado, como um Buda Guerreiro, é incompreendido e ao falecer sussurra esta frase enigmática, pontifica esta sentença em seu último suspiro, quase um koan japonês, frase que inspira centenas de interpretações pela história da literatura, uma OBRA ABERTA como diria Umberto Eco…

 

Assim, este livro é um incômodo para todos os caucasianos, nós, descendentes de europeus, pois forçosamente nos obriga a reflexões profundas sobre quem somos e qual nosso papel no mundo que estamos construindo… Brennand pontua sua obra de citações e referências deste calibre, desta magnitude, chocando e provocando, obrigando a tomar partido, posicionar-se frente sua obra…como todo verdadeiro artista, Brennand incomoda e instiga, nos transforma com os símbolos entrelaçados e bem costurados de sua obra. Obra esta que fala profundamente a nós, brasileiros frutos  de uma civilização judaico-cristã européia…

 

Em outro mural há uma frase do poeta cego argentino, Jorge Luiz Borges: “Sua imediata obrigação era o sonho”. 

 

No livro “Francisco Brennand por ele mesmo”, página 9, ele próprio fala abertamente do místico domínio do fogo, de misteriosos “senhores do fogo”, e de uma “LINGUAGEM SECRETA” que expressa sentimentos além da capacidade de expressão da linguagem cotidiana,e fala da comunicação criptografada, das mensagens secretas, do sentido oculto dos símbolos, e de mistérios somente compreendidos pelos INICIADOS. ..e na página 13 recorda a visita de IONESCO a este pátio, que declarou desejar encenar uma de suas peças o Teatro do Absurdo neste cenário surreal, transformando o espaço em uma grande casa de espetáculos para óperas, balets e orquestras filarmônicas e sinfônicas, um espaço vivo como eram as Catedrais Medievais, Brennand criou sua própria CATEDRAL.

 

Atração TURÍSTICA de potencial internacional, a “Cateral de Brennand” já foi matéria bilingue da revista de bordo distribuída nos aviões da Varig, a ÍCARO número 172 de dezembro de 1998, ano 15, páginas 34 a 43, com lindas fotos convidando a uma visita turística a quem aprecia as artes, e o jornalista cita Brennand, que conta um caso de senhoras que caminhavam DESCALÇAS por seu pátio das carpas e cisnes (que eu sinto como uma Catedral) para absorver as “ENERGIAS DO SOLO”.

 

O Templo de Brennand toca profundamente a sensibilidade feminina, nenhuma mulher fica indiferente, ou apaixonam-se ou odeiam a obra, um sinal de sua força nos arquétipos femininos, em aspectos SOMBRA do inconsciente, mereceria uma pesquisa mais detalhada de Ginecopsicologia ou Biomidiologia da Arte… 

 

O corpo feminino é especialmente sensível a algumas freqüências de onda vibratória sutil; há uma maior retenção de água na pele, e as coxas e seios são depósitos de tremulante gordura líquida, nos quadris há muita água nos rins, bexiga e útero que reverbera tais ondas telúricas, a Igreja Católica conhece bem estes mistérios, daí os corais de castrati com vozes únicas e a nota musical Trítono ou DIABOLOS, no filme “FARINELLI” vê-se a biografia de um cantor castrado cuja voz em trítonos leva mulheres ao orgasmo; no filme “O rei da baixaria” sobre o radialista Stern o orgasmo da fã sobre caixas de som ilustra esta sensibilidade fisiológica feminina a estímulos vibradores, bem como os showmícios, comícios de Hitler e dos Nazistas ocasionando orgasmos histéricos, e o Trítono é a nota base do HOT JAZZ dos cajuns de Nova Orleans, USA.    

 

Brennand construiu a sua “Catedral Pessoal” sobre uma Linha Ley, um alinhamento de energia telúrica vibrante, igual ao do Museu do Ipiranga em São Paulo e de diversas Catedrais européias; lá nos fundos, após as últimas esculturas, há um vale ou campina, pradaria, e ao fundo percebem-se duas colinas, talvez uma falha geológica, exatamente  alinhada com o Templo-Catedral.

 

Brennand  edificou um outro tipo de arquitetura de igreja, um templo cujo teto é o próprio céu aberto, dando uma sensação maior que a de qualquer Catedral européia: o infinito do céu azul do nordeste, e à noite aquele céu estrelado com todas as constelações zodiacais ilustrando a abóboda celeste…impossível não recordar de Barcelona, da Sagrada Família de Gaudi, com suas paredes e sem teto, esta ainda em construção, mas a nossa catedral de Brennand está pronta e acabada, aberta com fé e confiança para os céus e aceitando o que a natureza trouxer, chuva ou sol aceitos sem julgamento, sem mente, vivendo no aqui-agora, o GERÚNDIO QUÂNTICO dos idiomas não predicativos como o nhenhengatu-tupi guarani .

 

Na Catedral de Brennand a luz solar e a exuberante natureza brasileira contradizem a sombra úmida das Igrejas Românicas (Terra e Água) e os arcos reverberantes das Igrejas Góticas (Fogo e Ar).

 

E aqui, Brennand sopra o AR do fole sobre o FOGO do forno cozendo com paciência a ÁGUA com TERRA do barro, transubstanciando, como Senhor do Fogo, a cerâmica sagrada, a cerâmica esotérica, construindo sozinho, peça por peça, uma Catedral que evoca os livros do alquimista parisiense Fulcanelli.

 
Todas as paredes são ricamente decoradas com uma equilibrada e harmônica mistura bem pensada, ponderada, meticulosamente pesada e digerida-reinterpretada de  simbologias  maçônica, rosa-cruz , alquímica, astrológica, heráldica e cabalística, onde onças jaguatiricas e tatus convivem com pelicanos bicando o peito (como na Basílica de Tremembé, Vale do Rio Paraíba , pertinho de Taubaté, terra de Monteiro Lobato, interior de São Paulo, repleta de tais simbologias), ovos rachando para dar a luz mitos vivos, peixes de boca aberta como que engolindo o profeta Jonas brotam aqui e ali no lago de carpas, diversas Vênus –Afrodites,  Gárgulas ao topo da muralha –paredão direito, com o clássico Delta com o olho onisciente do “Grande Arquiteto do Universo”, imagens africanas, sumerianas, incas e astecas, maias e egípcias, e muitos, incontáveis símbolos, uma criptozoologia pessoal, quimeras autorais de Brennand em um bestiário de fazer inveja ao argentino Jorge Luiz BORGES, tudo compondo um cenário indescritível, com uma energia de Pajés (Xamans) com abundantes jacas, cajás, cajús e ingás, mil frutas nordestinas, flora e fauna brasileira em alto-relevo ricamente colorido e esmaltado ou vitrificado brilhante e reluzente.

 

Uma releitura e interpretação personalizada de Brennand , uma PAJELANÇA de terra molhada (argila- adamah em hebraico é terra vermelha molhada, barro, como Adão modelado de barro, como o GOLEM do rabino cabalista de Praga) cozida a fogo lento no forno alquímico ATANOR (a- partícula negativa, e Tanathos, morte, o forno que nega a morte, que busca a eterna juventude, o elixir da longevidade, a fonte de Ponce de Leon que a arte busca em sua ilusão de eternidade) em cerâmicas quase vitrificadas, esmaltadas.

No Forno alquímico, argilas coloridas são misturadas e cozidas pacientemente, e a cerâmica quase-viva destes golens impressiona na família “Adão-Eva-Caim” ao lado do altar com uma cachoeira cheia de mais carpas nadando um balé dionisíaco…

 

Indubitavelmente, não se pode desmentir que o conjunto da obra transpira muita sensualidade, e, se é que haveria algum  erotismo nestas obras, se os totens forem percebidos como falos e as frutas maduras abertas o forem como vulvas, este seria um erotismo sagrado, tantra ou alquimia sexual chinesa, sutil e insinuado, dependendo tanto do ângulo do olhar quanto da intencionalidade do observador; sensual e natural, até inocente, como a sexualidade de nossos ancestrais índios tupinambás, algo pré-cristão, que não poderia nunca ser rotulado de sexual ou muito menos de pornográfico, conceitos inaplicáveis a esta obra de arte…o verdadeiro artista é fiel a si mesmo, em contato com o inconsciente, incompreendido, como demonstram as biografias de um pintor como GAUGUIN ou um poeta como RIMBAUD.

 

 O atelier de Brennand é uma visita sem a qual os templos europeus não fazem sentido, pois este lugar sagrado é o contraponto, a resposta deste nosso continente americano à arquitetura sagrada e arte sacra européias, pois até a “quadradura do círculo” é representada subliminarmente pela mandala central do pátio dos cisnes.

 

Tamanha erudição e riqueza de minuciosos detalhismos, preciosismos, não perde contato com o popular,  pois o traço do desenho de Brennand lembra muito o estilo da Xilogravura de Cordel, da arte popular da madeira entalhada a canivete da Feira de Caruaru, das Carrancas dos barcos do rio São Francisco, mas também com algo de desenho animado e história em quadrinhos da Mídia de Massas do Século XX (cf. Ferraz página 21).

 

Ariano Suassuna considera Brennand uma continuação do escultor mineiro do período Rococó (no Brasil culturalmente insistem em denominar Barroco) o ALEIJADINHO, Suassuna, erudito, cita o Santuário de Congonhas como exemplo de arquitetura de templo do tipo ILUMIARA, anfiteatro ou conjunto-de-lajedos, como o ILUMIARA esculpido pelos antepassados dos índios Carirys no sertão nordestino,  a “Pedra do Ingá” na Paraíba, um lugar de culto e rituais; este conceito arquétipo indígena e rococó de Ilumiara ajuda a mente racional a compreender e classificar o impacto deste templo de Brennand em nosso inconsciente racial brasileiro, o que também explicaria as formas fálicas de obeliscos, pois no centro das Ilumiaras indígenas sempre há um monólito erguido (CF Suassuna apud Klintowitz p.61 e Suassuna apud Ferraz p.44.).

 

O próprio símbolo presente na parede de entrada do museu e repetido pontualmente, como um refrão visual desta canção de cerâmica, da POÉTICA DE FOGO, AR, TERRA E ÁGUA  de Brennand é um arco com uma flecha apontando para cima; clara influência dos cultos africanos, pois é um PONTO RISCADO antigo, símbolo do ORIXÁ OXOSSI, orixá africano protetor dos bons caçadores. 

 

E um busto impressiona, a cabeça de ATENA encerrada em um repressor capacete grego que só permite entrever seus lábios espremidos em bico, é a civilização, a mente racional, retratada prisioneira de seus recalques e perda de espontaniedade .

 

O prédio à esquerda do pátio aberto dos cisnes negros e carpas vermelhas e brancas impressiona pela sobrecarga, constato estupefato que estou em um museu de mil e duzentas esculturas a perder de vista, povoando o depósito como um exército em prontidão ou uma corte só aguardando a música começar para bailar uma valsa ou minueto neste rico saguão.

 

Minha namorada chama minha atenção para Brennand em pessoa, que passa por nós do outro lado do amplo salão a passos rápidos e fortes, impressionante energia focada do homem idoso e alto, com suspensórios coloridos sobre camisa branca, que desaparece entre as colunas de seu museu, perdido da vista, como se fundido as centenas de totens e estátuas da gigantesca exposição.

 

O galpão é enorme e complexo, parece ter naves e capelas internas, evocando outra vez um templo, só que desta vez com um pé direito gigantesco e coberto com teto de vigas nuas, bem industrial, em uma estrutura na qual nos perdemos, recordando a arquitetura iniciática de um LABIRINTO.

 

Vagando a esmo e namorando sem pressa, ambos encontramos um tipo de FORNO que parece um iglu, uma casa, não resistimos a descer os degraus e entrar no único lugar escuro, sem a iluminação constante em todo o conjunto…este lugar fechado tem uma atmosfera densa, viva, como se fora o onfalos, o umbigo de todo este lugar de poder; há cavaletes com quadros inacabados ou sendo pintados, baús, nichos iluminados nas paredes, e sentimos como que entrando no verdadeiro atelier, em um lugar pessoal, privado, como se invadíssemos a intimidade dos processos criativos do artista…como se fosse um útero, um forno atanor, ou uma alcova que convida a um longo e apaixonado beijo…

 

Também há uma piscina vazia com degraus dentro deste edifício, parecendo uma casa de banhos romana ou turca, azulejos azuis em relevo com muitos símbolos…nesta piscina tive a impressão, por um segundo, de estar em um estande de feira de azulejos ou em um portfólio, imaginei se Brennand usaria este museu como uma vitrine de possibilidades para clientes internacionais milionários…pois noutra sala as paredes são forradas do rodapé ao teto de prêmios internacionais, de diplomas e homenagens, de cartas de bienais de arte européias, e centenas de documentos curriculares  emoldurados em vidro, um belo exemplo de MARKETING da ARTE ou de Marketing Pessoal de Brennand como consciente empresário de sua obra de artista.

 

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu a 11 de junho de 1927 em Recife  (consciente dos arquétipos, comenta a sua reforma da fábrica antiga em atelier –templo comparando-se a outro Francisco, São Francisco de Assis, atendendo a um chamado, missão ou vocação de restaurar a igreja).  Em 1990 representou o Brasil na Bienal de Veneza, Bienal de Barcelona de 1955, Bienal de Punta Del Este –Urugay em 1964; Bienal de São Paulo em 1959;  além de exposições da Alemanha a Portugal, de Sevilha a Londres; ganhou para o Brasil o Prêmio Gabriela Mistral de 1994 conferido pela Organização dos Estados Americanos em Washington USA; e seu curriculum impressionante daria um livro ou um filme.

 

Na estação de Metrô Trianon-Masp, na Avenida Paulista, em São Paulo, Capital, bem no subsolo desta Linha Ley telúrica do coração paulistano, encrava-se um totem fálico de Brennand; um gigantesco e imponente símbolo re-interpretado da literatura árabe, dos Contos das Mil e Uma Noites de Sherazad, é o PÁSSARO ROCA, ave mitológica gigantesca capaz de erguer pelo ar elefantes, um símbolo das potentades do elemento Ar (como alados Anjos, Silfos e Fadas até o garanhão Pégasus) erigida em barro esmaltado e vitrificado, cerâmica moldada nos elementos Terra-Água e temperada pelo elemento Fogo do forno, figura do Ar embaixo da Terra recebendo as faíscas dos trens do metrô e vigiada pelas câmeras de segurança, toda vez que passo pelo PÁSSARO ROCA de Brennand vislumbro desde um Prometeu acorrentado no Tártaro até uma estaca cravada no coração de um vampiro, a força da poética tridimensional de Brennand evoca a cada contemplação mil projeções, inspirando desde elevados  sentimentos religiosos até instigando a sermos audazes como o marinheiro Simbad desafiando os mares desconhecidos de nosso futuro.

 

“O sonho é fundamental ao equilíbrio mental do homem. O homem que não sonha, enlouquece. Da mesma maneira, a ARTE é o sonho das nações (…) Uma nação sem arte, isto é, que não sonha, está gravemente enferma, está fadada a enlouquecer. Um país não se constrói apenas com estradas, pontes, barragens, siderúrgicas; ele se constrói também com as imagens que estão sendo criadas o tempo todo pelos artistas”.  Brennand em um colóquio de arte na Universidade do Texas, em Austin, USA, 1975 (apud Ferraz p.23).

 

 

Bibliografia:

 

FERRAZ, Marilourdes. Oficina cerâmica Francisco Brennand; usina de sonhos. Recife: Associação de Imprensa de Pernambuco, 1997.

 

FERNANDEZ CHILI, Jorge. La cerâmica esotérica; curso de filosofia cerâmica. Buenos ires: Condor Huasi [c1993]. 447p.

 

Francisco Brennand por ele mesmo. Recife: Fundarpe –Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco, 1995.

 

KLINTOWITZ, Jacob. Francisco Brennand: mestre do sonho. São Paulo: Laserprint, 1995.

 

PASTRO, Cláudio. Guia do espaço sagrado. 2. ediçõ, São Paulo: Loyola, 1999, 262 p.

  

COMO LIDAR COM A BAIXA FREQUÊNCIA ESCOLAR por vicente martins

 

 

Como as escolas públicas e privadas podem lidar com a infreqüência escolar, especialmente quando alunos e docentes faltam às horas-aula ou têm baixa freqüência aos dias letivos?  Na jornada escolar, que entendimento devemos ter do período letivo? No presente artigo, pretendo responder as duas questões acima levantadas a partir das concepções sobre a freqüência interpretadas à luz da Constituição Federal(1988) e da Lei de Diretrizes e e Bases da Educação Nacional(LDBEN), a Lei 9.394. promulgada em 1996.

