Arquivos Diários: 11 agosto, 2008

DADAISMO – pela editoria

O dadaísmo surgiu no ano de 1916, por iniciativa de um grupo de artistas que, descrentes de uma sociedade que consideravam responsável pelos estragos da Primeira Guerra Mundial, decidiram romper deliberadamente com todos os valores e princípios estabelecidos por ela anteriormente, inclusive os artísticos. A própria palavra dadá não tem outro significado senão a própria falta de significado, sendo um exemplo da essência desse movimento iconoclasta.

O principal foco de difusão desta nova corrente artística foi o Café Voltaire, fundado na cidade de Zurique pelo poeta Hugo Ball e ao qual se uniram os artistas Hans Arp e Marcel Janco e o poeta romeno Tristan Tzara. Suas atuações provocativas e a publicação de inúmeros manifestos fizeram que o dadaísmo logo ficasse conhecido em toda a Europa, obtendo a adesão de artistas como Marcel Duchamp, ou Francis Picabia.

Não se deve estranhar o fato de artistas plásticos e poetas trabalharem juntos – o dadaísmo propunha a atuação interdisciplinar como única maneira possível de renovar a linguagem criativa. Dessa forma, todos podiam ter vivência de vários campos ao mesmo tempo, trocando técnicas ou combinando-as. Nihilistas, irracionais e, às vezes, subversivos, os dadaístas não romperam somente com as formas da arte, mas também com o conceito da própria arte.

Não são questionados apenas os princípios estéticos, como fizeram expressionistas ou cubistas, mas o próprio núcleo da questão artística.Negando toda possibilidade de autoridade crítica ou acadêmica, consideram válida qualquer expressão humana, inclusive a involuntária, elevando-a à categoria de obra de arte.Efêmera, mas eficaz, a arte dadaísta preparou o terreno para movimentos vanguardistas tão importantes como o surrealismo e a arte pop, entre outros.

PINTURA NO DADAÍSMO

A pintura dadaísta foi um dos grandes mistérios da história da arte do século XX. Os pintores deste movimento, guiados por uma anarquia instintiva e um forte nihilismo, não hesitaram em anular as formas, técnicas e temas da pintura, tal como tinham sido entendidos até aquele momento. Um exemplo disso eram os quadros dos antimecanismos ou máquinas de nada, nos quais o tema central era totalmente inédito para aqueles tempos.

Representavam artefatos de aparência mais poética do que mecânica, cuja função era totalmente desconhecida. Para dificultar ainda mais sua análise, os títulos escolhidos jamais tinham qualquer relação com o objeto central do quadro. Não é difícil deduzir que, exatamente através desses antitemas, os pintores expressavam sua repulsa em relação à sociedade, que com a mecanização estava causando a destruição do mundo.

Um capítulo à parte merecem as colagens, que logo se transformaram no meio ideal de expressão do sentimento dadaísta. Tratava-se da reunião de materiais aparentemente escolhidos ao acaso, nos quais sempre se podiam ler textos elaborados com recortes de jornais de diferente feição gráfica. A mistura de todo tipo de imagens extraídas da imprensa da época faz desse tipo de trabalho uma antecipação precoce da idealização dos meios de comunicação de massa, que mais tarde viria a ser a artepop.

ESCULTURA NO DADAÍSMO

A escultura dadaísta nasceu sob a influência de um forte espírito iconoclasta. Uma vez suprimidos todos os valores estéticos adquiridos e conservados até o momento pelas academias, os dadaístas se dedicaram por completo à experimentação, improvisação e desordem. Os ready mades de Marcel Duchamp não pretendiam outra coisa que não dessacralizar os conceitos de arte e artista, expondo objetos do dia-a-dia como esculturas.

Um dos mais escandalosos foi, sem dúvida, o urinol que este artista francês se atreveu a apresentar no Salão dos Independentes, competindo com as obras de outros escultores. Sua intenção foi tão-somente demonstrar até que ponto o critério subjetivo do artista podia transformar qualquer objeto em obra de arte. Com exemplos desse tipo e outros, pode-se afirmar que Marcel Duchamp é sem dúvida o primeiro pai da arte conceitual.

