Arquivos Diários: 12 agosto, 2008

CORPORATIVISMO, BRASILIA, CORRUPÇÃO, CEILÂNDIA e CASA DA MÃE JOANA – carta de ánton passaredo

Meu Caro Vidal,

 

Como estão os ares do sul e os ares de Curitiba? Espero que, embora fria como sempre, a cidade esteja vivendo bom astral, mesmo em tempo de eleições.

 

Sobre eleições considero este o momento mais desprestigiado do País. Aliás, por “bom” costume ainda escrevo País com caixa alta. Bobagem, não existe mais países. O planeta está ferrado e países são ficções mantidas para iludir os incautos. Hoje o predomínio é dos blocos. São blocos de nações, algumas nem isto são. Blocos de continentes; blocos de interesses econômicos fortes, capazes de juntar inimigos figadais; blocos de sem terras; blocos de juízes; blocos de favelados. Parece que o corporativismo se instalou em todos os setores. Marx ensinou ao trabalhador e estes ensinaram aos patrões. Ferrou. Agora todo mundo sabe que aliados são ocasionais. Mas e as eleições, o que têm a ver com tudo isto? Tudo meu caro. Este pascácio barbudo que vos fala insiste na tese, vivemos num paiseco que vota porque a lei impede o cidadão de não votar. Se por um ato sonolento qualquer passasse no congresso uma lei deixando ao livre arbítrio do brasileiro a escolha de votar ou não votar, teríamos certamente mais de 50% de abstenções nas capitais e um bom percentual no interior. Assustaria aos mais assustados dos parlamentares. Se vivo estivesse, Enéas esbugalharia os olhos, cofiaria a barba e iria vociferar para as câmeras de TV toda sua indignação, carregada de perdigotos e palavras deletérias de baixíssima compreensão ao cidadão comum. Mas eles não dormem para estas questões, Caro Vidal. Ali no congresso reside o maior de todos os corporativismos. É questão de sobrevivência. Para eles e para os cartórios eleitorais. Se eleições não houvesse onde empregar tantos juízes que trabalham apenas de dois em dois anos? Uma corporação puxa a outra. Assim, como já disse Fellini – “La nave va”.

 

Mas estes são assuntos mundanos desinteressantes, volto a perguntar: como está passando, meu amigo? Pela sua última missiva percebo que anda um tanto indignado com esta Lei Seca.

 

É verdade, ela nos afastou dos bares e lugares onde um copo e outro podiam nos levar a viagens muito mais perigosas do que aquelas nas vias e rodovias. A lei de fato não é burra, ela é idiota. Digo isto porque a lei anterior já era por demais severa. A diferença é que agora fazem fiscalização. “Pero non tanto”, não é mesmo? Dias atrás deu na TV que a autoridade maior de uma capital de um dos estados do Norte do Brasil – que não cito para não ser injusto com a cidade – atropelou e matou o garupa de uma moto e seu estado etílico estava para lá de Marackech. Está claro, algum advogado impetrou “habeas corpus” e o “cidadão” foi solto. Pobres bebuns nós, que jamais atropelamos a lingüiça dos nossos cachorros nas garagens. Passei a beber mais em casa. Acho que muita gente aderiu a isto. Mas parece que não tem o mesmo prazer. Tomamos uma e logo desistimos. Vamos dormir ou fazer outra coisa. Um terço do prazer da bebida está na conversa; o outro terço está no prazer em pedir mais uma e se quem nos está servindo for amigo, encaixar um tira-gosto ou um comentário pueril; o terço final está em pedir a saideira, que jamais acaba e vai se prolongando até quando não há mais desculpas para o adiantado da hora.

 

Aqui no Planalto continuam roubando muito bem. Para todos os lados e em todos os poderes há uma precatória, uma liminar, uma contenda judicial etc.