  Comecemos, então, pelo artigo 206, da Constituição Federal(1988). Entre os diversos princípios enumerados no referido artigo, o primeiro refere-se à igualdade de condições para o acesso e permanência dos alunos na escola. Mais adiante, no artigo 208, o legislador, ao tratar sobre o dever do Estado com a educação,  determina que o mesmo será efetivado mediante várias garantias de acessibilidade à escola,  estabelecendo, como competência do Poder Público o recenseamento dos educandos no ensino fundamental, e outras ações como a de fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola (§ 3º). Estas prescrições da Constituição Federal migraram, ipsis litteris, para a LDBEN.

O conteúdo do § 3º do artigo 208 da Constituição Federal é reproduzido, em 1996,  no artigo 5º da LDBEN. A Lei reafirma que cabe ao Poder Público zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela freqüência à escola. Portanto, aqui o dispositivo é mais aplicável para diretores, coordenadores e professores das redes estadual e municipal de ensino, enquanto agentes do poder público e, como os estabelecimentos privados de ensino seguem as orientações nacionais, o zelo pela freqüência é uma tarefa também dos pais ou responsáveis.

A infrinqüência de professores e alunos aos estabelecimentos de ensino, aqui entendida como falta de freqüência às horas-aula ou a baixa freqüência aos dias letivo, fere, portanto, os ditames legais da Constituição Federal e da sua legislação correlata, a LDBEN.

         No artigo 12,  inciso VII, da LDBEN, cabe aos  estabelecimentos de ensino informar aos pais, responsáveis ou, mesmo aos alunos, quando na maioridade, sobre sua  freqüência e seu rendimento acadêmico, bem como sobre a execução da proposta pedagógica ou projeto pedagógico do  estabelecimento de ensino.

Ainda no referido artigo 12, inciso III, cabe as instituições assegurarem o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidas. Como sabemos, nos estabelecimentos de educação escolar, existem dias letivos e horas letivas ou horas-aula, duas categorias importantes do chamado período letivo. Por hora-aula, devemos entender o espaço de tempo estipulado para o desenvolvimento de uma aula, isto é o período em que o professor desempenha atividade docente com os alunos, em grupo ou individualmente. Em geral, a duração de cada Hora-aula é de 50 minutos.

No âmbito da jornada escolar, o dia letivo pode ser tomado como em duas acepções: a primeira, como de trabalho escolar efetivo. Isto quer dizer, como prescreve a LDBEN, que o dia letivo não compreende aqueles reservados às provas finais ou resultados de recuperação. Uma segunda acepção compreende que o dia letivo é aquele em que os alunos ocupam seu tempo em atividades relativas ao desenvolvimento do currículo, na escola ou fora dela (visitas, excursões ou viagens, desde que devidamente planejadas. Assim, quando o professor vai à escola, mesmo não ministrando horas-aulas, está ministrando (observe que estou repetindo o verbo no gerúndio) seus dias letivos.

Quanto à freqüência ou infreqüência escolar dos docentes, o que se deve entender, enfim, nesse particular, é que a freqüência no âmbito escolar deve ser entendia como sinônimo de assiduidade, isto é, se efetiva, legalmente, quando o  docente: 1)  se faz presente constantemente no estabelecimento de ensino. 2)  não falta às suas obrigações; e 3)   se aplica, outrossim, quando o docente executa com tenacidade as suas tarefas acadêmicas (ensino, pesquisa, extensão, administração). Em substância, ser assíduo, ao pé da letra, como se pode sugerir da forma latina “assidùus”, é o docente está sempre presente, em corpo e espírito no estabelecimento de ensino.

O artigo 12, no seu inciso IV, diz que cabe às instituições de ensino a incumbência de velar (aqui, o verbo significa “cuidados, proteção a; tratar de, interessar-se, dedicar-se, zelar, proteger”) pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente (PTD).Grifaria o pronome cada para dizer que é da incumbência do estabelecimento de ensino interessar-se e zelar pelo PTD de cada docente.

 No caso das universidades, vale destacar o que prescreve o artigo 47 da LDBEN, em referência à educação superior,  referindo-se o ano letivo regular, ao determinar que é obrigatória a freqüência de alunos e professores, salvo no caso da educação a distância.

Assim, a freqüência é obrigatória, particularmente nos seguintes casos:  1)  quando se refere a uma obrigação imposta por  Lei, no caso a Lei 9.394 (LDBEN) e 2) no caso de pressão moral da comunidade universitária (docentes, alunos e funcionários).  Como imposição de Lei, no caso a LDBEN,  em geral, os docentes têm  obedecido efetivamente à Lei à medida que cada profissional de educação escolar cumpre, conforme sua carga horária de trabalho,  a tarefa de ministrar os dias letivos e hora-aulas.

No tirante à pressão moral, o que nos leva a evocar aqui uma questão de ordem ética, a verdade é que maioria dos docentes, em sala de aula, busca oferecer boas condições de ensino aos nossos alunos, de ofertar à comunidade um ensino de qualidade, um ensino voltado à aprendizagem do aluno, esforço traduzido, eticamente, como um caráter imperativo, na relação interpessoal professor-aluno que se impõe à consciência de cada profissional de educação escolar,  sem a necessidade de coerção física ou terrorismo psicológico por parte dos gestores escolares, diretores ou coordenadores dos estabelecimentos de ensino.

Uma última palavra é a seguinte: é papel dos estabelecimentos de ensino, quanto à freqüência dos docentes às aulas, tomar, sempre, como guia de acompanhamento profissional, o que prescreve a LDBEN, diretriz importante para o trabalho escolar. O artigo da 13, da LDB, diz, entre as incumbências dos docentes (a rigor, os professores com cargos públicos ou contratados segundo as normas trabalhistas da CLT) está a de  ministrarem “dias letivos e horas-aulas estabelecidos, além de participar integralmente dos períodos dedicados ao planejamento, avaliação e ao desenvolvimento profissional”.

Fora do ordenamento jurídico, especialmente o do parâmetro estabelecido pela LDBEN, qualquer instituição de ensino, pública ou privada, municipal ou estadual ou federal,  que negue o princípio de liberdade de ensinar do docente e a liberdade de aprender do aluno estará fora da lei, em desobediência civil.

Numa exegese simples, significa que os docentes devem ministrar  os dias letivos, dentro ou fora do estabelecimento de ensino,  com ou sem a presença dos alunos, como no caso do tempo de preparação para suas atividades didáticas em sala de aula. De outro modo, aos docentes deve ser assegurada a tarefa de ministrar horas-aula, dentro ou fora também dos estabelecimentos de ensino, sendo que, neste caso, unicamente nesta situação, com a presença obrigatória dos alunos.

 

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

O FREI VOADOR ou o noviço rebelde – por jb vidal

 

 

 

certamente ele queria estar mais próximo da aventura do que de Deus. servir ao Senhor seria aqui, em baixo, na terra, em solo, na igreja.

 

ver o mundo “de cima” como os governos, os poderosos (sic) e quem sabe ver como Deus vê. certamente tudo que lhe vinha aos pensamentos era eletrizante, fascinante, algo que nunca sentira mas imaginara. fantástico. recorde. guines!

 

por que não? e ainda, por algumas horas, perder contato com a realidade dos pobres, dos sofredores que lhe acudiam desde as primeiras horas da manhã, exalando álcool, éter e loucura, outros, desesperança, fome e suicídio.

 

por que não? afastar-se das carpideiras, rezadeiras, puxadoras, não de samba nem de baseado, pior, de ladainhas intermináveis que até os santos se fazem de surdos.

ausentar-se da hipocrisia das senhoras first class xeirando à xanel nº5 das três fronteiras e de seus xás beneficientes onde oferecem mais desfiles e fuxicos do que esmola. de lambuja, se distanciaria, dos candidatos a prefeito e vereador, todos em fila indiana a pedir-lhe os votos de quem comunga, não comunga e excomunga, a benção sagrada sobre aquela urna desgraçada que irá receber os votos, e assim conter um X divino no seu nome.

 

por que não? sentir e ouvir o silêncio total das alturas, usá-lo, respirá-lo, absorve-lo e refletir sobre o que foi vivido até então; distante de tudo o que poderia influenciá-lo, tv, rádio, jornais, senhoras pecadoras, crianças mijadas, mendigos sujos, pecadores que não pecaram, virgens putas, putas santas, homens cínicos, hipócritas, falsos, corruptos que se consideram espertos, pessoas enfim que formam o mar de lama em que convive.

 

por que não? quem sabe essas poucas horas nas alturas fossem o mais importante momento a ser vivido? ser uma ave de arribação, voar a rota completa, ver abismos e penhascos como pontos de descanso, falar e não ser ouvido; quem sabe, de lá, pudesse compreender a humanidade? e, aí, não desejar mais retornar?

 

quem sabe?… por que não?…

 

– soltem os balões!!

 

 

 

 

             arte livre. ilustração do site.

ROPA USADA poema de francisco cenamor – Madrid/Espanha

yo me llevo la ropa usada

otros se llevan mis regalos

los besos, las caricias

la piel joven

 

se quedan el dinero

la posición social, el buen coche

la casa, el perro, los niños

las noches de amor

 

se quedan también mis ideas

mientras me asolan mis actos

ella se va con otro en el coche

mis manos se alegran

con su ropa usada para mis pobres

 

a mí me quedan mis niños y niñas

que un día me hacen tocar el cielo

para bajarme al día siguiente a los infiernos

si es que hay varios infiernos abajo

y un solo cielo en lo alto

 

mi familia también me queda

junto a esa pléyade de amigos y amigas

algunos de los mejores

 

también me queda dios

por eso ellos pasan con sus coches

mientras yo permanezco

con mis bolsas de su ropa usada

 

vale, sí, me duele

pero no me duele por sus coches y así

sino por ella, o sea por mí entonces

porque no podré sentirla, sólo quererla

por qué no podré sentirla, sólo quererla

 

 

Del libro Amando nubes (Talasa Ediciones, Madrid, 1999)

 

POEMA DE DESENCANTO – de leonardo meimes

Se, pelo menos, eu pudesse fazer um soneto.

O soneto que todos se lembrarão.

Um que as pessoas pedirão para ouvir,

Para bandas musicarem e amantes cantarem.

 

Um soneto para lembrar as pessoas da paz?

Ou um para falar de amor?

Talvez alguma coisa sobre a Terra…

Eu preciso que seja real, só o que eu preciso.

 

Eu criarei cada linha como se fosse uma parte do meu coração.

……………………………………………………………………………………….

Vou chorar por cada linha,

Um rio de criatividade,

  Um rio de dor.

 

O soneto solitário,

O soneto quebrador de corações,

Um para falar dos humanos

E fazer o verdadeiro sentimento

Vir a tona como lagrimas.

.

                                                                        .

Mas não um soneto como todos os outros.

Um soneto que não precisa estar em nenhum padrão,

Sem limite de linhas, sem forma para seguir.

 

Eu quero um soneto livre, real e expressivo.

Um para amantes, professores, garotas…

Poesia para se viver com e esquecer o resto.

UMA LINHA D’ÁGUA poema de lilian reinhardt

                              

Com esta pele d’água
te bebo   no espelho,
além da transmigração dos segredos,
além dos estranhos reinos dos ossos,
entre os esboços das rosas,
no rosto do chão,
na noite marinha da montanha,
na fermentação do absoluto magma da fera,
essencialmente na lâmina do tempo,
nesta linha perdida d’água!…

ORIGENS poema de vera lúcia kalaari – Angola/Portugal

 

 

 

Eu vim da terra dos traídos

Vim dum monte de sonhos destroçados

Vim de cidades em ruinas

Dum bando de famintos revoltados.

Amei os pobres, as crianças, as mães amarguradas.

Fui choro, fui pranto de muitos lares,

Fui o roçar de facas, de chibatadas.

Entrei nos templos, p’ra  achar pureza,

Desci às ruas, p’ra conhecer tristeza.

Fui bandeira branca, desfraldada,

Fui lágrima de noiva abandonada.

Fui grito de dor, brado de morte,

Fui brinquedo morrendo com um menino.

Fui solidão e fui miséria

Fui flor de sangue derramado.

Eu vim da terra dos traídos…

 

Da terra sem lares, ou maternas mãos…

Sem portos, sem ruas, sem amores,

Sem Credos, sem Deus, sem alvoradas…

Vim dum bando de crianças inocentes

Qu´esperavam com fé p´la madrugada,

Que não conheciam ódios raciais

E tinham direito à sua sobrevivência.

Eu sou a que está convosco, incompreendidos,

Que não querem curvar-se ao cativeiro,

Que querem ser livres, encontrarem-se,

E acreditam que num futuro aurifulgente,

Num mundo sem ódios, nem concessões,

Tudo será melhor, será diferente.

 

OLIMPÍADAS COMEÇAM EM CASA por cleto de assis

 

 

Nos jogos olímpicos que hoje se encerram, uma pequena ilha do Caribe nos deu uma grande lição. Entre os países americanos, a Jamaica ficou em segundo lugar no ranking olímpico, atrás apenas dos Estados Unidos da América do Norte e à frente do Canadá, do Brasil e de Cuba.  A Jamaica chegou ao final dos jogos em 13º lugar, enquanto os três outros países alcançaram, respectivamente, os 19º, 23º e 28º lugares.

A Jamaica, senhoras e senhores, literalmente isolada no mar caribe, ocupa uma área de apenas 10.991 km2, exatamente a metade de Sergipe, o menor estado brasileiro. Com uma população de 2 milhões e 700 mil habitantes, cem mil a menos do que a nossa Bahia, equivale, portanto, a pouco menos de 1,5% da população brasileira total.

Até o ano de 1940, quando foram descobertas reservas de bauxita naquela ilha, a economia jamaicana era inferior à nossa da época colonial. Lá se vivia apenas da agricultura, que tinha na banana e na cana-de-açúcar seus principais sustentáculos. Além do famoso rum, é claro. Segundo o Banco Mundial, hoje a Jamaica tem um PIB anual de cerca de 20.183 milhões de dólares americanos, enquanto o Brasil alcança um bilhão e 695 milhões. Seu PIB per capita, portanto, ascende a de cerca de US$ 7,500, contra US$ 9,700 do Brasil.

O que nos diferencia, culturalmente, da Jamaica? Nosso inter-relacionamento cultural tem se dado principalmente por meio da música. E muita gente vê na Jamaica uma irmandade com a Bahia, hospedeira do reggae jamaicano como se baiano fosse. Também há identidade entre o sincretismo religioso, igualmente herdado das raízes africanas. As bandeiras de ambos os países têm as cores verde e amarela. E quase nada mais. Ao contrário do Brasil, eternamente administrado ao vai da valsa, isto é, de acordo com os acontecimentos do dia, a Jamaica tem um plano de desenvolvimento que visa o ano de 2030. Isso significa que eles decidiram atingir toda a próxima geração de jamaicanos para que a pequena ilha tropical possa alcançar a coesão social e o desenvolvimento pretendido. Plano de estado e não um simples plano de governo.

A Jamaica ainda pertence à comunidade britânica, mas goza de relativa independência. Deve ter recebido dos ingleses o respeito à educação, o mesmo sentimento que fez prosperar outro filho da Grã-Bretanha, os Estados Unidos da América do Norte.

Os jamaicanos, conforme declarou há alguns dias o seu herói esportivo Usain Bolt, desenvolveram um grande diferencial para poder galgar pódios: determinação e muito trabalho. Aliás, essa determinação foi provada em 1988, quando o pequeno país antilhano, com temperaturas anuais variando entre 25 e 38 graus centígrados, foi representado por quatro teimosos atletas nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988, em Calgary, no Canadá. Eles pilotaram um desengonçado bobsled, trenó de corrida habilmente dirigido por atletas de países que têm neve na porta de casa.

Acredito que muita gente lembra esse fato. Ele foi documentado em um filme dos Estudios Disney, em 1993, dirigido por Jon Turtletaub, Cool Runnings, que no Brasil recebeu o título de Jamaica Abaixo de Zero. Embora o roteiro tenha optado por um clima quase caricato e um pouco fantasioso, o que valeu, na verdade, naquela aventura esportiva, foi a tenacidade dos quatro atletas, que enfrentaram todas as dificuldades para realizar um sonho. Não ganharam prêmios na début olímpico, mas a equipe voltou aos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, na França, terminando em 14º lugar, à frente dos Estados Unidos, da Rússia, da França e da Itália. A equipe de trenó de dois lugares terminou em 10º, batendo a equipe sueca. E a pertinácia valeu: no ano de 2000 eles ganharam sua primeira medalha de ouro nessa modalidade no World Push Bobsled Championships, nos Estados Unidos.