Apareceram também, como na pintura, os primeiros antimecanismos, máquinas construídas com os elementos mais estapafúrdios e com o único objetivo de serem expostas para desconcertar e provocar o público. Os críticos não foram muito condescendentes com essas obras, que não conseguiam compreender nem classificar. Tais manifestações, por mais absurdas e insolentes que possam parecer, começaram a definir a plástica que surgiria nos anos seguintes.

FOTOGRAFIA E CINEMA DADAÍSTA

Artistas de seu tempo, os dadaístas foram sem dúvida os primeiros a incorporar o cinema e a fotografia à sua expressão plástica. E fizeram isso de uma maneira totalmente experimental e guiados por uma espontaneidade inata. O resultado desse novo materialismo foi um cinema completamente abstrato e absurdo, por exemplo, o de diretores como Hans Richter e a fotografia experimental de Man Ray e seus seguidores.

Foi exatamente Man Ray o inventor da conhecida técnica do raiograma, que consistia em tirar a fotografia sem a câmara fotográfica, ou seja, colocando o objeto perto de um filme altamente sensível e diante de uma fonte de luz. Apesar de seu caráter totalmente experimental, as obras assim concebidas conseguiram se manter no topo da modernidade tempo suficiente para passar a fazer parte dos anais da história da fotografia e do cinema artísticos.

 fonte: internet livre.

DEDILHADOS NA MADRUGADA poema de tonicato miranda

homenagens de pianistas sempre são baristas

sempre atendem a um pedido de cliente

alô man”, uma canção especial para lembrar dela

daqueles encontros anos 80, no Karina

ela um pouco mais do que menina

flutuando no gim meu olhar de álcool aquarela

queria ouvir “Tenderly”, a canção antiga

para mostrar o meu tacho doce e agreste

algo dela que ainda em mim reste

mas navega em outros mares o pianista

a vontade dele não consigo torcer

tamborila ao piano outra toada pra você

desconfio que ele está por ela enamorado

go back man” meu dinheiro e a taça

não me rouba o amor e a felicidade dela

afasta pra lá este seu piano e o teclado

não a caça, e não me venha com ameaça

é minha e somente minha a porca e a ruela

mas que cara confuso diriam muitos

mistura piano, canções e peças do parafuso

não importa quanto seja, beba gim ou cerveja

ele é assim mesmo pelo amor de uma mulher

apenas não pode mais conter tanta ausência

morre de piano lento, é nostálgico na essência

madrugada já vai alta e ele aqui na mesa sem bar

a misturar o gim com desejos e lembranças

ainda querendo ouvir “Tenderly” na voz da Maísa

até já serve um Dindi e esta vontade que pisa

aperta e arranca um ai de saudade do pescoço

queria ser novamente dela, mais uma vez velho e moço

NIEMEYER poema de deborah o’lins de barros

 

Escuto e danço enquanto

admiro o ritmo desses traços,

que ondulam e contornam nossa

terra natal. Sua obra flâmula ao vento,

firme, tremendamente graciosa, in-

ponente. Um lápis em sua mão,

é mais revolucionário que a

revolução russa; mais

modernista que Macuna-

íma, que a poesia de Décio

Pignatari, somada à de Oswald

Andrade. Um lápis em sua mão, é a

profecia de uma ruptura; sua arquitetura

sempre nova tirou o latim de nossas

igrejas, fez tudo lembrar as praias

cariocas, onde quer que sua

arte esteja. Além de

você, só Deus, para es-

crever certo por linhas tortas.

mas não o chamarei de senhor,

pois como seus traços, você é eter-

namente jovem. Sua arte tem sotaque

do Rio de Janeiro! E se, vita brevis,

Sua arquitetura é ars longa

E a mim, só resta dizer:

Niemeyer, como eu,

também é bra-

sileiro!

OS MENINOS E EU poema de bárbara lia

 

Os meninos empinavam pipas;

eu, pássaros.

 

Os meninos folheavam revistas

de garotas nuas;

eu, assistia ao namoro dos sapos.

 

Os meninos iam ao cine;

eu, atravessava a pé

o igarapé.