 

Apenas quero fazer uma correção, meu Caro Vidal. Brasília não é de forma alguma apenas uma Brasília. Não sei se você sabia, mas existem aqui vinte e três cidades. O território do Distrito Federal tem Taguatinga, Ceilândia, Gama, Paranoá, Sobradinho, Planaltina e tantas outras que iria preencher mais três linhas para citá-las. E nestas cidades florescem vidas, se produz economia, artesanato, serviços e até mesmo um pouco de ciência. É claro que o resto do Brasil vê Brasília como uma ilha. Vê o congresso e suas duas casas legislativas, ou os ministérios e o planalto como casa de mãe Joana. Afirmo peremptoriamente: esta turma é temporária. Mais do que isto, noventa e nove por cento do congresso é constituído de gente que não é daqui. Para cá,  pelo famigerado voto, comprado ou barganhado, todos estados mandam seus representantes. A cácá que eles produzem e espalham pelo país é produzida aqui, mas por cidadãos daí e de todos os lugares. As outras Brasílias se envergonham da lamaceira, mas resiste. Fazer o quê? Tem gente que se aferra ao lugar e dele não sai, nem com reza braba. Torna-se refém, vira pedra. Até um dia quando viram pó, em meio as minhocas, debaixo da terra.

Deixemos os políticos e Brasília de lado, falemos de amenidades, sejamos mais terrais. Como vai passando Dona Beatriz? Espero que muitíssimo bem. Caso encontre uma peça boa para o próximo fim de semana me avise, pois estou voltando e pretendo levar a “frau” para passear.

 

Lembro do nosso último encontro dominical e da peça teatral que assistimos. Eu fiquei totalmente apartado, por força das contingências da venda dos ingressos. Assisti a peça num balcão do Teatro Positivo. Certamente ali é o pior lugar para ver qualquer coisa naquela casa de espetáculo. Muito tempo depois arrisco a comentar a peça. Acho que ela é uma paródia bíblica interessante, com montagem estudada e alguns personagens hilários. Mas não precisava ir tão distante para traçar paródias da nossa desgraça cultural e política. Qualquer fábula gaudéria ou mesmo um cordel nordestino, consegue ter tanto ou mais graça do que as histórias bíblicas apresentadas.

 

Também já vou passando deste para outro assunto. Como vai nosso “blog” e desculpe-me por minha possessividade, ao me arvorar em proprietário do alheio. E logo no alheio que pertence ao amigo.

 

Ocorre, Vidal, que a linguagem tem sido companheira de muitos momentos em minha vida. O gosto pela literatura não somente vem do conteúdo dos textos, muitas vezes vêm como na música, do arranjo da frase ou do improviso na interpretação. Esta minha queda, ou cachoeira despregada do paredão para o poço musical é tão forte que a maioria dos meus poemas foram feitos ouvindo canções, a maior parte jazz. Como é o caso agora, que ouço Winton Marsallis tocando “Round About Midnight”. É um sax barítono entrando dentro dos ouvidos e dos sentimentos, como lêndea invisível gerando coceiras as quais não há remédio ou creolina capaz de aplacar o incômodo. Mas qual o quê, bobagem cheia, besteira de mais para tanta conversa que poderia ser.

 

Vou fechando a conversa Vidal, como sempre prometo novo encontro em breve, acompanhado de uma garrafa de vinho. Levarei a garrafa na minha bicicleta, com certeza. Levarei o vinho, o saca-rolhas, o pão e a vontade. Somente não levarei o azeite, o prato e o sal. Mas que isto seria bom, com certeza seria. Não deixe de ir porque tenho tantas novidades que até as moscas parariam de voar para escutar. Conversa para boi e mateiro dormir. No entanto, tem conversas mais, de boa prosa. Certamente convidados mais viriam, se soubessem deste meu retorno. Mas caso queira, marque encontro na feirinha no próximo domingo. Leve a Marisa, o Lago e outros que faltaram aos últimos encontros.

 

Grande Abraço.

Ánton Passaredo

 

Brasília, 5 de Agosto de 2008.

ilustração do site. “boteco ambulante” pega, leva e traz.

COMO INTERVIR NOS CASOS DE DISLEXIA ESCOLAR – por vicente martins

 

 

Para uma eficaz intervenção psicopedagógica nos casos de dislexia, disgrafia e disortografia, há necessidade de o profissional descrever a situação para poder explicar perante aos pais e à escola o que ocorre no cérebro das crianças com necessidades educacionais específicas. Isto significa dizer que terá a missão de  representar fielmente o caso do disléxico em seu plano de trabalho, por escrito ou oralmente, no seu todo ou em detalhes. É através da descrição que o Profissional  fará relato circunstanciado das dificuldades lectoescritoras, de  modo a explicar, em seguida, as dificuldades lectoescritoras caracterizadas na anamnese. 