Usain Bolt não comentou, mas o contínuo trabalho para criar atletas, na Jamaica, começa nas escolas, com meninos e meninas. Não foi à toa que o país conquistou seis medalhas de ouro em Pequim, o dobro das medalhas do Brasil, com uma delegação de apenas 57 atletas.

Enquanto isso, nos preparamos, com Pelé de embaixador, para lutar pelas Olimpíadas de 2016. O presidente Lula foi à China, na abertura dos jogos de Pequim, com a missão explícita de defender a nossa candidatura perante o Comitê Olímpico Internacional. E acredita-se que o Brasil tem todas as condições políticas para reclamar a sede de 2016, já que poucas vezes os jogos olímpicos se realizaram no hemisfério sul.

Creio, em princípio, que é muito boa essa candidatura, pois os jogos olímpicos trazem vários benefícios para os países que os sediam. O difícil é acreditar que estaremos preparados, nos próximos oito anos, para levar a cabo tamanha responsabilidade. À exceção dos jogos de 1928, o Brasil participou de todas as demais Olimpíadas realizadas a partir de 1920. Parece que aprendemos pouco sobre o que é a preparação de delegações esportivas para representar o país em eventos que reúnem a nata do atletismo e dos esportes em geral. Não sei do que vive o Comitê Olímpico Brasileiro, mas suas dificuldades financeiras são visíveis e declaradas por seu próprio presidente, apesar de seu ufanismo, quando diz que, de quatro em quatro anos, o Brasil dá saltos para se transformar em uma potência olímpica.

Foi no site do COB que conheci algumas historinhas interessantes sobre essa escalada histórica.  Por exemplo, a melhor performance da equipe brasileira nos jogos olímpicos foi registrada em sua primeira participação, nas Olimpíadas de Antuérpia, na Bélgica, que levavam o número VII. Ficamos em 15º lugar, no ranking final, apesar da exígua representação de 21 atletas. De lá para cá, descemos e pouco subimos. Até mesmo a última, que hoje se encerra com a vitória monumental da China, registra um decréscimo em relação à de Atenas, de 2004,  quando 125 homens e 122 mulheres  fizeram mais dos que os 145 homens e as 132 mulheres de agora. Para quem quiser fazer um estudo comparativo mais apurado, ofereço um quadro resumido da história do Brasil olímpico, que vai ao final dessas considerações não muito breves.

E por falar em história, vejam só o que nos conta o mesmo site do COB (http://www.cob.org.br/) , ao relatar o que se passou com a sofrida delegação brasileira presente nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1932:

 Dos 82 atletas (81 homens e uma mulher) que integravam a delegação brasileira enviada a Los Angeles, somente 67 participaram dos Jogos. Para cada passageiro que deixasse o navio Itaquicê, onde viajaram durante um mês, as autoridades locais cobravam um dólar. Como os recursos eram escassos, os organizadores decidiram que só desceriam os que tinham chances de medalha. Em seguida, os integrantes das equipes de pólo aquático, do remo e do atletismo também receberam autorização para desembarcar.

Uma exceção foi aberta por cavalheirismo e a nadadora Maria Lenk, aos 17 anos, foi a primeira sul-americana a participar de uma competição Olímpica. Ela nadou em três provas: 100m livre, 100m costas e 200m peito.

Outra história, em especial, teve um desfecho inusitado. Adalberto Cardoso era um dos que estava impedido de desembarcar, mas escapou do navio rumo ao Estádio Olímpico, a cerca de 19 quilômetros. O atleta chegou a dez minutos do início dos 10.000m e participou da prova com os pés descalços.

A missão enviada a Los Angeles ainda guardou outros detalhes curiosos. Um deles é que o navio em questão estava camuflado de barco de guerra para não pagar pedágio no Canal do Panamá. Não adiantou: ao aportar, inspetores subiram a bordo, verificaram que os canhões eram mera decoração e a delegação teve que arcar com o tributo. Além disso, os porões do Itaquicê transportavam 55.000 sacas de café e os atletas tinham o compromisso de vendê-las nos portos durante as paradas do percurso. Quem não desembarcou em São Pedro para os Jogos, seguiu viagem até São Francisco para encontrar compradores.

Naqueles jogos não conquistamos qualquer medalha, mas poderíamos nos ter auto-premiados com as medalhas do descaso governamental, da pobreza cultural e, para não ficar de fora, do tradicional jeitinho e da corrupção.

Para entender melhor meu aparente pessimismo (que não quer dizer derrotismo), façamos algumas perguntas muitos simples. A primeira é: de onde surgem nossos atletas? Já respondendo, verificamos que a grande maioria dos que se destacam no atletismo nasce de sonhos de superação econômica, nas corridas de pés descalços pelas estradas poeirentas do sertão nordestino ou das periferias das cidades. Outra parte de ocasional incentivo de clubes esportivos ou sociais das grandes urbes. Uma minoria, aquela que participa dos chamados esportes de elite, como o hipismo, a esgrima, a vela e o tiro, de seu autopatrocínio. Muitas vezes, um hobby que se transforma em esporte olímpico.

Outra perguntinha inconveniente: onde estão os antigos jogos colegiais e universitários, que também revelavam craques em várias modalidades? E o esporte nas escolas, ainda existe? Apesar da proliferação dos cursos universitários de Educação Física? Não sei responder em detalhes a essas duas últimas questões, pelo menos no momento e não quero perder muito tempo procurando respostas na Internet. O que me espanta é que, a exemplo de alguns candidatos às próximas eleições de Curitiba, muita gente está reinventando a roda na área esportiva e esparramando pérolas, como aquele que se diz jovem e “criador dos jogos colegiais” (deve ter nascido há muito mais tempo do que ele próprio imagina) e do prefeiturável que quer construir centros de lazer para os jovens das periferias, quando a solução mais simples (que defendo há muito tempo) é fazer de cada escola um centro de convivência social, melhorando e aproveitado as suas estruturas esportivas e culturais para que toda a comunidade circunvizinha aproveite e respeite mais o templo escolar. Ele mesmo não se dá a entender quando afirma que “a prática desportiva deve começar na escola” mas “não há participação das escolas nos jogos escolares” (sic).

E é para ele a outra questiúncula: e as universidades, Magnífico Reitor, onde é que estão? Pois todos sabemos que, nos EUA, as instituições de ensino superior catam atletas até em outros países, concedendo-lhes polpudas bolsas de estudos para enriquecer suas equipes esportivas. Aposto que cada universidade brasileira, pelo menos as federais – as chamadas universidades públicas para as quais as chamadas elites econômicas são mais chamadas – mantêm estruturas esportivas de alto nível e cursos de formação para a área. Mas quantos atletas têm formado? Quais seus legítimos representantes nos jogos olímpicos? Elas valorizam os talentos que surgem nas camadas mais pobres e os atraem para seus bancos escolares? O que vemos é um caminho inverso: o atleta profissional bem realizado é que procura, quase ao final de sua carreira, uma matrícula em um curso de Educação Física para consolidar o status social que conseguiu.

O que eu queria, como brasileiro e não como atleta que não sou (os únicos músculos que utilizo, em matéria de esportes, são os faciais, para mostrar satisfação ou decepção com alguns eventos que assisto pela televisão, além dos glúteos que às vezes se mexem na poltrona), era ver uma revolução educacional e cultural em nosso país nos próximos oito anos, que nos tornasse merecedores de recepcionar os demais países nos ainda virtuais XIX Jogos Olímpicos de Verão (?) do Rio de Janeiro. Com todas as reformas necessárias. Reforma da Educação, da Segurança Pública, da Saúde, dos programas de geração e manutenção de empregos, das condições de moradia, entre as principais. É muito? É o mínimo que podemos querer. Vejam que até a velha Londres está pensando em um programa de múltiplas reformas para 2012.

Embora não seja seu eleitor, me orgulharia muito se pudesse ver o presidente Lula receber, na próxima semana, todos os nossos bravos atletas de Pequim em uma solenidade no Palácio do Planalto (ou no Maracanãzinho, por que não?) e entregar-lhes um diploma de agradecimento pelo muito que fizeram pela representação do Brasil. Com vitórias ou derrotas, com medalhas ou com muito choro.

Gostaria de ouvir, em seu discurso de agradecimento, a notícia de que ele estaria criando a Universidade dos Esportes do Brasil (a Jamaica tem uma), que coordenaria os demais centros de excelência que todas as IES brasileiras, oficiais ou particulares, passariam a montar, já nas próximas semanas, com reformulação dos seus cursos afins e um grande direcionamento para as escolas fundamentais e de segundo grau. Adoraria ouvir dele um convite para que todo atleta que agora volta da China se transformasse em um agente dessa revolução cultural que necessitamos para receber os jogos de 2016. E assumisse, em nome de seus sucessores, companheiros ou não, o compromisso simples e exeqüível de arrumar a casa para poder receber as visitas.

Porque as Olimpíadas devem começar em casa.

 

Curitiba

24.agosto.2004

 

 

ilustração de cleto de assis.

 

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RESUMO HISTÓRICO DA PARTICIPAÇÃO DO BRASIL NOS JOGOS OLÍMPICOS

 

 

Ano: 1920

VII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Antuérpia, Bélgica

Posição: 15º

Número de Atletas: 21 homens

Modalidades: Natação, pólo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro esportivo

Medalhas:               01 Ouro      Tiro rápido (25m) masculino Guilherme Paraense

                                                                                                                                                            01 Prata           Tiro Pistola livre (50m) masculino Afrânio Costa

01 Bronze Pistola livre (por equipe) masculino – Afrânio Costa, Dario Barbosa, Fernando Soledade, Guilherme Paraense, Sebastião Wolf

 

 

Ano: 1924

VIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Paris, França

Número de Atletas: 12 homens

Modalidades: Atletismo, remo e tiro esportivo

Medalhas:               nenhuma

 

 

Ano: 1928

IX Jogos Olímpicos de Verão Olimpíada

Local: Amsterdã, Holanda

O Brasil não participou, em razão da crise financeira

 

Ano: 1932

X Jogos Olímpicos de Verão

Local: Los Angeles, EUA

Número de Atletas: 66 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, remo e tiro esportivo

Medalhas:               Nenhuma

 

Ano: 1936

XI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Berlim, Alemanha

Número de Atletas: 88 homens e seis mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, natação, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               Nenhuma

 

Ano: 1940

XII Jogos Olímpicos de Verão

Não realizada

 

Ano: 1944

XIII Jogos Olímpicos de Verão

Não realizada

 

Ano: 1948

XIV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Londres, Grã Bretanha

Posição: 34º

Número de Atletas: 70 homens e 11 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, saltos ornamentais, hipismo, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Bronze    Basquete masculino

 

Ano: 1952

XV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Helsinque, Finlândia

Posição: 25º

Número de Atletas: 193 homens e oito mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Ouro      Salto triplo masculino – Adhemar Ferreira da Silva

               02 Bronze  Salto em altura masculino – José Telles da Conceição

                                                                  Natação – 1.500m livre masculino – Tetsuo Okamoto

 

Ano: 1956

XVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Melbourne, Austrália

Posição: 25º

Número de Atletas: 47 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, saltos ornamentais, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               01 Ouro      Salto triplo masculino – Adhemar Ferreira da Silva

 

Ano: 1960

XVII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Roma, Itália

Posição: 40º

Número de Atletas: 80 homens e uma mulher

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, hipismo, levantamento de peso, pentatlo moderno, remo, tiro esportivo e vela

Medalhas:               02 Bronze    Basquete masculino

                              Natação – 100m livre masculino – Manuel dos Santos Junior

 

Ano: 1964

XVIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Tóquio, Japão

Posição: 39º

Número de Atletas: 21 homens

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, futebol, hipismo, judô, natação, pólo aquático, pentatlo moderno, vela e vôlei

Medalhas:               01 Bronze    Basquete masculino

 

Ano: 1968

XIX  Jogos Olímpicos de Verão

Local: Cidade do México, México

Posição: 35º

Número de Atletas: 81 homens e três mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, esgrima, natação, pólo aquático, futebol, hipismo, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Prata      Salto triplo masculino – Nelson Prudêncio

               02 Bronze         Boxe – Classe Mosca – Servílio de Oliveira

                                               Vela – Classe Flying Dutchman – Burkhard Cordes e Reinaldo Conrad

 

Ano: 1972

XX Jogos Olímpicos de Verão

Local: Munique, Alemanha

Posição: 41º

Número de Atletas: 84 homens e cinco mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, futebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Bronze    Salto triplo masculino –  Nelson Prudêncio

                                               Judô – Meio-pesado masculino – Chiaki Ishii

 

 

Ano: 1976

XXI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Montreal, Canadá

Posição: 41º

Número de Atletas: 86 homens e sete mulheres

Modalidades: Atletismo, boxe, esgrima, natação, saltos ornamentais, futebol, judô, levantamento de peso, remo, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Bronze    Salto triplo masculino – João do Pulo

                                     Vela – Classe Flying Dutchman – Peter Ficker, Reinaldo Conrad

 

Ano: 1980

XXII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Moscou, União Soviética

Posição: 18º

Número de Atletas: 94homens e 15 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, saltos ornamentais, ginástica artística, judô, levantamento de peso, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Ouro      Vela – Classe 470 masculino – Eduardo Penido e Marcos Soares

                                     Vela – Classe Tornado – Alex Welter e Lars Björkström

                              02 Bronze    Salto triplo masculino – João do Pulo

Natação – Revezamento 4x200m livre masculino – Cyro Delgado, Djan Madruga, Jorge Fernandese e Marcus Mattioli

 

Ano: 1984

XXIII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Los Angeles, EUA

Posição: 19º

Número de Atletas: 129 homens e 22 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, natação, natação sincronizada, pólo aquático, saltos ornamentais, futebol, ginástica – artística e rítmica -, hipismo, judô, remo, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Ouro      Atletismo – 800m masculino Joaquim Cruz 

05 Prata    Futebol masculino

                              Judô Meio-pesado masculino – Douglas Vieira

                              Natação – 400m medley masculino – Ricardo Prado

                              Vela – Classe Soling – Daniel Adler, Ronaldo Senfft e Torben Grael

                              Voleibol masculino

               02 Bronze         Judô – Leve masculino  – Luís Onmura

                              Judô – Médio masculino – Walter Carmona

 

Ano: 1988

XXIV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Seul, Coréia do Sul

Posição: 19º

Número de Atletas: 135 homens e 35 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, futebol, ginástica artística, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               01 Ouro      JudôMeio-pesado masculino – Aurélio Miguel                

02 Prata    800m masculino – Joaquim Cruz

                      Futebol masculino

03 Bronze  200m masculino – Robson Caetano

                      Vela – Classe Star – Nelson Falcão e Torben Grael

                      Vela – Classe Tornado – Clínio de Freitas e Lars Grael

 

Ano: 1992

XXV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Barcelona, Espanha

Posição: 25º

Número de Atletas: 146 homens e 51 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, ginástica – artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, lutas, remo, tênis, tênis de mesa, tiro com arco, tiro esportivo, vela e vôlei

Medalhas:               02 Ouro      Judô – Meio-leve masculino – Rogério Sampaio

                                               Voleibol masculino

               01 Prata    Natação – 100m livre masculino  – Gustavo Borges

 

Ano: 1996

XXVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Atlanta, EUA

Posição: 25º

Número de Atletas: 159 homens e 66 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, natação, futebol, ginástica artística, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, vela e vôlei – de quadra e de praia

Medalhas:               03 Ouro      Vela – Classe Laser masculino – Robert Scheidt

                                               Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

                                               Volei de Praia feminino – Jacqueline Silva e Sandra Pires

               02 Prata    Basquetebol feminino

                              Natação – 200m livre masculino – Gustavo Borges

                                               Volei de Praia feminino – Adriana Samuel e Mônica Rodrigues

09 Bronze  Revezamento 4x100m masculino – André Domingos, Arnaldo Oliveira, Edson Luciano Ribeiro e Robson Caetano

               Futebol masculino

                      Hipismo – Saltos por equipe  – Álvaro Affonso de Miranda Neto (Doda), André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo e Rodrigo Pessoa

               Judô – Meio-leve masculino – Henrique Guimarães

               Judô – Meio-pesado masculino – Aurélio Miguel

               Natação – 100m livre masculino – Gustavo Borges

               Natação – 50m livre masculino – Fernando Scherer (Xuxa)