 

Os meninos desenhavam piratas

tesouros, navios;

eu, a escafandrista solitária.

 

Agora

solidão nos devora

em negros prédios

meio à elite ignara

 

Os meninos vestem

negro/desencanto

seguem com cifras

nas pupilas vítreas

 

Tão tristes os meninos

reclusos, bebendo

o índice Dow Jones

com café.

 

Trocando de amantes

a cada inverno.

A alma pesada os faz andar

em cadência de elefante.

 

Eu,

desenho gravuras

em tons rosa chá

teço minhas roupas

danço minhas músicas

escrevo meus poemas.

 

Não atravesso

o vidro frio do templo

moderno

– shopping center –

 

Não atravesso

a porta de cedro

do antigo templo

 

(enquanto o Vaticano

não doar aos pobres

todo o ouro seu)

 

Vivo nas esferas

desço ao chão

para pisar águas

dos igarapés.

 

Adormeço

no berço-arraia

que me embalazul

no “mar/

belo mar selvagem…”

 

 

 

 

“Os meninos e eu” – poesia classificada entre as dez finalistas do Concurso Nacional de Poesias Helena Kolody – 2.007

CORAÇÃO e NERVOS por alceu sperança

“Você é um triste, estranho e pequeno homem. Tenho pena de você… Adeus!” (Buzz Lightyear, o robozinho futurista de Toy Story, criado para superar na preferência das crianças o bonequinho de cow-boy, a boneca de pano e os soldadinhos de chumbo)

….

As grandes corporações fabricantes de computadores estão sistematicamente desafiando os campeões mundiais de xadrez para milionários games: neles, o homem ganha fortunas em troca de alguns empates e uma ou outra derrota. É fácil para qualquer máquina superar a inteligência do homem quando ele se deixa iludir, trapacear ou é “convertido”, à custa de uma bela grana, a aceitar que a máquina é superior e aos homens inúteis só resta morrer por conta própria (“Adeus!”, diz Buzz) ou se deixar matar pelas “guardas” criadas a todo instante a pretexto de defesa da sociedade. É fácil para as máquinas – e seus poderosos manipuladores – dominar os homens que entram nesse jogo mortal.

Em 1993, como que a iniciar antecipadamente o terceiro milênio, o mundo conheceu o primeiro livro escrito por um computador. Claro, essa coisa de besta do Apocalipse tinha que dar o ar de sua desgraça nos EUA, a nação mais maravilhosa e iludida deste planeta. O “livro” não teria nada de mais se não entrasse no mercado na condição de obra futurista, que faria do gênio humano uma coisa ultrapassada e inútil até quando se trata de fazer literatura, na medida em que a arte é o último bastião da espécie humana.

As grandes corporações, portanto, não querem apenas mostrar que as máquinas podem fazer tarefas braçais e arriscadas, limpar latrinas e arriscar o couro no lugar dos homens: querem provar, simplesmente, que o gênio e a rebeldia criadora do homem são dispensáveis, que o espírito, a dor, a angústia, a neurose e o amor – essas coisas tão humanas – são desprezivelmente inúteis. O “livro”, intitulado Just This Once (“Apenas Desta Vez”), como a dizer, envergonhadamente, que essa ousadia absurda não se repetiria, teve 75% do seu texto criado por um computador, porque os outros 25% foram bestas humanas alimentando a máquina com um software de inteligência artificial e uma lista de elementos contidos em livros escritos por gente de carne e osso, coração e nervos.

Essa “obra literária” vendeu na sua primeira edição 15 mil exemplares (se fosse para ser apenas uma vez, não haveria outras edições). Esse número significa um volume de vendas duas ou três vezes superior à de qualquer livro cunhado no Brasil pelo gênio humano. Talvez à exceção de um Paulo Coelho, uma espécie de computador humano: ele requenta (ou simplifica) textos tradicionais da antiguidade para misturá-los e entregar a pizza a um público desesperado, desiludido e desencantado com a vida, ávido por coisas supostamente espirituais e “superiores”.

Mas só há uma “coisa” realmente superior: a vida, com todas as suas dores, angústias, trapalhadas, equívocos e alegrias.