Uma descrição rica de detalhes historiais dos educandos com necessidades educacionais permitirá uma melhor elucidação das dificuldades de aprendizagem lectoescritoras e, também, justificará medidas mais seguras e eficientes no momento da avaliação e da intervenção psicopedagógica.
 
 
 

 

Outro verbo a ser conjugado pelo psicopedagogo é o de avaliar para intervir e a partir solucionar ou compensar a dificuldade do educando.  Assim, descrito e explicado o caso psicopedagógico, o profissional que atua com as crianças, jovens ou adultos com dislexia, disgrafia ou disortografia poderá verificar, objetivamente, os dados das dificuldades levantados junto aos professores, pais dos alunos e os próprios alunos. A pauta, protocolo ou ficha de observação quanto mais ampla mais eficaz. As avaliações escolares tradicionais também não podem ser descartas ou negligenciadas uma vez que são verificações que objetivam determinar a competência do educando.
 
 
 
 

 

A intervenção psicopedagógica deve ocorrer quando o profissional se sente seguro teoricamente para praticar atividades que atuem diretamente nas dificuldades dos educandos disléxicos, disgráficos e disortográficos. A intervenção psicopedagógica é uma capacidade, advinda da experiência, de fazer algo com eficiência. Em geral, é um período em que alunos deixam, em algumas horas do seu tempo regular de estudo escolar, na própria instituição de ensino, a sala de aula e passam a receber treinamento específico para a superação de suas dificuldades. 

 

Para ilustrar no artigo com exemplos reais de casos de dislexia, vamos expor, de forma sintética, relatos de pais, profissionais de educação da fala e educadores sobre dificuldades específicas na linguagem escrita de seus filhos e educandos:

 

 1º caso –  Fui chamada na escola de meu filho porque ele tem problemas com a escrita, faz trocas de letras como v/f, d/t, ele tem 9 anos está na terceira serie, pediram para que o leve para fazer uma avaliação com uma fono, queria saber se este caminho que devo seguir, ou o que devo fazer grata “

 

 

2º caso

– “Tenho uma paciente de 27 anos que apresenta algumas dificuldades na escrita e na fala. Em uma das atividades que realizei com ela, a mesma apresentou-se nervosa ao ler,trocando algumas letras. Ao pedir para ela falasse qual o número que estava no dado, a mesma teve dificuldades; tendo dificuldade também em distinguir letras aleatórias, trocando principalmente as letras F e V. A paciente relata ser muito agressiva querendo bater nas pessoas e não gosta de “conviver” com elas. Sente ódio de todos.Gostaria de saber como faço para verificar se ela pode ter Dislexia?.”
 
 
 

 

 

3º caso – “ Tenho uma filha de 8 anos e meio diagnosticada com dislexia, além de ter disgrafia e disortografia. A Fono disse que a dislexia dele é bem leve. Ela lê razoavelmente bem, apesar de soletrar muitas vezes, principalmente as palavras pouco freqüentes, mas eu acredito que a disgrafia e a disortografia nela sejam um pouco mais severas que a dificuldade de leitura propriamente dita. Ela não consegue escrever uma frase sem cometer vários erros, em palavras que já escreveu várias vezes (sempre escreve valar ao invés de falar, xegou ao invés de chegou, soldade ao invés de saudade entre outras coisas) e a aparência gráfica de sua letra é muito franca, parece de criança ensaiando as primeiras letras. No entanto ela gosta muito de escrever, tem um diário, escreve historinhas, só que é uma luta conseguirmos decifrar o que ela quis dizer.Gostaria de saber, se poderia indicar alguma literatura, que contivesse exercícios  especificamente para disgrafia e disortografia .”