               Vela – Classe Tornado – Kiko Pelicano e Lars Grael

               Voleibol feminino

 

Ano: 2000

XXV Jogos Olímpicos de Verão

Local: Sidney, Austrália

Posição: 52º

Número de Atletas: 111 homens e 94 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, natação, natação sincronizada, saltos ornamentais, futebol, ginástica – artística e rítmica -, handebol, hipismo, judô, levantamento de peso, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, triatlo, vela e vôlei – de quadra e de praia

Medalhas: 06 Prata   Revezamento 4x100m masculino André Domingos, Claudinei Quirino,                    Edson Luciano Ribeiro, Vicente Lenilson  

                                      Judô Leve masculino – Tiago Camilo 

                              Judô – Médio masculino – Carlos Honorato

                              Vela – Classe Laser masculino  – Robert Scheidt

                              Volei de Praia feminino – Adriana Behar e Shelda

                              Volei de Praia masculino – Ricardo e Zé Marco

         06 Bronze Basquete feminino

Hipismo – Saltos por equipe Alvaro Affonso de Miranda Neto (Doda), André Johannpeter, Luiz Felipe Azevedo, Rodrigo Pessoa

Natação – Revezamento 4x100m livre masculino Carlos Jayme, Edvaldo Valério, Fernando Scherer (Xuxa) e Gustavo Borges

       Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

Volei de Praia feminino – Adriana Samuel e Sandra Pires

Voleibol feminino

 

Ano: 2004

XXVI Jogos Olímpicos de Verão

Local: Atenas, Grécia

Posição: 16º

Número de Atletas: 125 homens e 122 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica – artística e rítmica, handebol, hipismo, judô, lutas, natação, natação sincronizada, pentatlo moderno, remo, saltos ornamentais, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro esportivo, triatlo, vela, vôlei – de quadra e de praia

Medalhas:               05 Ouro      Hipismo – Saltos  – RodrigoPessoa

Vela – Classe Laser masculino – Robert Scheidt

Vela – Classe Star – Marcelo Ferreira e Torben Grael

Volei de Praia masculino – Emanuel e Ricardo

Voleibol masculino

               02 Prata    Futebol feminino

                                               Volei de Praia feminino – Adriana Behar e Shelda

03 Bronze  Maratona masculino – Vanderlei Cordeiro

                      Judô – Leve masculino – Leandro Guilheiro

                      Judô – Meio-médio masculino – Flavio Canto

 

Ano: 2008

XXVII Jogos Olímpicos de Verão

Local: Pequim, China

Posição: 23º

Número de Atletas:   145 homens e 132 mulheres

Modalidades: Atletismo, basquete, boxe, canoagem, ciclismo, esgrima, futebol, futebol feminino, ginástica artística, ginástica rítmica, halterofilismo, handebol, hipismo, judô, luta livre, nado sincronizado, natação, pentatlo moderno, remo, taekwondo, tênis, tênis de mesa, tiro, tiro com arco, triatlo, vela, vôlei de quadra e de praia

Medalhas:               03 Ouro      Salto em distância feminino – Maurren Higa Maggi

                                               Natação – 50m livre masculino – César Cielo

                                               Voleibol feminino

               04 Prata    Futebol feminino

Vela – Classe Star – Bruno Prada e Robert Scheidt

       Voleibol masculino

08 Bronze  Futebol masculino

                      Judô – Leve feminino – Ketleyn Quadros

                      Judô – Leve masculino – Leandro Guilheiro

                      Judô – Meio-médio masculino – Tiago Camilo

                      Natação – 100m livre masculino – César Cielo

                      Tekwondo – > 67kg feminino – Natalia Falavigna

                      Vela – 470 feminino – Fernanda Oliveira e Isabel Swan

                      Volei de Praia masculino – Emanuel, Ricardo

 

Quadro das Medalhas do Brasil em todas as Olimpíadas

 

20 medalhas de ouro

25 medalhas de prata
46 medalhas de bronze


Colocação geral do Brasil no quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos: 37º

 

Fontes: http://www.cob.org.br/    http://www.quadrodemedalhas.com/

 

 

 

 

 

 

 

 

QUE FAZER DE MARCEL DUCHAMP? por affonso romano de sant’anna

 

            Há, pelo menos, duas maneiras de ver essa  retrospectiva de Marcel Duchamp no Museu de Arte Moderna de São Paulo. A primeira é com o olhar de 1917. A segunda é com o olhar de 2008. Com o olhar de cem anos atrás ficaremos pasmos e/ou encantados que alguém tenha decretado o fim da arte transformando, paradoxalmente, qualquer objeto cotidiano em peça de museu. Com o olhar de hoje, de quem  já atravessou os caminhos e descaminhos da história e da arte no século 20, exercita-se uma visão crítica que ensine a ver o ontem e questionar o agora.

            Duchamp tem sido vítima de dois tipos de leitura: a primeira é uma  leitura precária, superficial, repetitiva do que vem sendo dito há cem anos. Pura celebração, escrita de endosso, subserviente, intimidada diante da celebridade e da história. A rigor, é uma leitura anti-duchampiana. É´ o que se faz nos cursos de arte e nos manuais. O  segundo tipo de leitura que vitimou Duchamp é a hiper interpretação. Aí situam-se grandes ensaístas, tanto Octávio Paz e sua alucinada interpretação do  “Grande Vidro” ou Jean Clair que compara Marcel Duchamp a nada mais nada menos que Leonardo da Vinci.

            Não seria já hora de fazemos uma revisão crítica da modernocontemporaneidade? Duchamp é peça fundamental neste processo. Contraditoriamente, o dessacralizador foi sacralizado e os que o seguem são paradoxalmente anti-duchampianos. Contudo, a melhor homenagem que se pode fazer a Duchamp é contestá-lo. Não gratuitamente, mas com argumentos e conceitos pertinentes.

O séc. 20 viveu às custas de três contribuições do sec. 19: o marxismo, a psicanálise, a arte moderna. O marxismo entrou em processo de revisão,  a psicanálise está sendo reanalisada. Por que   temer a revisão da arte moderna? Uma revisão, enfatizo, não com os olhos do sec. 19, mas do sec. 21.

 

 

A COISA AUSENTE

 

            As pessoas que estão indo ver a retrospectiva de Duchamp no MAM devem estar sentindo uma certa estranheza. Além de não conseguirem conferir  as obras expostas com as teorias e as expectativas que as precedem, estão indo ver uma coisa que não está lá.  Existe um vazio, que se explica, porque na arte conceitual, o conceito é mais importante que a obra. Algumas obras são só o conceito. Por essa razão os objetos que lá estão, o urinol, a roda de bicicleta, o vidro pintado, não têm  uma singularidade,  podem ser substituídos, replicados por outros urinóis, rodas de bicicleta, etc.

             Daí decorre  que esse tipo de obra não é para ser “vista” mas para ser “pensada”. Portanto, insistir em “ver” tais obras não nos dará a chave do enigma. O enigma só será desvendado se pensarmos os conceitos geradores da obra. Não é à toa que, espertamente,   Duchamp era contra  a “arte retiniana” e fazia a apologia do ” homem cego”. Uma análise de tal arte deveria centrar-se nos conceitos que a originaram.

            Mas surge, então, uma pergunta perturbadora: por que esses conceitos nunca foram examinados? Ou melhor: esses conceitos resistem a uma análise? Qual o campo para a análise da “arte conceitual”? Certamente não é a estética nem o campo artístico, até porque Duchamp ambiguamente negava a estética e a arte. Daí surge outra questão intrigante: se as teorias artísticas e estéticas não dão conta desses problemas, em que espaço eles devem ser enfrentados?

            A resposta é: na área da filosofia, da linguística e da retórica. É até possível dizer que a arte conceitual é um ramo da literatura. No entanto, espantosamente, há cem anos que essas áreas ignoram as riquezas contraditórias das falácias duchampianas.

            Trazendo, portanto, o problema para o campo que lhe é próprio, afirmo: Duchamp era um sofista. E os sofistas que prosperaram no  sec. IV a.C.  na Grécia, prosperaram também muito na modernocontemporaneidade. O sofista acredita poder demonstrar qualquer coisa com seu discurso. Pode dizer, como Zenão, que uma tartaruga corre mais que Aquiles  ou, como Duchamp, que qualquer objeto é uma obra de arte. O sofista é um ilusionista da linguagem. Enfrentar o enigma duchampiano é desconstruir o ilusionismo retórico que ele criou. Como alertava Bachelard, há que enfrentar os “obstáculos verbais”. E Lacan,  analisando o conto “A carta roubada” de Poe, dizia que a primeira façanha do ilusionista é nos transformar em personagem de sua ficção. Deste modo, os que estão indo ao MAM ver as obras de Duchamp correm o risco  de   simplesmente caírem numa armadilha verbal. 

            No meu próximo livro “O enigma vazio”, detenho-me pormenorizadamente sobre as idéias e falácias do discurso duchampiano, aprofundando questões levantadas em “Desconstruir  Duchamp”.   Aqui, rapidamente, lembro   duas delas. A primeira falácia é sua definição de “arte”. Numa  entrevista à BBC, em 1968, disse   que “etimologicamente” a palavra “arte” significa “agir” e não “fazer”. Equívoco.  Em sânscrito, no indo-europeu, no grego, no latim, por exemplo, arte está ligada a “fazer”, à “técnica”. Mas nosso Duchamp acha que pode inventar etimologias. Se dissesse que estava inventando, poderíamos dizer como os lusos- ” tem piada”. Mas, não disse. Se bastasse “agir” para ser artista   qualquer pessoa andando na rua seria artista e os animais grandes virtuoses.

                                  

            ARGUMENTAÇÃO EM DECLIVE

 

             A retórica do frasista Duchamp pode ser desconstruída quando surpreendemos nela o que os lógicos chamam de “argumentação em declive”. Douglas Valton diz que ” o declive escorregadio é um tipo de  argumento que começa quando somos levados a reconhecer  que uma diferença entre duas coisas não é significativa. Depois disto, pode ser  difícil negar que a mesma diferença, entre a segunda e a terceira, também não é significativa. Quando esse tipo de argumento começa, pode ser tarde demais para detê-lo: entramos no declive escorregadio”.

É isto que ocorreu com o urinol (“Fountain) apresentado como obra de arte, ou seja,   quando o marchand   Arensberg, a mando de Duchamp, argumentou junto   à direção da exposição, em 1917, que se alguém mandasse cocô de cavalo como obra de arte, teriam que aceitar. Fazia sentido. Deu no que deu. Esta é uma   tática sofista que consiste em encadear afirmações, ilógicas, inverossímeis, absurdas. Se o ouvinte não pára para conferir cada unidade e a des/unidade do conjunto, se verá prisioneiro num encadeamento sem poder achar a saída.

Duchamp exercitou o declive escorregadio quando explicando o “Grande vidro” (-essa obra não terminada e sobre a qual há anotações que os próprios biógrafos chamam de  confusas e inexplicáveis), disse que aquela obra é um “atraso”. Mas como “atraso” é algo que ele não sabia como definir pois tem “diferentes sentidos”, aceitou a  “totalidade deles”; e assim desembocamos naquilo que ele jubilosamente chama de “indecisão”. E a “indecisão” (ou relativismo) de seu discurso sofista é de tal ordem que ele explica que em vez de “atraso”,   poderia dizer que o quadro é um “poema em prosa” ou uma “escarradeira de prata”. Então a obra é tudo e nada, e, sobretudo,  uma coisa que não se sabe o que é­. Assim entende-se porque para ele “tão logo começamos a por nossos pensamento em palavras e frases sai tudo errado”.

 

            Por que até hoje ninguém se dispôs a analisar tolices de certas frases duchampianas, que passam por sabedoria, como essa: “Pode alguém fazer obras que não  sejam obras de ‘ arte'”? Claro que pode, e Duchamp é um exemplo. Por que não se analisa isto: ” a idéia de julgamento deveria desaparecer”. Ou esse outro disparate: “a palavra não tem a menor  possibilidade de expressar alguma coisa”.

            Em Duchamp há um problema central: o problema da linguagem. E não sairemos da aporia que ele criou enquanto não decifrarmos a linguagem do problema. Dentro da estratégia da indecisão, os recursos estilísticos usados por ele eram a homonia( palavras semelhantes com significados diferentes), a paronomásia (grafia e pronúncia semelhante e sentido diverso) e anfibologia (termos ambíguos, obscuros). Gostava de trocadilhos e chegou a colecionar centenas deles . Com isto  construiu armadilhas verbais e conceituais que iludiram cautos e incautos. Desmontar essas armadilhas é desconstruir um mito.  Como    mentiroso paradigmático,  ele ilustra o clássico  “paradoxo do mentiroso”, pois quando o mentiroso diz que está falando a verdade,  está mentindo ou não?  O fato é que seus   solipsismos levaram várias   gerações a uma paralisia do pensamento, ao enigma vazio. Ele é o cultor do oxímoro paralisante, o avesso do oxímoro dialético este sim,  produtor de conhecimento.

           Ter dito ” sou totalmente um pseudo”  serve para absolvê-lo? Ter dito “cada palavra que lhes digo é estúpida e falsa”   o exime de responsabilidade? E o que dizer desta frase dramática escamoteada por seu adoradores: “Este século é um dos mais baixos na história da arte”. Não é ele responsável por isto?

            Individuo sedutor, inteligência brilhante, ilusionista ardiloso,  acabou por fazer com que outros tomassem como sendo  lei universal, o que era seu modo de ver e de ser. Não se lhe pode negar   o direito de ter feito o que fez, ter dito o que disse ou viver a vida que viveu. Isto tinha certo sentido em 1917. O que não se pode é mitificá-lo e deixar de analisar  objetivamente sua obra e   pensamentos    ficando na  deliquescente imitação ou fiel adoração.

            No final da vida ele disse “os anos mudam e não poderia mais ser um iconoclasta”. Entrou então, ao lado de Calder, para  o Instituto Nacional de Letras e Artes dos Estados Unidos. Assim o apóstata voltou ao seio da igreja.  É´ como se alguém tivesse a vida inteira garantido aos seus seguidores que não existe céu  nem inferno, e , no entanto, ao morrer, se despedisse cinicamente de sua grei dizendo, desculpem-me, me equivoquei, mas estou indo para o céu. Desculpem-me se infernizei a vida de vocês.

 

(03-8-08.)

EXPONDO AS VÍSCERAS (sobre poemas de marilda confortin e jb vidal) – por joão batista do lago

Tenho escrito, muito vagarosamente, uma tese sobre a coisa poética visceralista, aquilo que entendo como sendo poesia visceral; ou seja, a poesia que surge do instinto do instante (G. Bachelard) em toda a sua brutalidade fenomenal; a poesia que insurge contra verdades exatas ou absolutas, produzidas a partir de um lirismo de tipologia cartesiana ou kantiana; a poesia que se inscreve e escreve a política e a história na “carne do mundo”, onde o real se mistura à realidade, subvertendo assim a realidade dada, ajustando a poesia e o poeta ao campo de mundanidade – (Merleau-Ponty).

 

Evidentemente que enfoco tudo a partir de uma abordagem epistemológico-fenomenológico-existencial (se é que assim posso conceituar), partindo sempre de fenômenos imagéticos, noutras palavras, dos desenhos ou das imagens que “o texto poético” causa em mim: sou, assim, um caçador de imagens ou um arqueólogo de sombras existentes nas carnes poéticas. O que quero inferir com esta minha frase é que, não tenho quaisquer preocupações com “campos psicológicos ou psicanalíticos”. Acho-os, em verdade, representações de puro “significantes vazios”.

 

Neste artigo, e de forma extremamente superficial, tentarei demonstrar este arcabouço epistemológico-fenomenológico-existencial, partindo da poética de dois poetas que “caminham” por este espaço: Marilda Confortin e J.B. Vidal. Dela utilizarei a poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”; e dele, a poesia “Ofertório-Dor”. Ah! Como eu gostaria de ter escrito essas duas poesias! E mesmo sem tê-las escrito tenho a “impressão” que elas foram escritas por mim! E mesmo sem tê-las escrito elas estão em mim “encarnadas” com todos os seus campos de “mundanidade”, com todos os seus “pré” e “pós” políticos e históricos, me levando a cada leitura às imagens já registradas, bem assim, à criação de novas imagens a serem criadas. E é tudo que peço aos leitores: que captem as imagens contidas em ambas: Vejamo-las:

 

HOJE ESTOU NAQUELES DIAS…

 

Marilda Confortin

 

Dias em que o corpo

me castiga

por eu ter exercido

o poder divino

de me negar a dar à luz.

Estou naqueles dias

de terra amaldiçoada

que não fecundou

nenhuma semente

dentre as milhares

que foram plantadas.

 

Estou naqueles dias em que choro…

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio

 

Hoje estou naqueles dias

em que Deus me usa

para abortar a humanidade.

Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.

 

OFERTÓRIO-DOR

 

de jb vidal

 

a dor que ofereço não foi provocada

nem apascentada por mim e a solidão

veio com a chuva, c’os raios

com os anéis de saturno, na cauda do meteoro

fez poeira de lágrimas

e instalou-se nesta podridão

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

quero então oferecer

esta dor maior que o corpo

mais que desprezo e humilhação

mais que guerras e exploração

mais que almas aleijadas

mais que humanos em farrapas degradação

 

ofereço a dor do amor que amei

da partida sem adeus

da saudade sem sentir

da espera inquietante

do futuro irrelevante

da ânsia divina de morrer

 

*****

 

Convido-te agora, caro leitor, para, comigo, construir as imagens que ressaltam destas duas poesias. Mas, antes levantemos uma questão que se me parece indispensável e fundamental para a pintura deste quadro: em que ponto os dois “sujeitos” que falam na poesia cruzam e se entrecruzam nos seus caminhares? Em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos?

 

Resgatemos, pois, as imagens que ressaltam destas duas poesias: a) o ponto de cruzamento e entrecruzamento dos dois “sujeitos” que falam nas poesias é, exatamente, o ponto da libertação de suas dores. E com que força eles gritam essa libertação! É tanta e quanta que (penso!) nenhum ser humano escapa ou escapará das palavras vérsico-sálmicas de ambos: (Marilda) – Hoje estou naqueles dias/em que Deus me usa/para abortar a humanidade./Me deixe chorar, sofrer e sangrar só. (Vidal) – ofereço a dor do amor que amei/da partida sem adeus/da saudade sem sentir/da espera inquietante/do futuro irrelevante/da ânsia divina de morrer.

 

Há ou haverá sublimação maior que esta, ou seja, em que os dois “sujeitos” que falam nas poesias se oferecem como “um cristo” oriundo da mundanidade, para “abortar a humanidade (Marilda); da ânsia divina de morrer” (Vidal)? Que imagem (ou imagens?) fenomenal! Só mesmo os poetas conseguem considerar a imaginação como potência maior da natureza humana.

 

Mas continuemos construindo as imagens que nos sugerem os poetas. Consideremos agora a segunda questão: b) em qual “casa” eles se “encarnam” para construírem o “equilíbrio” para poder deblaterarem suas dores? Eis aqui a questão central: antes de ser “jogado no mundo”, somos “abrigados” na “casa”. Ou seja: antes de tudo – de tudo mesmo – somos “encarnados” na mundanidade das casas. Somente a “casa”, e em especial a “casa natal”, nos fornece os elementos essenciais para o processo de aprendizagem e de apreendidade do mundo. Que imagem fenomenal, caro leitor! Ao ponto de me fazer lembrar da Alegoria da Caverna, de Platão (e traçar uma analogia, aqui e agora, sobre isso tornaria este artigo muito extenso). Quem de nós, porventura, por um instante sequer, não já projetou ou projeta a “sua” casa como “campo de concentração de segurança”? Com certeza todos! Mas, qual é a “casa” dos “sujeitos” que falam nas poesias? É a casa primeira: o corpo. É no corpo que habita a poesia. É no corpo que habita o poeta. É no corpo que a poesia é encarnada. É no corpo que o poeta é encarnado.

 

Você, caro leitor, pode até imaginar que eu estou falando de um campo metafórico. Contudo ouso dizer-te: não! Não estou aqui me referindo a metáforas – muito embora ela se configure implicitamente -; mas à existência dos “sujeitos” das poesias que fazem (e dão) sentido; falo da existencialidade; falo do real e da realidade, desse mesmíssimo real que subverte a realidade, para ser a realidade do real: a casa-corpo no seu pleno movimento de formas que surgem a cada instante do fundo de si: (Marilda) – Dias em que o corpo me castiga; (Vidal) – Esta dor maior que o corpo. Que imagens! Que imagens! Fantásticas! Perceberam o movimento dialético dos versos que são, per se, construtores de novas imagens? Senão vejamos: (Marilda) – corpo X castigo; (Vidal) dor X corpo. Quantas imagens surgem na mente a partir dessa dicotomia dialética!

Passemos para a terceira questão proposta por mim: c) qual a cor e a espessura da tinta que ambos utilizam para pintarem seus quadros ou simplesmente “um” quadro? Muito embora fosse prudente falar dos vários quadros que poderiam ser pintados, sugiro que me acompanhem no raciocínio de apenas uma imagem. Os “sujeitos” que falam nas poesias nos sugerem quadros pintados com a cor vermelha em suas “nuanças” várias. Mas aqui podemos ressaltar (também!) que tais “nuanças” não sejam pura e tão-somente matizes figuradas. Não. A cor vermelha que sobressai da imagem que crio é sangue puro… vivo… correndo por todas as veias e saltando por todos os poros para significar uma matiz existencialista, como nos mostra esta estrofe da poesia “Ofertório-dor”, do poeta JB Vidal:

 

soube então da dor de parir

e parido fui,

da dor da fome e fome senti

da dor do sangue e o sangue correu

em minha’lma gnóstica

a dor assumiu e sobreviveu

 

ou como nos diz a poeta Marilda Confortin em sua poesia “Hoje Estou Naqueles Dias…”:

 

Estou naqueles dias em que choro…

Como quando Ele se arrependeu

de nos ter dado ventres férteis

e inconseqüentes

e chorou,

chorou tanto que seu pranto

afogou todas as pragas que nasceram

nos dias que antecederam

aqueles dias de dilúvio

 

Que imagens! Que imagens! Fantásticas imagens! Fenomenais!

São imagens assim que nos remetem à inferição de Gaston Bachelard: “a Filosofia da Poesia (…) deve reconhecer que o ato poético não tem passado, pelo menos um passado próximo ao longo do qual pudéssemos acompanhar sua preparação e seu advento (…). A imagem poética não está sujeita a impulso. Não é o eco de um passado. É antes o inverso: com a explosão de uma imagem, o passado longínquo ressoa de ecos e já não vemos em que profundeza esses ecos vão repercutir e morrer. (…) a imagem poética tem um ser próprio, um dinamismo próprio. (…) a imagem poética terá uma sonoridade de ser. O poeta fala no limiar do ser. (…) a imagem poética é, com efeito, essencialmente variacional. (…) a imagem não tem necessidade de um saber (…) é uma linguagem criança. (…) Nada prepara uma imagem poética: nem a cultura, no modo literário; nem a percepção, no modo psicológico”.

 

Talvez pensando nessas palavras de Gaston Bachelard foi que C.-G. Jung declarara: o interesse desvia-se da obra de arte para se perder no caos inextricável dos antecedentes psicológicos, e o poeta torna-se um caso clínico , um exemplar que porta um número determinado da psychopathia sexualis. Assim, a psicanálise da obra de arte afastou-se do seu objeto, transportou o debate para um âmbito geralmente humano, que não é de forma alguma específico do artista e principalmente não tem importância para a sua arte”.

 

Quanto às duas últimas questões por mim propostas – Qual o enunciado dos discursos desses sujeitos? Quais “nuanças” reside entre ambos? -, caríssimos leitores, se vocês perceberem bem elas se encontram imbricadas no contexto do texto. Transformaram-se, naturalmente, em questões intertextuais.

 

 

veja o poema  de marilda: AQUI

veja o poema de jb vidal: AQUI

 

SAPOS, COBRAS e BOLSA-MÁFIA – por alceu sperança

O saudoso advogado Octacílio Ribeiro, que foi um dos chefões do antigo Banestado, em sua primeira campanha à Assembléia Legislativa estava sendo levado a um “antro de perdição”. Lá, seu cabo eleitoral era aguardado pelas “tias”, que desejavam conhecer o candidato antes de votar nele. Ao saber que o destino era um “puteiro”, como se dizia, Octacílio, carola e puritano, recusou-se terminantemente a ir. O cabo eleitoral, inutilmente, tentou argumentar: “Quando cai na urna, voto de puta e de santa valem a mesma coisa!”

Na recente campanha italiana, onde a direita venceu em vários lugares, a compra de votos chegou a um tamanho grau de sofisticação que tornou completamente inviável a campanha em torno de idéias e propostas.

A fórmula é simples. Contrata-se um instituto de pesquisas para saber o que o povo quer ouvir. A equipe de marketing mistura tudo isso numa gosma coerente e bem ilustradinha. Faz um comercial de sabão em pó, só trocando a marca do sabão pelo nome do candidato ou coligação. Não vai ser nem melhor nem pior que os demais, pois isso não importa. O que conta é aquele celular com câmera que o candidato mafioso dá de presente ao eleitor nos bairros e vilas.

No dia da eleição, o eleitor vota, tira uma foto do voto e ao apresentar o “comprovante” ao mafioso, ganha, além do celular, mais 50 dólares. A compra de votos, assim, chegou de vez, além da urna eletrônica, ao mais sofisticado padrão tecnológico jamais imaginado, a ponto de que o voto consciente, fruto de boa educação e cultura, cai lá urna e vale menos um celular e 50 dólares que o voto do vendilhão.

Os religiosos que propagam a máxima “voto não preço, tem conseqüência” estão certos, mas o eleitor-meretriz que vende o voto-corpo prefere a conseqüência, uma espécie de aids cívica. Acha que nada vai mudar, por isso prefere tirar alguma vantagem do sacrifício de ir votar, antes de retornar à vidinha escrava de sempre.

O professor Pedro Cardoso da Costa em uma de suas aulas desenhou um sapo no meio de diversas cobras. O sapo era o eleitor e cada cobra, um partido. A data da eleição era o único dia, a cada dois anos, em que o sapo escolhia qual cobra deveria picá-lo. O vendedor de voto se deixa picar pela cobra já antes do dia da eleição.

Uma camaradinha nicaragüense nos disse: “Não devemos votar de vez em quando. Temos que escolher a cada minuto. Eleger a atitude que vamos tomar diante de tudo, e a todo instante”. Por isso, essa agitação toda em torno da contratação de cabos eleitorais, campanha aquecida e nas ruas nada mais é que a mera compra de votos, talvez ainda não tão sofisticada quanto a da Itália. Mas eles estão caprichando: um dia chegarão lá. Se depender da ilusão das urnas, limitando-se apenas a votar no dia da eleição, o voto da pessoa esclarecida vai valer menos uns cem dólares, gasolina, telha ou tijolos, que o voto vendido do sujeito agraciado pela Bolsa-Máfia.      

 

AROLDO MURÁ G. HAYGERT lança seu livro “VOZES do PARANÁ – RETRATOS DE PARANAENSES” no PALACETE DOS LEÕES – ESPAÇO BRDE

LEMINSKI:HOMENAGEM DO SITE AO SEU ANIVERSÁRIO COM POEMA DO CARTUNISTA SOLDA

o escritor e poeta paulo leminski, o artista visual rogério dias e o cartunista y otras cositas luiz solda. foto de francisco kava que também já entregou as moedas para o barqueiro.

         vai

        meu amigo

        desta vez

        eu não vou contigo

 

        a morte

        é um vício

        muito antigo

        só que nunca

        aconteceu comigo

 

        pode ir

        que eu não ligo

        eu fico por aqui

        separando

        o tijolo do trigo

 

        (7/6/89)

 

SOLDA

 

GETÚLIO VARGAS: HÁ 54 ANOS A MESMA REAÇÃO DE HOJE “SUICIDARAM” O GRANDE PRESIDENTE

CARTA TESTAMENTO DO PRESIDENTE GETÚLIO VARGAS

24 de agosto de 1954

     Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se novamente e se desencadeiam sobre mim.

     Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao Governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculizada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre. Não querem que o povo seja independente.

     Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores de trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançaram até 500% ao ano. Na declaração de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia a ponto de sermos obrigados a ceder.

     Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo a mim mesmo, para defender o povo que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida. Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no meu pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão. E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate.

     Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na história

Getúlio Vargas

 

 

o estadista gaúcho GETULIO VARGAS em sua estância em São Borja no Rio Grande do Sul. (1950).

 

você ouve a Carta Testamento com música de Villani-Cortes (parte I):

 

você ouve a parte II da Carta:

Rumorejando, (Assustado com uma inflação avançando).

PEQUENAS CONSTATAÇÕES, NA FALTA DE MAIORES.

Constatação I (“Poesia”, dedicada aos jovens da atualidade).

Era um sujeito empírico

Metido a satírico.

Livro, nunca havia lido

Sem, da vista, ter sofrido.

O máximo era ler gibi

Que fazia desde guri.

E nisso estacionou.

Um dia se enamorou.

Por uma jovem formosa

Que lembrava um botão de rosa.

Ela era exatamente o inverso:

Tanto em prosa como em verso,

Lia com sofreguidão de tudo

Mesmo aquele livro maçudo

Que no cara daria arrepio.

Afinal, ele era vazio!

E ela se deu conta na hora

E mandou ele embora.

“Vá pastar”, ela exclamou

Ele de dor quase gritou,

Quase soltou um urro.

“Quando fala parece um zurro.

Seu burro!”

Ele ficou casmurro.

“Você só dá na gente enfado!

Seu abobado.”

Coitado!

Constatação II (Quadrinha didática de mau exemplo).

Cada um se serviu regiamente

Três baitas pratos de feijoada.

Aí, foram pro motel ali em frente.

Quase acaba mal a patuscada*.

*Patuscada = 1. reunião festiva para comer e beber

2. folia animada, divertida e barulhenta; pândega, farra (Houaiss).

Constatação III

Rico sempre é bem-vindo; pobre, é malvisto.

Constatação IV (Reminiscências).

Quando os cursinhos, a fim de preparar candidatos para enfrentar essa excrescência que se chama vestibular, eram específicos para os cursos de engenharia e medicina, por exemplo, no do Dom Bosco havia uma turma de 70 rapazes e uma única moça para o de engenharia. Evidentemente que os tiques e o vocabulário dos rapazes, mesmo que a vestibulanda assim não o desejasse, acabaram se incorporando ao seu. O palavreado nos dias de hoje, então, nem falar: cheio de gírias, ainda que mais, digamos, espontâneo, nem por isso, para a velha geração, muito mais passível de enrubescimento. Um dia a moça entra na sala e, já da porta, grita para os mais íntimos: “Gente! ‘Sentei’ em física”…

Constatação V

Rico é sempre imune a…; pobre é sempre suscetível a…

Constatação VI (De uma dúvida crucial).

Será que as sogras, quando assistem as novelas elas torcem em favor dos vilões?

Constatação VII

Foi o jovem padreco

Que no sermão,

Por um momento,

Usou baixo calão

Ao se referir ao paramento

Como aquele treco?

Constatação VIII

E foi a macaca

Que fez fuxico

Com a comadre,

Soltando a matraca

Que o compadre,

O seo Mico,

Com cara de panaca,

Andava de banzé

Com uma jovem chipanzé?

Constatação IX

E foi o polvo,

Num baita revolvo

Deu um amasso,

Ao agarrar a polva,

Que transcendia perfume,

Com seus tentáculos,

Que pareciam aço

Dando espetáculos,

A tardinha,

A um cardume

De sardinha

Que por ali passeava,

E alguém gritava:

“Que ninguém se envolva.

Essa coisa indecente,

Com tanto pé e mão

Enroscado,

Embaralhado

Algum beliscão

Pode sobrar pra gente”.

Constatação X (Pseudo-haicai).

Em lugar onda há futrica

Muita gente curiosa

Não arreda o pé. Fica…

Constatação XI

Ficou a má lembrança:

O truco aquela vez:

Foi uma lambança,

Uma sordidez

Na última carteada

Apareceu naquela jogada

O mesmo três,

Um ilustre conhecido,

Que, na primeira, já havia saído.

Constatação XII

Rico faz charminho; pobre c. doce

Constatação XIII (Quadrinha para ser recitada aonde mais convém).

Perdi minha lapiseira,

Mas não me importei.

Eu só escrevia asneira

Como certo decreto-lei.