 

Tomando, para a rápida análise e sistematização dos relatos de casos de dislexia acima, muito comuns nas queixas de crianças, pais e docentes, observaremos que, em geral, são estes indícios típicos  de dificuldades em leitura, escrita e disortografia:

 

 (1) progresso muito lento na aquisição das habilidades de leitura;

(2) problemas ao ler palavras desconhecidas (novas, não-familiares), que devem ser pronunciadas em voz alta;

 (3) tropeços ao ler palavras polissilábicas, ou deficiências o ter de pronunciar a palavra inteira;

(4) A leitura em voz alta é contaminada por substituições, omissões e palavras malpronunciadas;

(5) Leitura muito lenta e cansativa;

(6) Dificuldades para lembrar nomes de pessoas e de lugares e confusão quando os nomes se parecem;

 (7) Falta de vontade de ler por prazer;

  8 – Ortografia que permanece problemática e preferência por palavras menos complexas ao escrever;

(9) Substituição de palavras que não consegue ler por palavras inventadas e (10) Problemas ao ler e pronunciar palavras incomuns, estranhas ou singulares, tais como o nome de pessoas, de ruas e de locais, nomes dos pratos de um menu.

 

 

Vicente Martins é professor da Universidade Estadual Vale do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará.

 

TIO SAM nos pagos de STALIN – por helio de freitas

 

São atualmente tão bons e eficientes os meios de comunicação que há muita dificuldade para obter informação realmente objetiva e menos superficial sobre o que se passa em nosso próprio país. Dificuldade que é elevada à enésima potência quando se trata de uma pequena nação encravada no gelo do Cáucaso, independente depois da queda da URSS e pátria de Iossip Vissarionovich Djugashvili (com tão pouca informação sobre o que acontece e o que aconteceu, é bom esclarecer que este era o nome civil do camarada Stalin).

Lá, na Geórgia, nasceu quem viria a ser o mais implacável e obstinado condutor da União Soviética e que, apesar do imenso poder que tinha, jamais fez qualquer gesto (pelo menos nenhum historiador registra) para favorecer ou privilegiar o rincão natal. Os georgianos foram totalmente ignorados pelo compatriota, inteiramente convertido à língua e à mentalidade russas. Mesmo assim, consta que erigiram muitas estátuas ao filho ingrato, eufóricos com o culto da personalidade, e não as derrubaram quando o stalinismo foi banido por Kruschev e seus sucessores no Krêmlin.

Pois bem. Quando a União Soviética caiu e a Geórgia emancipou-se, digladiaram-se dois líderes. Por um lado, Gamsakhurdia e por outro o ex-Ministro do Exterior da URSS, Eduard Shevarnadze, (georgiano de nascimento). Depois de luta sangrenta e algumas reviravoltas, morto Gamsakhurdia (sobre quem tão pouco se sabe), Shevarnadze consolidou-se no poder, de onde foi apeado alguns anos depois por pressão americana, ao que se diz.

 

O fato real é que o atual dirigente da Geórgia, formado em Harvard, apoia os EUA e a Otan, confrontando-se com a Rússia, que por sua vez defende com seu poder militar as minorias russas em território georgiano. Simplificando a questão: os EUA lançaram uma cabeça de ponte no Cáucaso, para contrabalançar o poder russo, de acordo com o clássico e secular modelo das esferas de influência. E aí se vê a ironia da história: tudo isso se passa na terra de Stalin. Ali, onde nasceu e viveu o menino Iossip, estudante de seminário até aderir à militância comunista e atravessar as fronteiras georgianas para fazer História com agá maiúsculo, protagonizando um dos papéis mais controversos do século vinte.

 

A situação deve estar fazendo o ex-ditador se remexer no túmulo, que sabe-se lá onde atualmente se localiza, visto que o próprio Lênin está ameaçado de ser removido de seu mausoléu, se é que já não foi.

Ironia amarga desse gênero, na História, também é a passagem à França, no século dezenove, da cidade italiana de Nizza, onde nasceu o herói da libertação da península, Giuseppe Garibaldi. O pior é Garibaldi ainda estar vivo quando Nizza se transformou na francesa Nice, tendo, depois de tantas lutas, o desprazer de ver sua cidade natal arrancada do território italiano, por artes de arreglo entre um imperador máu caráter, justamente apodado de Napoleão, o Pequeno, e um rei da Savóia não menos velhaco.

“Sic transit gloria mundi” (como os mais jovens não estão afeiçoados a latinório, é bom traduzir: “assim passa a glória mundana”. E nosso tiozinho Sam, quando passará?