Constatação XIV

Deu na mídia: “Maradona é comunista da boca para fora, afirma Chilavert, o ex-goleiro da seleção paraguaia”. Data vênia, como diriam nossos juristas, mas será que alguém poderia ser comunista da boca pra fora, pra dentro, pro lado, pra cima ou pra baixo, mormente, no tempo das ditaduras da Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile, Brasil, Nicarágua, República Dominicana para citar as mais, digamos, recentes?

Constatação XV

Rico faz sacrifício; pobre, esforço.

Constatação XVI (Passível de mal-entendido).

Ela vivia mergulhada tanto nos seus pensamentos de casar com seu namorado, um oficial da marinha, que até passou a sofrer de enjôo.

Constatação XVII (Matemática meio confusa).

O candidato que semeia discórdia na cúpula do seu partido político é capaz de colher a simpatia do partido rival e a antipatia no seu próprio partido. Portanto, diretamente proporcional num caso e inversamente proporcional noutro.

Constatação XVIII

E como ponderava o obcecado: “Eu gosto muito de tirar a minha roupa. Mormente depois de ter tirado a dela”.

E-mail: josezokner@rimasprimas.com.br

 

 

foto livre. ilustração do site. FRUTOS DO MAR DE POBRE.

O MUNDO E EU poema de zuleika dos reis

 

O mundo volte de novo e eu ao mundo

algum encontro novamente entre nós

uma troca no agora entre esses dois.

Não seja tarde demais para tal câmbio.

A Lua já passou por todas as fases

infinitas vezes

desde que nos separamos .

Já não sabemos mais nada um do outro.

O que estaremos fazendo?

Tento imaginar com que olhar

o reencontro

com que silêncio

a celebração da volta.

Com que humor estaremos nesse dia?

E se, de repente, o diálogo começar

com a palavra errada?

E se a resposta a essa fala for pior ainda?

Talvez, depois de tanta ausência,

paire entre nós apenas

o silêncio infinitamente incômodo

de amantes que se perderam há muito

de repente na mesma cama

ao acaso e desconhecidos.

Como estaremos vestidos?

Com a displicência

de quem se dispõe ao fortuito?

Com a nossa melhor roupa

para um  impacto favorável?

Será que, depois de tanto tempo,

ainda seremos capazes de reconhecer

a cara um do outro?

HABEAS PINHO poema de ronaldo cunha lima e roberto pessoa de souza / joão pessoa

Na Paraíba, alguns elementos que faziam uma serenata foram presos. Embora liberados no dia seguinte, o violão foi detido. Tomando conhecimento do acontecido, o  famoso poeta e  senador Ronaldo Cunha Lima enviou uma petição ao Juiz da Comarca, em versos, solicitando a liberação do instrumento musical.

Senhor Juiz.

Roberto Pessoa de Sousa

O instrumento do “crime”que se arrola

Nesse processo de contravenção

Não é faca, revolver ou pistola,

Simplesmente, Doutor, é um violão.

Um violão, doutor, que em verdade

Não feriu nem matou um cidadão

Feriu, sim, mas a sensibilidade

De quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,

Instrumento de amor e de saudade

O crime a ele nunca se mistura

Entre ambos inexiste afinidade.

O violão é próprio dos cantores

Dos menestréis de alma enternecida

Que cantam mágoas que povoam a vida

E sufocam as suas próprias dores.

O violão é música e é canção

É sentimento, é vida, é alegria

É pureza e é néctar que extasia

É adorno espiritual do coração.

Seu viver, como o nosso, é transitório.

Mas seu destino, não, se perpetua.

Ele nasceu para cantar na rua

E não para ser arquivo de Cartório.

Ele, Doutor, que suave lenitivo

Para a alma da noite em solidão,

Não se adapta, jamais, em um arquivo

Sem gemer sua prima e seu bordão

Mande entregá-lo, pelo amor da noite

Que se sente vazia em suas horas,

Para que volte a sentir o terno acoite

De suas cordas finas e sonoras.

Liberte o violão, Doutor Juiz,

Em nome da Justiça e do Direito.

É crime, porventura, o infeliz

Cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, afinal, será pecado,

Será delito de tão vis horrores,

Perambular na rua um desgraçado

Derramando nas praças suas dores?

Mande, pois, libertá-lo da agonia

(a consciência assim nos insinua)

Não sufoque o cantar que vem da rua,

Que vem da noite para saudar o dia.

É o apelo que aqui lhe dirigimos,

Na certeza do seu acolhimento

Juntada desta aos autos nós pedimos

E pedimos, enfim, deferimento.

O juiz Roberto Pessoa de Sousa, por sua vez, despachou utilizando a mesma linguagem do poeta Ronaldo Cunha Lima: o verso popular.

Recebo a petição escrita em verso

E, despachando-a sem autuação,

Verbero o ato vil, rude e perverso,

Que prende, no Cartório, um violão.

Emudecer a prima e o bordão,

Nos confins de um arquivo, em sombra imerso,

É desumana e vil destruição

De tudo que há de belo no universo.

Que seja Sol, ainda que a desoras,

E volte á rua, em vida transviada,

Num esbanjar de lágrimas sonoras.

Se grato for, acaso ao que lhe fiz,

Noite de luz, plena madrugada,

Venha tocar à porta do Juiz.


SONHO DE AMOR poema de mário oliveira

Vivo num mundo tão belo, cheio de dúvida e incerteza.

Meus versos são tão singelos para definir tua beleza.

Teu escravo eu queria ser, para te servir toda hora.

Muitas flores te oferecer, e morar onde você mora.

 

Foi bom eu te ver calada, para eu ficar te olhando.

Por favor não diga nada para eu continuar sonhando.

Com essa imagem querida, não vou mais viver tristonho.

Se eu não for feliz na vida deixa-me ser feliz no sonho

 

Não quero ouvir a semelhança, da triste palavra não.

Para dormir com a esperança, e acordar com a ilusão.

Você não tem culpa de nada eu tenho culpa de tudo.

Tu me vê e fica calada, e eu te vejo e fico mudo.

 

Queres saber quem sou eu, sou um mendigo sonhador.

Que pede pelo amor de Deus, um pouquinho do teu amor.

Sê queres saber quem te ama, olhe em minha direção.

Com certeza verá uma chama, que sai do meu coração. 

 

Meu pensamento me carrega, pelos tempos em que vivi.

E meu coração só se alegra, quando estou pensando em ti.

Lembrar de ti é reviver, mesmo sentindo saudade.

Lembrando eu consigo ter, momentos de felicidade.

 

Gostaria de ser o ar, para tua respiração.

Para quando tu respirar, embalar teu coração.

Não sinta-se constrangida, tu não tens culpa de nada.

São os erros de minha vida, de amar a pessoa errada.

 

Teu olhar longe daqui, perdido pelo alem.

Estou tão perto de ti, tu olha e não vê ninguém.

Sê busca pelos campos, consolo paro teu coração.

Meu amor é um lírio branco ao alcance de tua mão.

 

Gostaria de estar distante, por esse mundo sem fim.

Para que esse olhar ausente estivesse olhando em mim.

Queria eu parar o tempo, para mandar no espaço.

Ter o teu consentimento, para te envolver em meus braços.

 

Queria ouvir o teu coração, tuas verdades me dizendo.

Mas, temo a desilusão de um sonho que estou vivendo.

Vivo de sonho e saudade, não me acorde, por favor.

Brincando com a felicidade, e sonhando com teu amor.

 

Não sei se você existe de verdade, e nem sei o teu endereço.

Sei apenas que és a felicidade, e teu amor neste mundo não tem preço.

Sê tu não podes amar este pobre sonhador, ao Mestre vou perguntar.

Se lá no céu tem lugar para quem morre de amor.                             

DENÚNCIA: A CNTBio vista por dentro. leitura indispensável. – pela editoria

 “A carta de Lia Giraldo é leitura indispensável para entendermos como os impulsos políticos de governo são transformados em “decisões técnicas” pelos já conhecidíssimos “especialistas”.

——-

Brasília, 17 de maio de 2007.

Excelentíssimo Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia

Excelentíssima Senhora Ministra do Meio Ambiente

Ilustríssimo Senhor Presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança

Referente: Notificação de desligamento da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança e declaração de motivos.

Há 31 anos sou servidora pública dedicada à Saúde Coletiva, dos quais 20 anos como médica sanitarista, tendo por esse período trabalhado na região siderúrgica-petroquímica de Cubatão – SP, promovendo a saúde dos trabalhadores e ambiental. Fiz meu mestrado e doutorado investigando biomarcadores para análise de risco. Há dez anos sou pesquisadora titular da Fundação Oswaldo Cruz e docente do programa de Pós-Graduação do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, onde sou responsável pelas disciplinas obrigatórias de “Filosofia da Ciência e Bioética” e de “Seminários Avançados de Pesquisa”.

Como técnica, gestora, cientista e professora tive que lidar com diversas situações de conflitos de interesses que muitas vezes emergiam de forma aguda e tenho claro que os conflitos são parte do processo social e por isso mesmo devem estar subordinados a regras de convivência civilizada, em respeito ao estado de direito e à democracia.

Sou membro titular na CTNBio como Especialista em Meio Ambiente indicada pelo Fórum Brasileiro de Organizações Não Governamentais, a partir de uma lista tríplice à Ministra do Meio Ambiente, a quem coube a escolha. Hoje, após quinze meses de minha nomeação, peço o desligamento formal dessa Comissão e apresento a titulo de reflexão algumas opiniões críticas no sentido de colaborar com o aprimoramento da biossegurança no país.

Na minha opinião, a lei 11.105/2005 que criou a CTNBio fez um grande equívoco ao retirar dos órgãos reguladores e fiscalizadores os poderes de analisar e decidir sobre os pedidos de interesse comercial relativos aos transgênicos, especialmente sobre as liberações comerciais.

A CTNBio está constituída por pessoas com título de doutorado, a maioria especialistas em biotecnologia e interessados diretamente no seu desenvolvimento. Há poucos especialistas em biossegurança, capazes de avaliar riscos para a saúde e para o meio ambiente.

Os membros da CTNBio têm mandato temporário e não são vinculados diretamente ao poder público com função específica, não podendo responder a longo prazo por problemas decorrentes da aprovação ou do indeferimento de processos.

A CTNBio não é um órgão de fomento à pesquisa ou de pós-graduação ou conselho editorial de revista acadêmica. O comportamento da maioria de seus membros é de crença em uma ciência da monocausalidade. Entretanto, estamos tratando de questões complexas, com muitas incertezas e com conseqüências sobre as quais não temos controle, especialmente quando se trata de liberações de OGMs no ambiente.

Nem mesmo o Princípio da Incerteza, que concedeu o Prêmio Nobel à Werner Heisenberg (1927), é considerado pela maioria dos denominados cientistas que compõe a CTNBio. Assim, também na prática da maioria, é desconsiderado o Princípio da Precaução, um dos pilares mais importantes do Protocolo de Biossegurança de Cartagena que deve nortear as ações políticas e administrativas dos governos signatários.

O que vemos na prática cotidiana da CTNBio são votos pré-concebidos e uma série de artimanhas obscurantistas no sentido de considerar as questões de biossegurança como dificuldades ao avanço da biotecnologia.

A razão colocada em jogo na CTNBio é a racionalidade do mercado e que está protegida por uma racionalidade científica da certeza cartesiana, onde a fragmentação do conhecimento dominado por diversos técnicos com título de doutor, impede a priorização da biossegurança e a perspectiva da tecnologia em favor da qualidade da vida, da saúde e do meio ambiente.

Não há argumentos que mobilizem essa racionalidade cristalizada como a única “verdade científica”. Além da forma desairosa no tratamento daqueles que exercem a advocacy no strito interesse público.

Participar desta Comissão requereu um esforço muito grande de tolerância diante das situações bizarras por mim vivenciadas, como a rejeição da maioria em assinar o termo de conflitos de interesse; de sentir-se constrangida com a presença nas reuniões de membro do Ministério Público ou de representantes credenciados da sociedade civil; de não atender pedido de audiência pública para debater a liberação comercial de milho transgênico, tendo o movimento social de utilizar-se de recurso judicial para garantia desse direito básico; além de outros vícios nas votações de processos de interesse comercial.

Também a falta de estrutura da Secretaria Geral da CTNBio é outra questão que nos faz pensar como é que é possível ter sido transferido para essa Comissão tanta responsabilidade sem os devidos meios para exerce-la? Assistimos a inúmeros problemas relacionados com a instrução e a tramitação de processos pela falta de condições materiais e humanas da CTNBio.

Para ilustrar cito o processo No. 01200.000782/2006-97 da AVIPE que solicitava a revisão de uma decisão da CNBS. O mesmo foi distribuído para um único parecerista pela Secretaria Geral como um processo de simples importação de milho GM para alimentar frangos. Graças à interpretação de um membro de que haveria necessidade de nomear mais um parecerista, em função dos problemas antigos deste processo que sofrera recurso da ANVISA e do MMA junto ao CNBS, é que se descobriu que este processo estava equivocado. Mesmo porque a CTNBio só poderia dar parecer a pedidos de importação de sementes para experimentos científicos. Importação de sementes para comercialização para ração animal, por exemplo, não é uma atribuição da CTNBio.

Outro fato ilustrador é o caso da apreciação do pedido de liberação comercial da vacina contra a doença de Aujeski (em que também fui um dos relatores). Os únicos quatro votos contra a liberação não seriam suficientes para a sua rejeição. No entanto, o fato de não se ter 18 votos favoráveis impediu a sua aprovação e este fato foi utilizado amplamente para justificar a redução de quorum de 2/3 para maioria simples nas votações de liberação comercial de OGM. Ocorre que o parecer contrário à aprovação desse processo trouxe uma série de argumentos que sequer foram observados por aqueles que já tinham decidido votar em favor de sua liberação.

Essa vacina está no mercado internacional há quinze anos e só é comercializada em cinco países, nenhum da comunidade européia. Esta observação levou-me a investigar as razões para tal e encontrei uma série de questões que contraindicam o seu uso na vigilância sanitária de suínos frente aos riscos de contrair a doença de Aujeski e que também são seguidas pelo Brasil.

Infelizmente este fato foi utilizado politicamente no Congresso Nacional como um argumento para justificar a redução do quorum para liberação comercial, mostrando que os interesses comerciais se sobrepujam aos interesses de biossegurança com o beneplácido da CTNBio.

Desta forma, em respeito à cidadania e a minha trajetória profissional de cientista e de formadora de recursos humanos, não poderei mais permanecer como membro de uma Comissão Técnica Nacional de Biossegurança que, a meu ver, não tem condições de responder pelas atribuições que a lei lhe confere.

Faço votos que uma profunda reflexão inspire todos aqueles que têm responsabilidade pública para que os órgãos com competência técnica e isenção de interesses possam de fato assumir o papel que o Estado deve ter na proteção da saúde, do ambiente, da sociedade, da democracia e do desenvolvimento sustentável.

Brasília, 17 de maio de 2007.

Profa. Dra. Lia Giraldo da Silva Augusto

Membro Titular da CTNBio

 

 Meio Ambiente

DEBATE: TENTANDO RECONSTRUIR A HISTÓRIA DO BRASIL

Parte da história do Brasil está em debate.

 

O Ministério Público Federal, por meio de uma ação pública conduzida pelos procuradores Marlon Alberto Weichert e Eugênio Fávero, pede a reinterpretação da lei de Anistia. A idéia é que o coronel reformado Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelo comando do DOI-Codi, em São Paulo, nos anos 70, seja responsabilizado pela tortura, morte e desaparecimento de mais de 60 pessoas.

A lei de Anistia de 1979 diz que estão isentos de responsabilidades as pessoas que cometeram crimes políticos ou conexos. Ustra não reconhece os crimes que cometeu. No entanto, o coronel usa do argumento que a tortura e os desaparecimentos ocorridos poderiam ser interpretados como crimes políticos ou conexos.

Em entrevista à Radioagência NP, o procurador Marlon Alberto Weichert explica que o argumento utilizado pelo coronel não é válido, e afirma que a responsabilização dos torturadores da ditadura militar e a abertura dos arquivos sobre o período, são fatores essenciais para que o Brasil conheça seu passado e se consolide como uma República democrática.

Radioagência NP: Porque não se pode enquadrar a tortura, assassinato e outros crimes como “conexos”?

Marlon Alberto Weichert: Essa figura de conexão entre crime praticado entre aqueles que se voltam contra o Estado e aqueles que defendem o Estado não existe. Não existe essa possibilidade, se considerar uma conexão, pela essência do crime, entre aquele que atenta contra o Estado e aquele que depois pratica um crime para justamente punir ou reprimir os crimes que pelos primeiros foram praticados. Tão pouco pode se dizer que crimes praticados pelos agentes do Estado são crimes políticos ou por motivação política. Porque os crimes políticos ou por motivação política precisam ter um elemento que se caracteriza pela intenção de você querer ir contra o poder público e, no caso, os agentes da repressão não queriam ir contra o poder público e sim, defender a ideologia e o governo vigente. Então tecnicamente não é possível de forma alguma caracterizar os crimes dos agentes da repressão como crimes conexos aos políticos.

RNP: Você diz que sem a abertura dos arquivos da ditadura “a sociedade não poderá reger sua vida civil e política de forma adequada”. Explique melhor isso.

M.A.W: Se você suprime da sociedade civil o acesso da memória do país, você está suprimindo do povo a possibilidade de conhecer os erros e os acertos que foram praticados no passado, e a partir dessa análise, adotar decisões pro futuro. Não podemos não pode esquecer que o poder é do povo e para você exercer um poder, você precisa conhecer a matéria pertinente ao exercício dessa faculdade de participar do poder. Como é que eu posso trabalhar para o futuro se eu não conheço o passado. Assim nós acabamos todos sendo meros fantoches e coadjuvantes em um processo onde deveríamos ser os protagonistas.

RNP: As ações civis que são encabeçadas pelas famílias das vítimas de tortura no DOI-Codi, pedem que o coronel Ustra apenas reconheça que participou dos crimes. Isso seria o primeiro passo para depois poder punir essas pessoas criminalmente. Mas como fornecer provas para responsabilizar pessoas por crimes que aconteceram há cerca de 30 anos?

M.A.W: Isso tem que ser analisado caso a caso. Mas existem muitas provas de que Carlos Alberto Brilhante Ustra era o comandante de um centro de tortura em São Paulo e que sob o seu comando e com base na sua omissão, se praticavam torturas e homicídios naquele lugar. Então ele [ao se omitir], assume a responsabilidade criminal sobre aqueles atos. Então uma condenação criminal de Ustra não é uma matéria de prova difícil. Há dezenas de depoimentos de pessoas que foram torturadas no DOI-Codi e que tiveram a presença dele, durante a sessão de tortura. Disso não há a menor dúvida, pois está reconhecido no próprio relatório da presidência da república sobre o direito à memória e à verdade.

RNP: Mas os casos de homicídio no Brasil têm que ser julgados em um prazo de até 20 anos. Como fica isso? Já que esses atos foram cometidos há cerca de 30 anos.

M.A.W: Isso é a questão da prescrição. Mas ocorre que quando agente do Estado, por orientação do governo praticam, de forma ampla e repetitiva, a perseguição de algum segmento da população civil, isso é se caracteriza como crimes contra a humanidade. E crimes contra a humanidade, por definição, eles não estão sujeitos a esse tipo de delimitação temporal, que é da prescrição. Então pode passar quanto tempo for que essas pessoas ainda poderão ser punidas.

RNP: Figuras como o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, se manifestaram contra a retomada sobre o debate da revisão da lei de Anistia. Em sua opinião, a que se deve isso?

M.A.W: No Brasil há certo apego à cultura do esquecimento. Só que esquecimento não constrói futuro e esquecimento não permite reconciliação, pois perdoar pressupõe conhecer e então poder perdoar. A ONU aponta que é necessário um conjunto de medidas para que um país que viveu um regime autoritário consolidar um regime democrático, que é responsabilizar aqueles que gravemente violaram os direitos humanos e reparar as vítimas. O Brasil só reparou as vítimas até hoje, mas não tomou as demais medidas. Nós temos a certeza de que quando um ministro do STF manifesta um entendimento, trata-se de um entendimento precário e provisório. Porque ele precisa ter a isenção de quando chegar o processo em suas mãos, ele não pode ter pré-julgado a causa, sob pena inclusive de ficar impedido de participar do julgamento.

 

 Radioagência NP, Juliano Domingues.

“FINAL DO MES” peça de alexandre frança no TEATRO GUAÍRA (auditório)

Sinopse

 

Uma mãe + uma filha que depende desta mãe + uma dívida de R$ 6.000,00, esta é a fórmula utilizada na nova produção da Dezoito Zero Um – Cia de teatro, que vem apresentar um novo olhar sobre a relação de pais e filhos.

 

Depois do sucesso de crítica e público de sua produção anterior (“Um Idiota de Presente”, texto escrito em homenagem a Dostoievski), a Cia quer agora apresentar ao público um olhar sobre a questão financeira no seio da classe média brasileira, utilizando como mote a relação de dependência entre uma mãe e uma filha.

 

No elenco, a consagrada e premiada atriz paranaense Claudete Pereira Jorge contracena com sua filha na vida real Helena Portela. Aqui, mais do que nunca, a interpretação alça vôos de uma realidade marcante.

 

Numa montagem que reúne elementos tanto do teatro do absurdo, quanto do naturalismo típico em comédias de costume, “Final do Mês” quer, de uma forma bem humorada, dialogar o valor do dinheiro nas relações afetivas do mundo contemporâneo.

 

Ficha técnica

 

Elenco: Claudete Pereira Jorge e Helena Portela

Texto e Direção: Alexandre França

Cenário e Figurino: Paulo Vinícius

Luz: Karol Gubert

Trilha: Carlito Birolli, Cauê Menandro e Mazzarolo

Produção: VM Produções

Dezoito Zero Um – Cia de Teatro

Duração: 60 min

Classificação: 14 anos

 

 

De 14 a 31 de agosto de 2008

Mini-Auditório do Teatro Guaíra

Quinta, sexta e sábado às 21h00

domingo às 19h00

Ingressos: R$20,00 inteira e R$10,00 meia

MARCO POLO E A CIDADE DAS MUITAS LINGUAS de frederico fullgraf

“Em seus cálculos o mestre-contador de Kublai Khan estimara sessenta luas-novas sem notícias do mercador de Veneza. Mas agora ele estava de volta, certamente abastecido de estórias. Mal disfarçando sua impudica curiosidade, o imperador parecia sentado sobre espinhos; tanto que se movia sobre a almofada de seda de Sezuan, ornada com delicados apliques de bambu. Estava impaciente, tinha confiado sua filha Cocacin à escolta de Marco Polo por mares do Índico e queria saber se Ilkhan Arghun se revelara marido digno dela.

 

“Contudo, naquele primeiro final de tarde após sua jornada ao Levante, o loquaz Marco parecia estranhamente amofinado; atitude na qual o Khan percebeu-lhe alguma dissimulação, pois o italiano irradiava uma esquisita, mas luminosa expressão. Luzimento potenciado pelo céu, que ardia em cores alaranjadas e púrpuras, e pelo perfume de romãs maduros, do jardim onde aves do paraíso alvoroçadas com o poente, gorjeavam o anúncio da noite”.

 

“Fingindo-se absorto, o viajor ensaiava a elipse que lhe permitiria circunavegar com cautela o motivo de sua excitação; que não resultava de sua viagem, mas era segredo que estava escondido naquele palácio. Observando-o de soslaio, o Grande Khan não se conteve: partiste com a promessa de falar-me das cidades da Pérsia, que horror te aflige, firengi? Hábil, com uma nesga de ironia, o veneziano engatou uma charada: ó Grande Kublai, dizei-me onde fica a “gruta do Tigre Branco” e contar-vos-ei minha aventura.

 

“Gabola, o soberano divagou sobre fantasiosa geografia, mas o mercador atalhou a pimponice, alcançando-lhe o prato de fina porcelana chim com as fragrantes tâmaras de Hormuz. E reincorporado, pareceu içar velas, pondo em movimento a barca da narrativa. Partindo de Quanzhou, fundeara em terras com nomes tão melodiosos como aromáticos seus tabacos, balsâmicas suas essências e perfumosas as suas mulheres – Sumatra, Sri Lanka, Mylapore, Madurai e Alleppey… Depois os litorais do Indh, por Gujarat, e finalmente  a Pérsia.

 

“Aqui o impaciente Khan interrompeu-o, chasqueando que estava farto de relatos sobre ´cidades invisíveis´ como Antioquina, Teodósia, Cleopatrópolis e italianices quetais (e a propósito: desde quando se interessava por mulheres?). Mas o veneziano prosseguiu imperturbável: na volta navegara por mares bizarros e escaldantes, feitos de areia. Rumando para a Costa do Ouro, transportara-se sobre a corcova de camelos, entre a Somália e o Magreb. Kublai considerou perfunctória a cartografia, então o veneziano o desafiou com novo entrecho, de enviesada concupiscência: e o que é “mergulhar às pérolas”, ó onisciente Khan?

 

Isto não pode ser!, interrompeu, insolente, Italino Calvo, afastando-se bruscamente da fogueira noturna, em torno da qual se reunia com copistas da milenar Biblioteca. Ao silente dervixe da madrassa de  Sankore, que media .o relato, não escapou na reação do italiano, a defesa contra alguma insondável estocada.  Mas antes que o irritado Calvo, há décadas aferrado às andanças de seu conterrâneo, que agora o faziam aportar nas areias abrasadas do Mali, cobrasse aclarações, o mais velho dos escribas brandiu na mão direita um pergaminho aos frangalhos: o Urbi Multilinguae. Como isto era possível, se este texto jamais fora citado em Il Milione? Calvo amuou-se desconfiado.

 

Preguiceiro, um dos copistas reacendeu seu cachimbo com um graveto em brasas e bafejou: segundo os tuaregs o pergaminho fora roubado de um galeão italiano em Darfur, alcançando Timbuktu, este porto faiscante do imenso Saara, no lombo de dromedários. E aqui escondido, como tantos outros manuscritos – este, no entanto, por ser considerado ultrajante, blasfemo, advertiu; e os mocelemanos se entreolharam, não sem ironia, estendendo-lhe o escrito.

 

Calvo lê, mas desconfia de seus próprios olhos. “Distraído pela súbita presença da cortesã que lhes serve o chá (cujas curvas intui sob as dobras do sári e cujo perfume almiscarado, gotejando dos seios fartos, lhe inebria os sentidos), Marco Polo fixa o horizonte, como se buscasse no céu as coordenadas para seu piloto. Respira fundo e diz com entonação de indiferença protocolar: não perdi tempo com o comércio do sal, do marfim e do ouro. Me desviei do curso e fui obrigado a “lamber a macaca”… A fazer o quê?, insiste o Khan, com olhos esbugalhados. Isso mesmo, responde Marco: abocanhar a “crista da concha púrpura” na Terra Santa, se é que me entende. Meca!, redargüiu Kublai. Não, Jerusalém, devolveu Marco, o cristão.

 

“Aborrecido com o relato cacete de Marco, o Khan gritou a um eunuco usbeque que lhe devolvesse a almofada atirada escada abaixo. O veneziano desviou seu olhar impaciente, e puxando da algibeira um pergaminho empoeirado, estendeu-o, desafiador: שררך אגן הסהר אל יחסר המזג ! Que língua era aquela, rosnou o desconsolado Khan. Surpreender-vos-eis com a  l í n g u a, troçou Marco, e Kublai pareceu ouvir uma vaga menção ao Cântico dos Cânticos.

 

Mas isto é um texto apócrifo, protesta Calvo, e escrito em francês arcaico, língua que Polo não falava – correto, infere o capcioso Sidi Ahmad, mas  ditou-o a Rustichello da Pisa, na prisão, durante a batalha de Curzola. Aliás, seu herói não será croata?,  alfineta o muçulmano. Dizem que veio ao mundo naquela ilha de Korčula – ou Curzola, como queira. Absurdo, brada Calvo, se ele nasceu em Veneza! O mouro se diverte, mas Calvo cala-se e lê.

 

“O autor do poema descreve uma coisa movendo-se das sandálias acima, pelo ventre, até os seios da amada, notou Marco. Quê coisa?! insiste o Khan. Espere, desconversa Marco: há nesta geografia um ponto que o faz perder a cabeça: Seu umbigo é uma cratera arredondada, jamais vaza o vinho amalgamado´. Pois o original nos fala de shor, Grande Khan, termo hebreu que deriva do Aramaico, significando ´lugar secreto´ – muito sugestivo, não lhe parece? Então a expressão do Khan fechou-se: quereis dizer-me que viajastes por meio mundo para contar-me que vos submetestes ao miserável ritual de nossa velha imperatriz Wu Hu, mulher satânica!

 

Sem dúvida o texto estava impregnado da tagarelice de Polo, vaticinou Calvo, mas neste ponto a narrativa se interrompia bruscamente, remetendo para algo de versão não autorizada, como se tivesse sido narrada em of, depois anotada de memória, alternando o narrador – uma cilada de Rustichello?

“Contou-me Polo cousas que parecem inventadas, números assombrosos, até mesmo o mundo do pecado: dentro das muralhas de Khanabalik ele contou 20 mil prostitutas, tratadas com respeito pela corte e o povo… Como que adivinhando por onde se movia a narrativa, Sidi Ahmad fixou Calvo, fez um beiço lúbrico e bombardeou-o com uma saraivada da ponta da língua –  indecência que não escapou ao dervixe e respondida obliquamente: Mansa é a palavra do Profeta, Allá esteja com ele!, ferina é apenas a língua dos homens!

 

“Embora Chabi fosse a prima-dona que trouxera os mestres budistas do Tibet à corte, Kublai tinha quatro esposas e numerosas concubinas dentro do palácio. Sendo que trinta delas eram escolhidas todos os anos entre as mais belas moças de Kungurat; segundo Polo a província famosa bela beleza de suas mulheres. Já os pais dessas moças consideravam a escolha de suas filhas como concubinas do Khan, motivo da maior felicidade.

 

Entediado com as alcoviteirices Calvo olhou o céu estrelado do Saara, colocando de lado o pergaminho pegajoso. Lascivo, o mal-educado Sidi Ahmad perguntou-lhe se tinha entendido todas aquelas “línguas”. Trazido de volta à realidade pela cusparada de um camelo, o distraído escritor latino entendeu a ironia e então sobreveio a apoteose:

 

“Segredou-me Polo que por ele se enrabichara Khutulun, sobrinha do Khan, que descreve tão brava e forte, que em todo o exército de seu pai não havia homem que lhe fosse páreo. Seus pais estavam preocupados porque até a idade dos 23 anos não se casara. Mas ela advertiu que só consentiria num casamento, se fosse vencida em combate por algum jovem que lhe desse 100 cavalos em garantia. Era tão imbatível guerreira que em pouco tempo amealhou 10 mil cavalos. Seu último pretendente lhe deixara 1 mil cavalos e retirara-se humilhado. Até seu caminho cruzar-se com o do veneziano, que guerreiro não era, mas bem dotado de outras virtudes”.

 

Apertando a ponta de seu punhal contra minha jugular, exigindo-me juramento de silêncio, disse-me o mercador que cometera traição à confiança do imperador, desonra que lhe teria custado a degola. Fingindo constrangimento, desenhou no ar as curvas do corpo adestrado da mongol e disse, extasiado: Kothulum ergueu suas faldas imperiais, debaixo das quais não vestia quaisquer calçolas, abriu suas coxas flavescentes e fez-me ajoelhar, pressionando minha boca contra seu fruto, já encharcado. Forçou-me a cabeça com as duas mãos, arquejou sobre meus lábios, murmurou coisas que não eram Mandarim nem Mongol, mais se assemelhavam a onomatopéias das cavernas, asseguro-lhe. E então, a apoteose: seu pajem ordenou-me que escrevesse com minha língua as letras do alfabeto sobre o “pico da concha púrpura”; como chamam aquela protuberância. Já sentindo cãibras, no meio da letra “o”, que é o próprio infinito, ela revirou os olhos e inundou minha boca com furiosa arrebentação de mar salgado…

 

Não acredito! praguejou Calvo e Sidi Ahmad disse apenas: pode crer! E então o italiano leu em voz alta o último parágrafo do pergaminho: “Elas (as línguas, suponho) parecem querer nos dizer que paremos de comparar medidas tolas, que o tamanho de uma língua não passa de meio palmo e seu peso não excede duas onças”, conclui Marco, com olhar debochado para Rustichello: “a língua de que falo, não é como o falo, é músculo, muito manobrável, que nunca chega cedo demais (aqui Rustichello confessa ter enrubescido). “Em outras palavras: o importante não é a carne, mas o movimento”. Dito isto, Calvo e Sidi calaram, cingidos pelo primeiro clarão da lua, que emergia por trás das dunas.

 

                             selo comemorativo. ilustração do site.

 

LUZES DA TARDE poema de tonicato miranda

                                                                                                                                 para os palavreiros

 

antes que a tarde acabe

dúvida que de mim duvida

mais um desenho a fazer

ou num poema me fazer

não falo de fazer como quem

veste o ego ou uma roupa

mas de fazer o corpo-casa

o espírito obrando sua casa

olho à janela e vejo a luz

apraz-me este ar parado

o calor manso desta tarde

borboletas belas na tarde

a vontade de desenhar perdeu

para a vontade do poema

foi bom não perder a tarde

farei desenhos mais tarde

A RELIGIÃO DA ARTE DE WILLIAM BLAKE por flávio calazans

 

 William Blake é um artista que hoje nós chamaríamos de multimídia. Versátil e eclético, tal qual Leonardo Da Vinci, Göethe e outros, Blake não se deixava restringir por preconceitos estéticos.
Blake nasceu em 28 de novembro de 1757 em Londres, expressou suas idéias por desenhos, pinturas, gravuras, poesias, prosa, etc; mesclando a produção simbólica do cérebro esquerdo com as imagens do cérebro direito.
Seu profundo conhecimento esotérico ajudou-o a compreender e expressar sua intuição mística com uma obra híbrida de imagens, palavras e cores que transmitem bem suas visões.
Aos 12 anos escreveu o livro “Esboços Poéticos”.Lia clássicos ocultistas como Paracelso, Jakob Boheme, Swedenborg, Gnósticos, Filosofia, Literatura, etc…
Blake revolucionou as técnicas de gravura com um método à base de cera e ácido em placas de bronze, coloridas à mão com aquarela.
Em 1782 casou-se com Catherine Boucher, filha de um jardineiro e analfabeta. Ele a ensinou a ler, escrever e pintar, e ela passa a ajuda-lo a colorir manualmente as gravuras, tornando-se sua admiradora apaixonada por toda a vida.
Um visitante intelectual encontrou Blake e Catherine nus no quintal da casa, lendo trechos de “Paraíso Perdido” de Milton, um para o outro, representando Adão e Eva.
Suas imagens mágicas refletem sua rica vida interior, inspiração visionária que o leva a auto-editar dois livros: “Cantos da Inocência” (1789) e “Cantos da Experiência” (1794), cada exemplar colorido à mão e diferente dos outros.
Quem teve a oportunidade de manusear estes originais afirma ter experimentado uma experiência estética e mística indescritível!
O texto e o desenho juntos lembram a arte taoísta chinesa, o E-Makimono japonês, as filacteras sacras medievais das catedrais e as nossas histórias em quadrinhos, uma linguagem de mistura de códigos, intermídia, intersemiose, meio poesia concreta, só que tudo, duzentos anos antes!
Os aforismos lembram haikais e arte calígrafa chinesa, e cabalisticamente, Blake explicou:      “Arte é a árvore da vida”.
Seus livros proféticos são de um misticismo altruísta, social, defende a Revolução Francesa e critica a miséria e exploração até de crianças, pela revolução Industrial inglesa, sendo várias vezes processado.
Blake cria um universo próprio, uma complexa mitologia pessoal que antecede Lovecraft e Clive Barker.
Para Blake, o cordeiro não é bom para representar o Cristo, o certo seria o tigre da revolta que expulsa os mercadores do templo.
Deus (Urizen) comete um pecado ao criar o universo, a separação (solve), Los (imaginação criativa) e Enitharmon (o espírito feminino), visão cósmica da ilusão humana (Maya para os yogues) até a “Filosofia dos Cinco Sentidos” (Materialismo).
O livro “Jerusalém” descreve o despertar do gigante Albion (A Humanidade) do sono de Ulro (materialismo) quando Los constrói Golgonooza, a Cidade da Arte.
Em 1809 realiza uma exposição que é sucesso de público e duramente atacada pela crítica acadêmica incomodada por suas inovações criativas, incompreendido, passa por dificuldades financeiras e ilustra catálogos de fábrica de porcelanas.
Somente depois de surgir o movimento simbolista, sua obra começou a ser compreendida em sua força criativa e coerência, chegando a influenciar até os surrealistas.
No livro ‘Casamento do Céu e Inferno”, Blake concilia bem e mal, razão e emoção, e de forma que lembra a tantra yoga, ele prega o amor sexual como via de condução para um estado de transe místico.
Sua sinceridade e amor à humanidade transparecem em toda sua obra, inclusive na figura cruel, castradora e tirânica do seu DEUS URIZEN que convida à rebelião criativa.
Blake faleceu amado por todos que conhecia a 12 de agosto de 1827.

                                                                        “Ver o mundo num grão de areia
                                                                         e o céu numa flor silvestre.
                                                                         Detém o infinito na palma da tua mão
                                                                         E a eternidade numa hora”.
                                                                                          W.Blake


 

 

           foto da nasa. feita pelo telescópio hubble. ilustração do site

 

 

A SOLIDARIEDADE É ! por rubem alves

“Se te perguntarem quem era essa que às areias e aos gelos quis ensinar a primavera…”: é assim que Cecília Meireles inicia um de seus poemas. Ensinar primavera às areias e aos gelos é coisa difícil. Gelos e areias nada sabem sobre primaveras… Pois eu desejaria saber ensinar a solidariedade a quem nada sabe sobre ela. O mundo seria melhor. Mas como ensiná-la?

Será possível ensinar a beleza de uma sonata de Mozart a um surdo? E poderei ensinar a beleza das telas de Monet a um cego? De que pedagogia irei me valer? Há coisas que não podem ser ensinadas, coisas que estão além das palavras. Cientistas, filósofos e professores são aqueles que se dedicam a ensinar as coisas que podem ser ensinadas por meio das palavras. Sobre a solidariedade muitas coisas podem ser ditas. É possível desenvolver uma psicologia da solidariedade, ou uma sociologia da solidariedade, ou uma ética da solidariedade… Mas os saberes científicos e filosóficos sobre a solidariedade não ensinam a solidariedade, da mesma forma como as críticas da música e da pintura não ensinam a beleza da música e da pintura. A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.

Palavras que se ensinam são gaiolas para pássaros engaioláveis. Mas a solidariedade é um pássaro que não pode ser engaiolado. Não pode ser dita. A solidariedade pertence à classe de pássaros que só existem em vôo. Engaiolados, eles morrem.

Walt Whitman tinha consciência disso quando disse: “Sermões e lógicas jamais convencem. O peso da noite cala bem mais fundo em minha alma…” E Fernando Pessoa sabia que aquilo que o poeta quer comunicar não se encontra nas palavras que ele diz: ela aparece nos espaços vazios que se abrem entre elas, as palavras. Nesse espaço vazio se ouve uma música. Mas essa música – de onde vem ela se não foi o poeta que a tocou?

O que pode ser ensinado são as coisas que moram no mundo de fora: astronomia, física, química, gramática, anatomia, números, letras, palavras. Mas há coisas que não estão do lado de fora, coisas que moram dentro do corpo. Estão enterradas na carne, como se fossem sementes à espera…

Sim, sim! Imagine isto: o corpo como um grande canteiro! Nele se encontram, adormecidas, em estado de latência, as mais variadas sementes. Elas poderão acordar, como a Bela Adormecida acordou com um beijo. Mas poderão também não brotar. Tudo depende…

As sementes não brotarão se sobre elas houver uma pedra. E também pode acontecer que, depois de brotar, elas sejam arrancadas… De fato, muitas plantas precisam ser arrancadas, antes que cresçam: as pragas, tiriricas, picões… Uma dessas sementes é a “solidariedade”. A solidariedade não é uma entidade do mundo de fora, ao lado de estrelas, pedras, mercadorias, dinheiro, contratos. Se ela fosse uma entidade do mundo de fora poderia ser ensinada e produzida. A solidariedade é uma entidade do mundo interior. Solidariedade nem se ensina, nem se ordena, nem se produz. A solidariedade tem de brotar e crescer como uma semente…

Veja o ipê florido! Nasceu de uma semente. Depois de crescer não será necessária nenhuma técnica, nenhum estímulo, nenhum truque para que ele floresça. Angelus Silesius, místico antigo, tem um verso que diz: “A rosa não tem porquês. Ela floresce porque floresce”. O ipê floresce porque floresce. Seu florescer é um simples transbordar natural da sua verdade.

A solidariedade é como o ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: “Seja solidário!” A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam…

Já disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna humanos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho das suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja junto dos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo.

Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por um mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Pela magia do sentimento de solidariedade meu corpo passa a ser morada do outro. É assim que acontece a bondade.

O menino me olhou com olhos suplicantes.

E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes…

 

            ilustração do site.

EDUCAÇÃO EM VALORES por vicente martins

 

 

          Pergunto à minha filha Mariana, de 11 anos, o que pensa da seguinte situação: um pai, vendo um filho passar fome, resolve roubar alimentos em um supermercado no bairro em que mora. Ele agiu certo ou errado ao cometer esse delito?”. Ela me responde: “Acho que ele agiu certo porque ao ver o filho com fome não suportou  a cena de  miséria em sua casa e  não teve saída senão roubar. Por outro lado, também agiu errado por ter roubado o supermercado; afinal, roubar é uma ação feia”.

         O que Mariana chama de “ação feia” um promotor, membro do Ministério Público, que representa a sociedade e atua como acusador contra os suspeitos de terem cometido alguma ação criminal,  poderá definir o  ato do pai  como “ apropriação indébita de bem alheio” e  um júri, formado por um juiz togado e cidadãos previamente selecionados  para o  julgamento do caso,  poderá julgar a prática do pai   como uma  transgressão imputável da lei penal por dolo ou culpa, ação ou omissão.

O exemplo acima pode nos dar uma idéia da complexidade que é viver em sociedade. A luta por um mundo melhor, por uma civilização mais humana, mais democrática e mais justa tem sido historicamente construída pelo homem. 

Atualmente, os governos, as organizações não-governamentais e os cidadãos do mundo lutam pela eqüidade. O que é a eqüidade? É uma forma de praticar a Justiça, isto é, o respeito à igualdade de direito de cada um, que independe do que está escrito nos códigos jurídicos.  No século XXI,  a sociedade, civil e política, quer que todos pratiquem a eqüidade como expressão de  um sentimento do que se considera justo,  que seja expressa em forma de  virtude de quem ou do que (atitude, comportamento, fato etc.) manifesta senso de justiça, imparcialidade, respeito à igualdade de direitos dos homens.

 Por isso, na Filosofia, a ética é o  ramo de estudos que cuida particularmente de investigar os princípios que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo especialmente a respeito da essência das normas, valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade social.

Podemos observar que as ações humanas,  em face de sentimentos,  estímulos sociais ou de necessidades íntimas,  requerem, para a boa convivência na vida social,    bons costumes, boa conduta, segundo os preceitos socialmente estabelecidos pela sociedade.  Uma pessoa,  mesmo com as mais contundentes e sensíveis justificativas,  em  situação de privação material ou  situação de fome, comete um crime ao roubar para alimentar-se. Roubar é um ato que fere a moral e os bons costumes.

 Os valores não surgem na vida  em sociedade como um trovão no céu. São construídos  na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas escolas, nas manifestações culturais, nos movimentos e organizações locais. Conhecê-los, compreendê-los e praticá-los é uma questão fundamental da sociedade atual, imersa numa rede complexa de situações e fenômenos que exige, a cada dia, atitudes éticas como  a honestidade, a bondade e a virtude, considerados, em todas as civilizações modernas,  como norteadores das relações sociais e da conduta dos homens.

 Sem a prática de valores, não podemos falar em cidadania. A cidadania é condição de pessoa que, como membro de uma sociedade, independente da cor de sua pele, raça ou classe social, se acha no gozo de direitos que lhe permitem participar da vida política e, outrossim, pode viver, como um indivíduo que usufrui de direitos civis e políticos garantidos pelo  Poder Público e desempenha os deveres que, nesta condição, lhe são atribuídos para viver em sociedade.
  Entre as diferentes ambiências humanas, a escola tem sido, historicamente, a instituição escolhida pelo Estado e pela família, como o melhor lugar para o ensino-aprendizagem dos valores, de modo a cumprir, em se tratando de educação para a vida em sociedade, a finalidade do pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o mundo do trabalho.

Sendo assim, caberá às instituições de ensino a missão, por excelência, de ensinar valores no âmbito do desenvolvimento moral dos educandos, através da seleção de conteúdos e metodologias que favoreçam temas transversais (Justiça, Solidariedade, Ética etc) presentes em todas as matérias do currículo escolar, utilizando-se, para tanto, de projetos interdisciplinares de educação em valores, aplicados em contextos determinados, fora e dentro da escola.

HOJE ESTOU NAQUELES DIAS… poema de marilda confortin

Dias em que o corpo
me castiga
por eu ter exercido
o poder divino
de me negar a dar à luz.

Estou naqueles dias
de terra amaldiçoada
que não fecundou
nenhuma semente
dentre as milhares
que foram plantadas.

Estou naqueles dias em que choro…
Como quando Ele se arrependeu
de nos ter dado ventres férteis
e inconseqüentes
e chorou,
chorou tanto que seu pranto
afogou todas as pragas que nasceram
nos dias que antecederam
aqueles dias de dilúvio

Hoje estou naqueles dias
em que Deus me usa
para abortar a humanidade.
Me deixe chorar, sofrer e sangrar só.

CIRANDA DOS PALAVREIROS poema de helio de freitas

 

 

Vidal, fiel palavreiro,

caudilho das letras,

gaúcho matreiro,

do blog leal paladino.

 

O outro Batista,

lacustre do agreste,

em tudo versado,

vate ilustre e analista.

 

Maneco poeta,

guardião da poesia

de nervos e sangue,

coração que palpita.

 

Juca barbudão rumoreja,

glosador incansável,

comentarista marcante,

neo-Salomão tão sapiente.

 

Marcelino valente,

militância sem jaça,

de verbo agressivo

que não há quem desfaça.

 

Padrela, versátil talento,

até o Marumbi escalou,

acrescenta a tão grande lista

atributos de palavreiro.

 

Egresso das receitas federais,

Saraiva exercita outras receitas,

sem cifras, só letras,

e vai bem o rapaz.

 

E Jairo Pereira,

de outro planeta,

revolução e vanguarda,

abdução de caneta.

 

Marilda e a Bárbara,

lirismo e vigor,

com muito valor,

cada qual com sua cor.

 

Tadeu bigodudo,

da Curitiba polaca

bardo raçudo,

sem texto que empaca.

 

Cleto, Filó,

rol de outros tantos

palavreiros da hora,

com brio e talento.

 

A todos vocês

o abraço fraterno,

o aplauso sincero

e muitas mercês.

 

POEMA I – poema de carolina correa

Sou pé no chão

Cabeça, nem tanto

 

Me entrego à filosofia das entrelinhas

Sem muito gosto pelo óbvio

 

Comunicação para mim vai muito mais além da mera dicção,

Por isso escolhi me comunicar pela paixão.

Daí, a compreensão daqueles que julgamos irracionais.

 

Meu objetivo de vida é a curto prazo

Pecadora

Sou guiada pelos prazeres imediatos

 

Escrevo

Canto e disseco

 

Isso é pura Carolina

Hoje.

Amanhã…

Já disse q meu objetivo de vida é a curto prazo?

SE A GENTE GRANDE SOUBESSE poema de darlan cunha

Natural que entre as alas de um dia qualquer

surja o que se torna conceito

daí pra frente, é mesmo

da natureza ser vítima e algoz de nossos membros

é o ímã ao qual não se foge, ou se foge

numa fria manhã, num quarto

de hora

qualquer, sim, vê:

se a gente grande soubesse refletir no mesmo

tom e noutros

mais apurados a matéria

dos sonhos

que nos fazem inventar e subir nos degraus

da Grande Escada, saberias tu, por

exemplo, onde o trapézio nos jogaria

um nos laços ou rodízios do outro ?

PALAVRA e ESPADA poema de walmor marcellino

 

Pende a palavra
uma espada
com fio de vidro.
Nasce tímida a palavra
sob a espada
e queima a boca a palavra
em amargo sal.

Flora de perdido hilo
em sereno vidro
vai amanhecer depois.
Agora a espada e seu fio
de anúncio e olvido.

Ela tenta seu vôo
expande a palavra
seu ar de gorjeio.
A palavra ameaça
Eu digo
Ameaça
mas seu pássaro perigo
já não voa.
Boca a boca ela resiste.
A palavra e sua flora
no espaço de suas ervas
seu som puro e liberdade.

 

MARILDA CONFORTIN no espaço cultural ALBERTO MASSUDA